Duas Músicas e Dois Lados

Postado por Enrique em 17 de abril de 2009

Música 1 – “Don’t Follow”, do Alice in Chains

“Heeeey, eu..nunca mais voltarei pra casa” começa Don’t Follow na voz característica de Layne Staley, somente acompanhada por uma gaita e o violão de Jerry Cantrell. Não é segredo para ninguém a vida fodida que Staley levava, seu vício pesadíssimo em drogas pesadíssimas, suas tendências depressivas. Esse lado negro transbordava no Alice in Chains, talvez a banda mais pesada do grunge (título disputado com o Soundgarden), e eram frequentes as letras falando sobre vício, depressão, morte e cadeiras nervosas. “Don’t Follow” é tão negativa e depressiva quanto as outras, falando sobre nunca mais voltar, sobre querer viver em paz e não poder – a única diferença é a falta de todo o peso da banda – pelo menos na primeira metade da música. Após o fim do segundo verso o violão cessa, a gaita silencia, e a voz de Staley some enquanto pronuncia “…estou indo pro buraco” – e então a verdadeira música começa. O violão retoma numa batida diferente, a gaita entra e começa a solar enquanto espera por Staley, que vem com raiva e desespero. “Esqueci minha mulher, perdi meus amigos; merdas que fiz, lugares por onde dormi” dá início a um dos trechos mais sinceros e assustadores que se tem notícia no rock’n'roll. O que temos aqui é simplesmente um grito de desespero, um pedido de ajuda de alguém que sabe que não tem salvação. “Pense nas coisas que eu disse, leia as páginas frias e tão mortas, e pelamordedeus me leva pra casa!”, contrariando o papo no início na música. É claro que ele quer ser salvo, é claro que ele quer ir pra casa, mas ele sabe que não consegue salvar-se de si mesmo. Staley sabia que não havia mais volta. Mas mesmo assim, ele gritava.

Música 2 – “Mary’s Place” do Bruce Springsteen

“Eu tenho sete imagens de Buda, o Profeta na ponta da língua; Sete anjos misericordiosos suspirando pelo buraco negro em frente ao Sol…”. Se tem um motivo para que eu chame Bruce Springsteen de “herói”, o motivo é o álbum “The Rising”. Lançado meses depois dos ataques terroristas de 11 de setembro, a voz do Chefe se ergue buscando sentido após o inimaginável, esperança após o horror e reconstrução diante das ruínas. Cada música de The Rising é uma faceta da América após os atentados – mas nenhuma é mais pessoal e tocante que “Mary’s Place”. Escrita do ponto de vista de alguém que perde a pessoa amada e tenta conviver com essa perda, o personagem busca consolo na fé e também no rock’n'roll: “Meu coração está enegrecido, mas já começa a se elevar; e eu me agarro a cada pedaço de fé que consigo ver”. Músicas com um tema tão negro geralmente são tristíssimas, mas “Mary’s Place” – assim como o personagem – recusa-se a entregar-se para o dor e o desespero. “Deixa chover, deixa chover” brada Springsteen, e em seguida nos convida para uma festa em “Mary’s Place”, preparada pelo personagem. “A mobília foi guardada na varanda, e a música já está bem alta; Sonho com você em meus braços – e me perco no meio da multidão…”. A dor ainda existe, a falta sempre será sentida…mas a vida deve continuar. A vida sempre continua, a música não para nunca. O personagem sabe disso, e isso lhe dá uma força incrível. “Me conta, como é que alguém consegue viver de coração partido?”, pergunta ele – e eu sinceramente não sei responder. Essa música tem um poder incrível sobre mim – eu não consigo ouvir ela sem ficar com os olhos marejados e uma vontade incrível de resistir, lutar, enfrentar o que quer se seja. Porra, esse cara perdeu o que ele tinha de mais importante, e tá lá chamando a gente pra festa! Eu queria ser forte assim – apesar de esperar nunca passar por uma situação dessas. “Eu tenho uma foto sua em minha correntinha – e a deixo perto do meu coração. É uma luz brilhando em meu peito, me guiando através da escuridão” diz nosso herói, antes de entrar no final apoteótico da música. “Turn it up! Turn it up! Turn it up…!”. Se esse não é o tão falado poder do rock’n'roll, eu não sei o que é!


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