Posts de julho, 2009

O segredo do Morcego

sábado, julho 25th, 2009



Tem coisas que a gente vê e precisa compartilhar com o mundo: o velho Laerte, destruindo em um só quadrinho toda a aura sombria e enigmática (e a dignidade, e a compostura, e a moral) do Cavaleiro das Trevas.

Caffettiera Bisplendente Per Un Vero Caffe All’Italiana!

sábado, julho 25th, 2009

Aí eu resolvi que queria uma cafeteira. O Celso uma vez deu a dica dessas cafeteiras italianas que vão direto ao fogo, onde você coloca a água num reservatóriozinho e o café numa espécie de funil fechado, e através dos mistérios arcanos da ebulição você obtem café na parte superior do bagumelo. Na época eu achei legal, mas não dei atenção. Esses dias eu estava lá no shopping com o Rodolfo e vi uma dessas na loja, por um preço acessível, e acabei levando.

moka.jpg

(É tipo essa, mas essa custa 150 reais. A minha custou 50 reais, e deve ter sido feita com legítimo metal de Chernobyl.)

Pessoas normais simplesmente fazem café, mas o gene nerd me impede. Hoje em dia eu não faço mais nada sem consultar o Google antes. Eu poderia simplesmente jogar água no reservatório, colocar café no funilzinho, jogar no fogo e ver o que dá. Mas veja, hoje em dia existe a internet. Outros nerds antes de mim já sentiram o chamado do café quentinho, já desvenderam os mistérios arcanos de sua fabricação e escreveram sobre eles em seus blogs. Porque ignorar o conhecimento de nossos antepassados? E, porque não, repassar o que eu aprendi para que os nerds depois de mim possam também fazer café quentinho? Vamlá:

  • O primeiro passo é colocar agua no reservatório. Não seja mão de vaca, coloque água mineral ou filtrada. Se você olhar o reservatório, vai ver que ele tem um biquinho na parte de fora. Aquilo não é o pintinho da cafeteira: é uma válvula de segurança. Quando colocar água no reservatório, não ultrapasse a altura da válvula da cafeteira. A menos que queira fazer uma bomba de água quente e pó de café.
  • O segundo passo é colocar pó de café dentro da cuba (que parece um funilzinho fechado). Os sites dizem pra encher a cuba de pó (de café, srta. Winehouse, de café) mas sem apertar/compactar. Nada de apertar com a colherzinha pra caber mais, senão a água não consegue subir e você vai descobrir pra que serve a válvula de segurança. Dessa primeira vez que fiz, eu não enchi a cuba até a boca. O café ficou bom, mas poderia ficar melhor. Depois do almoço eu tento de novo, com mais sentimento.
  • Hora de fechar tudo e ir pro fogo. “A chama deve ser baixa”, mas caso você seja um zero como eu, fique sabendo que chama baixa é quando você gira o bagumelo do fogão até o fim. É aquele fogo que esquenta menos, lentamente, com calma, na malemolência. Falando em malemolência, viram que o Romário foi espancado? Meu evil side diz que num mundo justo, o Romário tinha mais é que apanhar mesmo. Mas voltando ao café. Chama baixa, pois quanto mais lenta for a ebulição melhor será o café. Eles mandam levantar a tampa da cafeteira, para que o vapor escape e não deixe o café aguado. É importante também tirar a cafeteira do fogo assim que estiver pronto (dá pra perceber porque café e o vapor param de sair pelo buraquinho).
  • Dê uma mexida no café com uma colherzinha, para uniformizar a densidade (o café começa subindo mais denso e misturado com o pó, enquanto que no final do processo ele sai mais aguado…então é bom misturar, pra não ficar uma bosta). Coloque na xícara ou na garrafa térmica, e pronto! U can haz coffee!
  • Tem todo um cuidado com a manutenção da cafeteira também. Lave ela imediatamente após fazer o café, e lembre-se: a cafeteira é inteira de metal, acabou de sair do fogo e NÃO ENCOSTE NESSA MERDA. Coloque ela na água por alguns instantes, depois desmonte e lave parte por parte. Não lave com sabão ou detergente, pra não pegar gosto. Passe bastante água no filtro, e olhe com cuidado pra ver se não tem resíduos obstruindo ele.
  • Eu li em um site que você pode pegar o que restou do pó, colocar num “recipiente com fecho hermético” (tupperware?) e guardar na geladeira. Não sei se procede ou não, mas como eu não tinha um tupperware sobrando, foi pro lixo mesmo. Ah bom, eu entendi errado. O café passado você joga fora mesmo, é o pó de café mesmo que você guarda na geladeira. Guardar café passado é coisa de fudido, meu amor.

There’s a part of me in chaos that is quiet

sexta-feira, julho 24th, 2009

- E se alguém aparecesse na sua frente e te desse a chance de refazer sua vida? Sei lá, corrigir algumas coisas, escolher um outro caminho…o que você quiser.
- Hmmm…tipo um pacto com o demônio?
- Não, não! Porra, não precisa ser algo tão macabro!
- Mas nos filmes quem faz isso sempre se fode, e se fode grandão! Não viu Efeito Borboleta?
- Esquece a merda dos filmes, por um momento. É só um exercício mental.
- Cê tá querendo brincar de psicólogo com as minhas neuroses, é? Porque já te aviso logo que nem eu mesmo quero mexer nessa caixa de marimbondos…
- Porque é tão difícil ter uma conversa filosófica contigo?
- Talvez porque eu não seja uma bichinha feito você? Toma jeito de homem, porra!

Talvez não exista karma. Talvez não exista troca equivalente. Talvez tudo que exista sejam nossas mentes especializadas em buscar padrões e sequências. Tem horas que você se sente mal, e então procura padrões que expliquem o seu “azar”, e quando você se sente bem você procura padrões que expliquem a sua “sorte”. Talvez seja só o nosso cérebro tentando processar e entender um sistema gigantesco e cheio de variáveis. Mas quem nunca pensou com seus botões “Aceite, tigrão – você acaba de tirar a sorte grande” ou “Eu devo ter enchido a cara no cálice sagrado e mijado ao pé da cruz”, que atire a primeira pedra.

O universo e tudo o que há nele só existem no momento presente, e o momento presente é um ínfimo de segundo que não conseguimos nem perceber. A cada ínfimo desse é como se tudo no universo fosse reconstruído e construído novamente – pense nos frames de um filme, ou melhor ainda, de um jogo de computador. É como se tudo morresse a cada instante, e renascesse a cada instante. Eu gosto desse conceito, mas acho que só iria conseguir visualizar ele com o auxílio de alucinógenos pesados. Na verdade o que importa é – cada momento é o ponto final e a estaca zero. E eu gosto disso.

Talvez exista karma. Talvez exista troca equivalente. Talvez o universo seja governado por regras que não compreendemos muito bem – “uma variante de pôquer numa sala escura com cartas em branco envolvendo apostas infinitamente altas e com um crupiê que não te diz as regras e que sorri o tempo todo” nas palavras de Terry Pratchett. Mas é um jogo. E eu cresci jogando videogames, e aprendi que todo bom jogo tem cheat codes, vidas extras, continues e passwords. E existe essa parte de mim que insiste em se rebelar contra qualquer coisa que pareça certa e fixa – uma rebeldia quieta, que olha de canto de olho e murmura “Ah, então é assim? Vem cá pra você ver…” e que raramente se manifesta. Mas sai de baixo quando ela se manifesta.

Tem uma sensação boa que vem quando você sabe que está indo embora de um lugar que não quer realmente estar. Uma liberdade silenciosa, um peso nas costas que é retirado de repente. Tudo parece ficar mais fácil, porque…porque logo não vai ser mais meu problema, vamos ser francos. Eu deveria ficar preocupado, se eu tivesse uma gota de noção. Mas…

Talvez nada disso importe. Talvez a gente perca tempo demais tentando definir conceitos, tentando achar padrões e buscando respostas e perguntas. Talvez o universo simplesmente seja, e é o suficiente. Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado. Você precisa se lembrar disso: um beijo é só um beijo, um suspiro é só um suspiro. As coisas fundamentais, elas se aplicam, as time goes by. Domo arigatô, universo, porque eu sou um filho-da-puta sortudo e eu nem mesmo sei o que fiz pra merecer tanta sorte.

Sobre Botas e Corridas e Pulos

quinta-feira, julho 23rd, 2009

Você não escolhe a música, é a música que escolhe você. E a música que me escolheu foi “Eleanor Put Your Boots On”, do Franz Ferdinand. Sim, não façam essa cara.

Eu nem mesmo sei porque ela está correndo, e nem sei porque ela tirou as botas em primeiro lugar. Mas tudo que eu posso fazer é pedir que ela vista as botas de volta, enfie o salto na sujeira do Brooklyn mesmo sabendo que não é nem um pouco digno sair correndo. E faz sentido, não sei porque. Corre, Eleanor, como se tudo dependesse disso. Como se as últimas esperanças do universo residissem no seu ato de vestir ou não as botas. Eu poderia estar lá quando você pousar, sabe. Poderia mesmo. Não façam essa cara.

Eu sempre vou lembrar de Ilha Solteira quando ouço essa música, do penúltimo semestre lá, ainda na república. As tardes passadas no computador, estirado no sofazinho azul que eu havia roubado do Esponja. Eu tenho diversas memórias desse semestre, não de coisas que aconteceram, mas de coisas que eu vi ou assisti: Elizabethtown, Arquivo X, Eleanor Put Your Boots On. Não me lembro de fatos e acontecimentos com clareza, mas esses sons e imagens ficaram e me trazem uma sensação que ainda hoje me faz bem. E eu acordei com Eleanor na cabeça. Não façam essa cara.

Eleanor me escolheu, e tudo que eu posso fazer é vestir as botas e seguir ela pela sujeira do Brooklyn, até chegar na estátua com o dicionário nas mãos. E subir até a unha dela, e pular, SIM, um pulo atmosférico até as correntes de ar me trazerem de volta ao chão. Porque, afinal, ela fica tão elegante quando corre, a Eleanor. Não que eu já a tenha visto correr, mas…ela corre acompanhada de pianos e instrumentos que eu nem mesmo sei o nome, com tanta delicadeza e estilo que eu não posso deixar de pensar que seja elegante. Não façam essa cara.

E essas melodias e versos passam a fazer sentido pra mim, mesmo que eu não entenda bem ele. Eu somente sei que é importante que a Eleanor vista suas botas, e continuarei ouvindo a música até que ela as vista ou até que eu enjoe do pianinho. E sabe-se lá porque cargas d’águas, eu não consigo evitar sorrir quando chega o último verso e o vocal ordena, com energia:

“So, Eleanor put those boots back on!
Put the boots back on, and run!
Come on over here…
Come on over here…”

Da Importância de Não Se Ser um Cuzão

quarta-feira, julho 22nd, 2009

Há mais ou menos um ano, quando eu comecei a trabalhar na empresa onde estou, o seu Pedro apareceu um dia lá no nosso escritório. Ele é do departamento de engenharia elétrica e foi “tutor” da Naiana quando ela fez estágio por lá, então volta e meia ele aparecia por lá pra conversar e deixar revistas de engenharia pra Nai.

Um belo dia ele apareceu por lá com um pendrive e um problema. Não sei, eu tenho um magnetismo especial por pessoas com pendrives e problemas, ou talvez seja só minha cara de nerd. Enfim, era um documento do word que ele não conseguia abrir, ou que abria de forma errada, ou lembro lá o que era. A Naiana tentou abrir o arquivo, mas não conseguiu, e me chamou para que eu desse uma olhada. Eu poderia ter dito que não sabia resolver, eu poderia ter dado de ombros, mas o meu gene nerd me impede de fazer isso. Seja um arquivo corrompido, seja uma rede que não conecta, seja uma placa mãe derretida, eu não resisto ver um computador com problemas. É algo que desafia minha honra, entende? Não? Whatever. “Ah, me empresta o pendrive que eu dou uma olhada”.

E não era nada demais. O Open Office abriu o arquivo, e no chute eu descobri que eram as figuras ENORMES (copiadas do Autocad e coladas como .bmp) que estavam fodendo o arquivo. Mera questão de recortar e colar como .jpg. Devolvi o arquivo consertado, ensinei ele a fazer o esqueminha de “colar como…” e pronto. Um velhinho feliz.

Corta pra semana passada. Seu Pedro apareceu lá na nossa seção pra perguntar sobre um HD externo que ele tava querendo comprar. “Ah, porque eu tenho 3 computadores lá em casa, e também ia me ser útil para pegar a coleção de quadrinhos que um amigo meu tem”.  E eu fiquei de cara: poxa, um senhor de barba branca pirateando quadrinhos? Viva la vida nerd! “Ah, o senhor curte quadrinhos? Eu também!”. Aí ele ficou um tempinho lá falando de Príncipe Valente, Sandman, Moebius e outras coisas legais.

Corta pra ontem. Seu Pedro apareceu com o tal do HD externo que ele havia comprado.

- Você tem espaço aí nesse notebook?
- Tenho sim, porque?
- Dá uma olhada no que tem aqui dentro.

E eu olhei. Dentro do HD tinha maaais ou meeeenos DUZENTOS GIGAS DE QUADRINHOS.

It's all about karma!

It's all about karma!

Pra Não Dizer Que Eu Não Dei Os Parabéns Ao Rock

segunda-feira, julho 13th, 2009

“I need a shot of salvation, baby, once in a while…
You hear the whistle blowing, I hear it for a thousand miles.”

Hunf. Então é por isso que hoje eu me senti mais sarcástico e cretino que o normal. Parabéns, seu grande filho da puta.

Road Songs

segunda-feira, julho 13th, 2009

“They said timing was everything
Made him want to be everywhere
But there’s a lot to be said to nowhere”

Queria ir embora, mas não sabia pra onde, não sabia  como, não sabia o que comeria e aonde dormiria, nem o que faria pra sobreviver. Então ele fez o que lhe parecia mais certo: escreveu um guia de viagem pra si mesmo, e rezou para que a massa melequenta flutuante dentro sua cabeça e o músculo vermelho pulsante dentro de seu peito não estivessem tão perdidos quanto ele. Uma vez pronto o guia, ele abriu uma página ao acaso e começou dali. Tem gente que não sabe viver em ordem mesmo, pensou.

“Someday, girl, I dont know when
We’re gonna get to that place
Where we really want to go
And we”ll walk in the sun
But, till then, tramps like us
Baby, we were born to run…”

Era de madrugada quando ela jogou tudo o que precisava na mochila. Tão leve, mas era melhor assim. O tênis velho fez barulho pisando nas folhas velhas da varanda, mas o portão permaneceu em silêncio enquanto ela o abria. Um cachorro latia lá longe e parecia acentuar ainda mais o silêncio. A lua crescente e as estrelas lá no alto pareciam sorrir enquanto ela andava em direção a rodoviária. Ela sorria de volta, e se perguntava se algo poderia ser melhor do que isso.

“I’m moving on alone, over ground that no one owns
Past statues that atone for my sins
There’s a guard on every door, and a drink on every floor
Overflowing with a thousand amens
And it’s hard to say who you are these days
But you run on anyway, don’t you baby?”

O problema de simplesmente se levantar e ir, ele acabava de descobrir, era que não pegava bem voltar pra pegar o mp3 player que havia esquecido na gaveta. Talvez seja um sinal, um aviso divino, uma mensagem do universo. Que o gosto musical dele era uma merda, e ele deveria parar de ouvir música? Talvez. Talvez. Amanhã ele tomaria as decisões, arrumaria as coisas, botaria caixotes no correio e se perguntaria pra onde ir. Hoje ele simplesmente se levantou e foi. E já estava bom demais.

“I hope you get this message.
Oh, you’re not alone.
I could be there in ten minutes or so.
I got my things, and we’ll make it up as we go along.
With you, I could…never…be alone.
Never be alone.”

Se você perguntasse pra ela porque ela estava indo, ela ficaria te olhando pelo tempo suficiente para fazer você implorar que ela voltasse a botar os olhos na estrada. E então ela simplesmente riria, a mais gostosa das risadas, e diria que você precisa ouvir mais música. 42 segundos depois, ela se voltaria para você e diria que não, talvez o que você precisa seja silêncio. Só senta aí e cala a boca, ela diria sorrindo, e pisaria mais fundo.

“I know a place where the sun hits the sky,
Everything changes and blows out the night,
Everyone knows why my tongue can’t be tied,
‘Cause I want to live where the sun meets the sky”

(Foto gentilmente surrupiada daqui)