Grimório

Postado por Enrique em 14 de abril de 2009

“There’s new ghost returning to the earth beneath the haze
there’s new poets burning through the lines of every page
I’m am unpainted portrait;
I am staring at a new sunset,
Without any memories yet…”

A porta se abriu com um rangido e ele sentiu o pó bater em sua cara, o cheiro de coisa antiga atingindo-o em cheio. Quanto tempo fazia que aquele quarto não era aberto? Ele sabia que o quarto seria aberto novamente, mas parecia algo tão distante que ele até havia esquecido. E aqui estava ele, abrindo a porta. Ele pensava ter perdido a chave, jogado fora ou à esquecido em algum canto. Mas a feiticeira fez ele se lembrar. As palavras dela ainda ressoavam em sua mente, e ele ainda se esforçava pra entender tudo o que foi dito, mas a imagem dela não sumia da cabeça. E então, como mágica, ele se lembrou de onde estava a chave.

Da árvore no quintal você enxerga a janelinha da cozinha, e através da janela você vê o armário, e dentro do armários potes e mais potes. Existe um pote azul e um pote verde lado a lado; tire os dois do lugar e verá uma pequena boneca russa lá no fundo. Boneca depois de boneca depois de boneca depois de boneca depois de boneca, você bate a mão no peito e sente a pequena chave dourada dançando no bolso da sua camisa (e sempre esteve lá).

Abre-se a janela, amarram-se as cortinas, deixa o sol entrar e iluminar tudo, queimar o cheiro de mofo e trazer o quarto de volta à vida. O seu próprio quarto, como uma extensão de si mesmo, trancada e esquecida…por um tempo. Agora é hora, pensa ele, o tempo é chegado. Debaixo da cama existe um baú. É pesado, mas é fácil tirá-lo ali debaixo. Ele pensava ter acorrentado e trancado o baú, mas só um fecho segura ele.

Dentro do baú, a armadura que ele usava, ainda com as marcas da última guerra. Estranho…ele se lembrava dela toda destruída e amassada, suja de sangue e fuligem, do jeito que havia voltado do campo de batalha. Ele olhava o peitoral, incrédulo: aonde estava o rombo? O golpe que o havia finalmente derrubado, que havia atravessado sua armadura e cortado sua carne, aonde estava o rombo feito na armadura? Na altura do peito, mas agora só existia um amassado…contra a luz, olhando bem, dava pra ver a parte onde o metal havia sido restaurado. Estranho. Ficou aqui guardado tanto tempo…

A espada e o escudo também estavam ali, mas não era isso que ele buscava ali dentro. Elmo, cinturão, ombreira, aljava, capa…quanta tranqueira. Tudo aquilo lembrava ele da guerra, dos dias sombrios de combate em que ele nem sabia porque estava lutando. Será que só existia isso aqui dentro? Só instrumentos de guerra, só armaduras pesadas e armas letais? Não. Deve haver mais, e caso não haja talvez seja o caso de esvaziar o baú e usá-lo para outras coisas.

Em seu coração, ele sabia porque havia aberto o quarto, porque havia destrancado a janela e tirado o baú debaixo da cama. Havia algo ali dentro, e retirado todos os objetos ele viu, guardado lá no fundo. Amassado e envelhecido, mas ainda completo, a capa rasgada na ponta, algumas orelhas nas primeiras folhas…mas era ele! Seu grimório!

Será que ele ainda era capaz de fazer magia? Houve um tempo, antes bem antes da guerra, em que o mundo era leve e com uma palavra se fazia luz, com duas palavras se conjurava uma orquestra, e três palavras bastavam para se criar um universo. Ele sentia falta disso, do calor da magia, da alegria de fazer o impossível se tornar real. Ainda tem canção pra cantar, pensou ele, e sorriu, mesmo sem saber ao certo a canção. Havia tanto pra ser feito, tanto pra ser dito ainda, as possibilidades era tantas…possibilidades. É pra isso que serve a magia: pra tornar tudo possível. Folheando o grimório, ele se lembrava. E tinha vontade de nunca mais esquecer.

Ele sorria enquanto terminava de folhear o livro. Sim, ali estavam, as páginas em branco. Fechando o grimório e segurando-o com a mão, ele olha ao seu redor e vê todas as tranqueiras que estavam no baú. O que fazer com elas? Ele sentia que não precisava mais delas. Talvez elas devessem ficar ali, como souvenires ou lembranças de algo que já foi. Mas usá-las novamente, não. Não, todo aquele peso era desnecessário, ele agora tinha o grimório, e sabia de novo o motivo de sua existência. Já era o bastante.

A porta ficou aberta, as coisas ficaram jogadas, o baú aberto, enquanto ele saia pela porta, com o livro em suas mãos. Para onde? Ele não sabia. Só sabia que devia se mover, e descobrir se a magia ainda estava em seu sangue. Pensou nas páginas em branco, e sem contar pra ninguém, nem pra ele mesmo, começou a compor uma nova magia. Talvez ficasse boa, talvez não fosse lá aquelas coisas, talvez fosse a mais incrível magia do mundo…mas antes de tudo, o importante era tentar. Talvez ele devesse pedir conselhos pra feiticeira…ela parecia saber das coisas!

“All things are new again, within and without
Sooner or later the ending begins,
And just then it can be said that all things are new again
Within and without
Sooner or later every season ends,
and then forever it can be said that all things are new again”

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