
O que diabos faz um sinal de “Dê a preferência” numa estrada reta, no meio do nada? Dê a preferência para quem, cara pálida? Para o deserto? Para o universo? Para as circunstâncias? Para si mesmo? Em inglês, o nome do sinal de “Dê a preferência” é “Yield” – não por acaso, o nome desse disco – e yield é um verbo que quer dizer mil coisas. Dê a preferência, abra passagem, não se oponha, conceda, permita, dê a razão, dê lugar, recompense, retorne o que se deve, dê o que se produziu. Talvez o sinal no meio do deserto queira dizer “Deixe pra trás e siga em frente”. Deixe pra trás o que, você se pergunta, e eu te respondo, você sabe. Eu sei o que eu deixo pra trás. Cada um de nós sabe. E porque não, deixar pra trás e seguir em frente? Só tem o deserto aqui, ninguém vai saber de nada, então…é, é isso. Deixe pra trás e siga em frente. Yield.
Eu nunca tinha percebido como Yield é um disco solitário. É um disco de estrada também. Essas personagens nas letras estão todas buscando alguma coisa – sentido, significado, liberdade, desejos – e todos parecem estar buscando isso sozinhos. Talvez porque estar na estrada, qualquer que seja ela, é algo solitário. Só você pode caminhar o caminho, já dizia algum guru fajuto de auto-ajuda – mas é verdade. O cara de “Faithful” grita para o sujeito lá em cima que parece não ouvir ninguém, o cara de “No way” não quer deixar de fazer a diferença de maneira alguma, o cara de “Pilate” não quer envelhecer e ficar sozinho com seu cachorro como o cara do livro. Até mesmo o cara de “Wishlist” lista todas essas coisas que ele quer, todos os seus desejos possíveis e impossíveis. Todos eles tem questões, dúvidas, inseguranças, desejos e todas essas coisinhas humanas que nós humanos temos, e só eles podem responder. “Yield” é um bom tanto mais reflexivo que todos os discos anteriores do Pearl Jam. De alguma forma, é como se toda a raiva adolescente dos discos anteriores não fizesse mais sentido – como se culpar o resto do mundo não fosse mais a resposta. É um disco mais quieto, mais calmo, mas ao mesmo tempo tem uma energia única. Não é a calma de quem desiste, é a calma de quem segue em frente. “Só tem a gente aqui dentro, então é melhor limpar essa bagunça e achar algum sentido nisso tudo”. Conceda e siga em frente. Abra a passagem.
E passe. Talvez a própria estrada seja a resposta. Talvez chegar lá não importe tanto quanto o caminho. “Eles disseram que chegar à tempo era o mais importante, fizeram ele querer estar em todo lugar…mas tem tanto à ser dito sobre lugar nenhum” diz MFC, a música-obrigatória-sobre-estradas (todo bom disco do PJ tem pelo menos uma música sobre estradas). “Lowlight” chega numa conclusão parecida: achar seu caminho através dos próprios erros, porque é preciso buscar a luz. Nas versões ao vivo, ele diz “eu não preciso da luz”. Mas eu preciso, então é assim que eu entendo a música – pronto. “In Hiding” não chega numa resposta, mas sim num ritual – três dias, portas e cortinas fechadas, todas as tomadas desconectadas – para voltar a enxergar e ver sentido no mundo. Se funciona, eu não sei – mas que dá vontade de sumir por alguns dias de vez em quando, dá sim. “All Those Yesterdays” se pergunta se não é hora de parar, e afirma que dá tempo de encostar a cabeça hoje a noite e deixar passar – yield – todos esses ontens. São respostas. Não respostas universais, nem insights fenomenais, e muito menos nirvana-em-uma-música – são só respostas momentâneas, coisas que a gente faz para lidar com a vida – que todo mundo faz.
10 anos depois, o título finalmente começa a fazer sentido. Abra mão e siga em frente, conceda e siga em frente, deixe pra trás – não tem ninguém indo embora aqui, ele simplesmente desapareceu, diz “MFC” – e siga em frente. Ache suas respostas, busque sua própria estrada, encontre sua rota de fuga, não bote a culpa em mais ninguém, nem em si mesmo, nem nas circunstâncias, nem em nada. Fuja. Não é crime nenhum fazer isso. Simplesmente deixe pra trás o que for e siga em frente.

"Harmonia - uma estrada que não é reta"
3 Comentários
Muito bom, deu até vontade de ouvir as músicas.
To vendo o site, mas não gostei muito não, o outro que voce fez parece que ficou melhor, esse layout só ficou legalzinho por causa do formato das letras e das imagens, porque a caixa de cometario é igual nos outros sites… mas se eu fosse voce deixava assim mesmo, nem mexia mais pra não piorar e tal…
Ah, e eu não tenho site…