“Ettrich tinha uma câmera – uma Leica digital que ela havia dado para ele em seu aniversário dois anos antes. Quando abriu o presente, ela havia pedido para que tirasse fotos todos os dias de sua vida e que as mandasse para ela via e-mail. Nada especial ou artístico, só coisas que o haviam interessado o bastante para mostrar para ela. Ele mandava-lhe fotos sempre, como a de um cãozinho pulando uma poça de água, ou três mendigos comendo pipoca em grandes copos amarelos, e de uma menininha que não devia ter mais de cinco anos de idade com a língua pra fora e mostrando o dedo do meio ao mesmo tempo. Ele mandava tantas fotos para Isabelle. As vezes ela comentava as fotos, mas geralmente não. As vezes, ele ficava desapontado quando ela não dizia nada pois ele realmente queria saber o que ela pensara.”
Eu comecei a ler “White Apples” meio por acaso: no meu PSP tem uma pasta cheia de arquivos .txt de livros, estrategicamente prontos para ler em viagens de ônibus. Quinta-feira, depois de quase perder a viagem em meio ao trânsito doido de sumpaulo, sentei a bunda na poltrona do busão e comecei a escolher um livro pra ler. “Hmmm, Jonathan Carroll é sempre legal, mas vou escolher um livro dele que eu não a mínima idéia sobre o que seja. Esse aqui, “White Apples”!”. E PÁÁÁÁÁ…paixão à primeira lida. Passei a viagem inteira lendo o livro, totalmente imerso no universo de Vincent e Isabelle.
Vincent está morto, mas não se lembra disso. Com a ajuda de Coco, sua quase-namorada que na verdade é um ser celestial misterioso, ele deve desvendar sua própria nova condição, bem como o motivo dele ter sido trazido de volta à vida. Enquanto isso, Isabelle, o verdadeiro amor de Vincent que o abandonou após o mesmo ter largado tudo para viver com ela, está voltando para a América. E em seu ventre ela traz o filho desse amor, uma criança que conversa telepaticamente com sua mãe e que a protege de todos os perigos. Anjo deve nascer, e é preciso que seus pais estejam vivos. Mas a própria personificação daquilo que quer destruir o universo tentará impedir que Anjo tenha sucesso. E então…a aventura começa.
Pra começo de conversa, Jonathan Carroll constrói ótimos personagens. Vincent é um homem apaixonado por todas as mulheres do mundo, por seus cheiros e sabores e nuances e loucuras. Mas Isabelle é seu ponto fraco, a mulher que para ele representa o conceito ideal de mulher, o verdadeiro “amor-de-sua-vida”. Nas mãos de um escritor sem tato, essa condição nos é contada, mas nunca demonstrada. Agora, Carroll consegue algo único: o amor entre eles ganha forma e vida, quase paupável. Durante vários pontos da história eu me peguei pensando “É assim que deve funcionar, ou deveria”. Pedaços de mundo compartilhado, pequenos rituais, bobagens que ganham significado quase sagrado…eu me apaixonei pelo amor de Vincent e Isabelle. Maldito seja, Carroll. Claro que nem tudo são flores: Vincent é essa bomba-relógio sempre disposta a se jogar nos braços de Isabelle, e Isabelle tem medo de seus sentimentos, de se jogar no precipício e se perder. Quando um arrisca, o outro dá um passo pra trás. E vice-versa.
E em torno da complexa história de amor entre esses dois, temos a velha batalha entre a ordem e o caos. Temos fantasmas, anjos, personificações antropomórficas de idéias, bebês com super poderes, animais fantasmas (ir no zoológico ganha um significado todo novo depois desse livro), uma barbearia caótica e um grande e infinito mosaico. Tudo vai acontecendo rapidamente, mas ao mesmo tempo todos os conceitos e idéias vão sendo explicados. E eu gostei da cosmologia de White Apples…tanto que me pergunto se não tem um fundo de verdade na idéia de que Deus é um mosaico, e cada um de nós é uma peça dele. Peças com poder de escolha, que influenciam outras peças e que mudam de forma durante a jornada, claro…mas é legal pensar que no final cada um tem um lugar no mosaico.
“Com mais ou menos vinte centímetros de altura, era um sapo verde de borracha em um vestido branco de dançar balé. Braços arqueados acima da cabeça, ele se apoiava em um grande pé verde na clássica posição de balé, parecendo ridículo e interessante ao mesmo tempo.
Isabelle o comprou por quase um dólar em um brechó em Vienna quando tinha 24 anos. O sapo viajava sempre com ela para qualquer lugar do mundo onde ela fosse e era uma das primeiras coisas a ser tirada da mala e posicionada estrategicamente aonde quer que ela estivesse se mudando. Ela julgava as pessoas pela maneira como reagiam ao sapo. Se alguém dissesse que era coisa de menininha, ela imediatamente riscava a pessoa de sua lista. Se eles reagissem de forma considerada ou mesmo ficassem surpresos, então ela os deixava chegar um pouco mais perto de seu coração.
A primeira vez que Vincent Ettrich viu o sapo, ele o pegou imediatamente, virou e revirou o objeto, e disse para si mesmo: “É verdade, não é mesmo?”. Intrigada, Isabelle perguntou o que ele queria dizer. Dançando o sapo em suas mãos um pouco antes de responder, Vincent disse: “Esse cara somos nós. Todos nós, sapos bobos, vestidos em nossos tutus tentando dançar o “Lago dos Cisnes”. É tão doce e triste. O Balé dos Sapos, com seu elenco de milhares. Não, milhões e bilhões!”"
