Do Zen e da Arte da Qualidade

“O que é bom, Fedro,
E o que não é bom -
Acaso precisamos pedir a alguém que nos ensine essas coisas?”

Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” é desses livros que deixam sua cabeça coçando por uma vida inteira. Não, não tem piolhos saltando das páginas – tem coisa pior, tem idéias saltando das páginas e grudando na sua cabeça. E são boas idéias, idéias inspiradas pela própria idéia de Qualidade que o livro explora. Qualidade – algo que não pode ser definido, mas aquilo que sabemos – ou melhor, sentimos – que é bom. Pirsig coloca o dedo em várias das feridas dos nossos tempos – e olha que o livro foi escrito a quase cinquenta anos atrás. De lá pra cá não muito mudou: vide a série dos “Quadrinhos dos anos 10″, lá nos Malvados do André Dahmer. Sim, o sentimento de que algo está errado na sociedade como um todo é quase onipresente, mas continuamos correndo pra lá e pra cá sem saber o que fazer.

Não que as idéias de Pirsig sejam novas, como ele mesmo mostra no decorrer do livro. Sofistas gregos, monges zen, taoístas chineses, filósofos do século passado – a idéia muda de nome, mas sua alma é a mesma. Sabemos o que é bom para nós e para o mundo, conseguimos sentir e não precisamos que ninguém nos diga. Podemos olhar pra um objeto, pra uma obra de arte, pra um texto, pra uma atitude, pra uma idéia e sabemos dizer que aquilo tem ou não qualidade: é tão claro quanto o dia. Mas como definir o que é qualidade? Essa pergunta é o ponto inicial da jornada de Fedro e de Pirsig – o livro acompanha estas duas “aventuras” em paralelo, em meio a descrições da viagem de moto e as “chautauquas” que o autor faz durante todo o livro. Fedro jamais soube quando parar de perguntar, e talvez tenha sido isso que o condenou à morte. Pirsig é a parte de Fedro que sobreviveu – à loucura, ao eletrochoque – mas que se pergunta quem é realmente a pessoa e quem é o fantasma.

Enfim, “Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas” é um livro fodão. Apesar do título, não tem nada a ver com Budismo Zen – apesar de ter tudo a ver com Budismo Zen. E também não ensina muito sobre motocicletas – apesar das motocicletas estarem onipresentes pelo texto. É um livro sobre…tudo, sobre o mundo em que vivemos, sobre a época em que vivemos, as vidas que levamos, como chegamos até aqui e os caminhos que podemos seguir.

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