Da Parafernália Indispensável Cotidiana – Parte 1

1 – O Dróide Protocolar da Sorte

dróide

É bem útil andar com um dróide no bolso, ainda mais se o dróide for especialista em diplomacia interplanetária e fluente em mais de seis milhões de formas de comunicação. Hobbits sempre estão fora de seu habitat natural, em ambientes estranhos e muitas vezes cercados de seres e formas de vida estranhas. Os hobbits são especialistas em ficar na sua e desaparecer na paisagem, mas quando a comunicação se faz necessária é sempre bom ter um dróide tradutor ao alcance da mão.
Além disso, o dróide protocolar também é um amuleto positrônico de sorte da mais alta potência.

2 – All-Star Azul em processo de envelhecimento

allstar

Não me dou com esses tênis futuristas, cheios de tremeliques e trique-triques. Meu amigo Larri costuma chegar nas lojas de tênis e pedir um que não brilhe, e eu sigo a mesma linha de raciocínio. Tem que ser confortável pra usar o dia todo; tem que ser simples e sem frescuras, estiloso sem querer ser estiloso; e tem que ser barato. O All-Star (que não me pagou nada pra ficar aqui fazendo propaganda, mas estamos aí pra qualquer 100 reais) reúne todas essas características. É o mais próximo de um chinelo que um tênis consegue chegar; quanto mais velho e batido, mais legal e confortável ele fica; e custa pouco mais do que 60 reais. Só uso All-Star pro resto da vida (mais cemzinho, Converse, vai botando na conta).

Inquieto

As vezes é preciso desligar todos os sons pra que a gente consiga ouvir alguma coisa.
(O som dos meus dedos batendo nas teclas, o zunido do refrigerador, um anjo passando)
As vezes é preciso desviar os olhos para ver melhor.
As vezes tudo parece levemente fora de lugar.
Falta de sincronia, eixos milimetricamente deslocados, ou talvez seja a realidade embaçada.
Uma placa dizia “norte”, outra placa dizia “leste”, e por isso eu fui pro sul.
(E prometi pra mim mesmo que eu voltaria outra hora)
Talvez seja a gente crescendo, preenchendo os espaços, e o incômodo é natural em processos de crescimento.
A gente procura ver como tudo se encaixa, fica desnorteado no meio da bagunça, querendo saber como vai ser.
Nostalgia do futuro.
É preciso atravessar a tempestade e chegar do outro lado. Às vezes a salvação, no olho da tempestade.
No meio da inquietação, eu tento achar o olho da tempestade e lá dentro um ponto de quietude.
Em silêncio, por favor.

Maurício de Sousa por 50 Artistas

“Não tinha mais volta e você sabia. À sua frente, uma longa jornada rumo ao desconhecido. Não existe mapa para onde eu vou…mas isso nunca me impediu antes.”

A proposta de “Maurício de Sousa por 50 Artistas” – MPS50, pra encurtar – é simples e auto-explicativa: 50 artistas dos quadrinhos nacionais escrevendo e desenhando histórias com os personagens de Maurício de Sousa. Valia qualquer um dos muitos personagens: turma da Mônica, Chico Bento, Astronauta, Horácio, Penadinho…teve até quem se lembrasse do Bugu! É claro que o grande foco foi na Turma da Mônica, e não seria diferente. Mas também não faltaram histórias com o Astronauta ( com ares filosóficos de Surfista Prateado ), com o Chico Bento, e até o Horácio e o Louco se fizeram presentes com histórias legais.

Mesmo que você não goste da Turma da Mônica, vale a pena comprar pra conhecer as novas (e velhas) caras dos quadrinhos brasileiros. Os medalhões estão lá: Laerte abre o gibi, Ziraldo e Gonsales marcam presença, e até o Angeli aparece mostrando um lado desconhecido do Bob Cuspe. Mas o legal mesmo é ver coisas novas, e tem muito artista legal e desconhecido. Gostei muito da arte do Daniel Brandão e sua visão de Mônica e Magali aos cinquenta anos. Julia Bax merece atenção, e o Louco fica muito bom na mão dela. Orlandelli já é conhecidão, mas sempre manda muito bem. Mascaro faz uma das melhores histórias do Astronauta. Fábio Yabu foi quem viajou mais longe,com sua “Dias de um Futuro Esquecido” versão turminha – bem legal! Os dinossauros ficaram ótimos nas mãos de Salimena, e a cara do Horácio é impagável. Otoniel Oliveira lembrou da Marina e do Franjinha. Enfim, muita, muita coisa legal.

Se eu pudesse pegar duas histórias pra representar a obra, eu já sei quais seriam elas. A primeira delas é “A Vida de A”, dos gêmeos Moon e Bá. Quem já conhece os quadrinhos dos dois, já sabe da maestria com que eles misturam imagens e palavras. Tem gente que escreve bem, tem gente que desenha bem, mas não são todos que entendem que quadrinhos não são uma coisa nem outra – a soma das parcelas acaba multiplicando o resultado, as vezes exponencialmente. Moon e Bá sabem disso, e com duas páginas e o mínimo de texto conseguem fazer uma história marcante, única e cheia de significado. (A frase do começo do post foi tirada dela)

“Minha Visão Preferida”, de Vitor Cafaggi (pai do Puny Parker), fecha o livro de maneira perfeita, e deixa a gente como se tivesse visto passarinho verde. Tem certas obras que conseguem capturar mais do que a alma humana: conseguem chegar no coração e arrancar um sorriso de qualquer pessoa. Charles Schulz conseguia isso; os desenhos da Disney e da Pixar conseguem isso; certas músicas, certos livros, certas obras conseguem atravessar as armaduras e as tralhas que carregamos na cabeça o tempo todo, e ressoam lá na parte da nossa alma que sempre será criança. Vitor Cafaggi é um desses artistas: “Minha Visão Preferida” te deixa sorrindo e sentindo saudade do que nunca aconteceu. Esse cara vai longe, fiquem vendo.

Another Sort of Homecoming

  • Pra tirar o gato da sacola: em algumas semanas eu estarei indo embora de Salvador. Vou sair do emprego, e correr atrás do que eu quero, seja lá o que for que eu quero. Engenharia definitivamente não é pra mim. “Então o que é pra mim” é a pergunta que não quer calar. Bora descobrir, então.
  • “Mas e o que você vai fazer?”. Cada pessoa que me faz essa pergunta, eu respondo de um jeito diferente. A Camila já ouve minha ladainha desde que eu cheguei em Salvador, nem sei como ela ainda me atura. Tem tantas coisas que eu gostaria de fazer, e eu confesso que não sei ao certo pra qual caminho eu vou. Algo me diz “Escolhe um caminho e pula, como você nunca pulou antes. Se entrega, vai com tudo, e o mundo vai te seguir”. Porque a gente vive a vida no rasinho, só sentindo a água nos pés e nunca mergulhando. E eu já pulei tanto pelos outros, sem nunca achar ninguém quanto eu chego lá embaixo, que talvez faça mais sentido eu pular por mim mesmo. E vai ser uma surpresa dos diabos se eu não me encontrar lá embaixo oÔ.
  • Quarta passada eu fui pra São Paulo a trabalho, fiquei num hotel na Liberdade que parecia pertencer a máfia coreana, fui praticamente expulso do mesmo hotel sem explicações no outro dia (“não há mais vagas, ordem da diretoria internacional!”), descobri mais regiões de São Paulo que eu não conhecia, conversei com um taxista-ex-mecânico-de-super-motos que me contou vários causos com autêntico sotaque e gírias paulistanas, fui com o Omelete numa casa de hamburguers e comi o maior beirute que eu já vi na minha vida, passeei na livraria Cultura da Paulista (vulgo paraíso), andei pela Liberdade as 11 da noite e não fui abordado por mafiosos coreanos e nem ninjas. É, foi uma viagem divertida.
  • Na quinta mesmo eu fui pra casa, atravessando a Grande Planície Paulista de busão. É bom saber que eu vou voltar pra lá, pelo menos por uns tempos. “Mas você vai ver, você não vai conseguir ficar muito tempo aqui, depois que já morou sozinho” disse minha mãe. E eu já sabia que era verdade. Estranho, muito estranho.
  • Ontem eu fui pra São Paulo de novo a trabalho. Tava programando passear na livraria Cultura e comer brownie com uma ilustre companhia, mas a reunião atrasou um bocado e acabou não dando certo. Hmpf. Fica pra próxima ;~.
  • Nesses quatro dias em casa eu fiz algo que devia ter feito a séculos: voltei a rabiscar. Até o terceiro colegial eu praticamente gastava todo meu tempo livre desenhando, mas nunca dei valor. Achava que não desenhava bem, que não tinha futuro, e nem dava muita bola. Com o tempo, a faculdade e etc e tal, acabei parando completamente. Sabe aquilo de viver no rasinho, que eu disse ali em cima? Se aplica aqui também. Mas a vontade nunca morreu, o desejo que eu sinto de fazer coisas legais, a inveja que eu tenho quando vejo o trabalho de algum desenhista foda, isso nunca desapareceu, apesar de amordaçado. “Ah, isso não é pra mim”. Hmpf.
  • Talvez isso se aplique a escrever também. Talvez – não – Com certeza, a hora de mergulhar é agora.
  • 2009 é um ano dos bons, em que muito tem acontecido, se não tanto num plano físico, mas talvez mais num plano psicológico. É um ano de pessoas novas, de idéias novas, de novos ventos e novos caminhos. E ao mesmo tempo é um ano de rever o passado, de reconstruir pontes que foram desnecessariamente queimadas, de entender o passado pra fazer direito no futuro. Tem tantas lições no ar que eu fico pensando se estou aprendendo todas, ou pelo menos algumas.

500 dias

They’ll name a city after us, and later say it’s all our fault

Tem duas partes em mim. Uma parte acredita em destino, em almas gêmeas, em silver linings, na inexistência da casualidade, em algo maior, em uma história com final polianamente correto para cada um de nós. A outra parte quer mandar as princesas prometidas e os príncipes encantados para o quinto dos infernos, pegar lápis e papel e simplesmente escrever minha própria história. Essas duas partes estão sempre num equilíbrio dinâmico, sempre alternando e digladiando pelo controle dos meus pensamentos.

Quando eu vi o trailer de 500 Days of Summer, a parte um imediatamente se apaixonou pelos olhos azuis e laçarotes estilosos da Zooey Deschanel, enquanto que a parte dois se interessou pelo narrador dizendo “But you should know upfront that this is not a love story”. Ambas as partes confirmaram que precisavam ver o filme após uma rápida audição da trilha sonora do filme. Um possível problema seria o fato do filme só ser lançado por aqui em novembro. Mas a internet é cheia de boas pessoas, inclusive boas pessoas que tem acesso a cópias de pré-distribuição do filme, e ontem de madrugada, assim que cheguei em Araçatuba, coloquei o filme pra baixar.

Agora, vinte minutos após ter assistido o filme, já posso dizer: como eu suspeitava, “500 Days of Summer” é um dos meus filmes. Junto com Quase Famosos, Elizabethtow, Curtindo a Vida Adoidado e alguns outros, é o tipo de filme que eu vou ver quando precisar achar meu centro. Alguma fagulha do que me faz ser eu mesmo tá ali, sabe-se lá porque, e sempre que eu precisar entrar em contato com ela eu já sei onde encontrar: nos olhos azuis de Summer, nos atos impensados de Tom, na história contada fora de ordem do que aconteceu entre eles, nos momentos “eu já fiz isso”, nas horas de “eu queria ter feito isso”, e principalmente, nos instantes de “então não sou só eu”.

O filme é fabulosamente fabuloso. Como uma história de amor de verdade, não possui um gênero definido. Oras é um romance açucarado, oras é uma comédia sobre as tolices dos apaixonados, oras é um filme de terror sobre o que acontece quando tudo se vai com o vento. Sempre mantendo o ritmo, sem nunca perder o tom, a história de Tom e Summer é contada através de trechos dispersos no tempo: momentos felizes se alternam com momentos tristes, o começo é interpolado com o final, e várias comparações vão sendo feitas. Talvez o filme funcionasse linearmente, mas muitas das nuanças seriam perdidas, tanto ficaria para sempre escondido nas entrelinhas. E, como qualquer um sabe, são elas que importam, as malditas.

Mas esteja avisado: esta não é uma história de amor. É um conto lindo, é uma bela visão sobre os relacionamentos humanos, sem cair pra comédia romântica com overdose de glicose e nem descambar para o drama sombrio e desesperador. Agridoce é o sabor dos quinhentos dias de Summer. Mas não, não é uma história de amor. É uma história real, com pessoas reais e seus problemas e complexidades e falhas. Eu poderia ficar um tempão aqui destrinchando todos os pequenos momentos mágicos e trágicos do filme, fazer paralelos, colocar exemplos, dizer mil platitudes que não traduzem nem de longe o que qualquer cena do filme pode mostrar. Talvez o que eu possa dizer seja…ambos os meus lados ficaram em silêncio após o filme. Existe uma lição a ser aprendida, existe muito a ser assimilado e logo eles voltarão a digladiar entre si. Mas, agora, neste momento, ambos os lados estão em silêncio. Parabéns para Marc Webb por ter conseguido esse feito.