A vida tem umas lutas ingratas, quase que já perdidas mesmo. Dessas em que as chances são grandes da gente sair todo estropiado (assim que escreve?), cortado, rasgado, fraturado e tudo mais. Dessas em que a vitória é um ponto lá loooonge no horizonte, distante e improvável, talvez só imaginário.
Mas que representam algo tão verdadeiro e tão precioso, que é um pecado não lutá-las até o fim. E das coisas que eu enxerguei enquanto lia “Margarita e o Mestre”, a mais importante é que a covardia é realmente o pior dos vícios humanos, e o mais comum de todos. Imagino Pilatos em seu terraço, acompanhado de seu cachorro e suas culpas, pra sempre imaginando o que teria sido se ele tivesse salvo a vida daquele maluco que diziam ser o rei dos judeus. E essa visão me corta a alma, porque a gente é tão estupidamente covarde em tantos momentos pequenos e grandes da vida, e nem percebe o mal que isso causa.
E ao mesmo tempo, no mesmo livro, temos a figura da Margarita, que é tão verdadeira e tão corajosa que nenhum dos demônios consegue fazer nada com ela. Pelo mestre ela se transforma numa bruxa e dança com mortos no baile do próprio Satã, mas jamais perde sua alma. Porque é dela e de mais ninguém. Porque ela tem essa coragem que move o mundo, e isso a protege.
E eu queria coragem, não dessas heróicas e infinitas, mas uma coragemzinha pra viver e arriscar um pouco mais. Pra atiçar o fogo e fazer ventar o vento. Sonhar demais é o meu pecado, e dele eu sei que vou morrer ainda. Mas aquela pequena chance de transformar um sonho ou todos em realidade é a música que eu sempre vou escutar.
Aí no ônibus eu comecei a ler um livro do Jonathan Carroll, que é um autor fantástico que constrói personagens quase que de carne e osso e depois bagunça toda a vida deles, das formas mais inesperadas possíveis. Amigo do Neil Gaiman e tudo, mas em outro post eu falo dos livros dele. Mas aí o livro, que se chama White Apples, começa com um parágrafo que é assim:
“Patience never wants Wonder to enter the house: because Wonder is a wretched guest. It uses all of you but is not careful with what is most fragile or irreplaceable. If breaks you, it shrugs and move on. Without asking, Wonder often brings along dubious friends: doubt, jealousy, greed. Together they take over; rearrange the furniture in every one of your rooms for their own comfort. They speak odd languages but make no attempt to translate for you. They cook strange meals in your heart that leave odd tastes and smells. When they finally go are you happy or miserable? Patience is always left holding the broom.”