Três Livros
Postado por Enrique em 16 de junho de 2009O Castelo Animado, de Diana Wynne Jones – Ótimo! Dá vontade de dizer que é melhor que o desenho, mas a verdade é que são duas obras diferentes, com suas próprias qualidades e defeitos. O desenho é filhote do Hayao Miyazaki, então tem tudo aquilo que a gente espera: surrealismo, criaturas bizarras, cenários lindos, a história contada mais através das imagens e das entrelinhas, o inevitável comentário político-social (a bola da vez é a guerra). Agora, o livro não, é a mesma história contada de um jeito totalmente diferente. E eu adorei o jeito da dona Diana Wynne Jones contar histórias: é tão leve e tão cativante, dá vontade de começar a ler e não parar nunca mais. Criativa ao extremo, com a ótima mania de subverter clichês e convenções da fantasia, mas sem dispensar o inevitável final feliz. A heroína de Castelo Animado é uma velhinha de 90 anos, e o mocinho é o mago mais Gallagher de que já se teve notícia. Ótimos personagens, ótimo desenvolvimento de história…sabe aqueles livros que não deveriam acabar nunca? Castelo Animado é um deles.
Vida Encantada, de Diana Wynne Jones – E Vida Encantada também é um desses livros. Talvez até mais do que o Castelo Animado! Primeiro livro da série Crestomanci, também da Diana Wynne Jones, o livro literalmente acaba na melhor parte: sabe quando o personagem principal deixa de ser um bunda e passa a ser fodão? Pois é, acaba aí…e o próximo livro da série NÃO continua a história. Mas tudo bem, um livro tão envolvente pode ser perdoado. O tema do livro é apelativo com qualquer um que goste de fantasia: é sobre um jovem bundão aprendendo a utilizar seus poderes mágicos. Digam o que quiserem, mas boa parte dos livros e filmes que fazem mais sucesso são exatamente sobre isso. Star Wars, Harry Potter, Ender’s Game…se quiserem saber mais, liguem pra um tal de Joseph Campbell que ele fala mais sobre o assunto. O grande trunfo do livro novamente é a criatividade e a paixão da Diana Wynne Jones em virar clichês de ponta-cabeça. Outro trunfo dela é que, mesmo sendo um livro pra crianças, os personagens (em sua maioria) não são unidimensionais, as situações não são simplezinhas como era de se esperar. Crianças são tratadas como crianças, angelicais e cruéis ao mesmo tempo, adultos tem atitudes complexas de adultos…muito bom, muito bom.
Exército de um Homem Só, de Moacyr Scliar – Ok, eu admito: culpado. Comecei a ler só por causa da música dos Engenheiros do Hawaii, não fazia a mínima idéia da história do livro. Só que comecei a ler e não parei mais, até terminar. A história do Capitão Birobidjan, jovem judeu russo totalmente fissurado no ideal socialista, é realmente fascinante. Sua infância no bairro judeu de Porto Alegre, o pai rabino, a mãe que só queria que ele comesse, a fuga com os amigos para um sítio abandonado (para fundar a nova Birobidjan), o fim da adolescência e sua entrada forçada na sociedade, a volta ao mesmo sítio abandonado anos depois (dessa vez com companheiros de gênero e espécies variadas), a volta para a sociedade em grande estilo, a loucura dos últimos anos de vida…Capitão Birobidjan é um cara complexo, controverso, contraditório, difícil, daqueles casos de trancar e jogar a chave fora. Impossível não rir das maluquices dele, não ficar puto com suas filhasdaputice, não achar triste seu fim…”Começamos agora a construção de uma nova sociedade!”
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Já li os dois primeiros; o terceiro, só tinha ouvido falar (mas está na minha sempre crescente de livros a ler). Concordo plenamente com a opinião sobre a Diana – agora que finalmente me livrei da faculdade, estou para começar O Castelo no Ar, que, pelo que vi, é a continuação do Castelo Animado.
O filme foi excelentemente adaptado. Só deixou algumas pontas soltas. Para dizer a verdade, a princípio, eu só li o livro para entender o que diabos era o lance de Sophie ser a irmã mais velha…
Hum… fui direto para a parte interessante e esqueci de fazer as apresentações… Descobri você por acaso, quando estava lendo algumas críticas para Hogswatch… Não demorou muito para que eu estivesse fuçando por todo canto, e até tomei a liberdade de colocá-lo na minha lista de blogs que visito no Coruja…
Ok, é isso. Agora que finalmente ganhei minha carta de alforria, vou comentar mais e não simplesmente ler e sair na surdina. Sendo assim… até o próximo texto.
Oi Lulu! Eu li o Castelo Animado justamente por causa dessas pontas soltas…não lembro bem se eram desatenções minhas ou pontas mesmo, mas gostei BASTANTE do desenho a ponto de querer ler o livro também. Myiazaki é ótimo, sempre sempre!
Abração, e volte sempre
Não, havia essas pontas soltas, sim… Que sempre ocorrem numa adaptação. Normal (a não ser quando castram completamente a história, como fizeram com A Bússola de Ouro…) acontecer isso, até porque é realmente difícil resumir um livro de centenas de páginas em duas horas de filme.
Acho que as pontas mais soltas do filme têm, justamente, a ver com as irmãs da Sophie. Esqueci agora se colocaram a Lettie no filme, o caso é que depois que Sophie é levada pelo Castelo, não se ouve falar mais dela.
De uma forma ou de outra, há ponto em que preferi mil vezes o filme… e outros em que o livro é melhor. Como você mesmo observou, são duas obras diferentes.
Exato! Eu não lembro da Lettie e da Martha no filme…tá, faz teempo que eu assisti, mas não lembro da parte que a Sophie e o Michael vão visitar a Lettie na casa da bruxa; o fato do Howl e o Sullivan pertencerem ao nosso mundo também não é mencionado (e de fato, não adicionaria muito ao filme). A única coisa que eu realmente senti falta, apesar de entender que não funcionaria no filme, foi o poema com a maldição do Howl. Eu sou meio que fanático por aquele poema (ele é usado também em Stardust, do Neil Gaiman) e nem sonhava que ele aparecia no Castelo Animado…foi uma grata surpresa, e a dona Dianne ganhou pontos na minha lista por isso.
E é isso mesmo, são duas obras distintas, independentes e ótimas por seus próprios méritos. Ah, me diga o que achou do Castelo no Ar, quando terminar de ler
Conheço bem o poema – eu o conheci antes pela Diana e depois pelo Gaiman; ainda não tinha lido Stardust na época.
Terminei Castelo no Ar. Gostei, é uma história bem escrita e foi divertido ver a volta de Howl e Sophie, ainda que apenas pelo final. Muitos dos recursos que ela usou no primeiro livro foram repetidos no segundo – tenho pena do Príncipe Justin, que nunca consegue passar muito tempo como ele mesmo…
Minha ressalva vai para a linguagem do Abdullah, que é extremamente repetitiva. Nem nos contos das Mil e Uma Noites Sherazade usa tantos adjetivos “ó luz do dia, ó feiticeira encantadora, ó gênio que tudo vê…”. O cara é um puxa-saco profissional e, ainda que eu entenda o recurso como um caractere de sua “nacionalidade”, chega um ponto em que tantos epítetos tornam a história meio truncada.
Então, eu prefiro, é óbvio, Castelo Animado, até porque a história de Sophie é mais interessante que raptos de princesas por todo o mundo por um djin que decidiu colecioná-las.
A Diana tem outras séries de histórias, mas não tive ainda oportunidade de colocar minhas mãos nelas… e, salvo engano, ainda há outro livro continuando a história de Howl e Sophie… salvo engano, o título é House of many ways.