Posts de junho, 2010

Cat’s Cradle

domingo, junho 27th, 2010

No início, Deus criou a Terra, e Ele à observou em sua solidão cósmica.
E Deus disse, “Sejam feitas criaturas vivas a partir do barro, para que o barro possa ver O que fizemos”. E Deus criou todas as criaturas que agora se movem pelo mundo, e uma delas era o homem. Só o barro feito homem podia falar. Deus se aproximou quando o barro feito homem se sentou, olhou tudo ao seu redor e falou. O homem piscou. “Qual é o propósito disso tudo?”, ele perguntou educadamente.
“Tudo precisa ter um propósito?” perguntou Deus.
“Certamente,” disse o homem.
“Então eu deixo à seu cargo pensar num propósito pra tudo isso,” disse Deus.
E Ele se foi.

“Cat’s Cradle” é o segundo livro do Kurt Vonnegut que leio. O primeiro foi “Sirens of Titan”, enquanto que o “Matadouro 5″ me olha do alto da estante com aquele desdém próprio dos livros que ainda não lemos. Como dá pra ver na citação ali em cima, um dos temas que o Vonnegut toca em “Cat’s Cradle” (e nos outros livros também) é o propósito da vida. Será que temos uma missão nesse mundo, será que fomos criados com um intuito final, ou fomos simplesmente jogados aqui nesse planeta e nessa vida por um mero acaso universal? É uma pergunta que sempre vai estar no ar e pra qual nunca teremos resposta. Ou melhor, pra qual teremos múltiplas e contraditórias respostas. Eu particularmente gosto e acredito na resposta que Deus dá ali em cima. Quer um propósito? Crie um. Invente um. Acredite em um.

A religião que serve de pano de fundo em “Cat’s Cradle” se chama Bokonismo e é um monte de mentiras, conforme dito na primeira página de seu livro sagrado: “Todas as coisas verdadeiras que lhe direi a seguir são mentiras desavergonhadas”. No começo do próprio livro, o narrador já nos diz algo nas mesmas linhas: “Qualquer um que não consiga entender como uma religião útil pode ser fundamentada em mentiras também não irá conseguir entender este livro”. O que é essencialmente verdadeiro, e que me faz pensar que caras como o Richard Dawkins não conseguiriam entender esse livro. Tem gente que não entende isso – que as pessoas não querem a Verdade, elas querem um Sentido. Que no fundo as pessoas sabem que o Papa, o Bispo, o Dalai Lama, o Chico Xavier talvez estejam errados, talvez estejam até mesmo mentindo pra elas. É um risco que elas correm, e não é um risco que elas desconhecem – pessoas não são burras (é fácil esquecer isso olhando de cima, vendo todo mundo como formiguinhas correndo pra lá e pra cá, do alto de um prédio luxuoso ou de um título acadêmico). A tal da religião, a tal da crença em alguma coisa provém essas pessoas com um sentido e um propósito de vida – e tá bom demais, até onde elas conseguem enxergar. Então, quando um cara vem e diz que é preciso acabar com todas as religiões e fazer com que o ser humano seja mais racional e mais científico, tudo o que eu consigo pensar é: esse cara come bosta. Talvez criar religiões mais tolerantes, menos burras, que se adequem ao mundo que vivemos hoje e que não tentem nos forçar dogmas sem sentido goela abaixo. Mas acabar com as religiões e crenças é estúpido, e impossível. Assim que o cara estiver voltando do monte Sinai com os 10 Mandamentos do Método Racional de Se Viver, ele vai encontrar a galera toda cultuando um bezerro de ouro. E eu chuto que o bezerro vai lembrar BASTANTE a Lady Gaga. Sabe-se lá porque, mas vai.

No final, eu acredito que as pessoas inventam suas próprias verdades – cada uma interpreta e entende o universo do seu jeito, e tudo tudo tudo no mundo é uma questão de ponto de vista. Cada um se vira como pode, cada pessoa sabe aonde procurar sentido, propósito, conforto e coragem pra seguir na vida. Minha mãe vive lendo livros espíritas, meu pai adora aqueles livros que misturam misticismo e ciência, e eu procuro minhas verdades em todo lugar – seja em livros de ficção científica tipo o “Cat’s Cradle”, seja em letras de música, seja sabe-se lá aonde. O que me faz concordar totalmente com a frase que abre “Cat’s Cradle”: “Viva segundo as inverdades inofensivas que te fazem ser corajoso e gentil e saudável e feliz”.

Resumo

quinta-feira, junho 24th, 2010

- Em Araçatuba! De férias! No meu quarto! E as aulas só voltam dia 8 de agosto! Tinha esquecido como entrar de férias da faculdade é uma coisa emocionante XD

- As últimas semanas do semestre deram bastante trabalho. Faculdade de design não tem prova, mas tem tanto trabalho quanto um campo de concentração russo. O que salva é que os trabalhos SÃO legais de fazer – porra, eu tive que fazer um Stop-Motion de trabalho final do semestre, olha só veja só que massa. Sem contar os outros trabalhos, envolvendo vetorização de personagens de quadrinhos, montar site de boate com temática russo-comunista, montar um caderno inteiro (com desenhos, pinturas, recortes e o cacete) sobre um museu, tirar fotografias com as câmeras megaultrablaster da faculdade. São coisas extremamente legais, e eu vejo sentido nelas…o que não acontecia naquele monte de provas que fazia antes, naquele infinito de contas absurdas que eu nunca usei até hoje.

- E a melhor parte: caralho, meu boletim nunca foi tão bonito. Tava seriamente pensando em imprimir ele, botar numa moldura e dar de presente pra minha mãe. “Toma, mãe, você esperou 27 anos por um boletim tão cheio de notas altas assim”. A única “mancha” é um 7 de sociologia. Mas sifudê também, né? Tudo que eu sei sobre sociologia eu aprendi lendo Malvados.

- Aí depois de três semanas de trabalhos malucos…três dias extremamente divertidos, devidamente acompanhado de dona Catarina! Teve livraria Cultura, teve brownie, teve Scrabble (Scrabble!), teve Toy Story 3 (Toy Story 3!), teve videogames, teve seriado de garotos cantantes de sexualidade duvidosa (melhor música até agora, a do Journey), teve festival de lojas de brinquedo, teve pretzel de nutella. Só não conseguimos ir no zoológico…mas nem fez falta perto do monte de coisas legais que fizemos, e fica pra próxima. Sinceramente, quando a companhia é excelente até andar de metrô é divertido ;) .

- Sobre Toy Story 3: FODÃO! Tá, não tem a carga dramática (carga dramática? acho que é esse o termo) de Up, mas é um PUTA desenho com uma história fantástica e cheeeeio de detalhes legais. Destaque pro Ken metrossexual (“Me devolve o echarpe!”), pro porco-espinho ator, pro telefone missão impossível e pro macaco vigilante (the eye in the sky!), e pro Buzz. O Buzz Lightyear sempre é legal com seu jeito Superman de ser…mas dessa vez os caras chutaram o baldinho pra longe. Muy longe, diga-se – ficou FODÃO. E se eu disser que o filme fecha com uma música dos Gipsy Kings, alguém acredita?

Omnia Procrastinare, Nihil Interit

domingo, junho 13th, 2010

Porque os fins de semana e os feriados são da procrastinação, por mais que se tente evitar. Vai lá, faz os planos que quiser: vou estudar, vou adiantar trabalho, vou praticar, vou me dedicar a tal coisa. Vai nada, vai acabar fazendo outra coisa – geralmente nada de útil. E não é ruim, muito pelo contrário. Procrastinar é uma arte. Procrastinar faz bem pra alma, faz bem pra saúde. Quem procrastina, sempre alcança – só que mais tarde.

Existem mil jeitos de procrastinar. Existe a procrastinação enrustida: “só vou enrolar mais um pouquinho, daqui a uma hora e meia eu começo a fazer tudo que tenho que fazer”. Existe a procrastinação assumida: “Foda-se tudo, não farei nada e vamos ver o que acontece amanhã”. Os procrastinadores iniciantes sentem culpa de estarem procrastinando, ficam imaginando jeitos de não procrastinarem mais, mas ficam lá, só imaginando. Já os procrastinadores experientes sabem que é inútil – procrastinar é preciso, viver não é preciso, amanhã é outro dia e no final dá tudo certo. Claro, o sucesso da procrastinação depende de saber quando tudo REALMENTE dá certo no final, e quando tudo vai pras picas no final. É uma questão de profunda análise das circunstâncias, de ser realista quanto ao volume de trabalho a ser deixado pro dia seguinte, e de se ter coragem pra procrastinar quando as chances estão contra você. Procrastinar é um esporte de risco, é uma aventura em si mesmo. Tá, não é das mais emocionantes. Mas deixa as emoções fortes pro dia seguinte – e prossigamos procrastinando e andando.


Uma Cidade numa Alma

domingo, junho 13th, 2010

Tem uma parte da minha alma que é uma cidade de 20 mil habitantes situada no canto noroeste de São Paulo, na divisa com o Mato Grosso do Sul, de noite. De madrugada, algo entre depois da meia noite e antes das cinco da manhã. É sempre esse horário por lá. O silêncio reina absoluto – alguns cachorros latem, alguns passos e vozes são ouvidos de vez em quando, mas não conseguem vencê-lo. Mas tudo bem, porque as madrugadas são do silêncio e só dele. E quando eu ando por lá, por esse pedaço da minha alma, eu sinto uma nostalgia gigantesca, uma vontade de viver tudo de novo. De andar por essas ruas sem rumo, de olhar pra um céu estrelado sem fim, de quase poder apalpar o silêncio. Eu me sentia livre lá, e isso me fazia um bem tão imenso que ficou gravado com força na minha alma.

(Um segredo: eu me sinto livre assim aqui agora. São circunstâncias diferentes, mas São Paulo se transformou em minha, assim como Ilha Solteira havia se transformado.)

O som que toca nessa parte da minha alma são os discos do Buffalo Tom e suas músicas sempre agridoces. Solos de uma guitarra suja se mesclam com o silêncio da madrugada, enquanto uma voz gasta fala de coisas que não foram, de noites mal dormidas, de memórias de verões passados, de confissões em bares mal-iluminados, de respostas que nunca chegam, de pulmões que viram brânquias, de de corações que não se encaixam, de manhãs de ressaca, das montanhas da sua cabeça, de sorveterias, de vidas desperdiçadas do lado do caixa, de…de tanta coisa. Essas músicas e essa cidade na minha alma entram em ressonância e se potencializam – e deixam a nostalgia ainda maior, ainda mais gigantesca, chegando a dar um nó na garganta.

(Meu maior mal é sofrer da nostalgia. Do que já foi e do que ainda será – a nostalgia do futuro, ainda mais forte que a do passado)

E o que você faz com esse sentimento? Sente-se uma vontade de colocar essa cidade e essas músicas em algum lugar, transformar eles em alguma coisa – uma história, uma imagem, uma outra música, quem sabe fundar uma cidade. Dá vontade de contar pra alguém que tem essa cidade dentro de mim, e que eu me perco andando por ela nas madrugadas da minha alma. Dá vontade de mostrar pro mundo o que é que eu vejo por lá – mas eu nem sei direito o que vejo. Como é que se traduz o intraduzível? Com sons, com letras, com imagens, com tudo – e tudo isso não basta nem de longe. Como é que se faz um mapa de uma cidade que existe na alma? Como é que se explica porque essas músicas significam tanto pra mim? Eu não faço idéia, e também não faço questão.

É parte do que me move. É parte do que me segura no chão, é parte do que me faz sair voando. É o que me faz ficar triste sem motivo, é o que me faz sorrir quando ninguém está olhando. É uma cidade tão vasta e tão pequena quanto eu quero que seja – e tudo é tão vasto e tão pequeno quanto eu quero que seja.

(Esse é o segredo do universo, e foi ela quem me ensinou. Anote pra não esquecer)

É uma música sempre tocando aqui dentro, é o silêncio incorruptível da madrugada. É o que eu carrego comigo por opção, é o que jamais sairá de mim mesmo que eu tente arrancar. É minha alma feita uma colcha de retalhos que eu arrasto por aí – é meu cobertor de segurança.

Stephen Fry é FODA

terça-feira, junho 1st, 2010

(Esse vídeo foi descaradamente roubado das bookmarks da dona Eluza u.u)

Update: Droga, o vídeo não tá rodando em alguns computadores mesmo =(…acho que é problema do Internet Explorer, mas não tenho certeza. De qualquer forma, lady Jana, se quiseres ver o vídeo o link é esse aqui, ó. E desculpa pela demora em responder =(