(Eu não sei bem o que falar sobre “All-Clear”, a continuação perfeita de “Blackout” da Connie Willis – então talvez fosse melhor deixar a tarefa pra Sir Godfrey e Polly Sebastian, dois dos personagens do livro.)
Monthly Archives: janeiro 2011
Registros de Caminhada
Um Pancho de Rua (na foto não dá pra ver, mas os olhos do bicho eram MUITO amarelos, quase laranjas. Não sei se isso é normal ou alguma doença, mas eram lindos =P )

Um arco-íris…na verdade eram dois, mas a câmera só pegou um. Mas o MAIS legal mesmo…

…foi conseguir evitar a tempestade que se aproximava. Estão vendo o céu laranja-roxo? Isso é TERRA – pra quem acha que tempestade de areia só acontece no deserto.
Chegando em casa, encontramos nosso gato preto com o laser já carregado. All in a day’s work!
De 1984 e Outros Demônios
“1984″ é mais do que um bom livro: é um soco na boca do estômago. Ou um soco na boca E no estômago, seguido de uma rasteira e uma botinada na cara. Alguém já disse que este talvez seja o mais importante livro do século passado. Não o melhor, não o mais bem escrito, nem o que tem a melhor trama, mas o mais importante por mostrar um mundo não tão distante, não tão impossível assim, onde todas as liberdades são exterminadas e os homens são reduzidos à engrenagens servindo ao Partido e ao Grande Irmão. Todos os pensamentos devem ser controlados, todos os sentimentos que não servem ao Grande Irmão devem ser eliminados, todo o vocabulário deve ser limitado e modificado para evitar a profusão de idéias…e qualquer um que ousar fazer o menor gesto dissidente, seja uma frase de revolta ou uma mera cara virada, é “vaporizado” sem dó nem piedade. É um livro sombrio, sem esperança – porque precisa ser, porque a mensagem precisa ser passada. Isso é o que o autoritarismo nos traz, seja ele socialista, comunista, capitalista, de esquerda, direita, centro, oriental, ocidental – ninguém está livre dessa ameaça. Orwell queria mostrar que os países de língua inglesa, apesar de se ploclamarem os bastiões da democracia, não estavam livres desses perigos.
E lá fiquei eu pensando, depois de tomar o soco-no-estômago-dos-estômagos com a frase final do livro, se não haveria uma alternativa, se não haveria salvação para um cenário desses. E ontem de noitinha eu lembrei de um conto do Harlan Ellison, bem parecido com “1984″, que se chama “Repent, Harlequin, said the Ticktockman”. No mundo do Ticktockman, as pessoas são escravizadas pelo tempo – todos os segundos são contabilizados, todas as pessoas devem obedecer horários ridiculamente rígidos, tudo para que a “máquina” funcione da maneira mais eficiente possível. Aqueles que se atrasam e que fazem a máquina se atrasar, são punidos com a redução de seu tempo de vida. Nesse cenário aparece o Arlequim, uma figura misteriosa que se veste de palhaço e realiza atos de extremo terrorismo – como jogar centenas de milhares de jujubas em uma rua, fazendo os transeuntes pararem e se atrasarem e atrasarem a máquina e causarem pejuízos inestimáveis. Do alto dos prédios o Arlequim gritava: “Porque vocês se deixam serem levados assim? Porque deixam eles mandarem vocês se apressarem como se fossem formigas e vermes? Aproveitem seu tempo! Relaxem um pouco! Deixem a vida seguir seu próprio passo! Não se escravizem!”. Obviamente o Arlequim, assim como o Winston Smith de “1984″, é capturado e tem sua alma destruída, forçado através das piores torturas a aceitar a dominação do sistema. Mas a semente é lançada: a idéia de que o tempo talvez não seja tão importante assim, a idéia que talvez sejamos escravos daquilo que nós mesmos criamos é disseminada, e começa aos poucos a infectar a sociedade.
Tem esse vídeo do Bill Hicks, um comediante americano, em que ele encerra o show falando sobre o “sentido da vida”. E ele fala algo mais ou menos assim:
“O mundo é como uma montanha-russa num parque de diversões. E quando você resolve dar uma volta nele, o brinquedo parece ser de verdade, porque nossas mentes são poderosas assim. E o brinquedo sobe e desce e vai e volta e tem sustos e maravilhas e é cheio de luz e barulho, e é bem divertido…por um tempo. Algumas pessoas já estão a algum tempo no brinquedo e começam a se questionar: isso aqui é real? Ou é só uma volta na montanha-russa? E outras pessoas se lembram, e elas voltam para nos lembrar: “Ei, não se preocupe, não tenha medo nunca, porque é só um brinquedo!”. E nós…matamos essas pessoas.”
Nós precisamos dessas pessoas, desses Arlequins que não se deixam enganar pelos conceitos que criamos, pelas prisões que construímos e nos deixamos prender. Precisamos dos idealistas irresponsáveis, dos malucos que causam o caos e dizem as verdades que todos sabem mas que ninguém quer escutar. Em todas as mitologias existe a figura do trickster – um deus irresponsável, cheio de defeitos, tão orgulhoso quanto burro, tão cheio de si que se acredita mais esperto do que todos os outros. E em todas as mitologias é o trickster que invade os palácios celestiais e traz o fogo, a fagulha divina ou o que seja, para o seio da humanidade. Invariavelmente eles são punidos por sua ousadia, das mais terríveis formas. Mas seu presente para nós, a fagulha divina, aquilo que contamina o homem e o faz ver, mesmo por poucos instantes, a verdade sobre o mundo, é algo que jamais nos pode ser tirado.



