Antes de tudo, um aviso: caso você não tenha visto “Inception – A Origem”, fique sabendo que este post contém vários SPOILERS, importantes ou não, então leia por sua conta e risco. E sério, se você não assistiu Inception ainda, faça-se o favor – levanta a bunda da cadeira e corra já para o cinema mais próximo. Ou baixe o filme, sei lá. Mas assista, e não perca tempo lendo reviews do filme na internet, seu fresco. Quer um review? Inception é DO CARALHO. E pronto.
Segundo aviso: eu não guardo nomes de atores, e sim de personagens marcantes. Por exemplo, os protagonistas de “O Grande Truque” pra mim são o Wolverine e o Batman. Assim, pra facilitar a compreensão da resenha abaixo, segue uma lista para que você possa identificar de quem diabos eu estou falando.
- Dicaprio – Leonardo Dicaprio, que faz o Cobb, protagonista do filme.
- Tom – Joseph Gordon-Levitt, o sidekick estiloso.
- Kitty Pryde – Ellen Page, que faz Ariadne e é a mocinha.
- Watanabe – Ken Watanabe, empresário mafioso e financiador da parada.
- Mauricinho – Cillian Murphy, que faz o filhinho de papai que é o alvo da parada toda
Agora, ao filme.
Eu enrolei duas semanas pra assistir Inception. Tentei ir uma vez na semana retrasada, não deu certo e então meu irmão avisou que estaria aqui em Sumpaulo nesse fim de semana justamente pra ver Inception e Os Mercenários – melhor então esperar pra assistir com ele. Nessas duas semanas eu evitei tudo o que tinha a ver com o filme – reviews, reportagens, posts, comentários de twitter, até mesmo descrições inócuas do filme. E consegui – tá, exceto por essa tirinha do Liniers, mas de resto entrei virgem de spoilers na sala de cinema. Mó frescura, admito, mas foi melhor assim. Eu sabia que o filme tinha alguma coisa a ver com sonhos, e só. Eu nem sonh…eu nem imaginava o que estava por vir. E o que estava por vir…
E o que estava por vir foi caralhal, por falta de um adjetivo melhor. (Na verdade, segundo o método Toledo-Pinheiro de adjetivos, o termo correto para Inception seria M-A-X-I-M-U-M F-O-D-A-S-T-I-C-U-M). Sabe quando Matrix era inovador porque trazia aquele conceito de que a realidade é um sonho? E aí os caras cagaram nas continuações? Então. Aí veio o Christopher Nolan e jogou um CAMINHÃO de cal em Matrix, mostrando que tudo pode ficar ainda mais complicado e fantástico. Inception trata de realidades dentro de sonhos dentro de sonhos de sonhos…o jeito como ele mostra isso logo no começo é fantástico. Lá estão Dicaprio e o Tom vendendo proteção contra extração de sonhos para Ken Watanabe em meio a um castelo oriental…e quando você vê, era tudo um sonho e eles estão em um apartamento fodido em meio a uma revolução civil…e quando você vê, era tudo outro sonho, e eles estão na verdade dentro de um trem. As regras e detalhes da viagem-dentro-dos-sonhos vão sendo explicadas aos poucos, na parte em que a Kitty Pryde é apresentada…aliás, tomarei vergonha e a chamarei pelo nome: Ariadne! Ela é uma arquiteta de sonhos, e o que ela imagina se torna verdade…desde cenários até leis da física. A cena onde ela vai dobrando a cidade é simplesmente foda, perfeita e genial. E nesse meio tempo a gente também vai descobrindo o lado negro do Dicaprio…seu problema com a ex-mulher, seu passado mal-explicado. Outro conceito legal que é introduzido é a história do totem – um objeto seu que te diz se você está no mundo real ou não.
E confesso que eu nem sonh…nem imaginava que fosse um filme sobre ladrões, estilo Ocean’s Eleven! Eu adoro esse tipo de filme (e fui descobrir anteontem que tem um nome pra esse “gênero”: heist movie), e foi uma ótima surpresa descobrir que Inception era assim. Aí claro, temos as partes essenciais de todo heist movie: alguém propõe um serviço, o protagonista aceita por razões pessoais, seu parceiro tenta convencê-lo a desistir mas acaba aceitando, eles reúnem o time de especialistas, vemos o treinamento do novato (no caso, a Ariadne), e então a execução do serviço. Clichezões, claro, mas aplicados a um ambiente novo e de forma impecável. Você sabe que as coisas vão dar errado, que alguém vai se ferir, que tudo só vai se resolver no último instante…mas foda-se, é legal pra caralho! O serviço envolve a inserção de uma idéia dentro da cabeça do herdeiro de uma gigante empresa de energia. Isso, obviamente, é feito através de sonhos – três níveis de sonhos, pra ser mais exato. Cada nível de sonho tem seu próprio cenário, sua própria lógica e seus próprios participantes. Uma hora estamos no meio de uma cidade na chuva, na outra estamos em um hotel, e outra hora estamos numa base militar numa montanha gelada. Cada nível de sonho funciona num esquema temporal mais lento que a realidade, de modo que anos podem se passar num nível profundo de sonho antes que minutos se passem na vida real. Ótima idéia, sr. Nolan – assim criamos todo o plano de fundo pra história do Dicaprio, e também elevamos a tensão lá na putaquepariu porque os três níveis de sonho precisam se “sincronizar” – é preciso que todos acordem nos três níveis ao mesmo tempo pra sair do sonho e não ir parar no limbo. E claro, alguém vai parar no limbo. O protagonista, é óbvio, e também a Ariadne – sacaram de onde o nome, fãs de mitologia grega?. (Tá, se bem que nesse momento ela não serve de Ariadne…mais sobre isso num parágrafo lá pra frente). Enfim, o clímax do filme se encontra nesse momento em que os três sonhos convergem e tudo começa a acontecer ao mesmo tempo. É muuuuito massa, e muuuito foda! Principalmente o segundo nível, onde o Tom tem que enfrentar as defesas da mente do Mauricinho em corredores que giram – aliás, o motivo pelo qual os corredores giram é legal pra caralho. Bem pensado pra cacete. E o modo que o Tom encontra pra conseguir acordar os outros sonhadores é legal demais, digno de um filme de ação dos anos 80! Enfim…paguei muito pau pro filme.
E vou ter que assistir de novo, porque MUITA coisa não ficou clara. E tenho certeza que não vai adiantar assistir de novo, porque o objetivo era deixar ambíguo mesmo…maaas a gente adora teorizar, não? A grande pergunta do filme, na minha opinião, é: é tudo um sonho do Dicaprio/Cobb? Seria todo o esquema de inserir a idéia na cabeça do Mauricinho um grande golpe – um Mr. Charles, como eles chamam no filme – para enganá-lo e tirá-lo do sonho, ou pelo menos do limbo, ou sabe-se lá de onde? Porque diabos a mocinha do filme se chama Ariadne – a moça que ajudou Teseu a sair do labirinto do Minotauro, na mitologia grega? Sim, ela criava labirintos e etc e tal…mas no filme é ela quem “força” Cobb a enfrentar seus demônios no subconsciente, talvez para que ele pudesse emergir para a realidade. O que a ex-mulher dele fala tem sentido – viver fugindo de perseguidores, nunca poder voltar pra casa, os filhos que ele nunca mais pode olhar no rosto, tudo cheira a um sonho confundido com realidade. É como se estivesse preso naquele sonho, e seus próprios traumas o impedissem de rever seus filhos (aí sua mente teria criado seus perseguidores, criado toda aquela situação). (Mas e o totem? Oras, se o totem tiver sido criado dentro daquele nível de sonho, ele só pode indicar que ele está naquele nível de sonho, e só – não serve pra saber se ele está no mundo real). Claro que essa teoria também tem seus vários furos – como os outros personagens se encaixam nela, por exemplo? Seriam criações da mente de Cobb, seriam pessoas que compartilham do sonho dele? (Acabo de lembrar da cena onde o químico mostra as pessoas viciadas em sonhos compartilhados). E o sogro do Cobb? Porque diabos uma hora ele está dando aulas em Paris, e mais tarde ele está nos Estados Unidos, com os filhos do Cobb? Nada contra um professor importante dar aulas na Europa e morar nos EUA, mas algo me pareceu errado…E o pião? Será que ele caiu, ou continuou rodando?
Enfim…por enquanto, é isso que eu tinha pra dizer sobre Inception. Com certeza, um dos filmes mais legais que eu já vi, incrivelmente bem feito e bem pensado, com história e conceito fodáááásticos. Parabéns, Christopher Nolan: mais um filme impecável! E que venha o Batman 3, com o Tom fazendo papel de Charada!