Acabei de terminar “Anathem”, depois de semanas em combate com ele. E vamos às impressões, antes que eu esqueça de tudo que eu li.
Primeiro, a parte ruim: caramba, como o Neal Stephenson enrola! Se você acha que o Tolkien exagerava nas descrições longas, saiba que o bom velhinho élfico não chega nem aos pés desse maluco no quesito “Descrições Que Te Dão Vontade De Jogar o Livro na Parede”. São coisas como…bom, no final do livro, quando o bicho começa a pegar e MUNDOS COLIDEM, literalmente, tu tem que aturar umas seis páginas descrevendo o funcionamento de uma roupa espacial. Ou então quando tudo que você quer é uma explicação pro que diabos acabou de acontecer, e o cara perde dez páginas falando sobre o funcionamento interno da nave espacial. Tá, tudo bem, eu entendo que o livro é de ficção científica, e que essas descrições devem ter deixado muitos nerds com orgasmos múltiplos prolongados. Mas chega num ponto que interrompe o andamento da história =P.
A parte boa: Neal Stephenson é foda. Ainda hoje cedo eu li esse post dizendo que ele é um autor enciclopédico , e não posso deixar de concordar. Anathem é abarrotado de idéias e conceitos e informações e coisinhas legais, e no final tu fica pensando que é um milagre que tudo se sustente. O que eu particularmente gostei nesse livro, e que já disse no outro post, é de como a trama se passa em um mundo velho, onde a civilização já tombou e se reergueu várias vezes. Os cientistas reclusos em monastérios, a maneira como o conhecimento “proibido” é protegido e mantido vivo dentro de suas grossas muralhas durante milhares de anos, o problema de entendimento entre o mundo monástico-científico e o secular-popular. É um mundo diferente do nosso, mas quando você para pra pensar…é diferente só em alguns pontos. E quem diz o que acontecerá conosco se sobrevivermos por mais alguns milhares de anos?
(Spoilers grandes e grotescos depois dessa linha)
Claro, o grande mote do livro é a teoria dos múltiplos universos. Eu achei bem interessante a idéia de múltiplas narrativas: cada pessoa é repetida infinitas vezes em infinitos universos, cada um diferente uma mera partícula um do outro, de modo que tudo que pode acontecer acontece em algum lugar. A grande discussão é: pode um universo afetar o outro? Informação consegue viajar através desses universos? O livro diz que sim…que nossas idéias, intuições, sonhos, premonições, viagens na maionese, são frutos do pensamento divergente/convergente de nossos outros “eus”. E que existe um mundo perfeito, algo como o mundo das idéias de Platão, de onde todos os outros universos emanam, e por isso eles são tão parecidos entre si. A discussão vai bem mais longe: pode-se alterar conscientemente o que acontece em um ou mais universos? Pode-se alterar o futuro…e pode-se alterar o passado?
Enfim, “Anathem” é um puta livro – tanto em tamanho quanto em qualidade. Se você gostar de viagens profundas na maionese, curtir discussões filosóficas misturadas com teoria quântica e tiver paciência pra aturar as descrições gigantescas, vale a pena encarar o monstrengo. E já que eu estou no clima da viagem na maionese, acho que vou chutar o balde e encarar um livro do Philip K. Dick…