De Uma Crença Silenciosa em Engrenagens
segunda-feira, setembro 27th, 2010O dia precisa ter mais horas. E eu preciso botar o lixo na rua. Daqui a pouco tem curso. E eu acabei de chegar em casa – Jesuisantinho. A entrada na academia fica pra amanhã. O argumento do curta de suspense fica pra detalhar amanhã, pra entregar na quarta e fazer roteiro e tudo. Onde será que se aluga terno barato? Tenho que pagar o hotel do casamento do Smurf. E colocar Barão Vermelho no mp3 player. Devolver o livro do Hitchcock que não li porque só tinha spoilers (filhodaputa), e o dos universos da arte que vou ler depois. Começar o sintaxe visual. Continuar o Blackout, que tá bem legal. Eu e minha mania estúpida de ler livros em paralelo. Será que dá tempo de ver filme quando chegar em casa? Ou um episódio de Fringe? Mas eu não ia ler? O dia precisa ter mais horas. Ou eu preciso dormir menos. Mas a cama é tão boa. Tem também a tarefa de desenho pra fazer – 15 pranchas com letras desenhadas. É pra semana que vem, mas é tarefa divertida então a gente faz antes. Tem a interface da Fernanda – outra tarefa, de filosofia. Tem a Liberdade pra ir, e comprar caneta-pincel, papel de origami e tomar melona. Tem a Pinacoteca, onde eu ainda não fui – shame on me. Tem a terceira temporada de Wire pra terminar de assistir. Tem a lista de livros de design pra compilar e ler. Tem meu portfolio pra fazer e parar de enrolar. O dia precisa ter mais horas. E eu preciso botar o lixo na rua. Éca, deve estar fedendo já.
Por trás de tudo isso eu ouço as engrenagens rodando, com seu som arrastado, lento, pesado. É tanta coisa. Podia ser muito, mas muito mais. Tem sempre uma voz dizendo aqui dentro “Vai, faz mais, você pode, é hora de gastar combustível, mergulha fundo’. “É pouco ainda ser como eu sou”, disse a moça do vento que eu tanto amo. E eu quero ser mais, fazer mais, ver mais, estar mais, correr mais, arriscar mais, viajar mais, aprender mais, ter alguém com quem dividir tudo isso, ter um lugar onde guardar tudo isso – dá uma vontade de avançar a fita, de ver onde tudo isso vai dar.
Mas é estúpido avançar a fita. Não existe nem mesmo uma fita pra ser avançada – só existe aqui e agora, e aqui e agora finalmente me parece um bom lugar pra estar. As engrenagens rodando me reconfortam, me fortificam. E a gente segue seguindo, mesmo sem saber direito aonde vai parar.