There’s a part of me in chaos that is quiet

- E se alguém aparecesse na sua frente e te desse a chance de refazer sua vida? Sei lá, corrigir algumas coisas, escolher um outro caminho…o que você quiser.
- Hmmm…tipo um pacto com o demônio?
- Não, não! Porra, não precisa ser algo tão macabro!
- Mas nos filmes quem faz isso sempre se fode, e se fode grandão! Não viu Efeito Borboleta?
- Esquece a merda dos filmes, por um momento. É só um exercício mental.
- Cê tá querendo brincar de psicólogo com as minhas neuroses, é? Porque já te aviso logo que nem eu mesmo quero mexer nessa caixa de marimbondos…
- Porque é tão difícil ter uma conversa filosófica contigo?
- Talvez porque eu não seja uma bichinha feito você? Toma jeito de homem, porra!

Talvez não exista karma. Talvez não exista troca equivalente. Talvez tudo que exista sejam nossas mentes especializadas em buscar padrões e sequências. Tem horas que você se sente mal, e então procura padrões que expliquem o seu “azar”, e quando você se sente bem você procura padrões que expliquem a sua “sorte”. Talvez seja só o nosso cérebro tentando processar e entender um sistema gigantesco e cheio de variáveis. Mas quem nunca pensou com seus botões “Aceite, tigrão – você acaba de tirar a sorte grande” ou “Eu devo ter enchido a cara no cálice sagrado e mijado ao pé da cruz”, que atire a primeira pedra.

O universo e tudo o que há nele só existem no momento presente, e o momento presente é um ínfimo de segundo que não conseguimos nem perceber. A cada ínfimo desse é como se tudo no universo fosse reconstruído e construído novamente – pense nos frames de um filme, ou melhor ainda, de um jogo de computador. É como se tudo morresse a cada instante, e renascesse a cada instante. Eu gosto desse conceito, mas acho que só iria conseguir visualizar ele com o auxílio de alucinógenos pesados. Na verdade o que importa é – cada momento é o ponto final e a estaca zero. E eu gosto disso.

Talvez exista karma. Talvez exista troca equivalente. Talvez o universo seja governado por regras que não compreendemos muito bem – “uma variante de pôquer numa sala escura com cartas em branco envolvendo apostas infinitamente altas e com um crupiê que não te diz as regras e que sorri o tempo todo” nas palavras de Terry Pratchett. Mas é um jogo. E eu cresci jogando videogames, e aprendi que todo bom jogo tem cheat codes, vidas extras, continues e passwords. E existe essa parte de mim que insiste em se rebelar contra qualquer coisa que pareça certa e fixa – uma rebeldia quieta, que olha de canto de olho e murmura “Ah, então é assim? Vem cá pra você ver…” e que raramente se manifesta. Mas sai de baixo quando ela se manifesta.

Tem uma sensação boa que vem quando você sabe que está indo embora de um lugar que não quer realmente estar. Uma liberdade silenciosa, um peso nas costas que é retirado de repente. Tudo parece ficar mais fácil, porque…porque logo não vai ser mais meu problema, vamos ser francos. Eu deveria ficar preocupado, se eu tivesse uma gota de noção. Mas…

Talvez nada disso importe. Talvez a gente perca tempo demais tentando definir conceitos, tentando achar padrões e buscando respostas e perguntas. Talvez o universo simplesmente seja, e é o suficiente. Talvez o mundo não seja pequeno, nem seja a vida um fato consumado. Você precisa se lembrar disso: um beijo é só um beijo, um suspiro é só um suspiro. As coisas fundamentais, elas se aplicam, as time goes by. Domo arigatô, universo, porque eu sou um filho-da-puta sortudo e eu nem mesmo sei o que fiz pra merecer tanta sorte.

One thought on “There’s a part of me in chaos that is quiet

  1. “Na verdade o que importa é – cada momento é o ponto final e a estaca zero. ”

    Mas a gente nunca aceita isso. Nunca. Somos contraditórios e um bando de mal agradecidos. Sofrer é consequência. Mas você precisa se lembrar disso…

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