Enrique e o Walkman Postado por Enrique em 11 de maio de 2005
Eu não lembro muito bem quando foi meu primeiro encontro com o walkman, mas arrisco dizer que foi em 91. Ou 90. Ah, sei lá. Eu lembro como foi, mais ou menos: no começim da décade de 90 meu pai trabalhava em Salvador (na Bahia, pra quem matava as aulas de geografia), numa firma de engenharia maluca. Era uma época lendária e mágica, onde as empresas tinham resquícios de coração ainda e pagavam passagens de avião e hotel pras famílias dos empregados irem passar as férias com eles. E lá fomos nós, eu, meu irmão e minha mãe, passar as férias do fim do ano em Salvador. A viagem Araçatuba-Salvador merecia outro post só pra ela: foi a primeira vez que eu fui pra Sumpaulo, que eu andei de avião, que eu quase me perdi na rodoviária de Sumpaulo, que mais um monte coisa. Enfim, voltando. Nós quatro ficamos alojados numa quitinete de frente pra esse lugar aqui, ó. Ir pra praia era questão de atravessar a rua, vejam só. E pra ver o oceano gigantesco era só ir pra sacada da quitinete…legal, legal. Voltando, DE NOVO. Arrem. Meu pai morava na quitinete com um americano doido, que deve ter sido expulso pela polícia federal antes de chegar e não teve tempo de pegar todas as tralhas dele. No apartamento ficaram vários livros em inglês, um enorme chinelo (48 pra mais eu acho) e…um tal de “amplificador”. Sei lá pra que servia aquela droga, mas meu pai pegava uma caixinha preta, colocava uma fita nela, ou sintonizava na rádio, e ligava no tal do amplificador e então o som saía pelas caixas de som. Legal, legal. Mas eu gostei mesmo da caixinha preta…não demorou muito preu arrumar um fone de ouvido e começar a andar pra tudo quanto é lado com a tal caixinha preta. Minha mãe dizia “lá vem o Enrique co aparelhinho dele”, e meu pai, com seu sotaque proto-baiano “Ele é muderno, ó, só ouve o uólquiman”. E lá ficava eu, ouvindo as rádios (Axé, axé, axé) e achando o máximo. Tá, tá bom, mas vejam: eu era criança e não tinha noção de gosto ainda. Até pra praia eu levava o bagumelozinho. Era mágico: saía música da caixinha! Desnecessário dizer que quando a gente voltou pra Araçatuba, eu levei o walkman junto sem nem falar nada =D.
Avança a fita. Vamos pra…93, ou 94. Nesse meio tempo eu usava o walkman, já um tanto deteriorado pelo uso constante, pra ouvir as fitas que eu tinha em casa. Fitas com músicas infantis (balão mágico, etc), fitas com histórias da Disney (umas fitas coloridas que acompanhavam livrinhos), a legendária fita com a trilha sonora da novela Vamp, uma fita antiga da minha mãe com músicas do Paralamas…Nesse período eu sabia que eu gostava muito de música, mas não sabia que tipo de música eu gostava. Foi então que um belo dia, na quarta série, um amigo meu chegou com umas histórias bizarras, sobre uma música de 10 minutos que contava a história de um bandido, e em que o vocalista falava “filho da puta” no meio da letra. Puta merda, era a glória! Filho da puta! Genial! Mas onde eu ia arrumar a tal música? Sei lá como, eu descobri que havia um programa na rádio Cultura aos sábados que tocava só rock nacional. Pôxa, quem sabe toca a tal música nesse programa…e lá fui eu, ouvir a tal rádio. A primeira música tocada no tal programa foi justamente “Faroeste Cabloco”, a tal música revolucionária. Nooooossa, era linda! Demais! Logo em seguida tocaram várias bandas que na época eu nem sabia que existiam, mas antes do fim do programa eu já estava decidido que eu curtia aquela porcaria. Isso é rock? Legal, legal…Foi com esse programa que eu conheci o rock nacional, Legião, Engenheiros, Nenhum de Nós, Paralamas, Titãs, Barão…e foi com esse programa que eu descobri as maravilhas da fita k7. Todo maldito sábado eu gravava o programa em fita k7, pra ouvir no estimado walkman, pulando as músicas que eu já tinha e gravando as novidades. No final, eu tinha uma caixa de sapatos cheeeia de fitas, e devo dizer que ouvia todas elas. Sim, viciado desde cedo. Essa coisa de rock é pior que heroína, mas mais divertido também. (Com o tempo eu fui pegando as sacanagens do radialista: ele abria e fechava o programa com Faroeste Cabloco ou Infinita Highway SEMPRE, ou seja, 20 minutos do programa eram tomados por essas músicas “pequenas”….mas era legal mesmo assim, oras).
E assim foi indo. Anos mais tarde eu descobri as maravilhas de passar cds pra fita k7, e depois como gravar mp3 em fitas k7, e a caixa de sapatos já era pequena pra tanta fita. O walkman original durou uns 7 anos, depois foi trocado por um mais novo que durou uns 3 anos, que foi trocado por outro que tá parado lá em casa desde o advento do discman e dos cd-rs. O que mudou? Acho que só os aparelhos. Antes eu procurava música nas rádios, gravava em fita k-7 e ouvia no walkman. Hoje eu procuro músicas na internet, gravo em cd-r e ouço no discman. Tá, eu precisaria de zilhões de caixas de sapato pra gravar tudo o que eu tenho hoje, mas…a essência é a mesma. Música, no fim das contas.