Tem uma parte da minha alma que é uma cidade de 20 mil habitantes situada no canto noroeste de São Paulo, na divisa com o Mato Grosso do Sul, de noite. De madrugada, algo entre depois da meia noite e antes das cinco da manhã. É sempre esse horário por lá. O silêncio reina absoluto – alguns cachorros latem, alguns passos e vozes são ouvidos de vez em quando, mas não conseguem vencê-lo. Mas tudo bem, porque as madrugadas são do silêncio e só dele. E quando eu ando por lá, por esse pedaço da minha alma, eu sinto uma nostalgia gigantesca, uma vontade de viver tudo de novo. De andar por essas ruas sem rumo, de olhar pra um céu estrelado sem fim, de quase poder apalpar o silêncio. Eu me sentia livre lá, e isso me fazia um bem tão imenso que ficou gravado com força na minha alma.
(Um segredo: eu me sinto livre assim aqui agora. São circunstâncias diferentes, mas São Paulo se transformou em minha, assim como Ilha Solteira havia se transformado.)
O som que toca nessa parte da minha alma são os discos do Buffalo Tom e suas músicas sempre agridoces. Solos de uma guitarra suja se mesclam com o silêncio da madrugada, enquanto uma voz gasta fala de coisas que não foram, de noites mal dormidas, de memórias de verões passados, de confissões em bares mal-iluminados, de respostas que nunca chegam, de pulmões que viram brânquias, de de corações que não se encaixam, de manhãs de ressaca, das montanhas da sua cabeça, de sorveterias, de vidas desperdiçadas do lado do caixa, de…de tanta coisa. Essas músicas e essa cidade na minha alma entram em ressonância e se potencializam – e deixam a nostalgia ainda maior, ainda mais gigantesca, chegando a dar um nó na garganta.
(Meu maior mal é sofrer da nostalgia. Do que já foi e do que ainda será – a nostalgia do futuro, ainda mais forte que a do passado)
E o que você faz com esse sentimento? Sente-se uma vontade de colocar essa cidade e essas músicas em algum lugar, transformar eles em alguma coisa – uma história, uma imagem, uma outra música, quem sabe fundar uma cidade. Dá vontade de contar pra alguém que tem essa cidade dentro de mim, e que eu me perco andando por ela nas madrugadas da minha alma. Dá vontade de mostrar pro mundo o que é que eu vejo por lá – mas eu nem sei direito o que vejo. Como é que se traduz o intraduzível? Com sons, com letras, com imagens, com tudo – e tudo isso não basta nem de longe. Como é que se faz um mapa de uma cidade que existe na alma? Como é que se explica porque essas músicas significam tanto pra mim? Eu não faço idéia, e também não faço questão.
É parte do que me move. É parte do que me segura no chão, é parte do que me faz sair voando. É o que me faz ficar triste sem motivo, é o que me faz sorrir quando ninguém está olhando. É uma cidade tão vasta e tão pequena quanto eu quero que seja – e tudo é tão vasto e tão pequeno quanto eu quero que seja.
(Esse é o segredo do universo, e foi ela quem me ensinou. Anote pra não esquecer)
É uma música sempre tocando aqui dentro, é o silêncio incorruptível da madrugada. É o que eu carrego comigo por opção, é o que jamais sairá de mim mesmo que eu tente arrancar. É minha alma feita uma colcha de retalhos que eu arrasto por aí – é meu cobertor de segurança.
Ui… nostálgico.
Mas tem uma correção: São Paulo é minha. Me apoderei dela há 3 anos. =P
Que possessiva ¬¬. Não pode ser nossa? ;D