Escape from Salvador

(Eu ia contar isso no twitter em 140 linhas, mas o twitter está de TPM hoje e então eu lembrei que eu tenho um blog! Sim, um blog, esse instrumento de comunicação do século passado, sem essa frescura de 140 caracteres. Pra que escrever em 140 caracteres o que pode ser escrito em 14.000 frases? Prolixo é a senhora sua avó, aquele transformista.)

Hoje eram umas 3 da tarde quando meu pai ligou no celular:

- Ó, me sai mais cedo aí do trabalho hoje. Tão sabendo da história por aí já?
- Não oÔ – não que eu realmente precisasse saber da história, qualquer motivo é motivo pra ir mais cedo pra casa, oras.
- Vai ter paralização da polícia militar a partir das 7 da noite, e a cidade vai virar um caos.

Epa, o trem é grave. Fui falar com o Rodolfo e a Nai, e eles contaram sobre uma outra paralização da polícia, alguns anos atrás. Foi bem divertido: a cidade inteira congestionada e pivetes fazendo a limpa nos carros parados, ônibus assaltados, arrastão em shopping center. Como quem tem * tem medo, só esperei dar cinco horas para arrumar minhas coisas e me picar dali, porque eu ainda ia pegar ônibus pra casa. Por sorte a Manuela me viu:

- Enrique, tu vai embora como?
- Ué, de busão.
- TÁ LOUCO, GURI? Não, você vai comigo, vambora!

Sim, eu sou cagado. E muito.

5 horas da tarde e as avenidas estavam todas congestionadas já. Gozado que todo mundo reclama (e com razão) que a polícia não faz seu serviço, é inefetiva e blábláblá. Ruim com ela, impossível sem ela: não era nem certeza de que a paralização iria ocorrer mesmo, mas de uma hora pra outro todo mundo saiu correndo pra casa ou um lugar seguro que seja. Salvador é um barril de pólvora, uma capital com uma desigualdade social tão grotesca que te impede de desviar os olhos…pelo menos no começo, com o tempo você vai se acostumando (e isso é triste). (E eu sei que não é só Salvador, mas é a capital aonde eu moro)

Agora, todo mundo sabe que polícia não pode entrar em greve. Sabe o jeito que eles deram pra fazer essa operação? Simples: seguiram as leis. De acordo com a constituição, um policial não pode patrulhar ou atuar nas ruas utilizando viaturas com irregularidades, sem armamento apropriado e sem capacitação. Com boa parte da frota sucateada, apenar 15% dos coletes à prova de balas dentro do prazo de validade e sem nenhum PM com certificação para dirigir viatura de emergência, não dá pra seguir a constituição. A partir das 19 horas de hoje, a PM de Salvador começaria a seguir todos os itens da constituição à risca – e ficariam dentro dos quartéis, de braços cruzados.

É mole ou quer mais?

(Acabou de dar na televisão – a paralização foi cancelada e remarcada pra segunda-feira. Podem tirar a bunda da parede, soteropolitanos)

5 thoughts on “Escape from Salvador

  1. Eu já passei por uma situação surreal como a sua há uns dois anos, quando houve um baita confronto aqui no Recife entre estudantes e a população civil em geral com as empresas de ônibus… Queriam aumentar a passagem e, para impedir, houve uma dezena de passeatas, quebra-quebra em ônibus, coisas do tipo, o que levou os motoristas a decidirem cruzar os braços também.

    Não sei se conhece o Recife, mas temos aqui uma avenida que é praticamente o coração da cidade: a Conde da Boa Vista. Pois bem… A turma do barraco fez barricadas nessa avenida, não passava ônibus, nem carro nem nada. Nesse específico dia, eu estava de noite na faculdade: era o lançamento da revista literária e eu tinha um texto publicado, ia ter um coquetel e não sei mais das quantas…

    O coquetel foi cancelado. A gente via as pessoas passando na rua, desesperadas sem saber como chegariam em casa, ruas geralmente cheias de trânsito parecendo cenário de filme de ficção científica, todo mundo olhando de um lado para o outro com cara de leso, esperando alguma coisa acontecer.

    Eu jurei que ia ter de dormir na faculdade naquela noite. Até que descobri com um pessoal que não estava andando feito barata tonta que ainda havia ônibus passando no Derby, que já é outro bairro, não muito perto da Conde…

    Dez horas da noite, estamos andando pela rua meio escura, rezando com uma fé que nunca dantes reconhecemos, jurando que se escaparmos dessa só faremos boas ações. A história termina aqui meio anticlimática, porque não houve ovnis descendo do céu, nem balas comendo para todos os lados como num filme de western; consegui chegar em casa ilesa.

    A moral da história – se é que há alguma moral – é que alguns serviços: como a polícia (no seu caso), os motoristas de ônibus (no meu), médicos e diversas outras categorias não deveriam parar. Compreendemos racionalmente que eles têm o direito a recorrer ao último recurso da greve quando suas legítimas reivindicações não são atendidas, mas isso não significa que aceitamos esse fato com um sorriso no rosto.

    E, enquanto isso, no Senado…

    (eu escrevi quase um livro aqui hoje…)

    • Aqui em Salvador os motoristas de Ônibus costumam fazer mini-paralizações de 20, 30 minutos em horários de pico (tipo, 6 da tarde)…e isso simplesmente trava o trânsito da cidade inteira até tarde da noite.

      O x da questão é que são recursos imprescindíveis – segurança, transporte, saúde, educação, etc. A cidade depende deles pra sobreviver, e eles devem ser tratados com prioridade – o que não acontece na realidade. Assim, a gente se quebra quando um destes serviços resolve parar, mas ao mesmo tempo entendemos que eles tem sim razão de protestar, paralisar, fazer greve. Talvez a solução fosse protestar junto com eles – afinal, nós somos a sociedade, e a própria sociedade deveria lutar por seus direitos. Talvez se a gente não fosse tão omisso, não aceitasse tudo o que nos enfiam pela garganta (pra não dizer outro lugar) sem reclamar, talvez se a gente gritasse e esperneasse mais…mas divago :}

      (ah, eu adoro comentários compridões)

  2. nossa, eu adorei esse post. a maneira como vc escreve parece que faz a gente CONHECER de verdade a cidade, com o outro lado da história, a versão de quem mora no lugar. muito legal mesmo. tks.

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