“…e eles vão arruinar o rock’n'roll e estrangular tudo que a gente ama nele. Eles estão tentando comprar respeitabilidade para uma mídia que é gloriosamente e corretamente idiota. Você é esperto o bastante pra saber isso. O dia que deixar de ser idiota, é o dia em que ela deixa de existir. Certo, e então ela se torna a indústria do “legal”. Eu tô te dizendo, você está vivendo em uma época perigosíssima para o rock’n'roll. A guerra acabou. Eles venceram. 99% do que é vendido como rock’n'roll hoje em dia…silêncio consegue ser mais interessante.” – Lester Bangs, no filme Almost Famous
Esse post começou a surgir na minha cabeça enquanto eu respondia um tópico lá da comunidade “Fim da Blogosfera”. Era mais ou menos uma discussão sobre um blogueiro qualquer X, que recebe um celular Y da empresa Z, e sobre como ele deve fazer a resenha desse aparelho de forma ética, sem omitir a verdade nem para agradar a empresa Z e nem fazer média com seus leitores. Mas uma coisa me incomodava enquanto eu digitava minha resposta. E por um segundo eu parei de digitar, e a coisa que me incomodava tomou forma de frase: é mesmo dever de um blog fazer resenhas de celulares? Vocês querem mesmo que os blogs façam o serviço de publicitários, jornalistas, resenhistas, o que seja? Temos mesmo que ficar se preocupando em agradar e não ofender a agência Z, a empresa X, os leitores Y? Quando é que a internet virou um escritório de trabalho, meu Ceiling Cat??
Eu comecei lendo blogs em 2003, e nunca mais parei. Acho que setenta por cento do tempo que eu passo na internet é lendo blogs. Se não me falha muito a memória, o primeiro blog que eu li foi o Ctrl + Alt + Foda-se, do Xixa. Eu já tinha ouvido falar desses tais de blogs, sabia que eram espécies de diários virtuais, mas e daí? Qual era a graça? Lendo o blog do Xixa eu entendi qual era a graça: escrever qualquer merda que você quisesse, a qualquer momento, sobre qualquer assunto, e jogar na rede pra quem quisesse ler. Eu devo ter lido todos os arquivos em uma madrugada ou duas; quando terminei, imediatamente comecei a procurar por outros blogs pra ler. E eu tive sorte, porque essa foi a época de ouro dos blogs brasileiros. Tudo era novo, tudo era possível,e tinha MUITA gente boa escrevendo. Fale com Deus, Sutil como um Paquiderme, Não Vá Se Perder Por Aí, Utopia Dilucular, Jesus Me Chicoteia, De Que Jeito, Gravataí Merengue, Eu Diria Que, só pra citar os mais conhecidos. Toda hora tinha post novo, toda hora tinha alguém falando alguma coisa que, por mais imbecil e inútil que fosse, era divertida e criativa. Tinha o blog de deus, que morava no Rio de Janeiro com seu filho maconheiro. Tinha um blog dedicado a escrotizar a bíblia. Tinha até blog sobre pão com manteiga na chapa. As pessoas escreviam as coisas só pelo simples prazer de escrevê-las. Só porque ninguém tinha pensado nisso antes. Só porque deu vontade, o computador tava ali perto, e porque não?
Se tem uma coisa que faz falta nos blogs hoje em dia, é esse danado do “e porque não?”.
Entre nos blogs de maior sucesso hoje em dia, e talvez você entenda o que eu quero dizer. Boa parte dos blogs se dedicam a retransmitir vídeos engraçados, imagens bizarras, notícias curiosas e coisas do gênero. O conteúdo autoral é quase nulo, raramente existe uma elaboração maior do que “Veja essa foto bizarra!” ou “Esse vídeo me fez mijar na cadeira!”, e eu acho interessante que ninguém tenha contado pra essa galera que o Digg já faz esse trabalho de retransmitir links automaticamente. Também existem os blogs de tecnologia que, salvo raras e boas exceções, simplesmente traduzem e copiam as notícias dos sites internacionais especializados no assunto. São raros os blogs de tecnologia que dão sua opinião sobre as notícias que estão veiculando, são ainda mais raros os que perdem tempo discutindo o que está acontecendo. Também existem os metablogs, blogs dedicados a falar de…blogs. Eles surgiram como consequência da tal “profissionalização” dos blogs, e falam sobre ad-sense, SEO, publicidade em blogs, ações publicitárias e coisas do tipo. Como praticamente todo mundo quer dinheiro fazendo muito pouco, esses blogs foram responsáveis pelo surgimento de MUITOS blogs de retransmissão de notícias e/ou coisas engraçadas. Como existe algo chamado “lei da oferta e da procura”, acabou que ninguém lucrou porra nenhuma.
E esse é basicamente o cenário da tal “blogosfera” hoje em dia. Há quem diga que estamos sendo saudosistas, e acho que estamos mesmo. É errado ter saudade de algo que era bom? É errado querer qualidade e criatividade? É errado querer defender uma mídia que tem potencial pra ser algo fodasticamente fantástico, e que vem sendo esculhambada por mercadores a troco de “300 a 1000 reais” por mês? Eu preferia a época em que se falava mal ou bem de um produto ou uma marca, e ninguém nem cogitava a possibilidade de você estar sendo pago pra isso. Eu prefiro ler uma história sobre Deus, Jesus e um mamute em um apartamento no Rio, do que ver 100 vídeozinhos engraçados no Youtube. Pouco tempo atrás um vídeo do Ian Black dançando “She’s a Maniac” correu a rede, por causa de uma promoção de não-lembro-qual-produro, e eu lembrei dos tempos que o Moskito postava vídeos de “Salto em Cadeira” só porque ele achou uma boa idéia fazer um vídeo de salto em cadeira.
Na internet de hoje tudo parece ter um motivo, tudo parece ter um interesse. Pessoas não falam mal de marcas ou produtos, ou não falam palavrões ou termos-tabu (tipo, sei lá, necrofilia) pra não ofender alguma agência ou ser bloqueado pelo ad-sense. Pessoas colocam links em blogs não porque gostam do blog, mas pelas visitas que aquele link vai gerar. Pessoas escrevem posts pra chocar, porque sabem que choque gera burburinho que gera links que geram ranking no technorati e em outras ferramentas (claro que sem palavrões, senão o ad-sense fica bloqueado). Publieditoriais, parcerias, SEO, rankings, otimização de buscas…tem todo um vocabulário, tem toda uma profissionalização à caminho. E quando chega a profissionalização, vai embora a essência.
Após uma discussão entre o Cardoso e o Gravataí lá no Simviral, o Cardoso disse em seu twitter algo do tipo “Me desculpem por estar ganhando dinheiro com seu hobby”. O problema não é ganhar dinheiro, o problema não é tirar seu sustento do blog. O problema é COMO você faz isso. O problema é você ganhar dinheiro usando o meu hobby como BOSTA. O problema é neguinho se achar o porta-voz da nova mídia só por ter ganhado uns trocados das agências. O problema é ver um monte de gente nadando na merda e achando que tá arrasando. O problema é ver os blogs, que eram tão divertidos e não deviam porra nenhuma pra ninguém, irem se transformando em jornais antiquados e de rabo preso, e os blogueiros responsáveis por isso achando que estão fazendo a coisa certa!
Agora, esse pessoal não vai desistir, esse pessoal não vai embora. As palavras de Lester Bangs ecoam através dos anos, só mudou a forma de expressão. A boa notícia é que, assim como o rock conseguiu sobreviver, os blogs sobreviverão. A idéia por trás dos blogs – um cara escrevendo que diabos lhe der na telha – é boa demais para morrer. Toda a liberdade de expressão que os blogs trouxeram, seja pra dar relatos diretos da guerra de Gaza, seja pra fazer review de pão com manteiga na chapa, é algo que não pode ser mais perdido. Sempre vai ter alguém querendo falar bobagens, sempre vai ter alguém achando que suas idéias são boas o suficiente para serem jogadas na rede, sempre vai ter alguém com coceira na mão pronto pra digitar e apertar publish. Viu um filme e achou legal? Posta no blog. Jogou um jogo e achou uma merda? Posta no blog. Teve que levar a avó no hospital e quer contar como foi? Posta no blog. Teve uma idéia genial do que aconteceria se o Lanterna Verde tivesse um filho com o Batman? Posta no blog. Talvez esses caras não se tornem conhecidos na meritocracia informal da internet, mas a meritocracia informal da internet que lamba minhas bolas. São esses caras que fazem essa história de blogs valer a pena. Mesmo que eles ainda escrevam como se estivessem em 1998 =).