Post Filosófico número 1547812

Postado por Enrique em 24 de fevereiro de 2005

“Qual foi a semente que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo,
Nem eu mesmo sei direito o que está acontecendo;
E daí de hoje em diante todo dia vai ser o dia mais importante.”
– Legião Urbana

“Eu tô indo à vida com a de-ter-mi-na-ção de um trem,
Como um faminto em um prá-to de cô-mi-daaa…”
– Lulu Santos

Estranho como certas músicas parecem “grudar” em partes da nossa memória e acabam fazendo parte dela. Talvez seja só eu que sinta isso (eu sou doido, fazer o quê?), mas certas músicas funcionam como gatilhos: eu ouço tal música e de repente surgem um milhão de associações com um período de tempo, um lugar ou ainda, mais normalmente, os dois. É como se a música fosse a trilha sonora daquela situação, por motivos que eu completamente ignoro. E essas situações não são de forma alguma extraordinárias ou fora do comum, o que me deixa mais encafifado ainda. Por exemplo, Legião Urbana.

Sempre que eu ouço alguma música do álbum Quatro Estações eu me lembro (preparem-se) de um fim de tarde em particular em que eu fui devolver um cartucho de videogame numa locadora distante alguns porrilhões de quarteirões de casa. O sol já estava se pondo e as coisas adquiriam aquela cor estranha de fim de tarde, e eu caminhava pela avenida dos Araçás olhando os galpões da Cobrac. Eu me lembro até mesmo do cartucho, Chrono Trigger de Super Nintendo. Porque essa memória é importante? Não tenho a menor idéia…talvez porque seja uma memória boa de um instante bom, que não precisa de motivos para ser bom. As músicas do álbum Dois me fazem de sábados à tarde lendo gibi e desenhando. As músicas do “Descobrimento do Brasil” me lembram do Colégio Objetivo aqui de Araçatuba (colégio onde eu nunca coloquei os pés) e da rua Bandeirantes.

Essas músicas não pedem autorização para se apossarem das lembranças, e nem se dão ao trabalho de se explicarem. Momentos banais se tornam especiais por causa de uma música, ou a música se torna importante por causa de motivos banais? Ou é tudo saudade pura e simples, saudade de tempos passados que nunca mais voltarão? Há uns 7 anos atrás eu passei o natal na casa da minha madrinha, e fuçando nos cds da minha prima Renata achei um best-of do Lulu Santos. Ok, não vamos entrar nos méritos musicais dele, mas o fato é que é impossível esquecer as músicas desse cara. Voltando: eu gravei duas músicas desse cd em uma fita, duas músicas que eu não o nome até hoje, e na viagem de volta pra casa vim escutando essa fita. A fita tinha várias outras músicas, mas o fato é que eu nunca vou me esquecer dessa viagem de volta, talvez justamente por causa dessas duas músicas. Sempre que eu ouço elas eu me posso ver aqui dentro os campos verdes e o dia ensolarado através de uma janela de ônibus, em algum lugar entre Três Lagoas e Andradina. Ouvir os primeiros discos do Green Day me faz lembrar de dias chuvosos sentado na janela do apartamento onde eu morava com minha família, olhando os prédios ao redor e esperando que alguma coisa acontecesse. O quê? Não faço a menor idéia. Mais recentemente, em janeiro do ano passado eu fui com minha mãe e minha tia numa cidadezinha aqui perto (Rubiácea) acertar alguns documentos da aposentadoria da minha tia, e no caminho eu ouvia Chico Buarque no discman. De novo, por razões que eu desconheço, essa manhã em particular volta sempre que eu ouço algumas músicas do Chico Buarque, a cidadezinha míuda, o sol aparecendo aos poucos e uma sensação de esperança e renovação.

Eu poderia continuar falando de mais mil outras associações com outras mil bandas e outros mil momentos, mas acho que já ilustrei o que queria falar. Claro que existem as músicas associadas à momentos ruins. Por uma superstição estúpida eu geralmente deixo de ouvir a música por séculos, como se a música fosse a culpada pelas coisas ruins que aconteceram, até que um belo dia eu descubro que tudo já passou e a música não tinha nada a ver com isso. Antes que vocês me internem, deixa eu concluir. Acho que essas memórias e músicas funcionam como avatares de sensações e sentimentos. Como se às vezes você desejasse sentir calma, saudade, esperança, ou o que seja, e essas memórias são como totens desses sentimentos, uma representação visual e sonora desses sentimentos. Eles também servem como âncoras, ou como souvenires de todas as coisas que já aconteceram e que você não quer que sejam apagados pelo correr do tempo. Estranho como às vezes eu me sinto tão velho com só 21 anos, e estranho como eu sinto que tenha vivido tanto tantas coisas, sendo que eu vivi tão poucas coisas tão pouco. Mas eu não me sinto assim: eu valorizo o pouco que eu tenho, meu álbum de recordações é pequeno mas guardado com devoção quase religiosa. É errado ou certo agir assim? Eu não sei. Mas no fim do dia você faz as coisas de acordo com aquilo que você acredita, ou não consegue dormir. E ninguém pode viver sua vida, a não ser você.


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