Posts de maio, 2009

Don’t Be a Dick

terça-feira, maio 19th, 2009

Tem uma regra do universo que diz “Não seja um pênis”. Basicamente, se você tiver a oportunidade de deixar a vida de qualquer pessoa que cruzar o seu caminho um pouco ou muito pior, não o faça. “Ah, mas e se…”. Foda-se. Guarde seus “se”s para seu próprio julgamento, você é quem tem que saber quando ser um pênis e quando não ser. Eu sei que não é tão simples assim, e é disso que eu vou falar. Mas, basicamente, não seja um pênis.

Hoje eu acordei chato. Inquieto. Um porre pra mim mesmo. Um monte de coisinhas escrotas no trabalho me lembrou que eu odeio o que eu faço e que não estou fazendo porra nenhuma pra sair de lá, e isso me deixa realmente puto comigo mesmo. Sabe aqueles dias em que você acorda sentindo a magia percorrendo suas veias, sentindo que o mundo é todo seu, que tudo vai dar certo e tudo vai ser legal? Eu acordei o oposto disso. Com vontade de chamar o Gandalf de velho pedega farsante, com a sensação de que deram o mundo para o moleque escroto que me zoava na quinta série, e que tudo vai acabar errado e com adoçante artificial. Grunf.

Tem uma instituição de caridade que liga todo santo mês pra gente lá no escritório, pedindo colaborações. É uma instituição que cuida de crianças carentes que tem câncer, sem ajuda nenhuma do governo, só com doações e trabalho voluntário. O trabalho deles é bem reconhecido na cidade, super necessário e realmente louvável. E todo mês eles ligam lá, e é a mesma mulher que sempre liga, sempre com a voz animada recitando o discurso que ela deve repetir para todas as milhares ligações que faz. Tem dia que tudo está legal, você tem dinheiro na carteira, resolve colaborar sem problemas. É o que eu faço geralmente. Tem dia que você tá sem grana, ou mesmo não quer colaborar, aí dá um motivo e pede pra eles ligarem na outra semana.

E tem dias, como hoje, que a mulher liga e a primeira coisa que você pensa “Que merda, é a mulher da instituição”. E ela começa a falar e você quer que ela pare, você não quer se lembrar que existem pessoas com problemas MILHÕES DE VEZES maiores que os seus, você só quer ficar ali no seu canto. E ela ia falando e eu ia grunhindo em concordância. Aí ela disse “Olha, eu sei que a gente enche vocês, mas é que..” e eu cortei ela e disse “Tudo bem, eu vou colaborar com dez reais”. Ela disse “Muito obrigado, Sr. Enrique!”, genuinamente animada, e tudo que eu fiz foi desligar o telefone.

Assim que o telefone encostou no repouso, eu caí em mim. Que merda. Que merda de criança mimada escrota eu sou. Já imaginou o tanto de merda que essa mulher ouve o dia todo? Imagina o tanto de sapos alheios que ela tem que engolir, de gente cujos problemas não tem porra nenhuma a ver com ela, mas como ela resolveu ligar porque não descontar nela? E ela tá lá pedindo grana pra ajudar crianças que sofrem da doença mais filha da puta que existe, que estariam completamente perdidas se alguém não levantasse a bunda da cadeira e fizesse alguma coisa. A mulher tá lá, fazendo a parte dela. E eu tive a oportunidade de deixar o dia de merda dela um pouquinho melhor, com alguma merdinha de palavra legal que não ia me custar nada, porque quando a gente tem um dia de merda qualquer palavrinha inesperada de apoio já é alguma coisa. E eu disse grunf. Gênio, Enrique, você é um gênio.

Enfim, a moral da história é que…eu fui um pênis. Bem grande e nojento. Não porque eu realmente seja um cara escroto, mas porque na hora eu estava realmente preocupado e entretido com as sujeirinhas que existem no meu umbigo. É, não tem bem uma moral, exceto que..Crianças: não sejam um pênis. É um saco ser um pênis. (Dãã).

(E esse blog anda muito pra dentro. Hora de botar ele pra fora.)

Sobre Tênis e Músicas (é mais sobre tênis, mas enfim)

sexta-feira, maio 15th, 2009

Aí hoje eu fui no shopping center, numa loja de ARTIGOS ESPORTIVOS, comprar um TÊNIS melhorzinho, porque o meu atual está me fodendo a planta do pé toda vez que eu vou CAMINHAR depois do trabalho. Sim, é o Enrique escrevendo. Acho.
A indústria dos tênis é uma coisa interessante. Sabe aquele futuro que mostram nos Jetsons, com um visual todo espalhafatoso, cheio de trique-triques, e que nunca se tornou verdade? Nunca se tornou verdade, exceto pras fábricas de tênis, acho eu. Cara, olha só essa prateleira de tênis, um modelo mais espalhafatoso que o outro, cheios de detalhezinhos e cores extravagantes e amortecedores bizarros e materiais estranhos e sei lá mais o que. Tudo o que eu queria era um tênis que não brilhasse! Eu tenho dois modelos de tênis preferidos: All-Star clássicão, jeans azul e mais nada, e aqueles da Adidas que tentam imitar o All-Star mas são mais “firmes”, também de uma cor só e só as três listras brancas. Meu tênis atual é um Adidas desses; procurei Araçatuba inteeeira (…três lojas de tênis, no total) por ele, e agora tenho o prazer de o ver envelhecer e ficar todo confortável e fodidão. Tênis bom é todo confortável e fodidão, diz meu coraçãozinho punk.

A moça começou me mostrando alguns modelos da marca Whatever_1, com amortecedor em 27 lugares diferente, airbag e cup holder, por meros 300 reais. Eu disse que não queria fazer um investimento tão alto, e ela mostrou outros modelos da marca Whatever_2. Mais modestos, só 10 amortecedores, direção hidráulica e espelho no teto solar (Tv Pirata FTW), por apenas 200 reais. Aí eu tive que ser sincero. “Moça, eu sou um fodido, e só quero um tênis com amortecedor que não machuque meu pé enquanto tento perder essa maledeta barriga.” Tcharããã, funcionou! E o melhor é que o tênis é confortável e nem brilha tanto assim.

(Eu só preciso colocar um cobertor em cima dele quando vou dormir no quarto de noite.)

E claaaro que eu tinha que passar na livraria. Acabei achando o “31 Canções” do Nick Hornby, livro que eu queria ler faz SÉCULOS (tipo, 5 anos) e nunca havia encontrado (na verdade eu nem procurei direito, mas enfim). Só li alguns ensaios, mas já achei extremamente ótimo. Tem uma coisa que ele fala logo no começo, e que eu nunca havia percebido: música boa, realmente boa, que você realmente gosta, não é aquela que marca momentos especiais na sua vida. É aquela que continua na sua vida, superando momentos especiais e momentos não especiais, e tem sua importância própria só por existir. Deu vontade de identificar e listar as minhas músicas realmente especiais, e talvez vocês vejam isso logo por aqui. Talvez, porque eu sou enrolado pra caralho e todo mundo sabe disso.

The Hogfather

terça-feira, maio 12th, 2009

Alguns dias…errr…algumas semanas atrás, a rnt e a J. perguntaram de qual livro do Terry Pratchett era a citação desde post aqui. Olha, desculpem a demora, é que…é que eu sou um preguiçoso sem salvação :( . Como forma de compensar minha mancada, aí vai um post todo bonitinho sobre Hogfather! Isso é, se vocês ainda estiverem lendo isto :(

HO. HO. HO.

HO. HO. HO.

Hogfather é um dos livros mais legais da série Discworld, sem sombra de dúvida. Não é meu preferido (essa honra pertence a The Wee Free Men), mas chega bem perto. Ele pertence ao ciclo de livros focados na Morte, ou melhor, a personificação dela em Discworld: um grande esqueleto de capuz preto, com o Big Bang no fundo dos olhos e uma mania incurável de tentar entender e ser um pouco como os humanos. É essa mania que move todos os livros focados nele, e também o grande charme do personagem. Como não gostar de uma Morte que adora gatos, e que faz tudo pelo amor de sua “netinha”, a superfoda Susan St. Helit. A Susan é outro personagem ótimo: não é nem um pouco natural ser neta da Morte, e talvez isso tenha feito dela extremamente incrédula e infinitamente prática. É o tipo de mulher que não se preocupa em explicar pros alunos que não existem monstros dentro do armário: ela simplesmente pega um porrete, abre o armário e espanca o monstro até ele fugir pela janela. E não, ela não está fingindo.

Juntos, Morte e Susan são os dois heróis de Hogfather. A trama do livro começa com os Auditores do Tempo tentando mais uma vez destruir o Discworld (que na visão deles e de qualquer pessoa com um mínimo de sanidade, é um erro e uma afronta aos bons costumes), desta vez impedindo que o Hogfather, uma espécie de Papai Noel desse universo, entregue todos os presentes na noite de Natal. Isso destruiria o mundo por razões que são melhores explicadas no livro (leia-se: spoilers), e eles resolvem contratar um assassino para matar o Papai Noel. E em Discworld, caso você precise de um assassino, você vai à Guilda de Assassinos, claro, e a guilda tem exatamente o homem necessário para uma missão peculiar: o maníaco e segundo-melhor-vilão-da-série Mr. Teatime. (É um mero detalhe que eles também estavam tentando se livrar daquele maluco, mas enfim). Teatime tem um plano elaborado para acabar com Noel, que envolve…bem, envolve fadas e dentes. Fadas. E dentes.

O plano aparentemente funciona, porque o Hogfather desaparece e os presentes não estão sendo entregues pelo mundo. É claro que a Morte sente o cheiro de coisa errada no ar, e decide investigar. Bem, na verdade ele manda Susan para o castelo do Hogfather investigar o que estaria acontecendo, e ele decide…bem, a Morte decide se tornar Papai Noel por uma noite e entregar presentes para todas as boas criancinhas do mundo. HO. HO. HO. A partir daí o livro se divide, com a Morte e Albert (seu mordomo) descobrindo os problemas e as dúvidas existenciais envolvidas em entregar presentes para todas as boas crianças do mundo, e Susan investigando os planos bizarros de Mr. Teatime.

Como todo bom livro de Pratchett, além da trama principal existem várias outras coisas legais acontecendo em paralelo. Uma coisa que eu acho ótimo em Hogfather é a participação dos magos da Universidade Invisível, principalmente meu ídolo, Munstrum Ridcully. Sabe o mago calmo, paciente, sábio, em contato com a natureza, pacífico e bondoso? Ridcully é o extremo oposto disso. É nesse livro também que aparece pela primeira vez o HEX, o supercomputador movido a formigas e magia, que é usado pela Morte para resolver o grande mistério da trama. E claro, o Deus das Ressacas, outra sacada genial do Pratchett. Toda cultura não tem um Deus da Bebedeira, das Festas, Orgias e Bacanais? Bem, tudo no universo é equilíbrio, e é preciso que exista um Deus do Dia Seguinte…e o estado dele não é nada bom.

Infelizmente, não existe tradução para Hogfather ainda em português. Dizem por aí que dá pra achar a versão em inglês pela internet, ou até mesmo a minissérie da BBC baseada no livro, mas eu não saberia dizer aonde. Sabe como é, eu sou contra essa coisa de pirataria na internet.

Em minúscula

quinta-feira, maio 7th, 2009

Quando formos à Lua

Tem livros que você não sente interesse de ler, e não lê. O assunto não faz seu gênero, o autor não lhe agrada, a capa é meio nhé, mas não dá vontade de ler e pronto. Tem livros que você até se interessa, começa a ler e acaba desistindo. Talvez o livro não seja a coca-cola que se prometia, talvez você tenha lido romances demais daquele tipo, talvez seja falta de paciência mesmo. Você fecha o livro, mas ainda pensa em voltar nele. Tem livros que você lê e gosta, realmente gosta. O assunto é genial, o autor é incrível, a prosa é instigante, prende você na cadeira, aquela coisa toda. Sempre que alguém falar no livro, você vai se lembrar que já leu ele, e adorou.

E existe um outro tipo de livro.

Tem livros que são seus. Talvez você perceba logo de cara, talvez só depois de o terminar, talvez lá pela página 117. Mas o livro é seu, sempre foi e sempre será a partir de agora. Partes dele flutuarão sempre pela sua mente, frases boas ficarão na memória, idéias que viu no livro passarão a fazer parte das suas idéias, se pegará pensando o que determinado personagem faria no seu lugar. Não de uma maneira forçada, mas de maneira absolutamente natural. É como se parte da sua alma estivesse ali, conceituada por aquelas palavras, fotografada nas cenas do livro, um pequeno pedaço seu que alguém roubou e colocou ali. É o tipo de livro que você irá ler de novo – e depois reler novamente, e novamente – talvez em busca de um pouco mais de si mesmo retratado naquelas páginas. Espelhos são sempre fascinantes, não é?

Você vai ver “Amor em minúscula” por aí sendo vendido como mais um desses livros sobre animais, na linha de “Marley e Eu”. Quem foi o gênio responsável por essa jogada de marketing eu não sei dizer, mas o que eu posso dizer é que não é um livro sobre animais. Não é um livro sobre como o amor de um gatinho salva um homem da solidão. Se eu fosse resumir assim, eu diria que o livro é sobre como um ato simples, inútil, até besta, pode mudar sua vida e te levar pra caminhos inesperados. É sobre como deixar um pires de leite pra um gatinho na porta do seu apartamento pode virar sua vida do avesso – fazer você conhecer um pai, um amigo e o amor da sua vida.Mas é mais do que isso. There’s much more than this.

É sobre a vida, e sobre como ela é exatamente aquilo que queremos ver, aquilo que queremos fazer dela. É sobre as pequenas coisas que formam a vida, os pequenos fatos que nos acontecem, os pequenos atos que nos movem, os pequenos pensamentos que surgem e desaparecem, sobre como tantas coisas tão pequenas formam o todo completo. É sobre acasos que nos levam ao destino, sobre destinos que se criam por acaso, sobre os fios invisíveis que nos ligam, sobre os fios invisíveis que sempre existiram e existirão, sobre os fios invisíveis que tecemos, sobre como acaso e destino são a mesmíssima coisa. Sobre mistérios, sobre revelações, sobre mentiras que contamos pra nós mesmos, sobre verdades que o universo nos joga na cara, sobre abrir os olhos e limpar os ouvidos, e prestar atenção em tudo. Sobre se deixar pela vida, e ao mesmo tempo tomar controle sobre ela, sobre começar a tocar a música sem deixar de apreciá-la. Sobre a nostalgia do futuro, aquele sentimento de que o futuro será ótimo mas temos todo o presente pela frente antes de chegarmos à ele. Sobre a tristeza inerente das coisas, sobre o poder das palavras e dos nomes pras coisas, sobre palavras que precisam ser inventadas. Sobre a filosofia felina. Sobre o ato de quebrar o ovo e romper o mundo, sobre trocar a pele e lavar a alma. Sobre acreditar naquilo que dizem seus sentimentos, sobre seguir o caminho que só você sabe que é certo, por mais tortuoso e incerto que seja, sobre aceitar as dores e as incertezas e as inseguranças e seguir em frente, mesmo assim. Sobre…sobre tanta coisa, que seria inútil colocar tudo aqui. Sobre um mundo que existe lá fora, embora nem sempre possamos compreênde-lo. E, principalmente, sobre nada ser casual. Lembre-se, Samuel, que nada é casual.

Nadinha.

Quem descobriu “Amor em minúscula” foi lady Getsuchan. Durante dias ela falou sobre o livro, repetindo várias frases ótimas que leu nele, e eu naturalmente me interessei por ele. Mas sinceramente, eu não esperava gostar tanto quanto gostei, eu não esperava me ver refletido naqueles personagens. Não esperava ver minha solidão e minha busca por sentido num mundo sem sentido refletidas no Samuel; não esperava ver meu medo de se machucar de novo e sempre traduzido na pessoa da Gabriela; não esperava ver meu lado escuro e estranho revelado nas conversas bizarras do Valdemar; não esperava ver as palavras que eu sempre quis dizer serem ditas pelo Titus. E entretanto, lá estava parte de mim naquele livro. Improvável? Um mero acaso? Um golpe de destino? Não, é só mais um caso de amor em minúscula.

- Da rosa.

- Da rosa.

Viadagem em Família

quarta-feira, maio 6th, 2009

451

segunda-feira, maio 4th, 2009

O que realmente assusta em Fahrenheit 451, romance distópico de Ray Bradbury, é que…fomos nós que escolhemos. Acredito que até a metade do livro eu fiquei esperando um tirano despótico, um governo de ultra-direita, uma invasão alienígena que explicasse porque aquela sociedade não via nada de errado em bombeiros que queimavam livros. Essa era a minha esperança, e também a de Montag, o personagem principal, mas tudo veio abaixo no grande monólogo em que o capitão dos bombeiros explica o que realmente aconteceu. Não foram os governos, as religiões, os banqueiros, as sociedades secretas, não, nenhum desses personagens sombrios. Fomos nós, e só nós, a nossa sociedade nivelando tudo por baixo, preferindo o resumo do resumo às obras completas, as manchetes e fotos do que os fatos detalhados, informação para consumo rápido, ilusão de muita informação com pouco ou nenhum conteúdo.

Pensou em alguma coisa? Pois é.

Uma vez eu li no Lifehacker um artigo que prometia ensinar um método de leitura dinâmica para acompanhar notícias em RSS. Segundo o post, dava pra ler algo em torno de 200 artigos ou resumos de artigos em menos de 10 minutos. Acho que foi por aí que eu comecei a me desencantar com o Lifehacker e o estilo de vida proposto por ele. Sim, vivemos na era da informação: Informação fast-food, fatos que se espalham pelo globo em questão de décimos de segundo, discussões que ficam velhas em questões de minutos, blogs, microblogs, redes sociais, etc, etc, etc. É tudo muito rápido e dinâmico, e isso é ótimo, mas precisa ser tão…raso? Sim, com o advento da internet temos agora um mundo de informações aos nossos pés, mas precisamos realmente tentar absorver tudo ao mesmo tempo agora, feita uma daquelas crianças de desenho animado que engole um bolo inteiro numa bocada só? Não dá nem pra sentir o gosto! De que adianta tanta informação se não dá tempo de processá-la? O que você faz com tantos fatos e tão poucas idéias na cabeça? Participa de um gameshow? É isso o que realmente queremos chamar de era da informação? Manchetes em <h1> que levam até notícias cada vez mais curtas, discussões limitadas à 140 caracteres, muita gente escrevendo muito pouco e dando a ilusão de muito?

Não. Muito pelo contrário.

Essa é a visão errada sobre a questão. O próprio livro faz questão de estilhaçá-la, poucas páginas depois do negro segredo da sociedade ter sido pelo revelado pelo capitão dos bombeiros. “Você é um romântico incurável – disse Faber – Seria cômico se não fosse trágico. Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antes estavam nos livros. As mesmas coisas poderiam estar nas “famílias das paredes”. Os mesmos detalhes meticulosos, a mesma consciência poderiam ser transmitidos pelos rádios e televisores, mas não são. Não, não! (…) Descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e nos velhos amigos; procure na natureza e procure em você mesmo. Os livros eram só um tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer.”

A própria internet é só mais um tipo de receptáculo. Este blog aqui é só mais um receptáculo entre tantos, uma mensagem na garrafa lançada no mar – um mar cheio de garrafas, se você for pensar. O que fazemos com os receptáculos, o valor que eles terão, somos nós que decidimos. A internet pode ser tão burra e demente quanto um programa de pegadinhas do Sérgio Mallandro, e ao mesmo tempo tão rica e profunda quanto o mais rico e profundo livro já escrito. A grande diferença dela para os receptáculos anteriores é que qualquer um pode guardar coisas nela. Qualquer um pode ter seu espaço nela, e guardar o que receia esquecer, o que deseja que os outros lembrem, o que considera importante para o futuro. Talvez sejam suas opiniões sobre nossa sociedade, talvez seja uma equação que solucione os problemas de energia do mundo, talvez sejam suas experiências com relacionamentos, talvez seja só um vídeo engraçado com um gatinho. Tem espaço pra tudo, e mais um pouco. Qualquer idiota pode escrever, e eles escrevem mesmo (olha lá os comentários do Youtube que não deixam a gente mentir). E isso é bom, de uma forma ou de outra. Isso é o que somos, como sociedade, como seres humanos. Partes ruins, sim, mas partes boas também. Não nego que exista muita coisa escrota na internet: os vídeos cabulosos do 4chan, os comentários escrotos do Youtube, os blogs feitos pra ganhar dinheiro sem dizer nada e os blogs que ensinam a ganhar dinheiro sem fazer nada, as invasões de privacidade, a molecada sem respeito nos jogos online, os spams que parecem ter adquirido vida própria, e várias outras coisas. Mas esse é só um lado da moeda…do outro lado temos a wikipédia, o creative commons, o slashdot, o projeto gutenberg, as ferramentas de publicação online, a liberdade da informação, a rapidez com que os fatos se espalham, a possibilidade de tirar dúvidas somente digitando uma frase no Google, o acesso a boa(?) parte de tudo que já produzimos culturalmente como sociedade, como civilização, a chance de qualquer um com uma idéia, uma música, um quadrinho, uma obra que seja na cabeça, conseguir publicar e mostrar aquilo para o mundo todo por um preço muito barato. Sinceramente, eu acho a internet fantástica. As possibilidades que ela cria, o que ela pode nos trazer, o que podemos fazer com ela…é simplesmente ilimitado. Agora, você pode mergulhar de cabeça ou só ficar mexendo os pés no rasinho. A escolha é toda sua – ou melhor, toda nossa.

Maledeto Status Quo

segunda-feira, maio 4th, 2009

Faz anos que meu avô morreu, mas se você levantasse a tampa do meu crânio, por Deus, você encontraria, nas circunvolunções de meu cérebro, as marcas profundas de seus polegares. Ele me tocou. Como eu já disse, ele era um escultor. “Odeio um romano chamado Status Quo!”, disse-me ele. “Encha seus olhos de admiração”, dizia ele, “viva como se fosse cair morto daqui a dez segundos. Veja o mundo. Ele é mais fantástico do que qualquer sonho que se possa produzir nas fábricas. Não peça garantias, não peça segurança, jamais houve semelhante animal. E se houvesse, seria parente do grande bicho-preguiça pendurado de cabeça para baixo numa árvore o dia inteiro, todos os dias, a vida inteira dormindo. Para o inferno com isso”, dizia ele, “balance a árvore e derrube o grande bicho-preguiça de bunda no chão”.

Trechinho de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Bizarro como um livro de 1953 possa ser tão atual, tão relevante, tão importante. É um livro que fala sobre uma sociedade que queima livros, que proíbe a posse e a leitura de livros por considerá-los perigosos para o bem-estar da sociedade. Cabe aqui um post mais detalhado sobre o assunto, que MAIS UMA VEZ eu vou deixar na promessa. E eu também preciso fazer um post sobre o livro “Amor em minúscula”. Assunto pra post não falta, o que falta é eu criar vergonha e balançar a árvore e derrubar o bicho preguiça ¬¬.