Em minúscula

Postado por Enrique em 7 de maio de 2009

Quando formos à Lua

Tem livros que você não sente interesse de ler, e não lê. O assunto não faz seu gênero, o autor não lhe agrada, a capa é meio nhé, mas não dá vontade de ler e pronto. Tem livros que você até se interessa, começa a ler e acaba desistindo. Talvez o livro não seja a coca-cola que se prometia, talvez você tenha lido romances demais daquele tipo, talvez seja falta de paciência mesmo. Você fecha o livro, mas ainda pensa em voltar nele. Tem livros que você lê e gosta, realmente gosta. O assunto é genial, o autor é incrível, a prosa é instigante, prende você na cadeira, aquela coisa toda. Sempre que alguém falar no livro, você vai se lembrar que já leu ele, e adorou.

E existe um outro tipo de livro.

Tem livros que são seus. Talvez você perceba logo de cara, talvez só depois de o terminar, talvez lá pela página 117. Mas o livro é seu, sempre foi e sempre será a partir de agora. Partes dele flutuarão sempre pela sua mente, frases boas ficarão na memória, idéias que viu no livro passarão a fazer parte das suas idéias, se pegará pensando o que determinado personagem faria no seu lugar. Não de uma maneira forçada, mas de maneira absolutamente natural. É como se parte da sua alma estivesse ali, conceituada por aquelas palavras, fotografada nas cenas do livro, um pequeno pedaço seu que alguém roubou e colocou ali. É o tipo de livro que você irá ler de novo – e depois reler novamente, e novamente – talvez em busca de um pouco mais de si mesmo retratado naquelas páginas. Espelhos são sempre fascinantes, não é?

Você vai ver “Amor em minúscula” por aí sendo vendido como mais um desses livros sobre animais, na linha de “Marley e Eu”. Quem foi o gênio responsável por essa jogada de marketing eu não sei dizer, mas o que eu posso dizer é que não é um livro sobre animais. Não é um livro sobre como o amor de um gatinho salva um homem da solidão. Se eu fosse resumir assim, eu diria que o livro é sobre como um ato simples, inútil, até besta, pode mudar sua vida e te levar pra caminhos inesperados. É sobre como deixar um pires de leite pra um gatinho na porta do seu apartamento pode virar sua vida do avesso – fazer você conhecer um pai, um amigo e o amor da sua vida.Mas é mais do que isso. There’s much more than this.

É sobre a vida, e sobre como ela é exatamente aquilo que queremos ver, aquilo que queremos fazer dela. É sobre as pequenas coisas que formam a vida, os pequenos fatos que nos acontecem, os pequenos atos que nos movem, os pequenos pensamentos que surgem e desaparecem, sobre como tantas coisas tão pequenas formam o todo completo. É sobre acasos que nos levam ao destino, sobre destinos que se criam por acaso, sobre os fios invisíveis que nos ligam, sobre os fios invisíveis que sempre existiram e existirão, sobre os fios invisíveis que tecemos, sobre como acaso e destino são a mesmíssima coisa. Sobre mistérios, sobre revelações, sobre mentiras que contamos pra nós mesmos, sobre verdades que o universo nos joga na cara, sobre abrir os olhos e limpar os ouvidos, e prestar atenção em tudo. Sobre se deixar pela vida, e ao mesmo tempo tomar controle sobre ela, sobre começar a tocar a música sem deixar de apreciá-la. Sobre a nostalgia do futuro, aquele sentimento de que o futuro será ótimo mas temos todo o presente pela frente antes de chegarmos à ele. Sobre a tristeza inerente das coisas, sobre o poder das palavras e dos nomes pras coisas, sobre palavras que precisam ser inventadas. Sobre a filosofia felina. Sobre o ato de quebrar o ovo e romper o mundo, sobre trocar a pele e lavar a alma. Sobre acreditar naquilo que dizem seus sentimentos, sobre seguir o caminho que só você sabe que é certo, por mais tortuoso e incerto que seja, sobre aceitar as dores e as incertezas e as inseguranças e seguir em frente, mesmo assim. Sobre…sobre tanta coisa, que seria inútil colocar tudo aqui. Sobre um mundo que existe lá fora, embora nem sempre possamos compreênde-lo. E, principalmente, sobre nada ser casual. Lembre-se, Samuel, que nada é casual.

Nadinha.

Quem descobriu “Amor em minúscula” foi lady Getsuchan. Durante dias ela falou sobre o livro, repetindo várias frases ótimas que leu nele, e eu naturalmente me interessei por ele. Mas sinceramente, eu não esperava gostar tanto quanto gostei, eu não esperava me ver refletido naqueles personagens. Não esperava ver minha solidão e minha busca por sentido num mundo sem sentido refletidas no Samuel; não esperava ver meu medo de se machucar de novo e sempre traduzido na pessoa da Gabriela; não esperava ver meu lado escuro e estranho revelado nas conversas bizarras do Valdemar; não esperava ver as palavras que eu sempre quis dizer serem ditas pelo Titus. E entretanto, lá estava parte de mim naquele livro. Improvável? Um mero acaso? Um golpe de destino? Não, é só mais um caso de amor em minúscula.

- Da rosa.

- Da rosa.

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3 Comentrios to “Em minúscula”

  1. Cris disse:

    Ah, eu como uma amante dos livros, a-d-o-r-e-i esse post *-*
    Acabei de ler um livro e estava aqui sem fazer nada, resolvi dar uma lida nos blog e leio esse post, haha
    Muito, muito bom!!

  2. J. disse:

    Descreveu magistralmente a relação que eu tenho com alguns livros.
    Costumava dizer que só entende darkover ( uma série desacreditada de ficção científica) quem é mesmo darkovano… mas… vc definiu melhor.
    Livros espelho.
    Acho q é o meu narcisismo favorito.

    E fiquei com vontade de ler amor em minúscula tb. PQ as sinopses e propagandas me deixaram achando q ele era um livro bobo.

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