Coisas Geek de um Hobbit Inútil

E não se esqueça da toalha.

Banner

Uga Buga

A idéia surgiu quando ele estava em um desses hiper-mega-supermercados gigantescos, lotados com uma infinitude de coisas pra comprar e pessoas mal-educadas. Depois de quase ter seu pé esmagado por uma velhinha e depois de ficar barrado em um corredor por dois pares de donas de casa que conversavam animadamente sobre o preço do papel higiênico, ele fez as contas na cabeça: somou os prós e contras e viu que realmente compensava mandar tudo às favas e ir morar longe da civilização. Ele ia pegar o carro e se mandar pra alguma floresta e se tornar o novo George of The Jungle. Adeus, trabalho! Adeus, gente estúpida! Adeus, cidade do inferno! Adeus, responsabilidades!

Aí ele se lembrou de todas as vezes que ele foi, por um motivo ou por outro, para qualquer lugar longe da civilização. Quando ele ia pro sítio do avô ele ficava trancado no carro, ouvindo o rádio. As excursões ecológicas eram um desastre. Enfim, ele não era um homem que gostava de estar em contato com a natureza. Caçar sua própria comida, colher frutas nas árvores e tal eram belas idéias no papel. E se limpar com folhas de árvores não era uma boa idéia em nenhum lugar. Ele podia se afastar da civilização, mas não viveria sem papel higiênigo. E onde ele arranjaria papel higiênico. Foi quando ele se deu conta que estava na seção de papel higiênico. Uma montanha de papel higiênico se estendia à sua frente, imponente, alta, branca e fofinha.

Ele começou a tirar a roupa ali mesmo. Estava só de cuecas quando apareceu uma velha procurando papel higiênico com cheiro de flores campestres. Ali, do lado do papel dupla folha alaranjado. Isso, esse verdinho. De nada. Ok, agora ele iria tirar a cueca e…não, melhor continuar com a cueca. Foi até a parte de cosméticos femininos, abriu os cremes até achar algum avermelhado. Pintou o rosto de forma tribal e primitiva, como um moleque de prezinho. Precisou abrir alguns outros potes pra fazer alguns desenhos com o creme no peito e na barriga. Estava coçando, mas ele não devia se importar. Aqueles desenhos simbolizavam alguma coisa importante que ele não lembrava agora. Uma arma. Algo para usar em suas caçadas e para se defender de invasores e predadores. Foi até o utilidades domésticas e pegou uma faca de pesca. Sempre quis ter uma dessas, mas ele nunca pescava. Pegou uma vassoura e retirou a parte com os pelos. Como se chamava aquilo? Bah, tarde demais, ele não devia mais se importar com a língua do povo civilizado. Ele deveria ter seu próprio dialeto, e talvez devesse até usar estalos de língua para se comunicar. Estalos de língua eram legais. Tinha uma tribo africana que se comunicava através deles, o Discovery Channel fez um documentário sobre eles. Ok, sem mais pensamentos civilizados. Começou a afiar a ponta do cabo de vassoura.

Ninguém realmente olhava pra ele. Acostumados com as mocinhas que distribuem café, as caixas com chapéu de papai noel na época do Natal e os idiotas fantasiados de algum produto idiota que não estava vendendo muito bem, as pessoas já esperavam encontrar alguma coisa ridícula quando entravam no supermercado. Ele tinha de disputar a atenção das pessoas com, por exemplo, a velhota que estava impedindo o trânsito no corredor. E quando se está fazendo compras, que se foda o idiota de cuecas sentado no chão afiando uma lança: quero mais saber qual o problema com essa velha que não sai da minha frente, pois eu preciso pegar a porra do desinfetante!

Pronto, agora ele tinha uma lança. E estava pintado. Um aborígene completo! E agora…e agora…o que faz um aborígene? Basicamente, eles caçam, colhem, vivem em suas cabanas, dormem, fazem suas necessidades…uma vida simples e sem complicações, que ele iria aprender a viver. Os primeiros meses foram os mais difíceis, como em todo processo de aprendizado por tentativa e erro. A cabana foi construída com caixas de leite longa-vida amontoadas, e coberta com algumas capas de chuva. Papel de higiênico não era uma boa opção, ele havia aprendido. Desaba com facilidade. A posição da cabana gerou alguns problemas também. Na seção do leite ele era importunado por velhinhas que precisavam de ajuda para carregar caixas de leite da prateleira até o carrinho. Na seção de brinquedos as crianças pareciam não ter medo de sua lança e viviam invadindo a cabana para brincar. A seção de frios era fria demais, e a de hortifruti estava sempre lotada de pessoas. Até que ele achou a seção de bebidas e nunca mais mudou a cabana de lugar. Alimentação nunca foi uma causa de grandes preocupações. Era fácil conseguir frutas, verduras e legumes em seu novo habitat. Talvez ele ficasse meio confuso quando pensava se era correto um aborígene comer cheetos e bolachas de chocolates, mas ele julgava que essa confusão era um processo comum de transição da civilização para…para esse modo de vida que ele estava vivendo. E de qualquer forma ele não devia pensar muito. Era mais importante sobreviver. Com uma caixinha de palitos de fósforos, o novo aborígene descobriu o fogo. Com o saco de carvão e o pedaço de picanha maturada, ele descobriu que podia invocar a chuva que cai do teto e os bombeiros. Ele ficou bastante desanimado com a dificuldade em assar carne, mas logo ele descobriu que haviam misteriosas caixas brilhantes que assavam frango perto do açougue, e nunca mais teve problemas com falta de proteína animal. (Nota: é preciso dizer aqui que certas vezes ele atraía a atenção da multidão consumidora. Quando o chamado da natureza chegava, ele pegava um rolo de papel higiênico e se dirigia para a seção de hortifruti para se utilizar da barraquinha de alface. Isso causava muita revolta e enjoô nas donas de casa que não conseguiam imaginar um almoço sem uma boa salada de folhas, mas com o tempo ele aprendeu a ser mais rápido do que elas e se desviar das maçãs que vinham em sua direção.)

Escreva um comentário

Os campos obrigatórios estão marcados com *

*
*