451

Postado por Enrique em 4 de maio de 2009

O que realmente assusta em Fahrenheit 451, romance distópico de Ray Bradbury, é que…fomos nós que escolhemos. Acredito que até a metade do livro eu fiquei esperando um tirano despótico, um governo de ultra-direita, uma invasão alienígena que explicasse porque aquela sociedade não via nada de errado em bombeiros que queimavam livros. Essa era a minha esperança, e também a de Montag, o personagem principal, mas tudo veio abaixo no grande monólogo em que o capitão dos bombeiros explica o que realmente aconteceu. Não foram os governos, as religiões, os banqueiros, as sociedades secretas, não, nenhum desses personagens sombrios. Fomos nós, e só nós, a nossa sociedade nivelando tudo por baixo, preferindo o resumo do resumo às obras completas, as manchetes e fotos do que os fatos detalhados, informação para consumo rápido, ilusão de muita informação com pouco ou nenhum conteúdo.

Pensou em alguma coisa? Pois é.

Uma vez eu li no Lifehacker um artigo que prometia ensinar um método de leitura dinâmica para acompanhar notícias em RSS. Segundo o post, dava pra ler algo em torno de 200 artigos ou resumos de artigos em menos de 10 minutos. Acho que foi por aí que eu comecei a me desencantar com o Lifehacker e o estilo de vida proposto por ele. Sim, vivemos na era da informação: Informação fast-food, fatos que se espalham pelo globo em questão de décimos de segundo, discussões que ficam velhas em questões de minutos, blogs, microblogs, redes sociais, etc, etc, etc. É tudo muito rápido e dinâmico, e isso é ótimo, mas precisa ser tão…raso? Sim, com o advento da internet temos agora um mundo de informações aos nossos pés, mas precisamos realmente tentar absorver tudo ao mesmo tempo agora, feita uma daquelas crianças de desenho animado que engole um bolo inteiro numa bocada só? Não dá nem pra sentir o gosto! De que adianta tanta informação se não dá tempo de processá-la? O que você faz com tantos fatos e tão poucas idéias na cabeça? Participa de um gameshow? É isso o que realmente queremos chamar de era da informação? Manchetes em <h1> que levam até notícias cada vez mais curtas, discussões limitadas à 140 caracteres, muita gente escrevendo muito pouco e dando a ilusão de muito?

Não. Muito pelo contrário.

Essa é a visão errada sobre a questão. O próprio livro faz questão de estilhaçá-la, poucas páginas depois do negro segredo da sociedade ter sido pelo revelado pelo capitão dos bombeiros. “Você é um romântico incurável – disse Faber – Seria cômico se não fosse trágico. Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antes estavam nos livros. As mesmas coisas poderiam estar nas “famílias das paredes”. Os mesmos detalhes meticulosos, a mesma consciência poderiam ser transmitidos pelos rádios e televisores, mas não são. Não, não! (…) Descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e nos velhos amigos; procure na natureza e procure em você mesmo. Os livros eram só um tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer.”

A própria internet é só mais um tipo de receptáculo. Este blog aqui é só mais um receptáculo entre tantos, uma mensagem na garrafa lançada no mar – um mar cheio de garrafas, se você for pensar. O que fazemos com os receptáculos, o valor que eles terão, somos nós que decidimos. A internet pode ser tão burra e demente quanto um programa de pegadinhas do Sérgio Mallandro, e ao mesmo tempo tão rica e profunda quanto o mais rico e profundo livro já escrito. A grande diferença dela para os receptáculos anteriores é que qualquer um pode guardar coisas nela. Qualquer um pode ter seu espaço nela, e guardar o que receia esquecer, o que deseja que os outros lembrem, o que considera importante para o futuro. Talvez sejam suas opiniões sobre nossa sociedade, talvez seja uma equação que solucione os problemas de energia do mundo, talvez sejam suas experiências com relacionamentos, talvez seja só um vídeo engraçado com um gatinho. Tem espaço pra tudo, e mais um pouco. Qualquer idiota pode escrever, e eles escrevem mesmo (olha lá os comentários do Youtube que não deixam a gente mentir). E isso é bom, de uma forma ou de outra. Isso é o que somos, como sociedade, como seres humanos. Partes ruins, sim, mas partes boas também. Não nego que exista muita coisa escrota na internet: os vídeos cabulosos do 4chan, os comentários escrotos do Youtube, os blogs feitos pra ganhar dinheiro sem dizer nada e os blogs que ensinam a ganhar dinheiro sem fazer nada, as invasões de privacidade, a molecada sem respeito nos jogos online, os spams que parecem ter adquirido vida própria, e várias outras coisas. Mas esse é só um lado da moeda…do outro lado temos a wikipédia, o creative commons, o slashdot, o projeto gutenberg, as ferramentas de publicação online, a liberdade da informação, a rapidez com que os fatos se espalham, a possibilidade de tirar dúvidas somente digitando uma frase no Google, o acesso a boa(?) parte de tudo que já produzimos culturalmente como sociedade, como civilização, a chance de qualquer um com uma idéia, uma música, um quadrinho, uma obra que seja na cabeça, conseguir publicar e mostrar aquilo para o mundo todo por um preço muito barato. Sinceramente, eu acho a internet fantástica. As possibilidades que ela cria, o que ela pode nos trazer, o que podemos fazer com ela…é simplesmente ilimitado. Agora, você pode mergulhar de cabeça ou só ficar mexendo os pés no rasinho. A escolha é toda sua – ou melhor, toda nossa.

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Um Comentrio to “451”

  1. Elu disse:

    Tudo tudo tuuuudo sempre é uma questão de ponto de vista.

    Mas tem aquele ditado também né “O que eu espero senhores, é que depois de um razoável período de discussão, todo mundo concorde comigo.” Vamos combinar que o problema é esse na realidade…

    P.s: Fiquei com vontade de ler o livro.

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