“Quer alguma coisa da Riachuelo?”
“Ahn…me traz uma camisa de flanela. Escura, qualquer cor. Número 5.”
Porque diabos eu pedi uma camisa de flanela? Seria minha inevitável herança noventista, que ainda me faz querer gritar “VIVA EL GRUNGE!” ou coisa do tipo? Seria o fantasma de Kurt Cobain me assombrando, guiando minha…ahn, escolha de roupa? Grunge is dead, baby, grunge is dead…reza a lenda que ele nunca nem existiu, pra ser bem sincero com vocês. Afinal, o que era o grunge? Se tu parar pra pensar, não tem exatamente uma linha musical que une bandas tão diferentes quanto Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Alice in Chains. Existia sim, uma espécie de “filosofia” do grunge, algo como um sentimento. Grunge eram essas bandas, era o filme “Singles” do Cameron Crowe, era ser alternativo quando ser alternativo ainda significa alguma coisa, era andar de qualquer jeito, eram as camisas de flanela e bermudões jeans e all-star sujos, era ser do contra contras as coisas que se deveria ser contra. Foram esses “valores” que eu adotei pra mim quando virei adolescente, e agora adulto eu ainda simpatizo bastante com eles. Talvez em busca de um tempo que não volta mais? Bem provavelmente.
Aí eu comecei a pensar sobre quem são meus ídolos. Quando penso em quem eu quero ser quando crescer, e não venham me lembrar que eu já cresci, eu penso em caras como o Nick Hornby, Kevin Smith, Cameron Crowe. O que eles tem em comum? Um escritor, um diretor de cinema, um escritor/diretor/roteirista de quadrinhos. Em Alta Fidelidade, Hornby falava sobre adultos crescendo e tendo que lidar com dilemas da vida adulta: mulheres, trabalho, envelhecimento, morte. O pano de fundo que ele usava era uma loja de músicas, e o universo dos fãs de música era mostrado de forma magistral. Os filmes do Kevin Smith, principalmente os primeiros, mostram o universo nerd de uma forma ao mesmo tempo degradante e carinhosa. Jovens adultos lidando com um mundo estranho, que enfrentam usando tudo o que aprenderam nos filmes, gibis e músicas que cresceram ouvindo. É bem isso que Cameron Crowe faz em Singles, e de certa forma também em Almost Famous e de um jeito diferente em Elizabethtown. Todos esses filmes e livros mostram outsiders e a visão que eles tem do mundo que os rodeia, e como eles fazem pra sobreviver nele com as armas que tem – música, quadrinhos, cultura pop, ironia, sarcasmo, piadas cretinas, unhas e dentes. São quase-heróis sujos, mal-vestidos e com graves problemas de convivência social, mas que adoramos porque tem alguma coisa nossa ali impressa neles.
A conversa icônica entre Lester Bangs e William Miller na parte final de Quase Famosos mostra exatamente isso: em algumas frases numa ligação telefônica Bangs explica pro garoto como o mundo funciona. “Pessoas bonitas não tem espinha dorsal, a arte deles não é feita pra durar. Eles ficam com as garotas, mas nós somos mais espertos”. Esperto não é a palavra: é mais como ver o mundo de um jeito diferente, de enxergar as coisas da vida por um ângulo que é só nosso. E essa visão é uma benção e uma maldição. Porque todo dia da sua vida você vai tentar entender o que diabos essa visão quer dizer, e a vontade de traduzir essa visão de algum jeito – palavras, textos, música, desenhos – é gigantesca, e é quase impossível de se recusar o chamado.
Olhando pra trás, eu pulei fora de Salvador e da engenharia por causa dessa visão. Por causa da vontade de traduzir essa visão de algum jeito, de poder criar coisas que digam alguma coisa, de investir minha vida em busca dessa visão. Foi por isso que eu pulei, que me enfiei numa faculdade de design, que voltei a desenhar, que tô levando isso a sério como se minha vida dependesse disso – e realmente depende. Não que eu tenha esperanças de virar o Kevin Smith ou o Nick Hornby, claro. Mas o desejo de criar alguma coisa que dure, a vontade de dizer alguma coisa que alcance outras pessoas e que as faça perceber como é que eu enxergo o mundo – é isso que me move, e que penso que irá me mover até o fim da minha vida. Tudo culpa do Cameron Crowe e do Lester Bangs.
E o que isso tem a ver com a camisa de flanela? Eu não faço a mais puta idéia. Não consegui a camisa de flanela – mas consegui uma camisa jeans, que depois de alguns meses de uso vai ficar surradamente confortável, do jeito que uma camisa grunge tem que ser.