Feliz Dia dos Zumbis!

Postado por Enrique em 27 de outubro de 2008

Ontem, dia 26, foi o Dia Internacional dos Zumbis! Não sabia, né? Eu também não, foi meu irmão que me contou ontem de noite, quando já era tarde demais para comemorar. Então, pra não deixar passar em branco essa data tão importante, bora fazer uma retrospectiva sobre os mortos vivos e suas variantes.

Braaaaaaaaains...

Um típico zumbi moderno, em um dia normal de trabalho

Os Zumbis Medievais

Podemos dizer que a era de ouro dos zumbis foi a idade medieval. Nessa época, toda cidade européia que se prestasse tinha um morto vivo assombrando o cemitério e vagando por suas ruas de noite. É como no interior de São Paulo, onde as cidadezinhas tentam se destacar pelas festas de peão de rodeio, só que na Europa medieval as cidadezinhas tentavam se destacar com mortos vivos. Suponha que em Old Hamsterville surgisse o fantasma de uma velha bruxa que gostasse de passear pelas ruas de noite, chorando e gritando o nome das pessoas que iriam morrer. O povo da cidade vizinha (Froheweihnachten) ficava injuriado, e não demorava pra surgirem histórias de antigo ferreiro que se levantaria da tumba nas noites de quinta-feira para ferrar (o ato de colocar ferraduras) o cavalo da própria Morte. A quarenta quilômetros dali, em Groundhogvalley, onde há sessenta anos um padre e uma bruxa que tinham um caso foram queimados na fogueira, dois esqueletos são vistos andando de mãos dadas pela praça principal durante a madrugada. Em Liverpool começam a surgir boatos de quatro jovens músicos que teriam morrido de peste, e que toda noite saiam de suas covas para tocar em um clube da cidade, deixando as jovens garotas da cidade em polvorosa.

É bom lembrar que nessa época não existia ainda o termo zumbi. Na verdade haviam centenas de tipos de mortos vivos nessa época, cada um com seu nome especial. Caso você fosse um zumbi de um pé-rapado, você era chamado de Revenante. Caso você fosse um guerreiro viking que morreu em batalha, você era um draugr. Caso você pertencesse a nobreza, como por exemplo um rei ou um feiticeiro poderoso, você era chamado de Lich. Caso você não curtisse andar por aí em seu corpo putrefato e preferisse uma aparição fantasmagórica, você era um bom e velho fantasma.

O Zumbi Caribenho

Elaaaaaine...

Um típico pirata zumbi caribenho

A palavra zumbi é comum em diversas línguas africanas, e geralmente quer dizer “um morto se levantou da tumba e agora fodeu”. Entretanto, nas ilhas do Caribe os mortos vivos não são tão mortos assim. O zumbi caribenho na verdade é uma vítima de um poderoso feiticeiro, que
usando seus poderes rouba a alma e a vontade da vítima, fazendo com que ela pareça morta aos olhos de seus parentes e amigos. Dias após o enterro dessa pessoa, o feiticeiro vai lá e novamente usa seus poderes, dessa vez para trazer sua vítima de volta a vida, agora como seu escravo submisso. Medonho, não? Mais medonho ainda é saber que isso pode ser verdade: o botânico Wade Davis pesquisou essa história de zumbis-escravos e encontrou algumas evidências de que ela possa ser verdadeira. Segundo ele, os feiticeiros caribenhos utilizavam duas substâncias para zumbificar suas vítimas. A primeira seria a tetradotoxina, um veneno paralizante encontrado em fungos em peixes (como por exemplo o baiacu), e a segunda seria um composto de uma erva chamada Datura, que possui propriedades dissociativas (que fazem com que você perca contato com sua mente consciente). Agindo em conjunto, essas substâncias fariam com que futuro zumbi entrasse num estado de quase-coma, fraco o bastante para ter sua vontade subjugada pelo feiticeiro. Bizarro demais pra ser verdade, não? Pois bem, leia a história do Clarvius então.

O Sr. Clairvius Narcisse já vinha reclamando de febre e dores no corpo fazia algum tempo, mas foi só quando ele começou a tossir sangue que ele resolveu ir para o hospital. Sua situação só piorou com o tempo, e no dia 2 de maio de 1962 ele foi declarado morto pelos médicos. Seu corpo foi identificado por sua irmã, e no dia seguinte ele foi enterrado. A história pararia por aí, se dezoito anos depois o próprio Clairvius não reaparecesse em sua cidadezinha natal, contando uma história pra lá de bizarra. Quando os médicos declararam sua morte, ele estaria vivo mas não conseguia se mexer ou falar nem fazer nada. Durante todo seu enterro ele permaneceu lúcido, mesmo quando o caixão era fechado e colocado na cova. Dentro do caixão ele permaneceu por sabe-se lá quanto tempo, até que o feiticeiro e seus comparsas vieram
desenterrar seu corpo. Fora do caixão, Clarvius foi espancado e amarrado pelos comparsas do feiticeiro, e levado para uma fazenda de cana de açucar. Lá Clarvius permaneceria por dois anos, junto de vários outros zumbis, que como ele eram escravos na plantação. O feiticeiro usava a pasta de Datura para deixar os zumbis em um estado de transe, em que eles faziam tudo o que seus feitores mandavam sem questionar. Essa escravidão durou até o dia em que um dos zumbis, provavelmente resistente ao efeito das drogas, se rebelou e atacou o feiticeiro, matando ele. Sem ter ninguém para aplicar as drogas, pouco a pouco os zumbis foram saindo do estado de transe e escapando da fazenda. Livre novamente, Clarvius passou 16 anos vagando pelo Haiti, e só depois da morte do irmão (que ele suspeitava ser o mandante do envenenamento) ele entrou em contato com sua família.

(Pra quem quiser mais informações sobre o Clarvius: esse foi o artigo de onde eu fiz o resumo aí de cima, e esse artigo aqui tem diversas outras informações sobre o Wade Davis e o caso Clarvius.)

O Zumbi Moderno

Como vocês devem saber, o zumbi moderno surgiu no filme Noite dos Mortos Vivos. Se você ainda não viu esse clássico, fique sabendo que você pode baixá-lo aqui, de graça e totalmente legal (o estúdio aparentemente esqueceu de colocar uma indicação de copyright nos créditos do filme, e segundo a lei americana sem essa indicação os direitos autorais do filme passam a ser livres). É nesse filme que estão todos os clichês que seriam exaustivamente copiados por todos os futuros filmes de zumbi. São eles:

  • A praga zumbi surge sem explicação: Alguns filmes até tentam explicar como os zumbis surgem, mas os melhores simplesmente ignoram esse aspecto, ou dão apenas algumas dicas. Os personagens de Noite dos Mortos Vivos discutem se seria um vírus que causa os mortos voltarem à vida, ou então fruto da radiação de satélites, mas nunca chegam à uma conclusão. Talvez não haja mais espaço no inferno…
  • A infecção: Essa é bem simples. Se um zumbi te morder ou arranhar ou cortar, você está infectado. Um golpe zumbi é fatal, e em poucas horas a vítima morre…somente para se levantar segundos depois, como um zumbi novinho em folha.
  • O Gingado Zumbi: Não basta ser um zumbi, é preciso andar como um. O caminhar lento e arrastado, as mãos tentando agarrar algo à frente, o olhar perdido no espaço…bons zumbis realmente fazem juz ao termo “morto-vivo”. Alguns filmes mais modernos, como “28 Days Later” e sua continuação, introduzem o conceito do zumbi que corre. Heresia: um bom zumbi é adepto da filosofia “quem se arrasta sempre alcança”.
  • Céééééérebros: Ok, na verdade esse clichê vem de outro filme, “O Retorno dos Mortos Vivos”. Mas a idéia foi tão boa que ficou imortalizada pra sempre: zumbis comem cérebros de pessoas vivas. Ninguém sabe o que há de tão gostoso no cérebro dos vivos, mas é fato que nada satisfaz mais um zumbi do que uma boa pratada de cérebros fresquinhos. A obsessão é tanta que eles não tem vergonha de declarar sua paixão para o mundo: cééééééééérebros…
  • A Regra de Ouro: destrua o cérebro, destrua o zumbi. Esse é o segredo da sobrevivência em uma invasão zumbi. Saiba administrar suas armas, mantenha sua espingarda sempre carregada e fique de olhos bem atentos. Você só terá uma chance, então trate de acertar na cabeça. E boa sorte.

É bom lembrar que vários outros filmes de zumbi já haviam sido feitos, e que o próprio diretor do filme, George Romero, havia se inspirado em um livro chamado “Eu sou a Lenda” para compor sua invasão zumbi. A grande diferença é que Noite dos Mortos Vivos foi uma espécie de revolução nos filmes de terror da época. Apesar de para os nossos padrões o filme parecer tosco, ele era extremamente nojento para os padrões da época. Além disso, o filme fazia uma crítica à sociedade americana da época, supondo como as pessoas reagiriam a uma crise dessas proporções. Alguns personagens perdem o controle, outros entram em total negação, e o único personagem heróico do filme que consegue sobreviver é…bem, melhor guardar essa surpresa pra quem não assistiu o filme.

Braaaaaaaaains...

Só pra esclarecer: O Rod Zombie NÃO é um zumbi de verdade.


5 Comentários to “Feliz Dia dos Zumbis!”

  1. Felipe disse:

    Poxa ontem eu até assisti “Diary of the Dead” como uma pequena comemoração solitária! I´m a zombie whore, what can I do?

    Só algumas coisas no post:
    - Tetradotoxina é um veneno contido no baiacu (aquele peixe que infla que nem um balão), que paraliza os músculos da pessoa até que ela morra por asfixia, mas agora como usar isso pra paralizar uma pessoa pra que ela aparente estar morta por uns dias, ai deve entrar o Voodoo brabo.
    - Você esqueceu de linkar aonde pega o Night of the Living Dead original: http://www.archive.org/details/night_of_the_living_dead
    - Você também esqueceu de citar o zumbi mais legal de todos os tempos, um zumbi que se pergunta o que aconteceu com os sábados anoite e que realmente amava aquele rock´n roll…
    - Não sobre os zumbis, mas sobre o post, quando ele fica grande demais o layout da pagina com os comentários vai pro saco, pelo menos no firefox.

    • Enrique disse:

      Tudo corrijido! Só ficou faltando o grande zumbi do rock’n'roll, mas dele eu falo em outro post que tô planejando…um post sobre doces travestis da transilvânia, deslocamento temporal e muita, mas muita tensão dinâmica. Só não sei se o mundo está pronto para um estilo de vida tão extremo…

  2. Daniel Bastos disse:

    Que legal, dia 26 é meu aniversário. Agora há um motivo realmente interessante pra se comemorar!

  3. Pedro disse:

    Você esqueceu de mencionar que se você é um zumbi solitário, existem sites que te ajudam a encontrar companhia.

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