Posts de abril, 2009

As Aventuras de Enrique nos Busões de Salvador

terça-feira, abril 28th, 2009

Isso aconteceu logo quando eu vim pra Salvador, na primeira ou segunda semana. Eu ainda não conhecia quase nada da capital baiana, só as direções gerais e olhe lá, e decidi aprender a andar de ônibus pra poder fazer mais coisas além de ficar olhando pro teto do apartamento. Sim, nessa época eu não tinha nem computador, nem internet por aqui. Praia? Que isso? Enfim.

Lá fui eu tentar desbravar o transporte público soteropolitano. Claro que eu não ia montar no busão e simplesmente ir aonde o vento (ou o motorista, mais provavelmente) me levasse. Não, não. Não em Salvador. Cara, se você não souber aonde o busão está te levando, você NÃO VAI nele. Qualquer pessoa com dois neurônios (Tonico e Tinoco, pra dar nome aos bois…ou neurônios) sabe disso, eu sei, mas em Salvador…em Salvador isso é especialmente verdade.

“Ah qualé cumpádi, toooodo mundo sabe que Salvadô é a capital do sol, do calor, do bom humor, da azaração, do AXÉ MEU REI! Tá maluco?? 8-)

Ééééé, vai nessa! Isso me lembra uma historinha do The Clash. Os membros do Clash sempre foram fãs de reggae, Bob Marley, essas coisas todas, e foram lá conhecer a Jamaica, o paraíiiiiso do reggae. Aí quando eles voltaram, eles curtiram TANTO a viagem que fizeram uma música sobre ela. A música chama “Minha adorável e segura casinha européia”. Vocês podem imaginar porque, ou ler a letra aqui. Cara, Salvador é massa. É lindo. É fantástico. Mas também a capital brasileira com a maior desigualdade social. Você não anda dois quarteirões sem ver uma favela ou um bairro muito pobre. Crianças pedindo dinheiro em todos os sinais de rua. Vendedores ambulantes em tooodo o lugar, tentando se virar como podem. Tem uma favela de 600 mil habitantes. Sabe o que são 600 mil habitantes? São 3 Araçatubas. E isso é só UMA das favelas. Não que eu queira botar medo em ninguém, mas se você quiser dar uma de espertão e andar sozinho em Salvador, pelamordedeus SAIBA PRA ONDE DIABOS VOCÊ ESTÁ INDO.

(Acho que já dá pra saber como esse post acaba, né?)

Então, resolvi que ia no Shopping Iguatemi, porque eu já sabia mais ou menos o caminho, e eu queria ir no shopping passear um pouco, ver as lojas, quem sabe ir no cinema, tomar milk shake do Bob’s, essas coisas que toda patricinha pessoa de bem faz. Ah, eu também queria um computador, então fui ver os preços também, mas computador em shopping é roubada. O ponto mais próximo de casa fica numa pracinha perto dos Correios, e lá fui eu. Lá na praça obviamente eu consultei o ser mais sábio que se pode encontrar em qualquer ambiente urbano, o detentor de todo conhecimento, a única alma confiável nesse antro confuso urbano: o velhinho da banca de revista. E ele disse que praticamente todos os ônibus ali passavam no shopping, então era só subir neles e ir embora.

“Iiiiih, agora o Enrique se fodeu” você deve estar pensando. NÃO!, eu lhes digo, O VELHINHO DA BANCA DE REVISTA NÃO MENTE JAMÁS!!…Eu me fodo mais pra frente, fiquem vendo. Cheguei no shopping são e salvo, sem problemas. Andei pelo shopping, comi na praça de alimentação, fiquei babando na livraria, dei uma olhada nas lojas de computador, etc. E pronto. Acho que meu passeio durou uma hora, senão menos. Não tinha nenhum filme legal passando no cinema, então eu resolvi voltar pra casa. E lá fui eu, voltar pra frente do shopping pegar meu ônibus.

E agora começa. Olha só, eu era jovem e babaca. Sim, só faz um ano, e eu continuo jovem e babaca. Pelo menos eu ainda me acho jovem, apesar do cabelo cada vez mais ralo…err. Minha cagada foi essa: na minha ingenuidade juvenil, eu olhei aquele monte de ônibus e pensei “Caraca, qual desses que eu pego??”. O velhinho disse que era só pegar um ônibus escrito o nome do meu bairro, que todos passavam ali perto de casa e blábláblá. Mas não passava nenhum…

(Eu fui descobrir que os ônibus do meu bairro passavam toda hora, sim…mas não naquele ponto. Tem que atravessar uma passarela pra pegar eles, como eu descobri no mesmo dia da pior maneira possível. Pensando bem, não foi a pior maneira possível. Continuemos, continuemos.)

Aí eu vi vir vindo lá longe o mesmo ônibus que eu peguei pra chegar até o shopping. “HA! EUREKA! SE EU PEGAR O MESMO ÔNIBUS, ELE VAI DAR A VOLTA E CHEGAR LÁ EM CASA! YEEEAAH! POKÉMOOOON!”. E subi, alegre e saltitante no busão. Sem nem lembrar que existe uma coisa chamada “Fim da linha”. E lá vamos nós.

“Eeeeei…o ônibus deveria virar naquela rua! Mas…ah, está tudo bem! Ele vai ir até seu destino, virar e voltar pra casa! Yeeeah!”

“Aaaah, essa avenida eu conheço…mas ela fica mó longe de casa…e estamos subindo ela…ah, está tudo bem! Ele vai ir até seu destino, virar e voltar pra casa! Yeeeah!”

Até que a avenida acabou, e o ônibus entrou numa rua menor. Estávamos bem no alto, eu conseguia ver o mar lááá longe (detalhe que eu moro a dois quarteirões da praia), e o ônibus continuava subindo. Lá estava eu, num legítimo bairro de classe média soteropolitano, passeando e conhecendo tudo, vendo paisagens, que legal. E o ônibus subindo. Até que o ônibus virou numa rua estreita e continuou a subir, e eu vi a merda em que tava me metendo.

“Hmmm, vejamos…ruela estreita, lojinhas de tranqueiras do paraguai, vendinhas, botecos imundos cheios de bêbados as quatro da tarde, casinhas sem pintura, de tijolo ou de madeira, criançada correndo pra lá e pra cá, sujeitos mau-encarados encostados nas paredes…ah, mas está tudo bem! Ele só v….VÉI, EU TÔ FAVELA! FODEU!”

Sabe, se eu fosse a Regina Casé, eu desceria do busão e iria lá fazer contato com o pessoal da comunidade. Sabe, se eu fosse o Bono, eu iria lá gravar um videoclipe e depois alertar o mundo sobre a situação das pessoas daquele lugar. Mas o máximo que eu consegui foi trancar o toba. Desculpem a franqueza, mas foi o que eu fiz! Não vou mentir, vou?

Véi, eu sou só um moleque caipira do interior de São Paulo, que não conhecia NADA sobre Salvador, que não conhecia NADA de NADA (e ainda não conheço). E pior: eu sou mó branquelo. Branquelo azedo. Com cara de nerd. Com minha inegável e irreparável cara de nerd. No meio da porra da favela. FODEU, VÉI!

(E sabe o que é o pior? Eu tava lá, com meu toba trancando, olhando aquelas ruelas labirínticas cheias de casebres humildes, me perguntando se eles costumavam jogar branquelos otários do alto do morro. Mas parte de mim também tava segurando o riso e pensando “Caaaaaaara, imagina só quando eu contar pro Felipe que eu quase me FODI GRANDÃO!”.)

O que você faz quando você tá no meio da favela, num busão que você não sabe pra onde vai (nessa hora a ficha tinha caído, o caralho alado que esse ônibus ia voltar pra casa)? Ué, continua sentado quietinho no busão, e reza. Reza muito. Sabe, nessas horas desaparecem todas aquelas dúvidas filosóficas. Tudo é resolvido num instante! “Deus existe?”. Véi, se Deus não existisse, eu tinha aparecido na primeira página do Notícias Populares com a boca cheia de formiga! E lá fui eu, trancando e tentando não parecer tão branquelo e nerd no busão.

Até que uma hora o ônibus para. Parou, porque? Porque parou? O motorista desligou o busão, se levantou, a cobradora também tava indo embora…eu corri pra falar com ela. Eu tinha plena noção do papel de idiota que tava fazendo, mas era fazer papel de idiota ou virar desaparecido.

- Moça, esse ônibus não passa na Pituba?
- AONDE?? – A cara de incredulidade da cobradora foi inesquecível.
- Ele não faz o caminho de volta?
- F-f-f-faz, mas…puuutz! Olha só, faz o seguinte: daqui a dez minutos ele sai de novo. Fica ali QUIETINHO COM A BUNDA NA PAREDE esperando, e não desce até chegar em casa. Écadaumaqueagentevê…

E deu certo. Dez minutos depois o ônibus saiu, eu entrei nele e fiquei quietinho, só olhando os arredores. Sim, eu não tava enganado: era mesmo uma favela. Sabe favela de morro, mesmo? A rua que o ônibus subia era cortada por ladeeeeiras compriiiidas, cheias de casinhas impossíveis, que iam até lá embaixão. Bizarro, bizarro. Acho que demorou quase uma hora até chegar em casa. Duas horas de jornada pelo interior de Salvador, conhecendo as entranhas da capital baiana, vendo seu povo, seus costumes, sua….ok, quem diabos eu quero enganar? Tudo que eu conseguia pensar era “Estou vivo! Não sei como! Estou vivo, inteiro e intocado! oÔ”.

Por isso, criançada, é que eu sempre digo: se você quiser dar uma de espertão e andar sozinho em Salvador, pelamordedeus SAIBA PRA ONDE DIABOS VOCÊ ESTÁ INDO.

Sabedoria Oriental

segunda-feira, abril 27th, 2009

E lá estava eu conversando com minha irmã mais velha e japonesa, discutindo algum assunto randômico, quando ele me manda essa:

Marcelo: te entendo. Ainda bem q vc tem o pé no chao
me: hauahauahauahauhu…eu tento
Marcelo: pelo menos para alguma coisa
Marcelo: ahuahauhauahuahahauh
me: hauahauhaauhauahauahau
me: como assim “pelo menos pra alguma coisa”??
me: oq vc quis dizer com isso?
Marcelo: :P
me: ¬¬
Marcelo: to zuando   =P
me: eu sou super pé no chão, omelete u.u..hauahauahauhauah
Marcelo: hauahauhauha
me: hauhauahua…cuzão :P
me:  :~
Marcelo: hauahuaha…serio..vc tem o pe nao chao
me: hahahaha eu? nem…eu sei q eu vivo no mundo da lua
Marcelo: as vezes vc fica pulando q nem um bixinha…mas vc costuma ter o peh no chao…  rs
me: hauahuahauahauhau pulando q nem uma bichinha? q porra é essa, neesan?
Marcelo: hauahauhaauh qdo vc esta pulando vc nao esta com o pe no chao
me: hauahauah juuusto mas qdo é q eu pulo feito uma bichinha?

E ele me deixou falando sozinho, pulando feito uma bichinha e indagando-me sobre o que foi dito. Ah, os japoneses e sua sabedoria oriental, tão misteriosa para os ouvidos ocidentais.

…Espera só eu ligar pra dona Bárbara (esposa da minha irmã mais velha e japonesa) e contar umas histórias da faculdade pra ela…

Hola, nova semana

segunda-feira, abril 27th, 2009

Dias estranhos são assim, estranhos. Não tem nada de errado com eles, a princípio, mas você não pode evitar pensar que está um pouco – só um pouco – fora de sintonia com o mundo. Talvez seja um lag de realidade quase imperceptível, ou então sua alma está dois ou três micrôns deslocada do corpo – não é algo definível, mas você sente. Incomoda um pouco, mas dá pra ir levando.

Às vezes dias estranhos vem em bando, como se fossem marginais querendo roubar seu tênis Ribóque. Dias em bando chamam-se semana – e eis que temos uma semana estranha.  Nada demais, só levemente estranha, nada de psicoticamente estranha, nem esquizofrenicamente estranha, só estranhazinha. Tipo, estranha poser. Mas mesmo assim, cansei. Sabe, uma semana quase inteira sentindo-se levemente fora de sintonia com o mundo dá no saco de qualquer cristão, muçulmano, espírita, budista, ateu ou o que for. Dá vontade de gritar. Dá vontade de virar emo. Dá vontade de ligar pra mamãe e fazer birra!!

Mas enfim, acabou-se. Bye bye, semana estranha! Venha, segunda-feira, e me ajude a arrumar essa zona! E vamos parando com essa viadagem de dias estranhos, que já deu no saco ¬¬.

(E sim, eu sei que a semana de vocês-pessoas-normais começa no domingo. Danem-se! A semana é minha e eu começo ela quando eu quiser :D )

Yield

domingo, abril 26th, 2009

O que diabos faz um sinal de “Dê a preferência” numa estrada reta, no meio do nada? Dê a preferência para quem, cara pálida? Para o deserto? Para o universo? Para as circunstâncias? Para si mesmo? Em inglês, o nome do sinal de “Dê a preferência” é “Yield” – não por acaso, o nome desse disco – e yield é um verbo que quer dizer mil coisas. Dê a preferência, abra passagem, não se oponha, conceda, permita, dê a razão, dê lugar, recompense, retorne o que se deve, dê o que se produziu. Talvez o sinal no meio do deserto queira dizer “Deixe pra trás e siga em frente”. Deixe pra trás o que, você se pergunta, e eu te respondo, você sabe. Eu sei o que eu deixo pra trás. Cada um de nós sabe. E porque não, deixar pra trás e seguir em frente? Só tem o deserto aqui, ninguém vai saber de nada, então…é, é isso. Deixe pra trás e siga em frente. Yield.

Eu nunca tinha percebido como Yield é um disco solitário. É um disco de estrada também. Essas personagens nas letras estão todas buscando alguma coisa – sentido, significado, liberdade, desejos – e todos parecem estar buscando isso sozinhos. Talvez porque estar na estrada, qualquer que seja ela, é algo solitário. Só você pode caminhar o caminho, já dizia algum guru fajuto de auto-ajuda – mas é verdade. O cara de “Faithful” grita para o sujeito lá em cima que parece não ouvir ninguém, o cara de “No way” não quer deixar de fazer a diferença de maneira alguma, o cara de “Pilate” não quer envelhecer e ficar sozinho com seu cachorro como o cara do livro. Até mesmo o cara de “Wishlist” lista todas essas coisas que ele quer, todos os seus desejos possíveis e impossíveis. Todos eles tem questões, dúvidas, inseguranças, desejos e todas essas coisinhas humanas que nós humanos temos, e só eles podem responder. “Yield” é um bom tanto mais reflexivo que todos os discos anteriores do Pearl Jam. De alguma forma, é como se toda a raiva adolescente dos discos anteriores não fizesse mais sentido – como se culpar o resto do mundo não fosse mais a resposta. É um disco mais quieto, mais calmo, mas ao mesmo tempo tem uma energia única. Não é a calma de quem desiste, é a calma de quem segue em frente. “Só tem a gente aqui dentro, então é melhor limpar essa bagunça e achar algum sentido nisso tudo”. Conceda e siga em frente. Abra a passagem.

E passe. Talvez a própria estrada seja a resposta. Talvez chegar lá não importe tanto quanto o caminho. “Eles disseram que chegar à tempo era o mais importante, fizeram ele querer estar em todo lugar…mas tem tanto à ser dito sobre lugar nenhum” diz MFC, a música-obrigatória-sobre-estradas (todo bom disco do PJ tem pelo menos uma música sobre estradas). “Lowlight” chega numa conclusão parecida: achar seu caminho através dos próprios erros, porque é preciso buscar a luz. Nas versões ao vivo, ele diz “eu não preciso da luz”. Mas eu preciso, então é assim que eu entendo a música – pronto. “In Hiding” não chega numa resposta, mas sim num ritual – três dias, portas e cortinas fechadas, todas as tomadas desconectadas – para voltar a enxergar e ver sentido no mundo. Se funciona, eu não sei – mas que dá vontade de sumir por alguns dias de vez em quando, dá sim. “All Those Yesterdays” se pergunta se não é hora de parar, e afirma que dá tempo de encostar a cabeça hoje a noite e deixar passar – yield – todos esses ontens. São respostas. Não respostas universais, nem insights fenomenais, e muito menos nirvana-em-uma-música – são só respostas momentâneas, coisas que a gente faz para lidar com a vida – que todo mundo faz.

10 anos depois, o título finalmente começa a fazer sentido. Abra mão e siga em frente, conceda e siga em frente, deixe pra trás – não tem ninguém indo embora aqui, ele simplesmente desapareceu, diz “MFC” – e siga em frente. Ache suas respostas, busque sua própria estrada, encontre sua rota de fuga, não bote a culpa em mais ninguém, nem em si mesmo, nem nas circunstâncias, nem em nada. Fuja. Não é crime nenhum fazer isso. Simplesmente deixe pra trás o que for e siga em frente.

"Harmonia - uma estrada que não é reta"

"Harmonia - uma estrada que não é reta"

Três Coisinhas

quinta-feira, abril 23rd, 2009
  • Assisti “Os Bons Companheiros” durante o feriado, e é realmente tão foda quanto dizem. Joe Pesci está ÓTIMO de Joe Pesci: quem melhor que ele pra fazer um baixinho italiano invocado e sem noção? Ray Liotta trabalha muito bem, principalmente do meio pro final do filme. E o Robert Deniro…cara, vamos lá. Esse filho da puta diz umas trinta palavras durante o filme todo, e mesmo assim ele consegue ser foda. Ele não precisa abrir a boca pra você saber que com ele não se brinca. E agora os Penasboas fazem mais sentido: tem o pombo protagonista que conta a história, tem o pombo esquentadinho que vive arrumando confusão que é o Joe Pesci, e tem o pombo que só fala o necessário e que é o Deniro, inclusive com os olhos meio fechados. E claro, tem o Grande Pombo, que não é do Bons Companheiros, mas é o Marlon Brando do Poderoso Chefão. Pombos mafiosos é um conceito tão…tão…lindo. Tem como não gostar dos caras que fazem os desenhos da Warner?
Robert Deniro, Ray Liotta e Joe Pesci

Robert Deniro, Ray Liotta e Joe Pesci

  • Baixei “Nausicaa of the Valley of the Wind” e “Mononoke Hime” pra assistir hoje, e acabei esquecendo no notebook ¬¬. O Nausicaa eu já li o mangá (muuuuito perfecto), mas ainda não assisti o anime. E Mononoke eu já assisti há muito tempo atrás, e é simplesmente fantástico. Um desenho tem vermes gigantes, oceanos de poluição, soldados-deuses e muito mais. O outro tem javalis gigantes, lobos gigantes, meninas-lobas-estilosas e um Grande Deus Cervo. Como os dois desenhos meio que se complementam, acho que vai ser legal assistir os dois e ter uma overdose de Miyazaki :D ! Mas fica pro fim de semana, já que eu sou um gênio e esqueci de mandar pro pendrive.
Nausicaa-dono

Nausicaa-dono

Em termos musicais, “Temple of the Dog” é pra mim o melhor álbum grunge de todos. O Pearl Jam que me perdoe, o Nirvana que se foda (aliás, essa tirinha do Penny Arcade é dark porém genial), o Soundgarden que dê licença, mas Temple of the Dog foi tão único, inusitado e simplesmente inesperado, que não dá pra superar. Composto pelos membros do Pearl Jam e o Chris Cornell, não se parece em nada nem com um, nem com outro, e soa simplesmente genial.

Bolsão

sexta-feira, abril 17th, 2009

Eu sei que eu tô em casa quando minha camiseta vira um casaco de pelos de gato em cinco minutos. É o sorrisão e a voz inconfundível da minha mãe, a conversa e os trejeitos vocais (que fiz questão de herdar todos) da minha tia, o arrastar de sapatos do meu avô pela casa. É a Sofia balançando o rabo enquanto deita em cima do balcão do computador, é o Nico parado na porta esperando alguém ir assistir ele comer (literalmente), é o Lino procurando alguém deitado para que ele possa deitar (e babar) em cima. É a varanda tomada pelos vasos da minha tia, todos floridos nessa época do ano; é sentar no chão do meio da varanda, e simplesmente esquecer…não, lembrar da vida por cinco minutos. É o meu quarto, sempre meu quarto não importa pra onde eu vá, com minhas tranqueiras e meus livros, o monitor marcado “Cuidado com o Tiranossauro”, e a Sofia esticada na cama. Eu sei que eu tô em casa quando eu olho pra frente e vejo minha vida bagunçada e sem rumo definido, mas olho pro chão e vejo que estou em solo firme – o chão da minha casa, o porto seguro pra onde eu sempre vou poder voltar.

E eu sei que vou ter certeza absoluta que tô em casa, se quando eu der essa olhada para o chão, houver um gato passeando entre as minhas pernas. =D

Duas Músicas e Dois Lados

sexta-feira, abril 17th, 2009

Música 1 – “Don’t Follow”, do Alice in Chains

“Heeeey, eu..nunca mais voltarei pra casa” começa Don’t Follow na voz característica de Layne Staley, somente acompanhada por uma gaita e o violão de Jerry Cantrell. Não é segredo para ninguém a vida fodida que Staley levava, seu vício pesadíssimo em drogas pesadíssimas, suas tendências depressivas. Esse lado negro transbordava no Alice in Chains, talvez a banda mais pesada do grunge (título disputado com o Soundgarden), e eram frequentes as letras falando sobre vício, depressão, morte e cadeiras nervosas. “Don’t Follow” é tão negativa e depressiva quanto as outras, falando sobre nunca mais voltar, sobre querer viver em paz e não poder – a única diferença é a falta de todo o peso da banda – pelo menos na primeira metade da música. Após o fim do segundo verso o violão cessa, a gaita silencia, e a voz de Staley some enquanto pronuncia “…estou indo pro buraco” – e então a verdadeira música começa. O violão retoma numa batida diferente, a gaita entra e começa a solar enquanto espera por Staley, que vem com raiva e desespero. “Esqueci minha mulher, perdi meus amigos; merdas que fiz, lugares por onde dormi” dá início a um dos trechos mais sinceros e assustadores que se tem notícia no rock’n'roll. O que temos aqui é simplesmente um grito de desespero, um pedido de ajuda de alguém que sabe que não tem salvação. “Pense nas coisas que eu disse, leia as páginas frias e tão mortas, e pelamordedeus me leva pra casa!”, contrariando o papo no início na música. É claro que ele quer ser salvo, é claro que ele quer ir pra casa, mas ele sabe que não consegue salvar-se de si mesmo. Staley sabia que não havia mais volta. Mas mesmo assim, ele gritava.

Música 2 – “Mary’s Place” do Bruce Springsteen

“Eu tenho sete imagens de Buda, o Profeta na ponta da língua; Sete anjos misericordiosos suspirando pelo buraco negro em frente ao Sol…”. Se tem um motivo para que eu chame Bruce Springsteen de “herói”, o motivo é o álbum “The Rising”. Lançado meses depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, a voz do Chefe se ergue buscando sentido após o inimaginável, esperança após o horror e reconstrução diante das ruínas. Cada música de The Rising é uma faceta da América após os atentados – mas nenhuma é mais pessoal e tocante que “Mary’s Place”. Escrita do ponto de vista de alguém que perde a pessoa amada e tenta conviver com essa perda, o personagem busca consolo na fé e também no rock’n'roll: “Meu coração está enegrecido, mas já começa a se elevar; e eu me agarro a cada pedaço de fé que consigo ver”. Músicas com um tema tão negro geralmente são tristíssimas, mas “Mary’s Place” – assim como o personagem – recusa-se a entregar-se para o dor e o desespero. “Deixa chover, deixa chover” brada Springsteen, e em seguida nos convida para uma festa em “Mary’s Place”, preparada pelo personagem. “A mobília foi guardada na varanda, e a música já está bem alta; Sonho com você em meus braços – e me perco no meio da multidão…”. A dor ainda existe, a falta sempre será sentida…mas a vida deve continuar. A vida sempre continua, a música não para nunca. O personagem sabe disso, e isso lhe dá uma força incrível. “Me conta, como é que alguém consegue viver de coração partido?”, pergunta ele – e eu sinceramente não sei responder. Essa música tem um poder incrível sobre mim – eu não consigo ouvir ela sem ficar com os olhos marejados e uma vontade incrível de resistir, lutar, enfrentar o que quer se seja. Porra, esse cara perdeu o que ele tinha de mais importante, e tá lá chamando a gente pra festa! Eu queria ser forte assim – apesar de esperar nunca passar por uma situação dessas. “Eu tenho uma foto sua em minha correntinha – e a deixo perto do meu coração. É uma luz brilhando em meu peito, me guiando através da escuridão” diz nosso herói, antes de entrar no final apoteótico da música. “Turn it up! Turn it up! Turn it up…!”. Se esse não é o tão falado poder do rock’n'roll, eu não sei o que é!