Pra tirar o gato da sacola: em algumas semanas eu estarei indo embora de Salvador. Vou sair do emprego, e correr atrás do que eu quero, seja lá o que for que eu quero. Engenharia definitivamente não é pra mim. “Então o que é pra mim” é a pergunta que não quer calar. Bora descobrir, então.
“Mas e o que você vai fazer?”. Cada pessoa que me faz essa pergunta, eu respondo de um jeito diferente. A Camila já ouve minha ladainha desde que eu cheguei em Salvador, nem sei como ela ainda me atura. Tem tantas coisas que eu gostaria de fazer, e eu confesso que não sei ao certo pra qual caminho eu vou. Algo me diz “Escolhe um caminho e pula, como você nunca pulou antes. Se entrega, vai com tudo, e o mundo vai te seguir”. Porque a gente vive a vida no rasinho, só sentindo a água nos pés e nunca mergulhando. E eu já pulei tanto pelos outros, sem nunca achar ninguém quanto eu chego lá embaixo, que talvez faça mais sentido eu pular por mim mesmo. E vai ser uma surpresa dos diabos se eu não me encontrar lá embaixo oÔ.
Quarta passada eu fui pra São Paulo a trabalho, fiquei num hotel na Liberdade que parecia pertencer a máfia coreana, fui praticamente expulso do mesmo hotel sem explicações no outro dia (“não há mais vagas, ordem da diretoria internacional!”), descobri mais regiões de São Paulo que eu não conhecia, conversei com um taxista-ex-mecânico-de-super-motos que me contou vários causos com autêntico sotaque e gírias paulistanas, fui com o Omelete numa casa de hamburguers e comi o maior beirute que eu já vi na minha vida, passeei na livraria Cultura da Paulista (vulgo paraíso), andei pela Liberdade as 11 da noite e não fui abordado por mafiosos coreanos e nem ninjas. É, foi uma viagem divertida.
Na quinta mesmo eu fui pra casa, atravessando a Grande Planície Paulista de busão. É bom saber que eu vou voltar pra lá, pelo menos por uns tempos. “Mas você vai ver, você não vai conseguir ficar muito tempo aqui, depois que já morou sozinho” disse minha mãe. E eu já sabia que era verdade. Estranho, muito estranho.
Ontem eu fui pra São Paulo de novo a trabalho. Tava programando passear na livraria Cultura e comer brownie com uma ilustre companhia, mas a reunião atrasou um bocado e acabou não dando certo. Hmpf. Fica pra próxima ;~.
Nesses quatro dias em casa eu fiz algo que devia ter feito a séculos: voltei a rabiscar. Até o terceiro colegial eu praticamente gastava todo meu tempo livre desenhando, mas nunca dei valor. Achava que não desenhava bem, que não tinha futuro, e nem dava muita bola. Com o tempo, a faculdade e etc e tal, acabei parando completamente. Sabe aquilo de viver no rasinho, que eu disse ali em cima? Se aplica aqui também. Mas a vontade nunca morreu, o desejo que eu sinto de fazer coisas legais, a inveja que eu tenho quando vejo o trabalho de algum desenhista foda, isso nunca desapareceu, apesar de amordaçado. “Ah, isso não é pra mim”. Hmpf.
Talvez isso se aplique a escrever também. Talvez – não – Com certeza, a hora de mergulhar é agora.
2009 é um ano dos bons, em que muito tem acontecido, se não tanto num plano físico, mas talvez mais num plano psicológico. É um ano de pessoas novas, de idéias novas, de novos ventos e novos caminhos. E ao mesmo tempo é um ano de rever o passado, de reconstruir pontes que foram desnecessariamente queimadas, de entender o passado pra fazer direito no futuro. Tem tantas lições no ar que eu fico pensando se estou aprendendo todas, ou pelo menos algumas.
They’ll name a city after us, and later say it’s all our fault
Tem duas partes em mim. Uma parte acredita em destino, em almas gêmeas, em silver linings, na inexistência da casualidade, em algo maior, em uma história com final polianamente correto para cada um de nós. A outra parte quer mandar as princesas prometidas e os príncipes encantados para o quinto dos infernos, pegar lápis e papel e simplesmente escrever minha própria história. Essas duas partes estão sempre num equilíbrio dinâmico, sempre alternando e digladiando pelo controle dos meus pensamentos.
Quando eu vi o trailer de 500 Days of Summer, a parte um imediatamente se apaixonou pelos olhos azuis e laçarotes estilosos da Zooey Deschanel, enquanto que a parte dois se interessou pelo narrador dizendo “But you should know upfront that this is not a love story”. Ambas as partes confirmaram que precisavam ver o filme após uma rápida audição da trilha sonora do filme. Um possível problema seria o fato do filme só ser lançado por aqui em novembro. Mas a internet é cheia de boas pessoas, inclusive boas pessoas que tem acesso a cópias de pré-distribuição do filme, e ontem de madrugada, assim que cheguei em Araçatuba, coloquei o filme pra baixar.
Agora, vinte minutos após ter assistido o filme, já posso dizer: como eu suspeitava, “500 Days of Summer” é um dos meus filmes. Junto com Quase Famosos, Elizabethtow, Curtindo a Vida Adoidado e alguns outros, é o tipo de filme que eu vou ver quando precisar achar meu centro. Alguma fagulha do que me faz ser eu mesmo tá ali, sabe-se lá porque, e sempre que eu precisar entrar em contato com ela eu já sei onde encontrar: nos olhos azuis de Summer, nos atos impensados de Tom, na história contada fora de ordem do que aconteceu entre eles, nos momentos “eu já fiz isso”, nas horas de “eu queria ter feito isso”, e principalmente, nos instantes de “então não sou só eu”.
O filme é fabulosamente fabuloso. Como uma história de amor de verdade, não possui um gênero definido. Oras é um romance açucarado, oras é uma comédia sobre as tolices dos apaixonados, oras é um filme de terror sobre o que acontece quando tudo se vai com o vento. Sempre mantendo o ritmo, sem nunca perder o tom, a história de Tom e Summer é contada através de trechos dispersos no tempo: momentos felizes se alternam com momentos tristes, o começo é interpolado com o final, e várias comparações vão sendo feitas. Talvez o filme funcionasse linearmente, mas muitas das nuanças seriam perdidas, tanto ficaria para sempre escondido nas entrelinhas. E, como qualquer um sabe, são elas que importam, as malditas.
Mas esteja avisado: esta não é uma história de amor. É um conto lindo, é uma bela visão sobre os relacionamentos humanos, sem cair pra comédia romântica com overdose de glicose e nem descambar para o drama sombrio e desesperador. Agridoce é o sabor dos quinhentos dias de Summer. Mas não, não é uma história de amor. É uma história real, com pessoas reais e seus problemas e complexidades e falhas. Eu poderia ficar um tempão aqui destrinchando todos os pequenos momentos mágicos e trágicos do filme, fazer paralelos, colocar exemplos, dizer mil platitudes que não traduzem nem de longe o que qualquer cena do filme pode mostrar. Talvez o que eu possa dizer seja…ambos os meus lados ficaram em silêncio após o filme. Existe uma lição a ser aprendida, existe muito a ser assimilado e logo eles voltarão a digladiar entre si. Mas, agora, neste momento, ambos os lados estão em silêncio. Parabéns para Marc Webb por ter conseguido esse feito.
Charlie Brown: E o que você pode fazer quando você não se encaixa? O que você faz quando a vida parece passar longe de você? Lucy: Me segue. Eu quero te mostrar uma coisa.
(Eles vão para o alto de uma colina) Lucy: Está vendo o horizonte lá? Está vendo como o mundo é enorme? Está vendo quanto lugar tem pra todo mundo? Você já viu algum outro mundo? Charlie Brown: Não. Lucy: Até onde você sabe, esse é o único mundo que existe, certo? Charlie Brown: Certo. Lucy: Não tem outros mundos em que você possa viver, certo? Charlie Brown: Certo. Lucy: Você nasceu pra viver nesse mundo, certo? Charlie Brown: Certo. Lucy: ENTÃO, VIVA NELE! Cinco cents, por favor.
Suck it in, suck it in, suck it in if you’re Rin Tin Tin ( or Anne Boleyn)
Make a desperate move or else you’ll win
And then begin
To see
What you’re doing to me, this MTV is not for free ( It’s so PC it’s killing me)
So desperately I sing to thee
Of love
Sure!
But also rage and hate and pain and fear itself
And I can’t keep these feelings on the shelf
I’ve tried ( Well, no, in fact I lied)
Could be financial suicide, but I’ve got too much pride inside
To hide ( Or slide)
I’ll do as I’ll decide and let it ride until I’ve died
And only then shall I abide this tide
Of catchy little tunes
Of hip three minute ditties
I wanna bust all your balloons,
I wanna burn all of your cities to the ground!
I’ve found I will not mess around
Unless I play then hey,
I will go on all day
Hear what I say:
I have a prayer to pray ( That’s really all this was )
And when I’m feeling stuck and need a buck
I don’t rely on luck because the hook…
1975. Auge da Guerra Fria. O mundo prendia a respiração enquanto a águia e o urso ensaiavam um confronto final que não acontecia nunca. Milhares de bombas atômicas eram construídas e estocadas, esperando um mero sinal. O planeta poderia acabar caso Ronald Reagan bebesse demais e apertasse o botão vermelho por engano. O clima era tenso. O processo era lento. O bagulho era louco. Mano.
Aonde estávamos mesmo? Ah sim, Guerra Fria.
A Rússia desenvolvia sua arma definitiva no mais perfeito anonimato. Uma enorme instalação militar secreta foi construída no deserto siberiano, protegida por centenas de soldados armados até os dentes, rodeada por baterias antiaéreas prontas para abater o primeiro avião espião norte-americano que aparecesse. Soldados em snowmobiles patrulhava todo o perímetro, e matilhas de lobos selvagens famintos eram soltas ao redor do prédio, para o caso de espiões mais ousados tentarem alguma gracinha. Cercas eletrificadas, minas terrestres, armadilhas para ursos, nenhum esforço era ridículo demais para evitar que o inimigo descobrisse os segredos que aquela instalação escondia.
É óbvio que esta instalação não era nada mais que um disfarce.
O verdadeiro lugar aonde a pesquisa para a arma definitiva ocorria era um prédio público caindo aos pedaços no centro da Berlim oriental. Eram nos porões deste prédio que a nata dos cientistas soviéticos se reuniam para derrotar de uma vez por todas a praga capitalista. Era ali que os cientististas soviéticos criariam o soldado perfeito, o único homem capaz de conter o avanço americano e mostrar ao mundo que o sonho comunista era possível, o herdeiro de Lênin que levaria o mundo para a glória.
Durante anos material genético de heróis foi recuperado e preparado para utilização. Da Wallachia os agentes da KGB recuperaram a urna funeral de Vlad Tepes. Do pólo norte trouxeram um pedaço de unha do lendário São Nicolau. Sangue conquistador era necessário para os anos de luta, e das planícies da Mongólia foram resgatados os ossos de Genghis Khan. Finalmente, do coração da Mãe Rússia foi retirado um fio da barba da múmia de Lênin.
O material genético de São Nicolau, Genghis Khan e Lênin foi reunido, trabalhado e reconstruído em células tronco, que por sua vez foram injetadas nos restos mortais de Vlad Tepes. Os cientistas haviam confirmado que a lenda do vampiro romeno era verdadeira, e também descobriram que o vampiro renasceria com a injeção de material vivo em seus restos, reativando suas células e mesclando-as com as células invasoras, replicando-se e reformando o corpo do vampiro adulto em velocidade assustadora. Foi quando a porta da câmara isobárica foi aberta que os cientistas puderam respirar aliviados: seu experimento era um sucesso! Vlad Tepes renascia em toda sua glória.
Vlad Tepes, renascido.
Mas, como sabemos, o futuro não aconteceu como previsto pelos cientistas russos. Algo na mistura dos genes não correu como esperado…ou talvez houvesse um aspecto oculto destas quatro personalides, desconhecido pela história e pelos cientistas. Um aspecto oculto, potencializado pelo crescimento vertiginoso das células de Vlad Tepes, que iria moldar toda a personalidade e consciência do Vlad renascido. Por mais que os cientistas quisessem que o novo Vlad erguesse a bandeira comunista e derrotasse o império capitalista, nosso herói não ligava para assuntos tão mesquinhos e mundanos. Em sua mente recém-nascida, em sua alma
milenar, um desejo levantava-se acima de todos os outros e nada neste mundo faria Vlad alterar seu caminho.
Vlad Tepes, renascido em Berlim, só possuia um desejo: dançar.
Vlad Tepes era agora um dançarino, um bailarino, uma máquina de dançar, o senhor supremo das discotecas.
Desnecessário dizer que os cientistas ficaram arrasados. Anos e anos de trabalho, toda a esperança russa nas mãos deles, e um fracasso retumbante. Mas nem tudo estava perdido. Porque você pode perder a batalha, mas a guerra ainda poderia ser vencida. E se a vida lhe deu limões…se a vida lhe deu um vampiro dançarino, oras, vá lá e ganhe o Eurovision Song Contest.
E assim nasceu o Dschinghis Khan.
(E o Dschinghis Khan NÃO ganhou o Eurovision. Isso prova que os cientistas russos tinham idéias geniais, mas eram azarados pra cacete)
O que dá pra falar de Up que ninguém tenha dito? Todo mundo já sabe que a Pixar acertou em cheio mais uma vez. Todo mundo sabe que o filme é incrível, é lindo, as animações são divinas, as paisagens são perfeitas, a dublagem é impecável e o Chico Anysio chuta bundas. Todo mundo já sabe que o filme é um tantinho mais adulto, mas ainda tem baldes e baldes de piadas e coisas engraçadas. Todo mundo já sabe do gordinho simpático, do velhinho ranzinza, do cachorro fofo e do pássaro engraçado. E da piada do ESQUILO!
O que eu falo então?
Que eu adorei o comecinho e me identifiquei pacas com o jovem Carl, quatro-olhos, descabelado e tremendamente quieto. Que me apaixonei pela Ellie, tanto pela Ellie tagarela e maluquinha como pela Ellie velhinha e vovózinha. Que morri de rir quando a casa levanta voô e o Carl mostra a língua pros cara – ATÉ MAIS, SEUS BABACAS! E que o gordinho também é realmente fantasticamente irritante e amável. Que o doberman com defeito no vocalizador foi uma piada fantástica e que já devia ter sido feita há séculos. Que o “segredo” da Pixar nunca vai ser copiado – uma outra produtora irá surgir para substituir a Pixar e será diferente dela, assim como a Pixar é diferente da Disney – e mesmo esse dia ainda está bem longe. Que eu saí do cinema com um sorrisão do tamanho de um ESQUILO!!
…
Desculpem. Aonde eu estava? Que eu saí do cinema com um sorrisão do tamanho de um bonde. Que balões são legais. Que eu quero achar a minha Ellie. E que o mundo é um lugar legal pra se viver.
O Hobbit? Ah sim, o hobbit. Bem, ele é um hobbit. Chamam ele de Enrique, dizem que ele tem 26 anos, que nasceu em Araçatuba e agora mora em São Paulo. Eu preciso atualizar essa bio. Mas não agora, claro, porque procrastinar é viver. Se você tiver alguma pergunta, deseja fazer alguma reclamação ou então saber pra onde manda a conta do psicanalista, os meios de contato seguem abaixo:
Um repositório de cultura inútil? Um balaio de pensamentos desconexos? Opiniões que ninguém pediu? Piadinhas fora de hora? Furos na malha do tempo-espaço? Sim, e não se esqueça da toalha.