Heróis Heróicos e Heróis Realistas
Postado por Enrique em 8 de março de 2009
Rorschach, um escroto fudido (literalmente)
A Veja da semana passada veio com uma crítica (bem escrota) de Watchmen. A crítica Isabela Roskoff* diz faltar sentimento ao filme, que apesar de ser muito bonito é frio demais, não emana emoção alguma. Meu instinto inicial foi xingar a reportagem e virar a página, mas aí um aviso acendeu. Ei, não é o filme que é frio e sem sentimento: o gibi também é assim!
Uma das coisas que eu não gosto de Watchmen é o ar realista. “Mas…esse é o grande trunfo da revista!”. Sim, cara-pálida, não estou dizendo que não seja, e não estou reclamando. A grande revolução de Watchmen foi trazer heróis mascarados para o mundo real, imaginar que tipo de pessoas seriam estas, qual o impacto que elas teriam na sociedade. Só por ter extrapolado estas situações com tanta maestria, Alan Moore já merece seu lugar no panteão dos Deuses dos Quadrinhos. Veja só os personagens: o surgimento do Dr. Manhattan, o único herói com super poderes da história toda, já altera totalmente o quadro geopolítico do mundo. E é legal que trabalha-se também em como o Dr. Manhattan encara o mundo após ter ganho os poderes, mostra-se como ele vai se afastando do mundo e das pessoas. Rorschach é praticamente um Batman-possível, uma criança problemática que se envolve com o que há de mais sujo do mundo e resolve confrontar isso na porrada. O Comediante…ah, ok, não vou falar de todos os personagens, nem é pra isso que eu estou aqui.
Como já disse antes, “Uma das coisas que eu não gosto de Watchmen é o ar realista”. E em geral, eu não gosto de coisas realistas. No colégio eu li Primo Basílio xingando o professor, porque a porra do livro não tinha um herói idealista ou uma heroína resistente. Só tinha, com o perdão do francês, um bando de pau-no-cu. Eu gostava dos romances do José de Alencar, totalmente água com açucar, porque no final eu sabia que todo mundo iria se dar bem: o índio pega a loirinha, o noivo mala que foi escrotizado durante todo o livro se torna um sujeito gente boa. Já de Machado de Assis eu gostava, e era beeem realista, mas o estilo do escritor salvava o dia. Enfim, eu estava falando sobre heróis e agora estou lembrando de literatura nacional. Aonde eu estava mesmo?
Como já disse antes, “Uma das coisas que eu não gosto de Watchmen é o ar realista”. Heróis precisam ser heróicos, não concordam? A idéia de heróis no mundo real é um ótimo exercício, sim, mas veja que Watchmen introduziu n+1 mudanças na forma como fazemos quadrinhos, mas não mudou o essencial: heróis heróicos ainda predominam. Sim, temos anti-heróis, badass motherfuckers, heróis atormentados, mas no fundo eles ainda são heróis. O Wolverine é malvadão, o Gambit é um safado, mas quando o sapato aperta você sabe que dá pra contar com eles. O Superman não se cansa dos seres humanos e do planeta Terra, e isso é reconfortante. O Batman não envolve as superpotências globais em um golpe maquiavélico para promover a paz mundial (e sabemos que ele conseguiria, afinal ele é o Batman). Imagina como seria escroto se a Marvel fizesse uma trama em que o Professor X é acusado de abusar de seus alunos? Ou se o Wolverine REALMENTE fosse malvadão e sem princípios, tipo o Comediante? Não funciona, e isso acontece porque gostamos dessa água com açucar.
É lógico que a gente disfarça. Essa coisa de anti-herói, tão em voga depois dos anos 90, é pura marmelada. Gostamos mesmo é do Homem-Aranha salvando Nova York durante a noite e dando aulas de dia pra pagar as contas, porque podemos nos espelhar. Gostamos do Supes usando seus incríveis superpoderes para salvar gatinhos, porque podemos querer ser como ele. E até gostamos do Batman, porque ele funciona como um lembrete de que o lado escuro e insano existe, mas podemos sobrepujá-lo e sermos melhores que ele. No final, gibis e histórias de superheróis são e DEVEM ser escapismo pueril – até mesmo porque são úteis para a nossa sanidade mental, segundo Carl Jung e Joseph Campbell. O exercício que Watchmen propõe é válido – e fantástico – mas Deus me livre de gibis realistas com heróis realistas num mundo realista. E aproveita e me passa o gibi do Lanterna Verde, fazendo favor.

No dia mais claro, na noite mais densa, meu anel verde-raio-laser é UM LUXO, MONA!






Eu li o teu texto e pensei que alguma coisa ali eu não concordava. Mas não conseguia atinar o que era. Sem argumentos, só discordar de graça não faz muito meu perfil, então eu quase aceitei…
Até que eu li isso:
http://100grana.wordpress.com/2009/03/09/watchmen-as-influencias-cientificas-e-filosoficas/
Daí eu pensei: achei meu argumento!
A parte que eu até concordo, é que ler é um escapismo. A idéia de heroísmo também é. De alguém que surge na noite para defender os fracos e os oprimidos me parece definitivamente escapista.
Agora, Watchman está longe de ser frio, de ser realista. Ainda que a ideia seja de heróis na nossa realidade. Acho que na verdade, a história brinca com nossa concepção de herói, com o que esperamos de um carinha que está ali pra nos salvar.
Ali os heróis são mais humanos, se deixam levar pelos sentimentos, pelas dúvidas, pela vontade de vingança. Mas ainda é escapista eles terem estas questões, eles se deixarem influenciar (mesmo Dr. Manhattan, sempre sabendo de tudo, deixando tudo acontecer). Eles terem por objetivo salvar pessoas, esclarecer, a necessidade do “herói” vencer, de se descobrir o vilão, ainda é ficção, é o anel do Lanterna Verde.
Tudo depende do que tu entendes e espera do herói. Todas aquelas cores também te deixam na “fissura” de algo diferente. De algo que tu já está acostumado. A psicologia deve ter algum estudo, alguma síndrome, qualquer coisa que explique a gente só gostar de coisas bem solucionadas. De finais felizes, de príncipes com a princesa no final.
Deve ser porque na vida as coisas deixam dúvida, ficam mal-explicadas, deixam algo no ar. Ver a vida como ela é na ficção incomoda, arranha o que é sagrado. Mas eu acho que o segredo de watchmen é exatamente esse: ser igual mesmo sendo tão diferente. Algo que me afeta tanto, não pode ser frio, impessoal. Principalmente, algo assim não é real.
Olha só, eu concordo com boa parte do que você disse, e acho que essa frase aqui acertou na mosca: “Ver a vida como ela é na ficção incomoda, arranha o que é sagrado.”. É isso que me incomoda em Watchmen, é ver os problemas e neuroses da vida real invadindo a ficção. Mas acho que esta é justamente a intenção da obra, e dizem que uma obra é boa quando ela causa uma marca em você. E sim, Watchmen me marcou, me arranhou também: eu ainda penso se Adrian Veidt estava certo em seu plano mirabolante de paz mundial, ainda fico imaginando se, caso surgisse um Super-homem, ele logo perderia o interesse pelos seres humanos como fez o Dr. Manhattan.
Existe heroísmo em Watchmen, sim, mas é um heroísmo que te deixa pensando e olhando de soslaio, tentando entender o que realmente aconteceu. Enfim, concordo plenamente que Watchmen seja uma história MAGNUM ABSOLUTEMUM TERRIFICUS, justamente por ter me feito pensar em todas essas coisas, mas ao mesmo tempo me arranha e me incomoda…e isso é legal também
Cara, falemos francamente… Watchmen é bom pra c***. Eu, particularmente, li três vezes e só não li mais porque um certo hobbit inútil mudou-se para Salvador e não pode mais me emprestar.
Trata-se de uma obra-prima que podemos comparar a Dom Casmurro: você só percebe o quão boa é no momento em que termina de ler toda a história: enquanto está lendo, sente uma certa monotonia, porém, quando acaba, logo pensa: (mais um dois pontos…!) ” PQP, QUE FODA”.
Porém, uma história realista destas só funciona em edições especiais. Alguém aí se imagina estar comprando a Watchman 164? Não dá!!! Por isso, por serem tão, NECESSARIAMENTE, raras e incomuns, tais arcos, na minha opinião, fazem tanto sucesso. Seria algo como a justificativa da existência dos Contos do Cargueiro Negro: num mundo onde existem heróis de verdade, o sucesso fica por conta das histórias de capa e espada.