Diversas historinhas

Postado por Enrique em 18 de junho de 2005

O garoto desenha um círculo enorme no chão, e um outro círculo menor dentro deste. Se ele soubesse o que significa concêntrico, ele saberia que o círculo menor é concêntrico ao maior, e vice-versa, mas isso pouco importa pra ele. É assim que se faz isto, ele sabe mas não sabe porque sabe disso. Mistérios da vida…dentro do círculo maior e fora do círculo menor ele rabisca letras e desenhos misteriosos, como ideogramas e símbolos esquecidos há muito tempo. Dentro do círculo menor ele se senta…

Ele olha pro céu e conta as estrelas. Uma, duas, três, direita, uma, duas, pra cima, ali. Poucas pessoas sabem, mas você pode saber tudo sobre o mundo com as coisas mais simples. Folhas de chá podem revelar o futuro das coisas. Pedras de asfalto podem te falar sobre o passado das coisas. Desenhos de nuvem podem resolver contas e problemas matemáticos. E estrelas são um mapa preciso e detalhado de qualquer lugar – mundo, país, estado, cidade, casa. Basta saber olhar. Ele continua olhando pra cima, refazendo seus passos nos pontos brilhantes, marcando em sua mente a direção em que deve seguir. 37 graus para a esquerda, por mais 13 quilômetros. E depois…

Dentro do círculo menor o garoto está sentado, e ele pode sentir que está começando. Os símbolos desenhados no chão parecem girar em torno dele, e ele quase pode ver eles se levantando do próprio chão, com um brilho esquisito. Ele sente a terra tremer, como se algo que dormia no próprio coração do planeta tivesse sido acordado e agora abria caminho através das camadas de magma, minerais e terra para chegar até quem o acordou. Ele sente uma força imensa sob seus pés, algo que está prestes a explodir…

Ela está caindo. Não, não, seria melhor dizer que ela está desabando. Qualquer objeto cai com uma aceleração constante de 9,89 metros por segundo, mas quando o objeto em questão é você tenha certeza que a aceleração parece ser de alguns zilhões de metros por milésimos de segundo. Eles acham que ela está condenada. Eles acham que ela vai virar uma mancha no chão. Ela acha que vai virar uma mancha no chão. Mas não é assim que vai ser, não, não e não. Nos últimos segundos antes do impacto, um belo par de asas nasce em suas costas e a queda se transforma num rasante violento e gracioso. Asas mais brancas do que nuvens guiam ela pelo oceano de ventos, e então…

E então algo explode. Algo tão antigo quanto o próprio coração flamejante do planeta rompe o chão e levanta voô. O garoto só tem tempo de se agarrar com força e seguir a criatura em seu voô. É um dragão. Um enorme e gigantesco dragão, com uma cabeça do tamanho de um estádio de futebol e uma cauda com algumas dezenas de quilômetros de comprimento. O garoto voa junto com o dragão, e o chão lá embaixo parece cada vez mais distante. As estrelas parecem se aproximar, e lá longe ele vê mais um…

Deus está sentado no topo de um prédio. Ele observa as pessoas lá embaixo se movimentando como formigas. Formigas preocupadas não só com o funcionamento do formigueiro, mas com uma infinidade de problemas que só formigas conseguiriam enxergar qualquer importância. Ele observa o movimento do tráfego, pessoas indo e voltando em carruagens de aço através de caminhos de asfalto para chegar em castelos de concreto. Ele observa a criação de suas criações, ele observa tudo. Ele observa também o sorveteiro na rua lá embaixo, cantando uma música que só ele conhece e anunciando os sabores que ele tem pra vender. Se eu dissesse que Deus também é o sorveteiro, alguém ainda ficaria surpreso?

E lá longe ele vê outro dragão. E mais outro. E outro. E ainda outro. Uma infinidade de dragões gigantescos voando pelo espaço. O som de uma infinidade de dragões no espaço é algo que deveria ser ouvido por todos, até pelas pessoas chatas que se lembram de que o som não se propaga pelo espaço. E então todos os dragões se reúnem no centro de algum lugar (porque todos os lugares são centros de algum lugar), e então o garoto entende. E agora ele também é um dragão, um dragão gigantesco, maior do que todos os outros…

O maior problema quando você acorda sendo um Panda não é levantar da cama. E nem passar pela porta do quarto. Nem fazer suas necessidades num banheiro que não foi feito para pandas. Nem se secar após o banho (num box pequeno demais para pandas). Também não é ter que tomar café e bolachas quando tudo que você queria era um belo broto de bambu. O maior problema de virar um panda é ter que andar a pé pro trabalho porque você esqueceu a carteira no bolso da outra calça e não tem trocado pra pagar o ônibus.


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