Posts de junho, 2009

Sobre o silêncio

sexta-feira, junho 19th, 2009

Essa tira, e essa série, e praticamente tudo que esse cara faz são perfeitos. É fato que temos ótimos quadrinhistas, mas só o Laerte é o Laerte.

Aproveitando o ensejo, só eu não conhecia o trabalho do Fábio Moon e Gabriel Bá? Lá no flickr dos caras dá pra ler várias coisas legais. Eu achei Procurando São Paulo genial, principalmente a página sobre a Liberdade, e Quase Nada tem uns insights fantásticos. E eles desenham extremamente bem! Quem tiver mais dicas de coisas deles, por favor me digam!

“O gato não tem todas as respostas, mas ele sabe que as pessoas estão olhando pro lado errado. Indo trabalhar de metrô, de cabeça abaixada e guarda-chuva em punho, as pessoas pensam na chuva ao invés de procurar o único lugar onde o Sol ainda nasça e onde ainda seja livre.”

Três Livros

terça-feira, junho 16th, 2009

O Castelo Animado, de Diana Wynne Jones – Ótimo! Dá vontade de dizer que é melhor que o desenho, mas a verdade é que são duas obras diferentes, com suas próprias qualidades e defeitos. O desenho é filhote do Hayao Miyazaki, então tem tudo aquilo que a gente espera: surrealismo, criaturas bizarras, cenários lindos, a história contada mais através das imagens e das entrelinhas, o inevitável comentário político-social (a bola da vez é a guerra). Agora, o livro não, é a mesma história contada de um jeito totalmente diferente. E eu adorei o jeito da dona Diana Wynne Jones contar histórias: é tão leve e tão cativante, dá vontade de começar a ler e não parar nunca mais. Criativa ao extremo, com a ótima mania de subverter clichês e convenções da fantasia, mas sem dispensar o inevitável final feliz. A heroína de Castelo Animado é uma velhinha de 90 anos, e o mocinho é o mago mais Gallagher de que já se teve notícia. Ótimos personagens, ótimo desenvolvimento de história…sabe aqueles livros que não deveriam acabar nunca? Castelo Animado é um deles.

Vida Encantada, de Diana Wynne Jones – E Vida Encantada também é um desses livros. Talvez até mais do que o Castelo Animado! Primeiro livro da série Crestomanci, também da Diana Wynne Jones, o livro literalmente acaba na melhor parte: sabe quando o personagem principal deixa de ser um bunda e passa a ser fodão? Pois é, acaba aí…e o próximo livro da série NÃO continua a história. Mas tudo bem, um livro tão envolvente pode ser perdoado. O tema do livro é apelativo com qualquer um que goste de fantasia: é sobre um jovem bundão aprendendo a utilizar seus poderes mágicos. Digam o que quiserem, mas boa parte dos livros e filmes que fazem mais sucesso são exatamente sobre isso. Star Wars, Harry Potter, Ender’s Game…se quiserem saber mais, liguem pra um tal de Joseph Campbell que ele fala mais sobre o assunto. O grande trunfo do livro novamente é a criatividade e a paixão da Diana Wynne Jones em virar clichês de ponta-cabeça. Outro trunfo dela é que, mesmo sendo um livro pra crianças, os personagens (em sua maioria) não são unidimensionais, as situações não são simplezinhas como era de se esperar. Crianças são tratadas como crianças, angelicais e cruéis ao mesmo tempo, adultos tem atitudes complexas de adultos…muito bom, muito bom.
Exército de um Homem Só, de Moacyr Scliar – Ok, eu admito: culpado. Comecei a ler só por causa da música dos Engenheiros do Hawaii, não fazia a mínima idéia da história do livro. Só que comecei a ler e não parei mais, até terminar. A história do Capitão Birobidjan, jovem judeu russo totalmente fissurado no ideal socialista, é realmente fascinante. Sua infância no bairro judeu de Porto Alegre, o pai rabino, a mãe que só queria que ele comesse, a fuga com os amigos para um sítio abandonado (para fundar a nova Birobidjan), o fim da adolescência e sua entrada forçada na sociedade, a volta ao mesmo sítio abandonado anos depois (dessa vez com companheiros de gênero e espécies variadas), a volta para a sociedade em grande estilo, a loucura dos últimos anos de vida…Capitão Birobidjan é um cara complexo, controverso, contraditório, difícil, daqueles casos de trancar e jogar a chave fora. Impossível não rir das maluquices dele, não ficar puto com suas filhasdaputice, não achar triste seu fim…”Começamos agora a construção de uma nova sociedade!”

Sobre Beatles e Fãs

sábado, junho 13th, 2009

Eu lembro que o primeiro disco foi o Past Masters, pirata, ouvido poucas vezes. Eu lembro de baixar e gravar em CD o Sgt. Pepper e o Revolver, quando a revolução da mp3 estourou, e de ouvi-los ocasionalmente no discman. Também lembro de uma época durante o começo da faculdade em que eu começava a encarar o White Album, música por música. Depois foi a caça pelas mp3 do Anthology, não lembro exatamente quando, mas já num grau avançado da doença. Quando eu peguei parte do dinheiro da formatura pra comprar o livrão do Anthology, caríssimo pros meus padrões universitários da época (e de hoje também), acho que eu finalmente percebi que havia me tornado um fã dos Beatles.

Não dá pra marcar o ponto exato da transformação, talvez principalmente porque não exista um ponto. Estas coisas são graduais, vão acontecendo sem que você perceba de verdade. Você começa sem saber diferenciar a voz do John e do Paul, e acaba sabendo identificar qual música foi composta por qual Beatle só pelo jeitão da composição. Não porque você tenha estudado isso, mas porque é natural, porque você simplesmente sabe…e porque no fim das contas é fácil, as músicas do Paul são melosas, as do John tem uma ironia inseparável, e o George é o George. Essas músicas todas entram na sua alma, ocupam um lugar dentro de você – se você abriu espaço pra elas, ou se o espaço sempre existia, é uma questão pra outro dia – e passam a fazer parte da sua vida. Você não precisa ouví-las para que elas toquem na sua cabeça – o que não impede que você as ouça o tempo todo, claro.

Fã é uma palavrinha maldita. Qualquer definição tem seus problemas, porque definir é limitar, e você pode escolher jogar fora todas as definições ou montar suas próprias. Eu, cabeçudo que sou, prefiro montar as minhas. Fã pra mim não é o cara que tem todos os discos, que vai em todos os shows, que conhece todas as letras e todas as gravações e todos os detalhes ínfimos e a história completa de todos os pontos de vistas possíveis. Ser fã é ter a banda na alma, não de maneira forçada e artificial, mas da maneira mais natural possível. É simplesmente gostar das músicas e não conseguir evitar ouví-las (mesmo que não estejam  tocando). É entender instintivamente que diabos eles querem dizer (mesmo que eles não queiram dizer nada). É criar seu próprio panteão, seu próprio ranking, sua própria teoria, seus próprios misticismos em torno da banda. É pensar com seus botões “Esse dia precisava de um pouco mais de Rubber Soul”. É tudo isso e nada disso; é simplesmente gostar de uma banda, sem porques, sem teorias, sem muletas, sem nada.

“Well, will you, won’t you, want me to make you?
I’m coming down fast, but don’t let me break you!
Tell me, tell me, come on, tell me the answer!
Well, you may be a lover, but you ain’t no dancer…Look out!
Helter skelter!”

**(Posts sem imagem porque o Firefox e o WordPress estão se estranhando aqui)

Minha Aventura de Quarta-feira

quinta-feira, junho 11th, 2009

“Welcome to hell” dizia o SMS enviado pelo Omelete, e ele não estava brincando. Ontem eu conheci o dark side de São Paulo, numa véspera de feriado chuvosa em que eu precisava sair de Guarulhos e chegar em Congonhas, rumo à minha casa. A idéia inicial era: chegar umas 4 da tarde em Congonhas, deixar minha mochila no guarda-volumes, ir pro metrô e subir até a Sé pra tomar chopp com o Omelete. Ha, São Paulo em véspera de feriado não tem respeito por idéias iniciais.

Pra começo de conversa, a história de chegar em Congonhas as 4 da tarde foi pras picas. O caminho reto até o aeroporto estava simplesmente travado, então o tio do táxi pegou a Radial pra tentar chegar “mais rápido” lá. (Eu só descobri que estava na radial porque o Omelete mandou sms perguntando onde diabos eu tava, e eu perguntei pro taxista). “Mais rápido” = velocidade média de 10 km/h, mas melhor que ficar parado. Demos uma puuuuta volta, mas foi legal conhecer outros cantos da cidade. São Paulo tem geografia própria: cordilheiras de prédios, rios de carros, vales de concreto, túneis subterrâneos, ilhas verdes no meio da confusão metropolitana. Como será que é morar aqui? Antes eu tinha receio de morar em capitais, mas com um ano me virando em Salvador eu posso dizer que me viraria bem. Eu acho. Enfim.

Cheguei cinco e tanto no aeroporto, já completamente descrente que iria sair de lá. Mas o Omelete tava lá esperando na estação, e what the hell, tá na chuva é pra se foder. E lá fui eu rumo à estação da Conceição. Lá na Conceição eu fiz algo MEGA MASTER CAIPIRA, mas depois eu conto. Enfim, peguei o metrô e…puta que pariu, eu não conhecia metrô lotado ainda. Totalmente compactado em minha lata de sardinhas subterrâneas, segui pra Liberdade (o chopp não dava mais tempo, então a gente ia comer miojo mesmo). Cara, dá umas dez estações até a Liberdade, e a cada estação eu tinha esperança que alguém fosse descer. “Ah, aqui faz conexão com a linha verde, quem sabe…putamerda, essa horda INTEIRA vai entrar nesse vagão?…entraram”. Quando faltavam umas duas estações, eu comecei a ficar preocupado que eu não ia conseguir sair do vagão. Porra, não dava pra se mexer ali, como é que eu ia chegar até a porta? E se eu fosse em direção a uma porta, e a porra da estação só tivesse plataforma na porta do outro lado? E…ai carai, parou na estação, São Conan me dê força pra empurrar todas essas velhinhas, manos, japoneses e estudantes.

Finalmente! Agora eu estava na Liberdade, e eu tinha…uma hora e meia pra comer e sair correndo de volta pro aeroporto >.<. Encontrei o Omelete na saída da estação, e a gente foi pro restaurante de Lamen. A essa altura a chuva já tinha diminuído bastante, mas ainda fazia um friozinho legal…e olha só, a Liberdade fica LINDA nessas condições. Arcos japoneses, lanternas iluminadas, lojinhas e restaurantes típicos ainda abertos, aquele ar de coisa fora do tempo e do espaço. Eu realmente preciso de uma câmera ou um celular com câmera, pra carregar sempre comigo e guardar essas coisas. Mas é claro que as surpresas de sexta ainda não haviam acabado: o restaurante de lamen estava fechado, e lá fomos nós pra outro lugar. “Já comeu bifun? E gyuza?”. Nooops…então vamos lá. Mais voltas pela Liberdade, até chegar em outro restaurantezinho, dessa vez aberto. Lugarzinho apertado mas limpinho e aconchegante, cheio de japoneses tomando sopa e conversando alto (em japonês, claro). Bifun é muuuito gostoso, mas gyuza é realmente especial. Tipo uma trouxinha de massa cozida, com carne temperada com nirá (tipo uma cebolinha japonesa, muuito boa). Comemos, conversamos um monte, tomamos chá (mate, porque nem tudo tem que ser tradicional mesmo num restaurante japa) e fomos embora.

(E eu descobri que aquela avenidona que passa embaixo da Liberdade é a Radial! Muuito legal a ponte com os arcos japoneses vista “de baixo”, parece algo fora do nosso tempo. A Liberdade realmente parece uma cidadezinha à parte de São Paulo.)

De volta ao aeroporto, mais uma surpresa! O aviãozinho da Pantanal não havia conseguido pousar em São Paulo, e foi mandado pra Campinas. E agora todos os passageiros iam ser colocados num ônibus pra Campinas, e de lá a gente iria pra casa (passando por Marília antes). O leitmotiv da sexta-feira foi “Surpresa!” e eu já havia colocado isso na cabeça, então foda-se, vamos esperar e ver no que vai dar. Pra quem achava que ia chegar meia noite em casa, eu acabei chegando 4 da manhã. Mas não reclamo, foi divertido. Conheci o aeroporto de Campinas (arrumadinho e pequeno, legal), fiquei esperando a boa vontade dos operadores de voô pra deixarem a gente ir pra casa, mas no final deu tudo certo.

Em casa, novamente. =D

Os Macacos Estão Ouvindo

quinta-feira, junho 4th, 2009

Monkey Island sempre foi o adventure definitivo pra mim. Eu já havia jogado outros adventures, mais novos e mais bonitões que Monkey Island, mas foi com ele que eu descobri conscientemente (ou melhor, caiu a ficha) que jogos serviam para contar uma história, que jogos podiam contar piadas e ser engraçados, e o mais importante, jogos podiam ser inteligentes. A discussão sobre jogos poderem ser uma forma de arte começou a ganhar argumentos fortes a partir de 2000, mas já em 1990 três jovens programadores mostraram que jogos tinham sim potencial a ser explorado, a ser descoberto. Ron Gilbert foi definitivamente o pai da idéia de Monkey Island, assim como inventor da plataforma SCUMM que tornava mil vezes mais fácil programar um adventure, mas é inegável que Monkey Island não teria metade da graça sem a criatividade de Tim Schaffer e Dave Grossman. E é legal ver que hoje em dia os três continuam fazendo sua parte para deixar o mundo um pouquinho mais bizarro.

Tim Schaffer foi o que continuou mais tempo na Lucas Arts. Depois de Lechuck’s Revenge ele ainda fez Day of the Tentacle, Full Throttle e Grim Fandango antes de se mandar de lá. Ele é o pai do incrivelmente fantástico (e menos conhecido do que deveria ser) Psychonauts, e atualmente trabalha no primeiro HEAVY METAL Adventure do mundo, o Brütal Legend (sim, trema no u porque é mais tröö, saca?), cujo personagem principal é devidamente dublado pelo Jack Black, como era de se esperar. Olha o trailer aí:

Dave Grossman se picou da Lucas Arts em 1994, logo após Day of the Tentacle e foi trabalhar com Ron Gilbert na Humongous, uma firma que fazia jogos educativos beem legais e beeem desconhecidos. Depois de um período longe dos adventures, onde provavelmente se dedicou a fazer as abóboras mais fantásticas do mundo, Grossman hoje é gamedev da Telltale Games, a empresa responsável por um novo boom (eu ia dizer BOOM, mas não é um boom tããão grande) dos jogos adventure, com as séries Sam & Max e os adventures do Bone.

Ron Gilbert deve ser o Douglas Adams dos adventures, ou ainda o Roger Moreira dos adventures, e eu digo isso de um jeito “malvado”. Veja, eu adoro os três, mas nada muda o fato deles serem (terem sido, no caso do Adams) três tremendos preguiçosos. Desde que saiu da Lucas Arts, Gilbert fundou a Humongous e fez váários jogos infantis; depois fundou a Cavedog e produziu Total Anihilation, o jogo de estratégia que revolucionou os jogos de estratégia; depois disso ele…aaahn…não fez nada demais. Claro que a culpa não é dele: de 98 pra cá jogos adventures se tornaram malditos, e não sem razão, então ficou difícil pra ele encontrar quem produzisse seus jogos. Isso mudou de uns anos pra cá, com a chegada da Hothead e da Telltale. E eis que FINALMENTE teremos um jogo novo do Gilbert, lançado pela Hothead: Deathspank!

Mas enfim, esse post todo tinha um único objetivo que se perdeu logo no primeiro parágrafo. O objetivo era dizer que SECRET OF MONKEY ISLAND VAI SER RELANÇADO! Com gráficos novos em alta resolução, interface melhorada, dublado pelo fodão Dominic Armato, completamente fiel ao original….quer coisa melhor? QUERO! Pois bem: CINCO EPISÓDIOS DE TALES OF MONKEY ISLAND, lançados pela Telltale Games. Realmente, os macacos estão ouvindo novamente!