No início, Deus criou a Terra, e Ele à observou em sua solidão cósmica.
E Deus disse, “Sejam feitas criaturas vivas a partir do barro, para que o barro possa ver O que fizemos”. E Deus criou todas as criaturas que agora se movem pelo mundo, e uma delas era o homem. Só o barro feito homem podia falar. Deus se aproximou quando o barro feito homem se sentou, olhou tudo ao seu redor e falou. O homem piscou. “Qual é o propósito disso tudo?”, ele perguntou educadamente.
“Tudo precisa ter um propósito?” perguntou Deus.
“Certamente,” disse o homem.
“Então eu deixo à seu cargo pensar num propósito pra tudo isso,” disse Deus.
E Ele se foi.
“Cat’s Cradle” é o segundo livro do Kurt Vonnegut que leio. O primeiro foi “Sirens of Titan”, enquanto que o “Matadouro 5″ me olha do alto da estante com aquele desdém próprio dos livros que ainda não lemos. Como dá pra ver na citação ali em cima, um dos temas que o Vonnegut toca em “Cat’s Cradle” (e nos outros livros também) é o propósito da vida. Será que temos uma missão nesse mundo, será que fomos criados com um intuito final, ou fomos simplesmente jogados aqui nesse planeta e nessa vida por um mero acaso universal? É uma pergunta que sempre vai estar no ar e pra qual nunca teremos resposta. Ou melhor, pra qual teremos múltiplas e contraditórias respostas. Eu particularmente gosto e acredito na resposta que Deus dá ali em cima. Quer um propósito? Crie um. Invente um. Acredite em um.
A religião que serve de pano de fundo em “Cat’s Cradle” se chama Bokonismo e é um monte de mentiras, conforme dito na primeira página de seu livro sagrado: “Todas as coisas verdadeiras que lhe direi a seguir são mentiras desavergonhadas”. No começo do próprio livro, o narrador já nos diz algo nas mesmas linhas: “Qualquer um que não consiga entender como uma religião útil pode ser fundamentada em mentiras também não irá conseguir entender este livro”. O que é essencialmente verdadeiro, e que me faz pensar que caras como o Richard Dawkins não conseguiriam entender esse livro. Tem gente que não entende isso – que as pessoas não querem a Verdade, elas querem um Sentido. Que no fundo as pessoas sabem que o Papa, o Bispo, o Dalai Lama, o Chico Xavier talvez estejam errados, talvez estejam até mesmo mentindo pra elas. É um risco que elas correm, e não é um risco que elas desconhecem – pessoas não são burras (é fácil esquecer isso olhando de cima, vendo todo mundo como formiguinhas correndo pra lá e pra cá, do alto de um prédio luxuoso ou de um título acadêmico). A tal da religião, a tal da crença em alguma coisa provém essas pessoas com um sentido e um propósito de vida – e tá bom demais, até onde elas conseguem enxergar. Então, quando um cara vem e diz que é preciso acabar com todas as religiões e fazer com que o ser humano seja mais racional e mais científico, tudo o que eu consigo pensar é: esse cara come bosta. Talvez criar religiões mais tolerantes, menos burras, que se adequem ao mundo que vivemos hoje e que não tentem nos forçar dogmas sem sentido goela abaixo. Mas acabar com as religiões e crenças é estúpido, e impossível. Assim que o cara estiver voltando do monte Sinai com os 10 Mandamentos do Método Racional de Se Viver, ele vai encontrar a galera toda cultuando um bezerro de ouro. E eu chuto que o bezerro vai lembrar BASTANTE a Lady Gaga. Sabe-se lá porque, mas vai.
No final, eu acredito que as pessoas inventam suas próprias verdades – cada uma interpreta e entende o universo do seu jeito, e tudo tudo tudo no mundo é uma questão de ponto de vista. Cada um se vira como pode, cada pessoa sabe aonde procurar sentido, propósito, conforto e coragem pra seguir na vida. Minha mãe vive lendo livros espíritas, meu pai adora aqueles livros que misturam misticismo e ciência, e eu procuro minhas verdades em todo lugar – seja em livros de ficção científica tipo o “Cat’s Cradle”, seja em letras de música, seja sabe-se lá aonde. O que me faz concordar totalmente com a frase que abre “Cat’s Cradle”: “Viva segundo as inverdades inofensivas que te fazem ser corajoso e gentil e saudável e feliz”.
Vontade de ler esse livro!