“Anansi Boys” é um dos meus livros favoritos do Neil Gaiman. Esse “é um dos meus favoritos” é uma mera desculpa, porque eu sou um desses fãs estúpidos que gostam de tudo que o Gaiman escreve, até mesmo quando tudo que ele faz é ficar mostrando fotos de sua matilha de lobos brancos passeando pela neve.

Seu autor favorito tem uma matilha de cães-lobos-albinos? Então, né.
Mas voltando. “Anansi Boys” é um dos meus livros favoritos do Neil Gaiman. É um livro bem mais leve do que Deuses Americanos e Sandman, e nem tem o mesmo senso de aventura que Lugar Nenhum ou Stardust. “Anansi Boys”, os Filhos de Anansi, é um livro que fala sobre…família, sobre pais e irmãos e entes queridos em geral, e fala sobre os tricksters e arlequins que eu citei no outro texto, e fala sobre o poder das histórias e mitos e palavras. E fala, especialmente, sobre achar sua própria voz, encontrar sua canção e cantá-la. Como diz o sr. McCartney, “take a sad song and make it better”.
Outra coisa interessante sobre os tricksters: eles são sempre contadores de histórias. No “Anansi Boys” é contado sobre como, no início do mundo, as histórias pertenciam todas ao Tigre e como elas falavam todas sobre força e caça e sangue e morte. Até que um dia a aranha Anansi engana o Tigre e rouba todas suas histórias; e agora que as histórias eram de Anansi, elas falavam de esperteza, de inteligência, de usar a cabeça e se safar do mais forte. Para os índios da América do Norte, o principal trickster era o Coiote – ele assumia várias formas, mas a principal era a de Velho Homem Coiote – e ele era o pai de todas as histórias que se contavam. Joseph Campbell dizia que os mitos são maneiras de se expressar o inexpressável. As idéias e ideais que não conseguimos traduzir em palavras, os sentimentos que não tem nome e que nos movem ou nos atormentam, a sensação indescritível de que existe algo além do que se vê. Todas as coisas que sabemos mas teimamos em fingir que esquecemos – todas as coisas que não sabemos, mas teimamos em fingir que entedemos. Tudo isso faz parte dos domínios de Anansi, tudo isso faz parte da história, tudo isso está na canção de tudo.
Eu acredito nisso: que o que move a vida é essa busca por achar sua própria voz e cantar sua canção. Não existe uma maneira certa ou errada de se fazer isso: é a vida, você a vive da melhor maneira que puder e pronto. Mas existem momentos em que você sabe que está entrando no tom (“I’m getting in tune with the straight and narrow”), e existem momentos em que nem o pior dos cantores de chuveiro consegue cantar pior do que você. E o que fazer? Continuar cantando, acho eu, como se sua vida dependesse disso. Porque depende =)
“Eu sonhei que o Velho Homem Coiote aparecia pra mim e dizia, “Pokey, quando tudo está certo com você, mas você está com tanto medo de que algo possa dar errado que isso acaba destruindo seu equilíbrio, então você está com o Coyote Blue. Nessas horas eu aparecerei para te botar em pé novamente.” Esse sonho que eu sonhei, eu te entrego, Samsom.”
“O que isso quer dizer, Tio Pokey?”
“Eu não sei, mas é um sonho muito importante.”
Trecho de “Coyote Blue”, do Christopher Moore. Outro livro que fala de tricksters e histórias e do caos da vida.