Cornwell e a Parede de Escudos

Bernard Cornwell é um escritor de romances históricos, famoso principalmente pelas Crônicas de Artur, onde ele traz a tona um Artur histórico possível, um líder de exércitos que tenta unificar e proteger a Inglaterra da invasão dos saxões e cristãos. Acho que já disse num post anterior que a série é fantásticamente fodástica – tanto pelos personagens brilhantes e pela maneira “alternativa” de se enxergar o mito Arturiano, quanto pela reconstituição histórica e pelas descrições das batalhas.

Aí, lendo “O Último Reino”, primeiro volume das Crônicas Saxônicas, uma ficha caiu: o Cornwell não faz várias séries que retratam períodos históricos diferentes. Ele faz UMA única série, com vários livros e sub-séries, que acompanham o desenvolvimento de um único personagem através da história: a Parede de Escudos! Quem já leu um ou dez livros dele sabe que a Parede de Escudos é essencial e onipresente no universo de Cornwell. Todo o resto – eventos históricos, tramas políticas, amores, traições, reviravoltas – é mera encheção de linguiça. O que importa de verdade é o momento em que dois exércitos se cruzam, e os líderes gritam desesperados: “FORMA A PAREDE DE ESCUDOS, PORRAAAAAAAAAAAAA!!”. E aí, nesse momento em que a ação começa e a carnificina come solta, é que Cornwell nos faz acreditar que presenciar a participar de uma parede de escudos é a coisa mais foda do mundo! Você lá, segurando masculamente seu escudo (grrr!) junto com os escudos de seus IRMÃOS EM ARMAS (grrr!), encarando o exército inimigo de frente (grrr!), brandindo ao vento sua espada (ou seu machado, maça, foice, rastelo, pedaço de pau que achou na estrada) (grrr!), gritando o nome de Odin (ou Cristo, ou Alá, ou Crom, ou Wando, ou sua divindade favorita) (grrr!) enquanto espera que alguém mais bêbado do que você tome a iniciativa e comece a batalha. É lindo, inspirador, faz crescer cabelo no peito e digo até mais: ler Cornwell dá mó vontade de jogar Age of Empires!

SPARTAAAAAAA!!!

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Sobre Repúblicas

Aí eu estou aqui na república do meu irmão em São Carlos, pra participar da formatura dele. Sobre a formatura e a festança eu falo outra hora, mas agora eu falarei sobre…repúblicas. Pra quem não sabe, a república é uma instituição estudantil formada quando dois ou três ou quinze ou mais estudantes se reúnem pra morarem juntos.

  • Independente do número de habitantes, haverá sempre um (e somente um) republicano responsável, que pagará as contas no dia certo e lembrará que o papel higiênico está acabando, enquanto todos os outros permanecem focados em suas importantes atividades acadêmicas (churrascos, jogos multiplayer, culto à Onan, contemplação do teto).
  • As repúblicas são mobiliadas com objetos velhos que os integrantes “ganham” de seus pais. E dá-lhe sofá velho, armário bamba, talheres enferrujados, fogão de 2 bocas e meia. Ao contrário das casas normais, a disposição dos objetos não segue uma ordem lógica. A geladeira pifada serve de armário na sala, o sofá serve de cesto de roupa suja, tudo depende da criatividade, inventividade e falta de vergonha na cara dos integrantes da república.
  • Em média, uma república abriga o equivalente à meia floresta amazônica em papéis de rascunho, listas de exercício, xerox de cadernos, impressões da wikipedia e coisas variadas. Todo mundo fica com medo de jogar essas coisas fora (porque vai que, né?), então até o fim da faculdade acumulam-se caixas de papéis inúteis. Geralmente sobra para o republicano responsável dar cabo dessa montanha de papel depois que a república acaba.
  • Uma república que não realiza churrascos não é uma república de verdade. O churrasco universitário é uma outra instituição acadêmica que merece um estudo só seu, mas vale lembrar o básico: carne de segunda, cerveja de terceira, vodka de sétima e três quilos de limão, farofa pronta, saco do carvão que ninguém consegue acender, grelha e churrasqueira imundas desde o último churrasco. Adivinha quem é o churrasqueiro?
  • Repúblicas costumam ter um ir e vir de habitantes constante, o que garante a sobrevivência da república mesmo após seus integrantes originais terem se formado, jubilado ou largado a faculdade pra viver com os gorilas. A entrada de um bicho é sempre um evento importante na república, com todos os trotes e humilhações e sacanagens possíveis. O bicho recebe o pior quarto, a pior cama, as tarefas mais ingratas e a certeza de ser motivo de piada sempre que fizer qualquer coisa errada. Ele mantém o status de “bicho burro e folgado” até a entrada do próximo bicho na república.
  • O aspecto mais legal de se morar em república é estar longe de casa pela primeira vez, aprendendo a se virar sem a ajuda direta dos pais, descobrindo como é morar em outra cidade com outras pessoas, tendo responsabilidades, deveres e etc e tal. A sensação e a liberdade de ter um lugar seu pra morar e dividir com os amigos é algo que só quem morou em república conhece.

Miss Spektor

São seis e pouco da tarde. Eu desço do ônibus no posto de gasolina, ando beirando a entrada da enorme favela (Pernambués?) até chegar na passarela que passa por cima da avenida Paralela e chega no Salvador Shopping. A cidade zune ali embaixo, mas meus ouvidos estão protegidos pelos fones. Meu mp3 player se chama “Sanidade”, e tem essa moça, a Regina Spektor, tocando músicas malucas no piano e cantando de um jeito único. Eu acabei de descobrir a existência dela – baixei os discos no trabalho, fiquei ouvindo durante o expediente todo com aquele sorriso besta de quem descobriu uma música nova que é perfeita. As músicas perfeitas, essas que ficamos ouvindo e ouvindo e ouvindo, dizem coisas que a gente não consegue expressar com palavras e idéias e figuras e essas coisas todas que a gente usa pra expressar as coisas normalmente. A gente não entende, mas sabe que tem algo tremendamente importante ali, em 3 minutos de uma música pop, pueril, talvez boba pro resto do mundo. E eu atravessava a passarela feliz, por ter achado uma (algumas) dessas músicas perfeitas inexplicáveis, e ouvia a dona Spektor espancando o teclado do piano e cantando como se não ouvesse amanhã. A minha cabeça pensava, como é da natureza das cabeças ficar pensando: em o que eu iria fazer no shopping, em que eu iria jantar, nos carros que passavam pela passarela, nas pessoas estranhas que atravessavam as passarelas, em alguma coisa do trabalho, na vontade de ir embora de Salvador, no meu gostar quase-paradoxal de Salvador, em uma moça que mora muito longe e que eu queria muito perto, em que fazer da vida e como chegar aonde eu queria. E tudo era muito confuso como sempre foi e como sempre será, mas naquele instante, naqueles minutos cruzando a passarela, tudo parecia fazer sentido e tudo poderia se encaixar. Porque eu havia achado uma peça do quebra-cabeças, disfarçada em uma música de 3 minutos, encontrada no YouTube durante uma tarde chata de trabalho.


Regina Spektor – US
Enviado por reginaspektor. – Veja os últimos vídeos de música em destaque.


They’ll name a city after us,
And later say it’s all our fault

Yo No Creo En Cucarachas, Pero Que Las Hay, Las Hay

Lá estava eu, pegando água na cozinha, pensando na vida, no universo e tudo mais enquanto esperava o copo encher quando, de repente, uma movimentação estranha aparece no canto do olho. Uma coisinha preta sacolejando pelo balcão, anteninhas mexendo, patinhas nojentas correndo – uma maldita barata.

Merda.

Voltei pro quarto e peguei a mais indispensável arma do Caçador de Baratas: um chinelo. (Eu fui lembrar do veneno depois, antes que algum chato pergunte). De volta à cozinha, lá estava a filha da puta na parede, mexendo suas anteninhas em um claro desafio de vida e morte. Não pensei duas vezes: sentei o chinelo na vadiazinha. Errei, e ela correu. Fui atrás dela, tentando calcular o melhor momento para o lançamento do chinelão, quando vejo novamente pelo canto do olho OUTRA coisa preta na parede. Outra barata, ainda maior que a primeira.

Caralho, véi!

Dessa vez o chinelo atingiu seu alvo magnificamente: a barata 1 jazia parada no canto do balcão, aparentemente morta. Voltei minhas atenções pra barata 2, que conseguiu evitar a justiça do chinelo e sumiu de vista. Deve ter se enfiado por uma fresta e ido pra debaixo do balcão…ok, pelo menos eu matei uma del…PORRA! A barata 1 já não estava mais no canto! A maldita usou “Feign Death” em mim e eu caí! Puto da vida, lembrei que eu tinha veneno guardado em algum armário. Com o poder da química homicida em minhas mãos, me agachei e olhei atentamente a parte inferior do balcão. Lá estavam as anteninhas sujas da barata 2, evidentemente xingando minha mãe e meus ancestrais. Vadia. Soquei veneno pela parte de baixo do balcão inteira. A barata 2 saiu correndo pelo chão da cozinha, gritando e chorando e pedindo clemência. Lembrei de tudo que aprendi com Georginho W. Bush e pisei nela com toda força do meu chinelo. SPLURT. Eca. Só restava a barata 1. Revirei a cozinha e nada dela. Passei o veneno em todas as malditas frestas e malditos buracos e malditos cantinhos.

Hoje cedo, ao acordar, dei de cara com uma dessas visões tristes que acontecem na guerra. No centro da sala jazia o cadáver da barata 1, envenenada até a morte. Sensibilizado por tal visão, aproximei-me da barata e ENFIEI O TÊNIS EM CIMA DELA. E o pior: A VACA, digo, BARATA tentou correr!! Sei lá o que ocorre com essas baratas paulistanas, cara. Tem exoesqueleto de adamantium, fator de cura, conseguem fazer integrais sem usar calculadora, ou alguma outra habilidade que as faça sobreviver mais do que as baratas comuns. Malditas baratas paulistanas, as odeio do fundo do meu coração araçatubense. Claro que os últimos esforços da barata 1 foram inúteis e ela morreu esmagada.

Aí hoje quando eu voltei da aula, comprei uma caixa daquelas iscas de barata e o veneno mais motherfucker contra baratas, daqueles que na embalagem aparecem desenhados pernilongos, baratas, ratos, capivaras e elefantes. Coloquei iscas de barata em todos os cantos da cozinha, soquei veneno em todos os ralos e frestas e outros lugares suspeitos. Mas toda vez que eu vou na cozinha agora eu acendo a luz e fico olhando antes de entrar, com medo da vingança da Barata 3.