Springsteenlogia: She’s The One

Postado por Enrique em 2 de fevereiro de 2010

“She’s the One” fica no lado B de “Born to Run”, em algum lugar na ladeira entre o escapismo furioso de  “Born to Run” e o assassinato apoteótico no final de “Jungleland”. Sei que hoje em dia não existe mais lado A e lado B, mas discos continuam tendo sua ordem, e alguns continuam tendo lados. Mas só os realmente fodões.

Ninguém se dá exatamente bem em “Born to Run”. O protagonista de “She’s the One” não está declamando belos versos sobre sua amada: ele está cantando sobre a mulher irresistível que está matando ele aos poucos, e de quem ele precisa escapar. “And no matter where you sleep tonight or how far you run…Oh-o, she’s the one!”

Essa versão ao vivo foi gravada em 75, em Londres, no teatro…sei lá o nome do teatro. Sinceramente, consegue ser melhor do que a original, a começar por essa gaita no começo. É legal ver o Bruce Springsteen novinho, e a E Street Band botando tudo pra foder. O guitarrista vestido de pimp é o Steve Van Zandt, conhecido dos fãs da Família Soprano. E fodíssima é a hora em que Clarence Lemons entra com o solo de saxofone, e tanto o Bruce como o Steve vão pra trás e assumem papel de backing vocals…para o saxofone! Dá até pra ver o Chefe olhando pro Clarence e rindo, claramente admirado. Porra, o que se passava na cabeça dele? “Aqui estou eu, a sei lá quantos quilômetros de Nova Jersey, acompanhado pelos melhores músicos do mundo, tocando e vivendo de rock’n'roll”. Não é a toa que ele tinha um sorrisão de orelha a orelha!

Patapon!

Postado por Enrique em 1 de fevereiro de 2010

PATA PATA PATA PON!

Patapon é um jogo de PSP que te coloca na posição de Deus de uma tribo de bichinhos redondos e belicosos.

PATA PATA PATA PON!

Como era de se esperar, seus bichinhos redondos e belicosos não querem saber de paz, amor e caridade: eles querem mais é queimar, pilhar e saquear.

CHAKA CHAKA PATA PON!

Você, como Deus dessa galera, dá as ordens através de batucadas divinas: andar, atacar, defender, recuar, destruir, destroçar, espalhar o caos e a destruição. Essas coisas todas.

PON PON PATA PON!

Com a Sua ajuda, seus bichinhos redondos belicosos irão cumprir sua missão no planeta: chegar aos confins do mundo e observar Aquilo. Seja lá o que Aquilo for.

CHAKA CHAKA PATA PON!

Em sua busca incessante por Aquilo, os bichinhos redondos belicosos não se renderão frente a nenhum obstáculo: tribos rivais, dinossauros gigantes, vermes de areia, robôs de pedra e o que mais pintar.

PON PON PATA PON!

E você lá em cima, batucando e ordenando seu exército de bichinhos redondos belicosos malucos fundamentalistas assassinos ladrões genocidas.

PON PATA PON PATA!

Divertido pra cacete, mas faz você parar pra refletir entre uma batucada e outra.

PON PON PATA…PON?

Supergrama

Postado por Enrique em 1 de fevereiro de 2010

Dividir o mundo em branco e preto é ruim, diz a sabedoria popular. Nada ou ninguém está totalmente certo ou totalmente errado, cada um tem seus motivos, nada é o que parece, essas coisas todas. Você começa a enxergar os tons, a questionar se o branco é realmente branco, se o preto não seria um cinza bem bem escuro. Sua paleta ganha infinitos tons de cinza, que tentam explicar um mundo complexo e cheio de nuances, mas que no final só conseguem te deixar sem explicação, perdido. E o mundo vira uma grande mancha confusa de cinza, sem graça e sem sentido. Nossassinhoradasbicicretas, aonde foi que você fez merda, Batman?

É simples. Você esqueceu das cores.

Se o mundo precisa de cores, o Supergrass é uma daquelas caixas gigantes com trocentas canetinhas coloridas. Poucas bandas são tão coloridas e tão insanas e tão criativas e tão espertas e tão geniais e tão fabulosas e tão simplesmente e definitivamente divertidas quanto o Supergrass. Pena que quase ninguém conheça eles.

(E olha só: o Blur acabou, o Oasis também (aparentemente e infelizmente), mas o Supergrass continua firme e forte, ainda que quase no anonimato. Talvez seja por mérito próprio, ou justiça divina, ou mesmo mero acaso, mas o fato é que as bandas boas sobrevivem (vide Pearl Jam e o grunge u.u ).

Grandes Piratas de Nossos Tempos – I

Postado por Enrique em 27 de janeiro de 2010

Porque o grande pirata de Piratas de Caribe nunca foi o bom-moço élfico Legolas Whatever, e muito menos o ladrão de cenas favorito das mocinhas do mundo todo, Capitão Jack Sparrow. Não não, senhores, é preciso mais do que trejeitos esquisitos e lápis de olho para se fazer um pirata. Piratas de verdade são feitos de água salgada, de fogo do inferno, de lágrimas de mães, de sangue derramado, de membros mutilados e, ho ho ho, uma garrafa de rum. Em suas veias corre o grogue*, em suas almas…bom, em suas almas não vai nada, porque piratas não tem alma. O pirata de verdade não  teme a morte, e provavelmente já morreu mais de uma vez e voltou do inferno para pilhar, queimar, saquear e roubar, não necessariamente nesta ordem.

É por isso que o verdadeiro grande pirata de Piratas do Caribe é ninguém mais ninguém menos do que Hector Barbossa. Uma salva de tiros de canhão, e uma rodada de rum!

(E além disso ele tinha um macaco zumbi. Chupa essa, Johnny Deep!)

* Receita básica de grogue: querosene, álcool propileno, flavorizantes artificiais, ácido sulfúrico, rum, acetona, tintura vermelha n. 2, scumm, óleo de máquinas, ácido de bateria e/ou peperone. Misture tudo usando suas mãos (nada de liquidificador, maricas!), beba quente.

Olá, Máfia Russa

Postado por Enrique em 25 de janeiro de 2010
  • Aí eu achei um apartamento MÓ-DA-HORA lá em São Paulo, por um preço quase-aceitável (mais sobre isso no próximo tópico), numa rua sossegada, com uma localização MÓ-LEGAL com TUDO por perto…supermercado, banco, lojas variadas, ônibus, e um bar-rock na esquina (show da semana passada: cover do Iron Maiden). Fiz a proposta pro tiozinho da imobiliária, que está esperando o OK do proprietário…o detalhe é que tem mais gente interessada no apartamento, e que haviam até mandado a documentação mas foi rejeitada sabe-se lá porquê. Tô em clima de rezas, preces, promessas, simpatias e articulações místicas variadas pra dar tudo certo.
  • Sobre o preço quase-aceitável: cara, que PUTA diferença entre o preço de aluguéis no interior e na capital. Todos os apartamentos que eu vi estavam na faixa de 700 a 1000 reais, apartamentos de 1 quarto, estilo pocket-quitinete, e nenhum deles era graaande coisa…com exceção do mencionado ali em cima. Lá em Ilha Solteira a gente morava numa casa de 3 quartos, 2 salas, cozinha enorme e quintal do tamanho da casa com 4 pés-de-acerola por 450 reais (rachados em 3 pessoas). Sim, eu sei, são duas situações totalmente diferentes, maaaas…é de se pensar, não?
  • Cêis já viram como são os apartamentos dos hotéis Formule 1 da vida? A idéia é: quarto pra três pessoas, na modalidade “supereconômica”. Eu já vi quartos apertados, mas puta-que-pariu, os caras pegam pesado. O quarto não tem banheiro: tem um armáriozinho com a privada, e um armáriozinho com o box-de-tomar-banho, e a pia fica do lado de fora. É uma cama de casal, com uma beliche em cima dela, de atravessado. Não é por nada não, mas o hotel que eu fiquei durante o show do Iron Maiden e durante o vestiba do Senac saia pelo mesmo preço e era bem mais espaçoso. Tipo, tinha um banheiro dentro do quarto,  um banheiro de verdade. O que os projetistas do Formule 1 tem contra banheiros? “Ah, vamos acabar com essa instituição burguesa, ultrapassada e anacrônica, esses malditos banheiros espaçosos! Dignidade nunca mais!!”. Vai entender…
  • Achei lá na FNAC de Sumpaulo: os contos completos do Sherlock Holmes e a obra completa do Edgar Allan Poe, in engrish, mil e tantas páginas cada um,  por 23 contos cada. Fui obrigado a levá-los na hora porque, porra, é o Sherlock Holmes e o Allan Poe completinhos por menos de 50 pilas.
  • Esse blog anda sendo atacado diariamente por spammers russos. Pelo menos eu acho que são spammers. Todo dia eu abro o blog e vejo que tem uma média de 40 a 50 comentários bloqueados, todos escritos no alfabeto russo, que o akismet bloqueia e apaga automaticamente após um tempo. Eu, curioso que sou, vou lá ver se não tem algum comentário de verdade capturado entre os spams…mas que nada, são todos em russo. Alguns são blocos enormes de texto, outros são cheios de interrogações e exclamações, alguns são compostos de dois ou três caracteres russos. Temo que meu blog tenha se transformado em um ponto de encontro da máfia russa, e que eles estejam utilizando minhas caixas de comentário para organizar suas atividades. Alguém sabe dizer “exijo minha participação nos lucros” em russo por aí?

Quadrinhos e Desenhos Pra Todo Mundo

Postado por Enrique em 19 de janeiro de 2010

Eu já mandei vocês irem ler Macanudo? Sim, Macanudo, do Liniers? Porque tipo, é a segunda MELHOR tira sendo feita atualmente. Coisa foda, mesmo, de se tirar o chapéu. Ou de comprar um chapéu e tirar ele, se você não tiver um chapéu. “Ah, mas eu não hablo español”. Não se faça de estúpido, meu filho, faz um esforcinho, pede ajuda pro google translator se o caso for grave, mas vai lá ler. Pelo amor da tua alma, ó infiel.

A primeira MELHOR tirinha, claro, são as do Laerte. (hmmm, singular pra plural num piscar de olho, mas são seis da manhã e a concordância está dormindo). Vão lá no Manual do Minotauro e passeiem pelos arquivos todos. Não se esqueçam de ler Songbook, os Pintinhos, Minha Guerra Mundial e a “incompleta pero insana demais pra ser ignorada, porra, tem o Lenin se pegando com o Trotski” 10 Tiras Que Abalaram o Mundo.  Aaaaah, e olhem o Intercâmbio também.

Essas últimas tiras do Malvados, “Quadrinhos dos anos 10″, estão ficando realmente boas. O Dahmer e seu ótimo/péssimo hábito de deixar a gente inconfortável logo cedo com coisas como “E quando anoitecia, as pessoas praticavam uma forma bizarra de solidão em grupo”. Falando nisso, vocês já leram o “Monumento ao Jovem Monolito“?

Zatanna

Fechando o post matinal, o Hiro desenhou a Zatanna, mais uma de suas Fast Girls. Acho que foi o Pedro quem disse que uma boa maneira de escolher uma namorada é saber se a guria fica bem nas roupas da Zatanna. E…ah vá, não tem como discordar. As Fasts Girls são garotas desenhadas rapidamente pelo Hiro, e são incofundivelmente fodásticas.

Ah…quatro rasgações de seda, e uma chapoletada. Todo santo dia eu dou uma chance, abro o jornal e leio a tirinha, mas não vejo graça alguma. Alguém aí vê graça das tirinhas do Caco Galhardo, ou sou só eu que funciono na frequência oposta ao cara? Coisa mais sem graça da porra…

De Labirintos e Minotauros

Postado por Enrique em 14 de janeiro de 2010

(Jorge Luis Borges é um dos escritores mais fantásticos de que se tem notícia. Ao contrário de outros contistas que focavam sua atenção em personagens, sentimentos e acontecimentos, Borges dedicava-se a brincar com conceitos vários, tais como espelhos, labirintos, infinitudes, probabilidades, identidades, realidades, verdades…como seria um livro que contivesse em si todos os livros já escritos? Como seria viver recluso em uma biblioteca onde existem todos os livros que podem ser escritos, em todos os idiomas, alfabetos e tipos de sinais conhecidos? Como seria olhar através de um objeto que contém todos os pontos do universo?

O texto abaixo é uma brincadeira com labirintos – do mesmo jeito que uma criança pega uma revistinha do Pato Donald e copia os traços para desenhar seu herói, eu peguei o conceito de labirinto e brinquei com ele, tentando imitar alguns dos traços de Borges, tentando contar uma história ao seu estilo. E tal qual a criança desenhando o Pato Donald, pode ter ficado uma bela bosta, mas eu estaria mentindo se dissesse que não me diverti tentando. :D )

O labirinto cretense só possui uma única direção. Em seu interior não configuram-se as bifurcações, os finais falsos, as idas e vindas tão comuns nos labirintos de jardim, tão popularizadas pelas revistas de passatempos. Sempre em frente segue o labirinto, e isso talvez confunda os observadores incautos. Qual o sentido de um labirinto que só segue uma única direção, em que somente anda-se para frente ou para trás, sem bifurcações e sem escolhas, aonde é impossível a perda do senso de direção e de espaço? Como é possível se perder em um labirinto que segue sempre em frente?

Como é possível se perder em um labirinto que segue sempre em frente?

Quando foi a primeira vez que percebi meus lábios formarem esta pergunta? De quem esperava uma resposta? Quando foi que parei de murmurá-la? Durante muitas eras vaguei, durante séculos segui em frente, em frente, sempre em frente, sem nunca chegar ao centro do labirinto, sem nunca encontrar nem a sombra do lendário minotauro que deveria ser morto pelo aço de minha adaga. Eternidades passei caminhando, e num lapso de segundo a fagulha da dúvida se acendeu em mim para nunca mais se apagar, para jamais me deixar sozinho novamente. Frente, frente, sempre em frente, mas…e se eu estivesse voltando? Eras e eras caminhando, eras e eras dormindo e acordando e voltando a caminhar, eras e eras virando-se para trás, eras e eras olhando para o alto, eras e eras de possíveis distrações, de possíveis confusões, de possíveis erros e mudanças de direções. Diante de meus olhos, a pedra fria das paredes do labirinto,  o teto cinza e o chão de terra batida, a penumbra constante que enganava a visão. Seria possível? Bem, tanto maior o período de tempo decorrido, maiores as chances de qualquer coisa ocorrer. Quem iria dizer que eu nunca errei meu caminho? Quem me provaria que eu nunca acordei um dia e comecei a voltar pelo caminho, sem perceber que estava errando? Eu poderia, a partir de agora, escolher uma única direção e segui-la em frente. Eu prestaria atenção, eu tomaria todos os cuidados, usaria de marcas e guias e toda sorte de recursos, eu evitaria de todas as formas o erro.

Em dez ou doze eternidades, me tornei paranóico. Não dava um passo sem revê-lo três ou quatro vezes. Me recusava a olhar para trás  (e todos os meus instintos queriam olhar para trás, me dizendo que eu estava indo pela direção contrária). Queria evitar o sono, queria seguir sempre em frente, queria nunca mais dormir, e continuava querendo até cair no chão exausto e acordar séculos depois, sem ter idéia da direção que estava seguindo.

A sanidade um dia me abandonou finalmente, ignorando todos os meus protestos, rejeitando todos os meus pedidos. Três eras depois ela retornou, por não haver aonde escapar em um labirinto sem direção. Novamente são e eternamente sem direção, abandonei a paranóia e a insegurança que arrastava pelos corredores eternos, assim como rejeitei a idéia absurda de chegar ao centro do labirinto e desmembrar o minotauro. Em frente eu seguiria, sempre em frente, frente, frente, e a frente seria qualquer direção em que eu me movesse. Tanto maior o tempo decorrido, maiores as chances de qualquer fato ocorrer. Quando o tempo necessário tiver se passado, eu finalmente encontrarei o minotauro no centro do labirinto. Nada será dito, nenhuma palavra entre nós será trocada. No chão eu me ajoelharei, e com minha adaga forjada do mais puro aço desenharei um tabuleiro no chão de terra batida.

(…Embora algo em meu peito diga que o tabuleiro já se encontra desenhado, enquanto o adversário aguarda pacientemente pelo meu próximo movimento.)