Posts de outubro, 2010

30 Anos do Maluquinho

domingo, outubro 24th, 2010

Não sei dizer se Menino Maluquinho foi o primeiro livro que eu li, mas com certeza foi o livro que mais marcou minha infância. Pô, cheio de desenhos fantásticos do Ziraldo, contando todas as aventuras do Ferris Bueller original – impossível não adorar o livro! Devo ter relido ele umas trocentas vezes, e copiado os desenhos outras trocentas vezes – chegava a copiar as brincadeiras do livro, principalmente a parte de desenhar mapas de lugares fantásticos. Nunca consegui ser legal, descolado e ter mil namoradas igual o Maluquinho, mas desconfio que foram aquelas páginas amareladas que me ensinaram a ver o mundo com uma ótica meio…maluquinha.

Valeu, Ziraldo!

Dos Defeitos, A Teimosia

sexta-feira, outubro 22nd, 2010

Dos meus defeitos, acho que o mais grave é a teimosia. Eu tenho essa insistência surda e burra, de ir até as últimas consequências quando boto na cabeça que quero uma coisa. Às vezes, isso é uma qualidade e me ajuda a conseguir coisas, me ajuda a lutar pelo que quero e etc e tal. Outras tantas vezes, isso me quebra de maneiras dolorosamente épicas. É algo parecido com um cara indo a 100 por hora em direção a uma parede, e em vez de desviar ele pisa no acelerador. Claro que a gente aprende uma coisa ou outra com o passar do tempo – antes eu nem me dava conta que estava fazendo isso, hoje em dia eu percebo e tento me controlar. Mas está sempre lá, essa minha parte de menino mimado que quer tudo e quer agora. E eu até gosto dessa parte – ela faz parte do que me move, assim como também faz parte do que me segura. Mas preciso aprender a domar ela, e usar ela ao meu favor, e não pra me quebrar a própria cara.

Blackout

segunda-feira, outubro 18th, 2010

Lendo “Blackout” da Connie Willis dá pra entender uma porção de coisas sobre os ingleses. Como, por exemplo, o gosto que eles tem por heróis ferrados estilo Arthur Dent. E o estilo de humor do Monty Python. E os Beatles, e as piadinhas do John, e o movimento punk. Talvez também o Doutor Who, e talvez um monte de coisas que a gente acha “autenticamente inglesas” – principalmente o humor auto-depreciativo, a maneira irônica de olhar para os fatos da vida.

“Blackout” se passa na Segunda Guerra Mundial, quando a Inglaterra era um gigante tabuleiro de dardos para os alemães. Inicialmente com ataques aéreos que aconteciam todas as noites e forçaram o país a mergulhar na escuridão na tentativa de dificultar a busca por alvos, depois passando para os terríveis foguetes V-1 e V-2 que foram lançados em média 100 vezes por dia contra a ilha britânica – num total de 9.251 mísseis disparados até o fim da Guerra. O livro acompanha o cotidiano das pessoas que ficaram na ilha – mulheres, crianças, idosos, toda sorte de pessoa que não podia lutar – através da visão de viajantes no tempo, historiadores que vão para aquele período justamente para entender como era viver em um país cercado e bombardeado todos os dias.

Em um dos capítulos uma das viajantes temporais precisa arrumar um emprego em uma loja de departamentos, no dia seguinte a um bombardeio que havia destruído uma loja e danificado toda a região. E ela encontra as lojas abertas, e cartazes em diversas delas dizendo coisas como “Hitler pode estourar nossas janelas, mas nem ele pode vencer nossos preços”, ou “Nossos preços estão caindo como as bombas dos alemães!”. Em uma das lojas, preso a uma das janelas que haviam sido estilhaçadas no dia anterior, uma faixa dizia “Estamos abertos! E abertos de verdade!”. Quando ela finalmente arranja emprego, uma das compradoras diz a ela: “Quando eu vi o que o Hitler fez com a rua Oxford, eu decidi vir aqui comprar calcinhas, só pra mostrar pra ele!”. Eis um povo na mais profunda merda – bombas e foguetes despencando sobre eles o tempo todo, enfrentando uma força aérea que era cinco vezes maior do que a sua – mas que mesmo assim ainda arrumava tempo pra fazer piadas e continuar com suas vidas, como se nada estivesse acontecendo.

(Claro, não que só os ingleses sejam assim – na verdade acho que todo mundo tem um pouco disso, de estar numa situação absurdamente infernal e conseguir rir, e fazer piada da situação só para conseguir seguir em frente.)

Just Stuff

quarta-feira, outubro 13th, 2010
  • Forçado pelas obrigações sociais (leia-se: meus amigos todos resolveram casar e meu irmão se forma no fim do ano), sexta-feira eu comprei um terno. Preto, todo estiloso, mafioso-style. A partir de hoje só ando de terno: é terno pra ir na faculdade, no supermercado, na padaria, no metrô, na academia, pra dormir, pra TUDO. Barney Stinson estava certo, meus amigos.
  • Contrastando com a sobriedade do terno, fui lá e comprei um all-star vermelho. Meu irmão disse que all-star vermelho é um TAPA NA CARA DA SOCIEDADE. É nóise, bróder.
  • Minha estratégia de sair de Araçatuba às 9 e meia da noite pra evitar a ZONA que é São Paulo às 7 da manhã deu certo. O ônibus veio direto, sem traumas, paradas e congestionamentos!
  • E a Reunidas tá de ônibus novo! Não viajei nele, então só fiquei imaginando se era maior ou mais espaçoso que os antigos…não deve ser, porque né, Murphy sempre fala mais alto. Mas ficou legal, a pintura está diferente das velhas listras vermelhas de sempre. Tem manchas vermelhas espalhadas, todo nervosão…
  • Esse resto de semana vai ser o caos de cuecas fazendo churrasco na sala com a janela fechada. Gravação do curta-metragem, amanhã visita à FAAP e entrega de relatório, um seminário perdido no tempo e no espaço pra ser entregue e apresentado sei lá quando, trabalhos mil pra semana que vem. Mas o que importa é: Fest-Comix na sexta, casamento do Smurf no sábado e festival do vinho no domingo!
  • Acho que é isso, por enquanto. Hora de ir lá ver qual é.

White Apples, ou o Balé dos Sapos

terça-feira, outubro 12th, 2010

“Ettrich tinha uma câmera – uma Leica digital que ela havia dado para ele em seu aniversário dois anos antes. Quando abriu o presente, ela havia pedido para que tirasse fotos todos os dias de sua vida e que as mandasse para ela via e-mail. Nada especial ou artístico, só coisas que o haviam interessado o bastante para mostrar para ela. Ele mandava-lhe fotos sempre, como a de um cãozinho pulando uma poça de água, ou três mendigos comendo pipoca em grandes copos amarelos, e de uma menininha que não devia ter mais de cinco anos de idade com a língua pra fora e mostrando o dedo do meio ao mesmo tempo. Ele mandava tantas fotos para Isabelle. As vezes ela comentava as fotos, mas geralmente não. As vezes, ele ficava desapontado quando ela não dizia nada pois ele realmente queria saber o que ela pensara.”

Eu comecei a ler “White Apples” meio por acaso: no meu PSP tem uma pasta cheia de arquivos .txt de livros, estrategicamente prontos para ler em viagens de ônibus. Quinta-feira, depois de quase perder a viagem em meio ao trânsito doido de sumpaulo, sentei a bunda na poltrona do busão e comecei a escolher um livro pra ler. “Hmmm, Jonathan Carroll é sempre legal, mas vou escolher um livro dele que eu não a mínima idéia sobre o que seja. Esse aqui, “White Apples”!”. E PÁÁÁÁÁ…paixão à primeira lida. Passei a viagem inteira lendo o livro, totalmente imerso no universo de Vincent e Isabelle.

Vincent está morto, mas não se lembra disso. Com a ajuda de Coco, sua quase-namorada que na verdade é um ser celestial misterioso, ele deve desvendar sua própria nova condição, bem como o motivo dele ter sido trazido de volta à vida. Enquanto isso, Isabelle, o verdadeiro amor de Vincent que o abandonou após o mesmo ter largado tudo para viver com ela, está voltando para a América. E em seu ventre ela traz o filho desse amor, uma criança que conversa telepaticamente com sua mãe e que a protege de todos os perigos. Anjo deve nascer, e é preciso que seus pais estejam vivos. Mas a própria personificação daquilo que quer destruir o universo tentará impedir que Anjo tenha sucesso. E então…a aventura começa.

Pra começo de conversa, Jonathan Carroll constrói ótimos personagens. Vincent é um homem apaixonado por todas as mulheres do mundo, por seus cheiros e sabores e nuances e loucuras. Mas Isabelle é seu ponto fraco, a mulher que para ele representa o conceito ideal de mulher, o verdadeiro “amor-de-sua-vida”. Nas mãos de um escritor sem tato, essa condição nos é contada, mas nunca demonstrada. Agora, Carroll consegue algo único: o amor entre eles ganha forma e vida, quase paupável. Durante vários pontos da história eu me peguei pensando “É assim que deve funcionar, ou deveria”. Pedaços de mundo compartilhado, pequenos rituais, bobagens que ganham significado quase sagrado…eu me apaixonei pelo amor de Vincent e Isabelle. Maldito seja, Carroll. Claro que nem tudo são flores: Vincent é essa bomba-relógio sempre disposta a se jogar nos braços de Isabelle, e Isabelle tem medo de seus sentimentos, de se jogar no precipício e se perder. Quando um arrisca, o outro dá um passo pra trás. E vice-versa.

E em torno da complexa história de amor entre esses dois, temos a velha batalha entre a ordem e o caos. Temos fantasmas, anjos, personificações antropomórficas de idéias, bebês com super poderes, animais fantasmas (ir no zoológico ganha um significado todo novo depois desse livro), uma barbearia caótica e um grande e infinito mosaico. Tudo vai acontecendo rapidamente, mas ao mesmo tempo todos os conceitos e idéias vão sendo explicados. E eu gostei da cosmologia de White Apples…tanto que me pergunto se não tem um fundo de verdade na idéia de que Deus é um mosaico, e cada um de nós é uma peça dele. Peças com poder de escolha, que influenciam outras peças e que mudam de forma durante a jornada, claro…mas é legal pensar que no final cada um tem um lugar no mosaico.

“Com mais ou menos vinte centímetros de altura, era um sapo verde de borracha em um vestido branco de dançar balé. Braços arqueados acima da cabeça, ele se apoiava em um grande pé verde na clássica posição de balé, parecendo ridículo e interessante ao mesmo tempo.
Isabelle o comprou por quase um dólar em um brechó em Vienna quando tinha 24 anos. O sapo viajava sempre com ela para qualquer lugar do mundo onde ela fosse e era uma das primeiras coisas a ser tirada da mala e posicionada estrategicamente aonde quer que ela estivesse se mudando. Ela julgava as pessoas pela maneira como reagiam ao sapo. Se alguém dissesse que era coisa de menininha, ela imediatamente riscava a pessoa de sua lista. Se eles reagissem de forma considerada ou mesmo ficassem surpresos, então ela os deixava chegar um pouco mais perto de seu coração.
A primeira vez que Vincent Ettrich viu o sapo, ele o pegou imediatamente, virou e revirou o objeto, e disse para si mesmo: “É verdade, não é mesmo?”. Intrigada, Isabelle perguntou o que ele queria dizer. Dançando o sapo em suas mãos um pouco antes de responder, Vincent disse: “Esse cara somos nós. Todos nós, sapos bobos, vestidos em nossos tutus tentando dançar o “Lago dos Cisnes”. É tão doce e triste. O Balé dos Sapos, com seu elenco de milhares. Não, milhões e bilhões!”"


Minha Alma, Espremida

segunda-feira, outubro 11th, 2010

Oh, so polite indeed,
Well I got everything I need.
Oh, make my days a breeze
And take away my self destruction.

( It’s bitter baby, and it’s very sweet. I’m on a rollercoaster, but I’m on my feet. Take me to the river, let me on your shore. I’ll be coming back baby, I’ll be coming back for more. Doo doo doo doo dingle zing a dong bone
Ba-di ba-da ba-zumba crunga cong gone bad. IcouldnotforgetbutIwillnotendeavorsimplepleasuresaren’tasspecialbutIwontregretitnever.)

Where I go I just don’t know,
I got to got to gotta take it slow.
And when I find my peace of mind ,
I’m gonna give you some of my good time.

Where I go I just don’t know
I might end up somewhere in Mexico.
When I find my peace of mind
I’m gonna keep you for the end of time.

“You Are Home”

sábado, outubro 9th, 2010

“The day it ceases to be dumb, it’s the day it ceases to be real”

“Be bold, and mighty forces will come to your aid”

Eu já falei desse filme aqui nesse post, e em diversos outros posts. É meu filme favorito, um dos únicos que eu revejo sempre e que me faz ficar maravilhado sempre. Aí eu resolvi criar vergonha na cara e baixar a versão “do diretor”, com vários minutos e cenas a mais.

Tem uma hora que o Russell explica pro William sobre o que é rock: em uma música do Marvin Gaye, tem um certo “woo” perdido na música, que não se encaixa e não deveria estar lá. Um erro de gravação, pequeno, bobo, mas é do que as pessoas se lembram, e que traz toda a diferença pra música. E Russell diz, não são as coisas que você coloca lá, mas o que você deixa ficar. E isso é rock ‘n roll: aquilo que você deixa ficar.

E nessa versão do diretor, Crowe deixa um monte de coisas ficarem na gravação. Cenas que se extendem um pouco mais, pequenas cenas que haviam sido cortadas porque não avançam a história, trechos de diálogo. Bobeiras, mas que fazem um filme que já era ótimo ser ainda melhor, ao menos pra mim. Um pouco mais da personalidade obsessiva da mãe de William, o ponto de vista de Jeff Bebe, mais conversas entre William e Polexia, novos causos roqueiros de Penny Lane, a verdadeira versão do diálogo entre a banda e o grande produtor. Nada disso muda a história, mas tudo isso acrescenta alma.

Quase Famosos já tem uns 10 anos. Eu ainda me identifico pra caramba com o William: esse cara fascinado com o mundo mas que não se encaixa em nenhum lugar, que idolatra seus heróis mas conhece as falhas de cada um deles, que sempre encontra essas Penny Lanes incríveis que nunca são pra ele, que as vezes se cansa de tudo e precisa ir pra casa, mas que no fundo nunca desiste daquilo que move ele.