Posts de 2010

Músicas Pra Curar a Geração das Calças Coloridas

sexta-feira, agosto 27th, 2010

Tequila Baby – “Sexo, Algemas e Cinta-Liga”

Acho que não dá pra ser mais direto que “o meu problema é sexo, algemas e cinta-liga”, né? O Tequila Baby é dessas bandas punk que seguem a cartilha dos Ramones, dois minutos, três acordes e nada mais. Essa música tão bela fala sobre…bem, se você precisa de um guia pra saber do que eles estão falando, o problema já não é comigo. Mas preste atenção na poesia desses versos: “Não me importa que tenha outros homens; mas que goste de ouvir Ramones”.

Matanza – Mesa de Saloon

Isso é que é love song! Isso é que é história de amor! Isso é que é emoção! Há quem considere o Matanza uma banda caricata, de mentirinha. São pessoas que não entendem a graça do universo sujo e modorrento do Clube Irmão Caminhoneiro Shell, que preferem bandas limpinhas, esterelizadas e totalmente sem graça. São pessoas que nunca se apaixonaram bem no meio do Saloon!

Raimundos – Puteiro em João Pessoa

“O quêêêêêê?? Rodolfiiiiiiiiiinho?? No puteeeeeeeeeiro?? E NÃO LEVOU SEU IRMÃO???” Antes de se perder por aí, o Raimundos foi uma das pricipais bandas dos anos 90. Claro que na época eu estava mais interessado nos palavrões e nas letras imundas, mas ouvindo agora percebo que os caras eram REALMENTE bons. A mistura perfeita entre punk e música nordestina, blábláblá, etc e tal.

Ultraje a Rigor – Giselda

Sabe o que é triste? Ninguém nunca levou o Ultraje a “sério” justamente por eles serem tão escrachados, e hoje em dia pouca gente tem noção de quão foda eles eram. Acho que ninguém fez um primeiro disco tão perfeito quanto eles, só com músicas perfeitas e espertíssimas. “Giselda” é uma singela e sincera pra todas as mulheres que…que não dão, ora bolas. Versos finíssimos como “Eu não sou de comer tanto, mas você eu almoço e janto” mostram toda a poesia de Roger Moreira!

Diga Qualquer Coisa

quinta-feira, agosto 26th, 2010

Aí hoje eu assisti “Say Anything”, um dos primeiros filmes do Cameron Crowe lá no finalzinho dos anos 80, com direito a John Cusack com cara de moleque e música-tema do Peter Gabriel. Já fazem uns 5 ou 6 anos que eu queria assistir esse filme, mas na época era super foda de encontrá-lo, seja pra alugar (lembram disso? locadoras de vídeo?) seja pra baixar na internet. Não tinha no Kaaza e nos P2P que a gente usava naquela época…mas os tempos mudam, a tecnologia avança, e lá estava o filme no PirateBay pra baixar quando lembrei dele ontem por causa de uma imagem qualquer no Tumblr.

A história de “Say Anything” não tem nada de diferente da comédia romântica adolescente típica: garoto pobre sem futuro encontra garota rica e eles se apaixonam, mas o futuro brilhante da garota (e seu pai durão) se intrometem no caminho deles, mas no final tudo se acerta. A diferença de “Say Anything” pras outras trocentas comédias românticas adolescentes típicas é o dedão do Sr. Cameron Crowe, com seu jeito único de retratar as pessoas e sua trilha sonora sempre impecável. Um outro diretor erraria na mão, e faria um garoto vagabundo que muda de personalidade quando conhece a garota de seus sonhos, e faria um pai durão insensível babaca que todos amam odiar, e faria aqueles diálogos estúpidos que toda comédia romântica adolescente típica costuma ter. Mas com o Cameron Crowe é diferente: os personagens falam e fazem coisas (em sua maioria, estúpidas) que nós mesmos faríamos. Ou já fizemos, ou queríamos fazer. Ele entende seu público de adolescentes que não sabem pra onde ir e adultos que não conseguem ver razão pra crescer, e eles nos dá aquela esperança de que no final tudo vai dar certo, de um jeito ou de outro (uma espécie de fé nas engrenagens).

(Mas maldito seja Cameron Crowe por me deixar com uma música do Peter Gabriel (PETER GABRIEL!) na cabeça.)

“Accepting all I’ve done and said
I want to stand and stare again”

Da Ausência da Testosterona e das Calças Coloridas

segunda-feira, agosto 23rd, 2010
Aonde fomos parar, ó São Sly?

Aonde fomos parar, ó São Sly?

Pode colocar num gráfico: o crescimento do número de jovens trajando calças apertadas coloridas, óculos gigantes coloridos e cabelos estilo “cagaramnatuacabeçavéi” está DIRETAMENTE, senão EXPONENCIALMENTE, ligado ao declínio dos verdadeiros filmes de ação. Essa grande verdade universal me surgiu assistindo a “Mercenários”, que eu falarei sobre em um próximo post. Mas por ora, basta saber que “Mercenários” é tipo uma experiência religiosa, tipo um satori coletivo, só que com mais armas pesadas, explosões e capangas pulverizados.

Galera do bem, gente-boa, tudo sangue bão.

Galera do bem, gente-boa, tudo sangue bão.

Assistindo “Mercenários”, algo ficou bem claro: essa geração de calças coloridas não tem um verdadeiro action hero, um modelo comportamental estilo brutamontes armado até os dentes. Essa galera não assistia Rambo no Cinema em Casa, nunca viu Falcão – O Campeão dos Campeões na Sessão da Tarde. Nunca viu o Van Damme vencer a competição após Chong Li jogar areia em seu rosto. Pra eles, Chuck Norris é só um meme da internet e não um maluco que fuzilava vietcongues como se estivesse jogando videogame. Nunca viram Conan passar 15 anos girando uma roda gigante de madeira e se transformar numa montanha de músculos. Nunca viram o Jackie Chan aprender o kung-fu do bêbado. Eles nunca entenderiam porque um filme com o Mel Gibson e o Danny Glover poderia se chamar “Máquina Mortífera”. Não devem ter se embrenhado junto com Bruce Willis através de quilômetros de dutos para matar terroristas (Yiipe-ki-ay, motherfucker!). Nunca viram um Exterminador de modelo ultrapassado chutar a bunda de um monstro de metal líquido – e depois se sacrificar pra salvar o futuro. Eles nunca nem viram o Schwarza matar um Predador com uma bomba atômica e se esconder atrás de um tronco de árvore!

Eles nem devem saber porque o Governator é o Governator!

Eles nem devem saber porque o Governator é o Governator!

Faltou amor testosterônico heterossexual, faltou demonstração cinematográfica de culhões de aço, faltou aquela dose essencial de violência gráfica e pancadaria sem regulação. No lugar disso, o que eles tiveram?

Pois é. Com uma bolota rosa e um bicho amarelo que grita “PIKA! PIKA!” como modelos comportamentais, o que vocês queriam? Sabe, a idéia de usar uma calça jeans colorida apertada aparecesse na minha cabeça, o conceito de Stallone que habita minha mente juntaria um grupo de brutamontes armados até os dentes e exterminaria essa idéia até reduzi-la a pó. “Mas idéia não vira pó!”. Ah é? Conta pro Stallone.

Sobre Inception

domingo, agosto 22nd, 2010

Antes de tudo, um aviso: caso você não tenha visto “Inception – A Origem”, fique sabendo que este post contém vários SPOILERS, importantes ou não, então leia por sua conta e risco. E sério, se você não assistiu Inception ainda, faça-se o favor – levanta a bunda da cadeira e corra já para o cinema mais próximo. Ou baixe o filme, sei lá. Mas assista, e não perca tempo lendo reviews do filme na internet, seu fresco. Quer um review? Inception é DO CARALHO. E pronto.

Segundo aviso: eu não guardo nomes de atores, e sim de personagens marcantes. Por exemplo, os protagonistas de “O Grande Truque” pra mim são o Wolverine e o Batman. Assim, pra facilitar a compreensão da resenha abaixo, segue uma lista para que você possa identificar de quem diabos eu estou falando.

  • Dicaprio – Leonardo Dicaprio, que faz o Cobb, protagonista do filme.
  • Tom – Joseph Gordon-Levitt, o sidekick estiloso.
  • Kitty Pryde – Ellen Page, que faz Ariadne e é a mocinha.
  • Watanabe – Ken Watanabe, empresário mafioso e financiador da parada.
  • Mauricinho – Cillian Murphy, que faz o filhinho de papai que é o alvo da parada toda

Agora, ao filme.

Eu enrolei duas semanas pra assistir Inception. Tentei ir uma vez na semana retrasada, não deu certo e então meu irmão avisou que estaria aqui em Sumpaulo nesse fim de semana justamente pra ver Inception e Os Mercenários – melhor então esperar pra assistir com ele. Nessas duas semanas eu evitei tudo o que tinha a ver com o filme – reviews, reportagens, posts, comentários de twitter, até mesmo descrições inócuas do filme. E consegui – tá, exceto por essa tirinha do Liniers, mas de resto entrei virgem de spoilers na sala de cinema. Mó frescura, admito, mas foi melhor assim. Eu sabia que o filme tinha alguma coisa a ver com sonhos, e só. Eu nem sonh…eu nem imaginava o que estava por vir. E o que estava por vir…

E o que estava por vir foi caralhal, por falta de um adjetivo melhor. (Na verdade, segundo o método Toledo-Pinheiro de adjetivos, o termo correto para Inception seria M-A-X-I-M-U-M F-O-D-A-S-T-I-C-U-M). Sabe quando Matrix era inovador porque trazia aquele conceito de que a realidade é um sonho? E aí os caras cagaram nas continuações? Então. Aí veio o Christopher Nolan e jogou um CAMINHÃO de cal em Matrix, mostrando que tudo pode ficar ainda mais complicado e fantástico. Inception trata de realidades dentro de sonhos dentro de sonhos de sonhos…o jeito como ele mostra isso logo no começo é fantástico. Lá estão Dicaprio e o Tom vendendo proteção contra extração de sonhos para Ken Watanabe em meio a um castelo oriental…e quando você vê, era tudo um sonho e eles estão em um apartamento fodido em meio a uma revolução civil…e quando você vê, era tudo outro sonho, e eles estão na verdade dentro de um trem. As regras e detalhes da viagem-dentro-dos-sonhos vão sendo explicadas aos poucos, na parte em que a Kitty Pryde é apresentada…aliás, tomarei vergonha e a chamarei pelo nome: Ariadne! Ela é uma arquiteta de sonhos, e o que ela imagina se torna verdade…desde cenários até leis da física. A cena onde ela vai dobrando a cidade é simplesmente foda, perfeita e genial. E nesse meio tempo a gente também vai descobrindo o lado negro do Dicaprio…seu problema com a ex-mulher, seu passado mal-explicado. Outro conceito legal que é introduzido é a história do totem – um objeto seu que te diz se você está no mundo real ou não.

E confesso que eu nem sonh…nem imaginava que fosse um filme sobre ladrões, estilo Ocean’s Eleven! Eu adoro esse tipo de filme (e fui descobrir anteontem que tem um nome pra esse “gênero”: heist movie), e foi uma ótima surpresa descobrir que Inception era assim. Aí claro, temos as partes essenciais de todo heist movie: alguém propõe um serviço, o protagonista aceita por razões pessoais, seu parceiro tenta convencê-lo a desistir mas acaba aceitando, eles reúnem o time de especialistas, vemos o treinamento do novato (no caso, a Ariadne), e então a execução do serviço. Clichezões, claro, mas aplicados a um ambiente novo e de forma impecável. Você sabe que as coisas vão dar errado, que alguém vai se ferir, que tudo só vai se resolver no último instante…mas foda-se, é legal pra caralho! O serviço envolve a inserção de uma idéia dentro da cabeça do herdeiro de uma gigante empresa de energia. Isso, obviamente, é feito através de sonhos – três níveis de sonhos, pra ser mais exato. Cada nível de sonho tem seu próprio cenário, sua própria lógica e seus próprios participantes. Uma hora estamos no meio de uma cidade na chuva, na outra estamos em um hotel, e outra hora estamos numa base militar numa montanha gelada. Cada nível de sonho funciona num esquema temporal mais lento que a realidade, de modo que anos podem se passar num nível profundo de sonho antes que minutos se passem na vida real. Ótima idéia, sr. Nolan – assim criamos todo o plano de fundo pra história do Dicaprio, e também elevamos a tensão lá na putaquepariu porque os três níveis de sonho precisam se “sincronizar” – é preciso que todos acordem nos três níveis ao mesmo tempo pra sair do sonho e não ir parar no limbo. E claro, alguém vai parar no limbo. O protagonista, é óbvio, e também a Ariadne – sacaram de onde o nome, fãs de mitologia grega?. (Tá, se bem que nesse momento ela não serve de Ariadne…mais sobre isso num parágrafo lá pra frente). Enfim, o clímax do filme se encontra nesse momento em que os três sonhos convergem e tudo começa a acontecer ao mesmo tempo. É muuuuito massa, e muuuito foda! Principalmente o segundo nível, onde o Tom tem que enfrentar as defesas da mente do Mauricinho em corredores que giram – aliás, o motivo pelo qual os corredores giram é legal pra caralho. Bem pensado pra cacete. E o modo que o Tom encontra pra conseguir acordar os outros sonhadores é legal demais, digno de um filme de ação dos anos 80!  Enfim…paguei muito pau pro filme.

E vou ter que assistir de novo, porque MUITA coisa não ficou clara. E tenho certeza que não vai adiantar assistir de novo, porque o objetivo era deixar ambíguo mesmo…maaas a gente adora teorizar, não? A grande pergunta do filme, na minha opinião, é: é tudo um sonho do Dicaprio/Cobb? Seria todo o esquema de inserir a idéia na cabeça do Mauricinho um grande golpe – um Mr. Charles, como eles chamam no filme – para enganá-lo e tirá-lo do sonho, ou pelo menos do limbo, ou sabe-se lá de onde? Porque diabos a mocinha do filme se chama Ariadne – a moça que ajudou Teseu a sair do labirinto do Minotauro, na mitologia grega? Sim, ela criava labirintos e etc e tal…mas no filme é ela quem “força” Cobb a enfrentar seus demônios no subconsciente, talvez para que ele pudesse emergir para a realidade. O que a ex-mulher dele fala tem sentido – viver fugindo de perseguidores, nunca poder voltar pra casa, os filhos que ele nunca mais pode olhar no rosto, tudo cheira a um sonho confundido com realidade. É como se estivesse preso naquele sonho, e seus próprios traumas o impedissem de rever seus filhos (aí sua mente teria criado seus perseguidores, criado toda aquela situação). (Mas e o totem? Oras, se o totem tiver sido criado dentro daquele nível de sonho, ele só pode indicar que ele está naquele nível de sonho, e só – não serve pra saber se ele está no mundo real). Claro que essa teoria também tem seus vários furos – como os outros personagens se encaixam nela, por exemplo? Seriam criações da mente de Cobb, seriam pessoas que compartilham do sonho dele? (Acabo de lembrar da cena onde o químico mostra as pessoas viciadas em sonhos compartilhados). E o sogro do Cobb? Porque diabos uma hora ele está dando aulas em Paris, e mais tarde ele está nos Estados Unidos, com os filhos do Cobb? Nada contra um professor importante dar aulas na Europa e morar nos EUA, mas algo me pareceu errado…E o pião? Será que ele caiu, ou continuou rodando?

Enfim…por enquanto, é isso que eu tinha pra dizer sobre Inception. Com certeza, um dos filmes mais legais que eu já vi, incrivelmente bem feito e bem pensado, com história e conceito fodáááásticos. Parabéns, Christopher Nolan: mais um filme impecável! E que venha o Batman 3, com o Tom fazendo papel de Charada!

Do Zen e da Arte da Qualidade

quinta-feira, agosto 19th, 2010

“O que é bom, Fedro,
E o que não é bom -
Acaso precisamos pedir a alguém que nos ensine essas coisas?”

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” é desses livros que deixam sua cabeça coçando por uma vida inteira. Não, não tem piolhos saltando das páginas – tem coisa pior, tem idéias saltando das páginas e grudando na sua cabeça. E são boas idéias, idéias inspiradas pela própria idéia de Qualidade que o livro explora. Qualidade – algo que não pode ser definido, mas aquilo que sabemos – ou melhor, sentimos – que é bom. Pirsig coloca o dedo em várias das feridas dos nossos tempos – e olha que o livro foi escrito a quase cinquenta anos atrás. De lá pra cá não muito mudou: vide a série dos “Quadrinhos dos anos 10″, lá nos Malvados do André Dahmer. Sim, o sentimento de que algo está errado na sociedade como um todo é quase onipresente, mas continuamos correndo pra lá e pra cá sem saber o que fazer.

Não que as idéias de Pirsig sejam novas, como ele mesmo mostra no decorrer do livro. Sofistas gregos, monges zen, taoístas chineses, filósofos do século passado – a idéia muda de nome, mas sua alma é a mesma. Sabemos o que é bom para nós e para o mundo, conseguimos sentir e não precisamos que ninguém nos diga. Podemos olhar pra um objeto, pra uma obra de arte, pra um texto, pra uma atitude, pra uma idéia e sabemos dizer que aquilo tem ou não qualidade: é tão claro quanto o dia. Mas como definir o que é qualidade? Essa pergunta é o ponto inicial da jornada de Fedro e de Pirsig – o livro acompanha estas duas “aventuras” em paralelo, em meio a descrições da viagem de moto e as “chautauquas” que o autor faz durante todo o livro. Fedro jamais soube quando parar de perguntar, e talvez tenha sido isso que o condenou à morte. Pirsig é a parte de Fedro que sobreviveu – à loucura, ao eletrochoque – mas que se pergunta quem é realmente a pessoa e quem é o fantasma.

Enfim, “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” é um livro fodão. Apesar do título, não tem nada a ver com Budismo Zen – apesar de ter tudo a ver com Budismo Zen. E também não ensina muito sobre motocicletas – apesar das motocicletas estarem onipresentes pelo texto. É um livro sobre…tudo, sobre o mundo em que vivemos, sobre a época em que vivemos, as vidas que levamos, como chegamos até aqui e os caminhos que podemos seguir.

Esteja Aqui Agora

quinta-feira, agosto 12th, 2010

“Numa carta escrita na Índia, Fedro falava de sua peregrinação ao sagrado Monte Kailas, nascente do Ganges e morada de Shiva, no alto do Himalaia. Começou a fazer a peregrinação na companhia de um santo e seus discípulos.

Nunca chegou à montanha. No final do terceiro dia desistiu, exausto, e a peregrinação continuou sem ele. Disse que tinha a força física, mas que essa força física não era suficiente. Tinha a motivação intelectual, mas ela também não era suficiente. Não achava que tinha sido arrogante, mas que tinha tentado fazer a peregrinação para ampliar suas experiências, para obter conhecimento para si mesmo. Tentava usar a montanha e a própria peregrinação para seus próprios fins. Para ele, a entidade fixa não era a montanha nem o caminhar, mas ele mesmo; assim, não estava pronto para peregrinar. (…)

Para o observador leigo, a escalada com ego e a escalada sem ego parecem idênticas. Ambos os tipos de escaladores colocam um pé a frente do outro. Ambos inspiram e expiram no mesmo ritmo. Ambos param quando estão cansados e vão adiante quando bem dispostos. Mas quanta diferença! O escalador pelo ego é como uma máquina desregulada. Põe o pé no chão um segundo antes ou depois que devia. Tende a não perceber as belas passagens do sol por entre as copas das árvores. Vai adiante quando seu passo desajeitado mostra que já está cansado. Descansa na hora errada. (…) Vai mais rápido ou mais devagar do que deveria e, quando fala, suas palavras versam sempre sobre outro tempo, outro lugar. Está aqui mas não está. Rejeita o aqui, vive descontente com o aqui, quer estar mais adiante no caminho; mas, quando estiver lá, também estará descontente, pois então “lá” será “aqui”. O que ele procura, o que quer está em toda parte à sua volta; mas, exatamente por causa disso, não a quer. Cada passo é um esforço físico e espiritual, pois ele imagina que sua meta está fora dele e muito, muito longe.

Trechão de “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas”, livro fodíssimo que estou lendo. Em parte, é uma espécie de road-book porque descreve uma viagem de moto através do interior dos Estados Unidos. Em parte também é um ensaio filosófico – uma investigação sobre os valores, como diz o subtítulo. E em parte também, talvez a parte mais fascinante, a história de um homem que tenta escapar do fantasma do homem que ele um dia foi – que foi declarado insano e condenado a ter sua personalidade apagada através da “terapia” de eletrochoque.

Inverno Has Arrived

terça-feira, julho 13th, 2010
  • O inverno finalmente resolveu dar as caras em Araçatuba. “Inverno” é uma palavra beeem forte, se eu for pensar bem. No máximo rola uma semana de frio mediano (nada no estilo serra gaúcha), sempre em julho, sempre coincidindo com a exposição agropecuária da cidade, sempre indo embora justo quando você já estava se acostumando com ele. Mas tá bom, qualquer vestígio de frio é bemvindo no faroeste paulista.
  • Falando na Exposição Agropecuária…caracoles, como tá fraquinha! Costumava ser uma das maiores exposições da região, sempre com shows grandes (note que eu disse grandes, e não bons): duplas sertanejas de sucesso, pagodeiros quando ainda existiam pagodeiros, e uma ou outra banda de rock/pop. Já teve Paralamas, Capital Inicial (na época do Acústica, quando eles re-estouraram), Barão Vermelho…bandas que de outro jeito nunca viriam tocar aqui. E esse ano não tem NENHUMA bandinha de merda de rock/pop, só um monte de tranqueiras. Duplas sertanejas pouco conhecidas, bandas de pagode que devem ter renascido no inferno só pra vir tocar na exposição… A cidade do Boi Gordo (ou Boi Fofo, como diz o Deroco) anda mal das pernas mesmo! oÔ
  • Ontem de madrugada eu assisti o primeiro episódio de Caprica, seriado prequel de Battlestar Galactica, que conta como os humanos inventaram as criaturas cibernéticas que viriam a se rebelar e destruir todas as colônias humanas no início de Battlestar. Achei bem legal, interessante e ao mesmo tempo BEM diferente de Battlestar Galactica. Ainda não me convenceu a colocá-lo na lista de seriados “Pra Assistir Urgentemente”, mas está no caminho. E eles arrumaram uma clone da Zooey Deschanel pra fazer uma das protagonistas! Olhão grandão, franja, carinha de menina, fofinha, etc e tal….e o pior é que eles não tentaram nem disfarçar: o nome da personagem dela é Zoe! O seriado também conta com uma Jodie Foster Genérica, e um Eric Stoltz genérico ( que é o próprio Stoltz, mas ele é genérico por natureza).
  • Agora, digno de nota mesmo é a trilha do Bear McCreary, tanto pro Caprica como pro Battlestar Galactica. É perfeita, fenomenal, de proporções épicas e lendárias – e olha que eu nem tenho saco pra trilhas sonoras. Os temas de ação são caralhais, os temas calminhos tem aquela calma paranóica de que alguma coisa vai acontecer. O cara curte sons orientais, cítaras, tambores tribais e coisas esquisitas…olha, tinha tudo pra dar errado e sair música bunda mole e sem sal. E acontece justamente o oposto – prova disso é essa versão de “All Along The Watchtower”. Já ouviu uma música com cítara soar ameaçadora? Eu nunca tinha ouvido.



“No reason to get excited”, the thief, he kindly spoke
“There are many here among us who feel that life is but a joke
But you and I, we’ve been through that and this is not our fate
So let us not talk falsely now, the hour is getting late