De Labirintos e Minotauros
Postado por Enrique em 14 de janeiro de 2010(Jorge Luis Borges é um dos escritores mais fantásticos de que se tem notícia. Ao contrário de outros contistas que focavam sua atenção em personagens, sentimentos e acontecimentos, Borges dedicava-se a brincar com conceitos vários, tais como espelhos, labirintos, infinitudes, probabilidades, identidades, realidades, verdades…como seria um livro que contivesse em si todos os livros já escritos? Como seria viver recluso em uma biblioteca onde existem todos os livros que podem ser escritos, em todos os idiomas, alfabetos e tipos de sinais conhecidos? Como seria olhar através de um objeto que contém todos os pontos do universo?
O texto abaixo é uma brincadeira com labirintos – do mesmo jeito que uma criança pega uma revistinha do Pato Donald e copia os traços para desenhar seu herói, eu peguei o conceito de labirinto e brinquei com ele, tentando imitar alguns dos traços de Borges, tentando contar uma história ao seu estilo. E tal qual a criança desenhando o Pato Donald, pode ter ficado uma bela bosta, mas eu estaria mentindo se dissesse que não me diverti tentando.
)

O labirinto cretense só possui uma única direção. Em seu interior não configuram-se as bifurcações, os finais falsos, as idas e vindas tão comuns nos labirintos de jardim, tão popularizadas pelas revistas de passatempos. Sempre em frente segue o labirinto, e isso talvez confunda os observadores incautos. Qual o sentido de um labirinto que só segue uma única direção, em que somente anda-se para frente ou para trás, sem bifurcações e sem escolhas, aonde é impossível a perda do senso de direção e de espaço? Como é possível se perder em um labirinto que segue sempre em frente?
Como é possível se perder em um labirinto que segue sempre em frente?
Quando foi a primeira vez que percebi meus lábios formarem esta pergunta? De quem esperava uma resposta? Quando foi que parei de murmurá-la? Durante muitas eras vaguei, durante séculos segui em frente, em frente, sempre em frente, sem nunca chegar ao centro do labirinto, sem nunca encontrar nem a sombra do lendário minotauro que deveria ser morto pelo aço de minha adaga. Eternidades passei caminhando, e num lapso de segundo a fagulha da dúvida se acendeu em mim para nunca mais se apagar, para jamais me deixar sozinho novamente. Frente, frente, sempre em frente, mas…e se eu estivesse voltando? Eras e eras caminhando, eras e eras dormindo e acordando e voltando a caminhar, eras e eras virando-se para trás, eras e eras olhando para o alto, eras e eras de possíveis distrações, de possíveis confusões, de possíveis erros e mudanças de direções. Diante de meus olhos, a pedra fria das paredes do labirinto, o teto cinza e o chão de terra batida, a penumbra constante que enganava a visão. Seria possível? Bem, tanto maior o período de tempo decorrido, maiores as chances de qualquer coisa ocorrer. Quem iria dizer que eu nunca errei meu caminho? Quem me provaria que eu nunca acordei um dia e comecei a voltar pelo caminho, sem perceber que estava errando? Eu poderia, a partir de agora, escolher uma única direção e segui-la em frente. Eu prestaria atenção, eu tomaria todos os cuidados, usaria de marcas e guias e toda sorte de recursos, eu evitaria de todas as formas o erro.
Em dez ou doze eternidades, me tornei paranóico. Não dava um passo sem revê-lo três ou quatro vezes. Me recusava a olhar para trás (e todos os meus instintos queriam olhar para trás, me dizendo que eu estava indo pela direção contrária). Queria evitar o sono, queria seguir sempre em frente, queria nunca mais dormir, e continuava querendo até cair no chão exausto e acordar séculos depois, sem ter idéia da direção que estava seguindo.
A sanidade um dia me abandonou finalmente, ignorando todos os meus protestos, rejeitando todos os meus pedidos. Três eras depois ela retornou, por não haver aonde escapar em um labirinto sem direção. Novamente são e eternamente sem direção, abandonei a paranóia e a insegurança que arrastava pelos corredores eternos, assim como rejeitei a idéia absurda de chegar ao centro do labirinto e desmembrar o minotauro. Em frente eu seguiria, sempre em frente, frente, frente, e a frente seria qualquer direção em que eu me movesse. Tanto maior o tempo decorrido, maiores as chances de qualquer fato ocorrer. Quando o tempo necessário tiver se passado, eu finalmente encontrarei o minotauro no centro do labirinto. Nada será dito, nenhuma palavra entre nós será trocada. No chão eu me ajoelharei, e com minha adaga forjada do mais puro aço desenharei um tabuleiro no chão de terra batida.
(…Embora algo em meu peito diga que o tabuleiro já se encontra desenhado, enquanto o adversário aguarda pacientemente pelo meu próximo movimento.)






UAAAU, fiquei zonza… o.Ô
Mas o texto arrasou!