Coisas Geek de um Hobbit Inútil

E não se esqueça da toalha.

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De 2010 pra 2011

2010. Uau.

Em 2010 eu fui pra São Paulo. As engrenagens rodaram e quando eu vi eu tava morando em São Paulo, fazendo faculdade de Design de Interfaces Digitais, passeando com a Marta, jantando com o Omelete, explorando os sebos de Pinheiros, descobrindo a lógica dos ônibus paulistanos, decorando o mapa do metrô, levando minha mãe na 25 de março, conhecendo um monte de gente nova na faculdade nova, fazendo churrasco e revendo o pessoal da faculdade de Ilha, aprendendo a cozinhar, voltando a desenhar, voltando a fazer um monte de coisas que eu gosto.

Em 2010 eu me vi sentado novamente numa sala de aula, e me vi interessado no que os professores tinham a dizer, me vi encantado com os trabalhos e com as coisas que aprendia, mergulhando num universo de conhecimentos totalmente novo e estranhamente familiar. Em 2010 eu achei meu caminho – o lendário caminho que eu procurei tanto em 2009, 2008, 2007, 1983… Em 2010 eu vi minha vida fazendo sentido – estranho como é no olho do furacão que a gente encontra a calma.

Que 2011 seja tão MEGA-ULTRA-P-H-O-D-A quanto 2010. E que em 2011 eu encontre a força e determinação pra ser quem eu quero ser. E vamo que vamo =)

Shine a Light

( Criei um Flickr, pra despejar as fotos tiradas com o celular, e também desenhos e coisas randômicas. Vai lá, ó)

“Anathem”, do Neal Stephenson

Acabei de terminar “Anathem”, depois de semanas em combate com ele. E vamos às impressões, antes que eu esqueça de tudo que  eu li.

Primeiro, a parte ruim: caramba, como o Neal Stephenson enrola! Se você acha que o Tolkien exagerava nas descrições longas, saiba que o bom velhinho élfico não chega nem aos pés desse maluco no quesito “Descrições Que Te Dão Vontade De Jogar o Livro na Parede”. São coisas como…bom, no final do livro, quando o bicho começa a pegar e MUNDOS COLIDEM, literalmente, tu tem que aturar umas seis páginas descrevendo o funcionamento de uma roupa espacial. Ou então quando tudo que você quer é uma explicação pro que diabos acabou de acontecer, e o cara perde dez páginas falando sobre o funcionamento interno da nave espacial. Tá, tudo bem, eu entendo que o livro é de ficção científica, e que essas descrições devem ter deixado muitos nerds com orgasmos múltiplos prolongados. Mas chega num ponto que interrompe o andamento da história =P.

A parte boa: Neal Stephenson é foda. Ainda hoje cedo eu li esse post dizendo que ele é um autor enciclopédico , e não posso deixar de concordar. Anathem é abarrotado de idéias e conceitos e informações e coisinhas legais, e no final tu fica pensando que é um milagre que tudo se sustente. O que eu particularmente gostei nesse livro, e que já disse no outro post, é de como a trama se passa em um mundo velho, onde a civilização já tombou e se reergueu várias vezes. Os cientistas reclusos em monastérios, a maneira como o conhecimento “proibido” é protegido e mantido vivo dentro de suas grossas muralhas durante milhares de anos, o problema de entendimento entre o mundo monástico-científico e o secular-popular. É um mundo diferente do nosso, mas quando você para pra pensar…é diferente só em alguns pontos. E quem diz o que acontecerá conosco se sobrevivermos por mais alguns milhares de anos?

(Spoilers grandes e grotescos depois dessa linha)

Claro, o grande mote do livro é a teoria dos múltiplos universos. Eu achei bem interessante a idéia de múltiplas narrativas: cada pessoa é repetida infinitas vezes em infinitos universos, cada um diferente uma mera partícula um do outro, de modo que tudo que pode acontecer acontece em algum lugar. A grande discussão é: pode um universo afetar o outro? Informação consegue viajar através desses universos? O livro diz que sim…que nossas idéias, intuições, sonhos, premonições, viagens na maionese, são frutos do pensamento divergente/convergente de nossos outros “eus”. E que existe um mundo perfeito, algo como o mundo das idéias de Platão, de onde todos os outros universos emanam, e por isso eles são tão parecidos entre si. A discussão vai bem mais longe: pode-se alterar conscientemente o que acontece em um ou mais universos? Pode-se alterar o futuro…e pode-se alterar o passado?

Enfim, “Anathem” é um puta livro – tanto em tamanho quanto em qualidade. Se você gostar de viagens profundas na maionese, curtir discussões filosóficas misturadas com teoria quântica e tiver paciência pra aturar as descrições gigantescas, vale a pena encarar o monstrengo. E já que eu estou no clima da viagem na maionese, acho que vou chutar o balde e encarar um livro do Philip K. Dick…

MFC

Tem essa estrada, e ele precisa andar. Não é novidade. A estrada sempre esteve lá, óbvia como tudo, longa como a vida. Mas ele é burro. Nos dias bons, fica sonhando na encosta da estrada, imaginando como vai ser quando ele chegar lá (seja lá onde lá for). Nos dias ruins, fica se lamentando na encosta da estrada, imaginando como tudo poderia ser diferente. Imaginar é tudo o que ele faz, construindo esses castelos enormes e esses abismos sem fundo. Mas tem uma estrada, e ele precisa andar. A estrada é longa, comprida, sinuosa, cheia de idas e vindas, parece não ter fim, parece não levar à nenhum lugar, parece não ter sentido. Mas a estrada é tudo que existe: poeira, asfalto e fumaça de óleo diesel.  Ter os dois pés no chão não basta se você não andar, um pé depois do outro, repita enquanto for necessário. Deixar pra trás os sonhos pesados que arrastava indefinidamente, as quimeras que criara e que o viviam mordendo, as mentiras que contava todo dia pra si mesmo, as desculpas e a covardia auto-inflingida. Tem uma estrada, e ele precisa andar. O vento traz uma música distante que ele ouve nitidamente, conta um conto que ele quer que se torne verdade, e ele poderia ouvir o vento pra sempre, parado no mesmo lugar. Mas ele não pode depender do vento: tudo que ele tem de verdade é o chão onde pisa, o caminho que o leva, o asfalto quente comendo a sola do tênis a cada passo. (E aonde pisares, aí está teu paraíso). Tem uma estrada, e ele precisa andar. Nenhuma palavra vai salvar sua vida, nada do que você disser tem uma partícula de importância se as ações não confirmarem sua intenção. Refugiado entre sonhos, se escondendo entre chances e possibilidades, foi assim que ele andou até agora e isso o levou até que bem longe, francamente. Mas o caminho daqui pra frente é feito de sangue, suor e asfalto (abençoado o caminho que te levas pra sabe-se lá aonde),  e ele precisa provar (pra si mesmo) que não é só papo. Não é drama nenhum: é só a vida, e a vida somente.

Tem uma estrada, e eu preciso andar.

(They said, “timing is everything”, made him want to be everywhere, but there’s a lot to be said for nowhere)

Ho, Ho, Ho…

Sobre os toriis

Algo bem comum nos templos japoneses é o torii – aquele portal vermelho, encontrando na entrada dos templos e dos santuários. A idéia é que o torii marca a divisão entre o mundo profano e o mundo sagrado; ou entre o mundo normal e o mundo místico, se preferir. A maioria dos toriis são vermelhos – a cor vermelha no japão tem todo um simbolismo complexo. Inicialmente, o vermelho simbolizava os demônios e as doenças trazidas por eles, mas com o tempo esse conceito virou de ponta-cabeça e o vermelho passou a cor que afasta demônios e que simboliza o mundo que não “enxergamos”. Por isso, os toriis são pintados de vermelho – pra simbolizar a entrada em um ambiente sagrado, protegido dos males do mundo. Ninguém tem certeza de onde saiu o nome “torii” – alguns dizem que o kanji que simboliza a palavra quer dizer “poleiro de pássaros”, pois os pássaros são os mensageiros dos deuses no xintoísmo, enquanto que outros dizem que o termo vem de “tori-iru” – que simplesmente quer dizer “atravesse e entre”.

Aqui em Araçatuba tem um torii enorme, bem perto do centro da cidade, em homenagem ao centenário da imigração japonesa. Toda vez eu arrumo uma desculpa pra passar debaixo do torii – tanto que eu nem sei mais se estou habitando o mundo sagrado ou o profano. Talvez todas as coisas profanas sejam sagradas, e todas as coisas sagradas profanas? Vai saber.

Legítimo torii araçatubense

Legítimo torii araçatubense

Anathem

“Anathem”, de Neal Stephenson, devia ser um livro chato. Daqueles livros que a gente pega, lê 10 páginas e diz pra si mesmo que vai ler mais tarde, se mais tarde for numa próxima encarnação. Daqueles que a gente para de ler na metade, troca por outros livros sem nem perceber que está abandonando ele. Ou daqueles que a gente nem abre.

Mas nãããããão. O mamute escrito por Neal Stephenson tem umas mil e tantas páginas. Nesse exato momento eu me encontro maaais ou menos na metade – e arrisco dizer que o enredo de verdade começou não faz nem 100 páginas. Se fosse um livro chato, sem graça, sem idéias, sem nada, já tinha voltado pra prateleira. O problema é que o livro é FODA – imagina um Nome da Rosa com alienígenas, e parte daí. No lugar de frades e monges, quem habita os mosteiros no mundo de Stephenson são cientistas, filósofos, matemáticos, intelectuais em geral. Estes “homens sábios” se retiram do mundo e passam a viver enclausurados, em busca de…em busca de que, afinal? A história acompanha o jovem Fraa Erasmas, convocado pelo mundo secular e jogado em meio a uma trama que envolve…bom, olha só, eu ainda estou na metade do livro, e só AGORA comecei a desconfiar o que a trama envolve. Mas parece ser bem foda.

Eu espero.

Um aspecto que eu gostei bastante no livro é que ele se passa em um mundo muito mais velho que a Terra, onde a raça humana (humana?) já teve vários milênios a mais de vida civilizada (civilizada?). Os monges-cientistas vivem em monastérios que são divididos pelo intervalo de contato com o mundo exterior: um secto unário abre seus portões a cada ano, um secto decenário abre seus portões a cada dez anos, enquanto que um secto milenário…a cada mil anos. E justamente por haver essa reclusão, os monges acabam tendo noção de que o desenvolvimento humano fora de seus muros é algo bem instável: civilizações nascem e morrem, cidades viram metrópoles que voltam a ser vilas após centenas de anos, aspectos culturais mudam completamente em termos de décadas, senão anos…É algo que a gente não para pra pensar, porque nossas vidas são relativamente curtas. Mas o mundo em que vivemos, as cidades que habitamos, a cultura em que estamos imersos…são altamente instáveis.
Bizarro. E legal. Ok, chega de papo, ainda faltam 500 páginas pra decifrar.