Ela não era meu tipo habitual de cliente. Meu escritório sujo e bagunçado em um velho prédio no centro da cidade era testemunha que noventa por cento dos meus clientes eram femme fatales, enquanto que nove por cento eram encarregados das femme fatales. O um por cento restante ficava para os clientes não habituais. Como a sra. Noel.
A primeira coisa que notei quando a Sra. Noel entrou em meu escritório foi sua predileção pela cor vermelha. Caso Sra. Noel se parecesse com Jessica Rabbit, eu diria que tal predileção era uma coisa boa. Mas Sra. Noel se parecia com Dona Benta. Sra. Noel era incrivelmente parecida com Dona Benta. Enquanto eu pensava nisso, Sra. Noel me falava sobre seu marido, e sobre seus hábitos estranhos que se acentuavam conforme o ano ia chegando ao fim. Quase no fim de dezembro, o Sr. Noel tirava seu velho trenó da garagem e sumia por uma noite inteira. No começo sra. Noel não ligava, porque Noel era um bom marido, não bebia, não jogava, não encostava um dedo nela. Mas todo maldito ano ele sumia por uma noite, e nunca falava pra onde ia, nem com quem ia estar, nem nada. Pegava a merda do trenó e ia. Se dona Noel perguntava alguma coisa, ele desconversava e ria:
- Ho, ho, ho!
Até que a sra. Noel se cansou dessa história, e resolveu procurar ajuda. E eu jamais recusei dinheiro nessa vida, nem mesmo dinheiro da Lapônia. Sra. Noel havia aparecido em meu escritório há dois meses atrás, e agora ela estava de volta.
- O senhor conseguiu descobrir alguma coisa?
Uhum.
- Eu vou gostar do que o senhor vai me contar?
Hmmm…
- Quem é a vagabunda?
Agora vinha a parte difícil. Não posso dizer que Noel era o cara mais estranho que já vi, porque no meu ramo você vê coisas que não se vê nem na internet. Mas ele se esforçava, e convenhamos, a sra. Noel era uma porta. Era um porta porque tinha uma maldita fábrica de brinquedos funcionando no porão da casa dela, produzindo o ano inteiro e movida à elfos escravizados, e ela nem desconfiava. Na noite do dia 24 o sr. Noel violava metade das leis da física conhecida e saia num trenó voador com todos os brinquedos que os elfos fizeram durante todo o ano. E o que ele fazia com os brinquedos…
- Crianças?
- Sim.
- Está dizendo que o meu marido está envolvido com crianças?
- Não do jeito que a senhora está pens…
- Quantas?
- Bem…pelo que as renas disseram…
- Quantas??
- Praticamente todas as crianças do mundo.
Sra. Noel acabara de aprender que ignorância é benção, sentada na cadeira do meu escritório empoeirado. O que ela ia fazer com o que descobriu, e o que o sr. Noel ia explicar pra ela ou pras autoridades, não era do meu interesse. Eu queria saber mesmo era onde eu ia trocar esses dólares lapônienses.

Não confie na rena de nariz vermelho.
Só enganando a Sra Noel, né?
Procure seus advogados…
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