O Lobo Entre Nós

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Durante o fim de semana eu consegui jogar todos os três episódios de “Fables: Wolf Among Us” que saíram até agora. Foi bem rápido, pensando bem: alguma coisa entre cinco e sete horas, no total. Os episódios são curtos, mas isso não chega a ser um problema. Pra quem anda com o saco cheio de jogos gigaaantes intermináveis, é legal jogar algo que não precise de quarenta horas de jogo.

Pra quem não sabe do que se trata: “Fables” é uma série de quadrinhos da Vertigo, que fala de um grupo de fábulas morando em Nova York. Eles são exilados, expulsos de suas terras por um exército invasor, e aqui no nosso mundo são forçados a esconder suas identidades e aprender a viver em mundo muito diferente do seu. Os personagens da sua infância estão todos lá, embora não da maneira como você os espere: Lobo Mau, Branca de Neve e o príncipe encantado, o Príncipe-Sapo, Barba-Azul, a Bela e a Fera…e muitos e muitos outros.

“Wolf Among Us” é um adventure game da Telltale, já famosa pela ótima adaptação de Walking Dead, que mostra esse universo de personagens em um ponto anterior ao mostrado nos quadrinhos. O personagem principal é o Lobo Mau – Bigby Wolf, para os íntimos. Uma fábula que se prostituía é assassinada, e sua cabeça é deixada nas escadarias do prédio onde a maioria das fábulas vive. Cabe a Bigby, o “xerife” de Fabletown, descobrir quem é o assassino e provar para as outras fábulas que ele deixou de ser o lobo assassino de outros tempos.

Talvez pelo fato de eu ter lido quase toda a série em quadrinhos – admito, sou fã de carteirinha mesmo – o jogo me prendeu e não me largou até o fim. A maneira como a história é contada, e principalmente o modo como os personagens são retratados, é muito fiel à série original. O jogo é construído de modo que você tome todas as decisões importantes, e isso dá um sabor todo especial: durante o tempo de jogo você É Bigby Wolf, para o melhor e para o pior. Você escolhe se e como vai responder uma pergunta, você decide qual será sua reação em uma determinada situação, e tudo isso vai sendo refletido no decorrer do jogo na maneira como os outros personagens te tratam e no tipo de ajuda que eles estarão dispostos a te oferecer.

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Esse estilo de adventure, praticamente desenvolvido unicamente pela Telltale, é uma evolução gigantesca em relação à outros tipos de adventure. Por exemplo, os tipos de interação oferecidas por jogos como “Wolf Among Us” e “Walking Dead” são coisas que não eram nem sonhadas na era dos point-and-click. As árvores de diálogo estáticas, do tipo “faça uma pergunta e obtenha sempre a mesma resposta”, dão lugar a diálogos dinâmicos e realistas, onde a rapidez de raciocínio e a capacidade de tomar decisões rapidamente tem influência no jogo. A tensão sobe – point-and-clicks são jogos perfeitos para relaxar, mas esse estilo de adventure te deixa na beirada da cadeira, pronto para pular. A relação com os personagens também muda, uma vez que suas decisões e suas reações tem um impacto não só na vida do seu protagonista mas na vida de todos ao redor dele. O melhor exemplo disso é Clementine, a garotinha que você deve proteger em “Walking Dead”. Muitos jogadores relataram se sentir realmente ligados à ela, no sentido de se verem obrigados por um senso de dever quase paternal a protegê-la, a garantir sua sobrevivência mesmo que isso ponha em risco a sua própria vida…

Batman por Bob Kane

Não é exatamente um segredo que Bob Kane não era um grande gênio dos quadrinhos. Apesar da idéia original do Batman ter sido dele, foi na verdade o escritor Bill Finger que realmente “elaborou” a morcega. Praticamente tudo que define o personagem foi idéia de Finger: o uniforme clássico incluindo a capa e o capuz, a identidade secreta de Bruce Wayne, vilões como o Coringa e o Pinguim, o batmóvel, o cinto de utilidades, e até característica mais essencial do personagem: sua predileção por rapazes novinhos vestindo colants beeeem apertados.

E se Bill Finger tivesse mostrado o dedo do meio pra Bob Kane e ido procurar coisa melhor pra fazer do que escrever histórias de milionários com crises de identidade e sexualidade? Seria algo do tipo:

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A sacada genial do artista Ty Templeton é mostrar como os elementos de Bill Finger fariam uma puta falta, e como a idéia inicial de Bob Kane era, bom, era só uma idéia inicial. Essa tirinha faz parte de uma campanha cujo objetivo é…incluir o nome de Bill Finger nas revistas e garantir que sua família receba os direitos autorais que lhes são devidos? Nops…é para fazer com que o Google dedique o seu Doodle do dia 6 de fevereiro para homenagear o centenário de nascimento de Bill Finger. Hmm…não é exatamente o melhor dos mundos, mas tá valendo.

Roadside Picnic

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Os melhores livros de ficção científica são aqueles que conseguem pegar uma suposição – aliens nos visitam, poderes paranormais existem, estamos destinados à um futuro apocalíptico – e correr com ela para lugares inesperados, por vezes inóspitos, mas que nos fazem pensar sobre o mundo a nossa volta.

E é claro que, em se tratando de inóspito, nada melhor do que um livro por um autor russo – ou ainda melhor, DOIS autores urssos.

“Roadside Picnic” é um livro curto, escrito pelos irmãos Arkady e Boris Strugatsky em 1971. Ele se passa no presente, após um evento conhecido como a “Visitação”: durante dois dias, pequenas áreas do planeta teriam sido visitadas por alienígenas. Embora a população local não os tenha visto chegar nem partir, os efeitos dessa visita podem ser notados claramente nestes locais: fenômenos estranhos continuam a acontecer nessas áreas, afetando os moradores de várias formas. Populações ficando cegas, parentes mortos se levantando, mutações, pragas…mas o que existe dentro das “Zonas” é ainda mais estranho. Objetos estranhos, com propriedades que desafiam as leis da física, são encontrados jogados pelas áreas onde a visitação ocorreu. Baterias de energia infinita, lanternas de raios da morte, braceletes da cura, objetos que causam reações psicológicas nas pessoas ao seu redor, anéis que desafiam a inércia e a termodinâmica…

Todas essas coisas, jogadas ao acaso nas Zonas. Um dos cientistas do livro compara o fato com um “…piquenique. Imagine uma floresta, uma estrada no campo, uma clareira. Carros chegam até a clareira atravessando a estrada, um grupo de jovens desce carregando garrafas, cestas de comida, rádios, câmeras fotográficas. Eles acendem fogueiras, erguem tendas, ouvem música. De manhã eles vão embora. Os animais, pássaros e insetos, que assistiram horrorizados durante toda a noite, saem de suas tocas. E o que eles veêm? A bagunça habitual – caroços de maçã, papéis de bala, os restos da fogueira, latas, garrafas, o lenço de alguém, a faca que alguém esqueceu, jornais rasgados, moedas, flores colhidas em outra clareira…”

O protagonista do livro é um “stalker” – um caçador especializado em entrar nas Zonas e revirar esse “lixo alienígena” em busca de itens de valor. Embora objetos úteis possam ser encontrados – como a bateria eterna, os braceletes de cura – a maioria do “lixo” encontrado é desconhecido, provavelmente perigoso e potencialmente mortal. Os stalkers arriscam suas vidas todas as noites, invadindo as Zonas e desviando de todas as armadilhas já conhecidas, em busca de novos objetos que possam ser vendidos no mercado negro. Mesmo que a missão tenha sido concluída com sucesso, nada garante que esses homens não estejam levando consigo efeitos desconhecidos, capazes de afetar todas as pessoas ao seu redor…

“Roadside Picnic” é bem curto, escrito em um estilo bem seco que combina totalmente com o ambiente inóspito retratado. Os irmãos Strugatsky descartam a idéia de alienígenas humanóides em naves espaciais, e trabalham com algo muito mais provável. Se alienígenas existirem, é possível que eles sejam tão diferentes do nosso conceito de “pessoa” e “ser vivo” que nem mesmo conseguiríamos perceber sua existência. Até mesmo o lixo deixado por eles em um piquenique seria um desafio para nossa inteligência.

(O livro ainda serviu de inspiração para o filme “Stalker”, de 1979, e para o jogo de computador “S.T.A.L.K.E.R.”, que faz um paralelo ainda mais fantástico e inóspito: o acidente de Chernobyl criou uma enorme Zona no mundo real, uma área de exclusão de 2600 quilômetros quadrados vítima dos efeitos da contaminação radioativa…)

O Fim do Winamp

A grande verdade é que o Winamp foi um grande amigo meu nos últimos quinze anos. Eu conheci ele lá pelos idos de 98, ainda nos bons tempos da internet beta. Alguém, provavelmente o Victor ou o Saran, me deu um toque sobre a possibilidade de baixar música (!!) de graça (!!!) pela internet, uns arquivos de extensão mp3 – coisa nova, saindo do forno. A qualidade era fantástica, nada a ver com aqueles midis escrotos que a gente já conhecia, e o mais legal era que os arquivos eram pequenos: apenas vinte minutos pra baixar cada música! UAU! E pra ouvir os arquivos? Um tal de Winamp…

E rapidinho o Winamp ganhou destaque no computador, um lugar reservado no desktop e na barra de tarefas, e prioridade de reinstalação sempre que era preciso formatar o computador. Em seu formato clássico, o Winamp era o player perfeito: simples e eficiente. Uma interface lindona para os padrões da época, com recursos extras interessantes para quem se aventurasse pelos menus de configuração. Mas o básico já estava ali de cara: controle de playback, gerenciamento de playlist e até uma visualizaçãozinha do espectro sonoro.

E a saga da mp3 continuou, firme e forte. Muita coisa aconteceu nesses anos todos: veio o Napster, veio o Audiogalaxy, vieram os torrents, vieram os serviços de streaming…mas o meu player, até muito pouco tempo atrás, sempre foi o Winamp. Tá, sejamos sinceros: da metade dos anos 2000 pra cá, ele já ia mal das pernas. Numa tentativa de se modernizar e tentar se fazer de Windows Media Player ou iTunes, o Winamp acabou virando uma bagunça mal resolvida. Eu sempre desativava os novos “recursos imperdíveis” das novas versões, e foda-se: continuava felizão com ele.

Hoje eu não uso mais o Winamp: o Foobar é bem mais simples e consegue resolver meu problema musical de ter trocentos milhões de mp3 organizados em uma estrutura de pastas sem traumas. Mesmo assim, valeu o tempo que durou. Obrigado, Winamp, por todos os anos em que você me acompanhou nas madrugadas pela internet! Até mais, e obrigado por sempre chicotear a bunda da lhama!

Agosto e tudo o que vier depois

I said I’m sorry to Maria for all the cold hearted things that I have done
I said I’m sorry by now, at least once, to just about everyone

She says, “I’ve forgotten what I’m supposed to do today”
And it slips my mind what I’m supposed to say
We’re getting older and older, and older
And always a little further out of the way

You look into her eyes
And it’s more than your heart will allow
In August and everything after
You get a little less than you expected, somehow…

“August and Everything After” é uma música que nunca foi publicada e nem gravada em estúdio, mas que mesmo assim conseguiu adquirir um certo status de lenda, pelo menos entre os fãs de Counting Crows. Tudo bem que não devem existir tantos fãs de Counting Crows assim, o que é uma pena: Counting Crows é uma banda realmente boa, que faz um rock alternativo a la REM, só que pendendo mais pro lado do folk e do country rock. E é uma banda definitivamente e inexoravelmente…triste. Mesmo quando a música é uma alegria só – como no único hit deles, Mr. Jones – as letras sempre mostram que existe algo errado debaixo da superfície. E “August and Everything After” não é uma excessão.

Essa música talvez nunca tenha sido gravada em um estúdio. Apesar de ser o nome do primeiro disco da banda, e apesar de versos de sua letra aparecerem como capa do mesmo disco, Adam Duritz decidiu não incluí-la no álbum. Por que? Talvez por ser uma letra íntima demais, pessoal ao extremo – apesar de extremamente linda. Não que as outras letras do disco também não sejam pessoais. Porra, “Anna Begins” é praticamente a dissecação de um relacionamento frustrado. Mas tem coisas que a gente expõe, e tem coisas que a gente esconde – e o Duritz achou melhor deixar guardada a música.

Até que em 2003…em um show ao vivo, a música finalmente foi tocada. Sem alarde, sem pompa – e mesmo assim dá pra ouvir a exclamação dos fãs ao reconhecer a letra que estavam ouvindo.

(Eu lembro de uma noite em Ilha Solteira, em 2004 ou 2005. Ouvindo discman em uma madrugada, no portão de casa, tudo apagado, o mundo dormia e só o Adam Duritz cantava, desafiando sua própria insignificância.)

But I no longer know how to pray
I live in a dog town, and it’s a dalmation parade
I changed my spots over and over
But they never seem to fade away…

I am the last remaining Indian
Looking for the place where the Buffalo roam
In August and everything after,
Man, them buffalo ain’t never comin home…

On The Rim of The Vast Silence

“Has my heart gone to sleep?
Have the beehives of my dreams
stopped working, the waterwheel
of the mind run dry,
scoops turning empty,
only shadow inside?
No, my heart is not asleep.
It is awake, wide awake.
Not asleep, not dreaming –
its eyes are opened wide
watching distant signals, listening
on the rim of the vast silence.”

Antonio Machado

Ilex Paraguariensis

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Já tentei tomar tereré e achei sem graça; já tentei tomar chimarrão e achei mó ruim. Também já tentei tomar outros tipos de chá, desses ingleses de nome divertido. Tipo “Tweenings” – poxa, achei que daria gosto de tomar um chá com um nome tão maneiro, mas nem rolou. Chá preto, Royal Breakfast, English Whatever, etc, nada. Os “asiáticos” – chá branco, chá verde – igualmente não passaram da primeira xícara. Os chás “brasileiros” são gostosos e cheiram bem, mas na minha cabeça sempre serviram pra algo mais do que simplesmente beber. Camomila pra acalmar, erva-doce pra dormir, erva-cidreira pra…pra que era mesmo?

Mas o campeão sempre será o chá mate. O melhor de todos, quente ou gelado, com açúcar ou sem – mas nunca com leite, que isso é heresia. Tem coisa melhor do que abrir a caixinha e dar aquela fungada pra sentir o cheiro do mate? Mate é vida, vida é mate, etc e tal.

(Esse post não foi de forma alguma patrocinada pela Matte Leão – MAS TAMOS AÍ! Fazemos post patrocinado por qualquer suprimento vitalício de chá mate, ok? Mas façam o favor de voltar pro logotipo antigo, que essa identidade visual nova ficou uma BOSTA! Troquem antes que eu comece a comprar o chá da Oetker.)