Posts de fevereiro, 2011
Sobre As Segundas-Feiras (parte I)
segunda-feira, fevereiro 28th, 2011( As pessoas costumam não gostar das segundas-feiras. Porque ela vem depois do domingo, porque ela significa ter que acordar cedo e voltar pra suas rotinas sem graça – o que não faz sentido, pois a culpa não é da segunda-feira que as rotinas das pessoas seja um pé no saco. Mas segundas-feiras são fabulosas, fantásticas, e possuem um encanto que é só delas. Esse post – essa série de posts, semanais e tal – é uma tentativa de mostrar as coisas incríveis que acontecem somente durante as segundas-feiras, e de cuja existência vocês jamais suspeitariam pois estavam ocupados demais reclamando de um dia da semana inocente. )
Segunda-feira é o dia em que a orquestra sonâmbula de Montebianco se reúne para tocar. Mas quase ninguém sabe disso, até porque quase ninguém sabe da existência de Montebianco, uma cidadezinha no sul da Itália, quase que esquecido pelo progresso e pela cartografia (mas jamais pelos cobradores de imposto do governo). Seus habitantes, durante a madrugada em que domingo se transforma em segunda-feira, são acometidos por uma estranha e regular sonambulância: na calada da noite eles se levantam, ainda dormindo, e de pijamas saem pelas ruas. Estranhamente eles se lembram de trazer os instrumentos que tiverem em casa: um violão aqui, um acordeon acolá, flautas, tambores, xilofones de brinquedo, o que tiverem em suas casas.
Na praça central, iluminada pela lua e pelos vagalumes, os sonâmbulos se encontram e se organizam sem a ajuda de ninguém. Sem maestro, partitura ou uma simples deixa começam a tocar, todos ao mesmo tempo, uma orquestra tão improvável quanto perfeita. As músicas variam a cada segunda-feira – as vezes eles tocam antigas canções italianas, outras vezes versões sinfônicas de clássicos do metal, outras vezes ainda um apanhado de canções dos gipsy kings – ninguém sabe como eles escolhem as músicas, e nem como aprendem elas. Mas uma música se repete sempre, e parece ser uma favorita: “Umbrella”, da Rihana.
Sim, essa mesma.
E então, tão subitamente como começou a orquestra encerra suas atividades. Sem aviso os sonâmbulos param de tocar e retornam para suas casas, para seus sonos e para a segunda-feira nascente. Pela manhã nenhum deles fará a menor idéia do que aconteceu. Mas vários deles estarão assoviando, sem nenhum motivo aparente, a parte vocal de “Umbrella”.
As 36 Páginas Que Me Faltam
domingo, fevereiro 27th, 2011“Aí virei a página e a história deu um salto”. Já vi essa metáfora mil vezes, e já à vivi também tantas vezes – mas ela nunca havia acontecido comigo de forma literal! Lá estávamos eu e o detetive, nos embrenhando por um sítio nas imediações de Los Angeles, escutando uma conversa sussurrada entre um médico fora-da-lei e o marido desaparecido que procurávamos. “A sra. Wade vai gostar de ouvir isso, Marlowe, mas aposto que você deve estar se mordendo” – sussurrei para o detetive e então virei a página para continuar ouvindo o diálogo proibido.
E não estávamos mais no sítio, e sim em um bar em Los Angeles onde o detetive e uma pessoa que eu não conhecia discutiam sobre um conhecido comum. Epa. O que havia acontecido? Virei a página, desvirei, revirei. Passei o dedo no canto da página até quase cortar – um bom livro de detetive vale o pior dos cortes, o corte de papel. Mas nada, não havia nenhuma página escondida. Até que olhei a numeração – elementar, caro Sherlock – e percebi.
36 páginas faltando. Um bloco inteiro de páginas que provavelmente se perdeu durante a fabricação do livro. Páginas que se foram, que se escafederam, um, dois, talvez três capítulos que não verão a luz do dia. Um descuido – ou algo intencional? Talvez um encadernador sádico, cansado de pregar livros, tenha resolvido pregar uma peça. Talvez alguém na editora tenha resolvido fazer um experimento socio-antropológico-literário com leitores de histórias de detetive. Talvez um ladrão de páginas de livros, talvez um psicopata literário que quando pequeno apanhava da mãe quando falava que desejava ir na biblioteca. As possibilidades são múltiplas, infinitas – é quase a mesma coisa que tentar adivinhar o que acontece nas 36 páginas que estão faltando.
Talvez seja um desafio: um livro de mistério onde um bolo de páginas estão faltando. O que farão os personagens nesse intervalo? Os mais incautos diriam que é fácil prever o que acontece – mas lembrem-se que personagens literários tem vida própria. Agora que ninguém está olhando, o que impede o detetive Marlowe de invadir o sítio do médico fora-da-lei, ou de finalmente dar em cima da bela Sra. Wade, ou simplesmente declamar um monólogo e dançar um tango em Los Angeles? Será que a bela Sra. Wade continua a ser tão fatal nessas páginas que estão faltando? E o misterioso Terry Lennox, o que o impediria de ressuscitar do mundo dos mortos e reaparecer em Los Angeles – e se vingar do sogro suspeito, limpar seu nome e depois se juntar ao amigo Marlowe em uma noitada de álcool, mulheres e tango selvagem em Los Angeles? De repente, as 36 páginas que estão faltando passam a ser mais bizarras e interessantes do que todos os livros jamais poderiam ser. Descobrir o que elas dizem de verdade seria um crime, um assassinato contra a imaginação!
Mas preciso saber o fim da história. E sinto interromper a noitada selvagem de Lennox e Marlowe em Los Angeles, mas amanhã irei atrás de uma outra cópia do livro – com menos possibilidades e mais páginas.
Deuses Nipônicos do Rock!
domingo, fevereiro 27th, 2011Nem Elvis Presley, nem Little Richard.
Nem Lennon, nem McCartney, nem George, nem Ringo.
Nem Jagger, nem Richards.
Nem Eric Clapton, nem Jimi Hendrix, nem nenhum Deus da Guitarra, nem nenhum Avatar do Rock.
Talvez Chuck Berry fosse tão animado quanto o velhinho japonês tocando violão da praça da Liberdade.
Eu ouvi ele quando saí do restaurante. Não dava pra ouvir a música direito, não entendi uma palavra do que ele dizia, mas ele estava amarradão tocando seu violão e isso fazia toda a diferença! Ninguém parecia ligar pra ele – talvez fosse um habitante habitual da Liberdade, que pra mim era novidade mas pra todo mundo era só um senhorzinho meio maluco tocando violão na praça.
Só um senhorzinho meio maluco tocando violão na praça?
Pro inferno vocês, era um Deus do Rock manifestando-se em pleno sábado diante da feirinha da Liberdade!
De Como Anansi Conseguiu Todas as Histórias
sexta-feira, fevereiro 25th, 2011“- Você quer ouvir uma história? – perguntou o velho.
- Acho que não – respondeu ela, sincera.
Ele a ajudou a se levantar, e ambos saíram do Jardim do Repouso.
- Tudo bem. Então vou ser bem rápido. Não vou me estender. Sabe, posso contar uma história assim de maneira que dure semanas. Tudo está nos detalhes. O que você conta, o que deixa de fora. Por exemplo, se você não menciona o clima nem as roupas das pessoas, só aí já temos metade da história. Uma vez eu contei uma…
- Olha – interrompeu Maeve. – Se você quer contar uma história, então conte, tá bom?
Já era ruim o suficiente caminhar à beira da estrada no crepúsculo crescente. Maeve dizia a si mesma que era impossível ser atropelada por um carro, mas aquilo não a fazia se sentir melhor. O velho começou a falar num tom suave de cantiga e dizia:
- Quando eu digo “Tigre”, você tem que entender que não se trata apenas do felino listrado, o indiano. Mas sim do que as pessoas chamam de grandes felinos. Leopardos, linces, onças, todos eles. Entendeu?
- Sim.
- Bom. Então… muito tempo atrás — começou —, o Tigre era dono das histórias. Todas as histórias que existiam eram histórias do Tigre, todas as canções eram canções do Tigre, todas as piadas eram piadas do Tigre, exceto que não havia piadas sendo contadas na época do Tigre. Nas histórias do Tigre, tudo o que importa é quão forte seus dentes são, como você caça e como você mata. Não há suavidade nas histórias do Tigre, ninguém faz coisas espertas e não há paz.
Maeve tentou imaginar que tipo de histórias um grande felino contaria.
- Então eram histórias violentas?
- Aqui e ali, mas no geral eram ruins. Quando todas as histórias e canções eram do Tigre, era um tempo ruim pra todo mundo. As pessoas adquirem a forma das histórias e canções que as cercam, especialmente quando não têm uma canção só delas. Na época do Tigre, todas as canções eram sombrias. Começavam em lágrimas e terminavam em sangue, e eram o único tipo de história que as pessoas do mundo conheciam. Então Anansi entra na história. Você deve saber tudo sobre Anansi…
- Acho que não.
- Bem, se eu fosse te dizer o quão esperto e bonitão, charmoso e sabidão Anansi era, eu começaria hoje e só terminaria na quinta que vem.
- Então não me conte – pediu Maeve. – Vamos deixar por isso mesmo. E o que esse tal de Anansi fez?
- Bom, Anansi ganhou as histórias. Ganhou? Não. Ele as recebeu porque as merecia. Ele as tomou do Tigre, e fez com que o Tigre não pudesse mais entrar no mundo real. Não em carne. As histórias que as pessoas passaram a ouvir eram de Anansi. Isso foi há uns 10, 15 mil anos. As histórias de Anansi, elas têm esperteza, sagacidade, sabedoria. E por todo o mundo as pessoas não se concentram mais apenas em caçar e ser caçados. Agora elas começam a pensar para sair das enrascadas. Algumas vezes, entrando em enrascadas ainda maiores. Elas ainda precisam comer, e é nesse ponto que as pessoas começam a usar a cabeça. Há quem diga que as primeiras ferramentas foram as armas, mas isso não é verdade. Antes de mais nada, as pessoas pensam sobre as ferramentas. É sempre a muleta antes do tacape. Porque agora as pessoas estão contando as histórias de Anansi e começando a pensar como fazer para ganhar um beijo, para ganhar alguma coisa sem precisar fazer esforço. Sendo engraçados ou espertos. E aí se começa a construir o mundo.
- Isso é só uma história folclórica. São histórias que as pessoas criaram.
- E isso muda alguma coisa? — perguntou o velho. — Talvez Anansi seja só um velho numa história inventada na África, na infância da humanidade, por algum garoto com varejeiras na perna, metendo a muleta na terra e criando alguma história tola sobre um homem feito de piche. Isso muda alguma coisa? As pessoas respondem às histórias e as passam adiante, são mudadas por elas. Porque agora o pessoal que antes só pensava em correr dos leões e ficar longe dos crocodilos nos rios pode sonhar com um novo lugar para morar. O mundo pode ainda ser o mesmo, mas o papel de parede mudou. Certo? As pessoas ainda carregam a mesma história, uma em que nascem, crescem, fazem coisas e morrem, mas agora a história significa uma coisa nova a cada vez.”
Depois daquele pedaço de Deuses Americanos em que a Sam explica exatamente como funciona o sistema de crenças contraditórias de um ser humano, esse deve ser meu trecho favorito do Neil Gaiman. Basicamente é o Sr. Anansi explicando porque é que deixamos de ser macacos evoluídos turbinados para sermos algo mais…algo que nunca conseguimos entender direito o que é, mas que passaremos o resto de nossas existências tentando descobrir. É tudo culpa das histórias. Dos contos que eram contados nos fundos das cavernas, das explicações que se arrumava para os fenômenos naturais, dos relatos do dia a dia, da descoberta de que a realidade é maleável. Das histórias que contamos pra nós mesmos, das pequenas inverdades que nos fazem ser corajosos e gentis e saudáveis e felizes, segundo o Sr. Vonnegut. Eu, eu sou fraco e inseguro e tolo e e procrastinador e sonho demais e meto meus pés pelas mãos sempre que possível – mas um dia me contaram que “Eu sou o Arlequim, e o mundo é minha Arlequinada!” , e isso me dá forças pra ser tudo aquilo que eu nunca poderia ser.
E é assim que o mundo funciona.
Falamos do Perigo de Estar Vivos
quarta-feira, fevereiro 23rd, 2011Como foi mesmo que eu comecei a ouvir música em espanhol?
Ah sim.
Foi em 2009. 2009 foi um desses anos-chave, onde algo acontece (alguÉm que chega, uma idéia que nasce, uma virada do vento, efeitos dominó) e tudo muda. Não fora, mas dentro: seus olhos abrem e você não consegue mais fechá-los, algo que acorda dentro de ti e que jamais vai dormir de novo, e jamais vai te deixar dormir. Uma febre na alma, um desassossego constante, uma coceira nos pés que vai te levar sabe-se lá pra aonde. A coceira nos pés até agora me levou pra São Paulo, pra uma faculdade nova, pra uma vida bem diferente da que eu vivia antes de 2009, mas que me agrada imensamente. E que ela continue me levando pra longe, pra perto dos meus sonhos e de quem eu quero ser. Mas o que eu queria dizer é que, no meio de todas as coisas legais que aconteceram em 2009, eu comecei a ouvir músicas em espanhol.
Primeiro com Soda Stereo. Depois, graças ao Liniers, descobri o Kevin Johansen. Depois descobri o Fito Paez e PÁ! Sabe quando você encontra a banda que toca as músicas que você sempre quis ouvir? E se torna fã, baixa todos os discos, fica prestando atenção nas letras, e o pior de tudo: fica tentando convencer seus amigos a ouvir a banda! Mas é algo deveras legal, pois você descobre um punhado de músicas perfeitas que estavam escondidas e que agora se revelam pra você.
E semana passada eu descobri uma música nova: “Al lado del camino”!
( “Me gusta estar ao lado do caminho, fumando o fumo enquanto tudo passa. Me gusta abrir os olhos e estar vivo, e ter de me entender com a ressaca. Então, navegar se faz preciso em barcos que se chocam contra o nada. Viver atormentado de sentidos (creio que esta sim, seja a parte mais pesada). Terás de fazer o que é e o que não é preciso, terás que fazer o bem e causar o dano; não esqueças que o perdão é o mais divino, e errar as vezes costuma ser humano.
“Eu era um moleque triste e encantado de Beatles, Caña Legui e maravilhas. Os livros, as canções e os pianos, o cinema, as traições, os enigmas, meu pai, as cervejas, as tortas, os mistérios, o uísque barato, os óleos, o amor, os cenários, a fome, o frio, o crime, o dinheiro e minhas dez tias fizeram-me este homem tão confuso!”
“E se alguma vez me cruza pela rua, presenteia-me com teu beijo e não te aflijas. Se vês que estou pensando em outra coisa, não há nada errado, é só que passou uma brisa: a brisa da Morte enamorada, que ronda como um anjo assassino. Mas não te assustes, isso sempre acontece: es solo la intuición de mi destino.”
Me gusta estar ao lado do caminho, fumando o fumo enquanto tudo passa. Me gusta retornar do esquecimento, para me acordar sonhando com minha casa. O moleque que jogava bola, do 4-9-5-8-5. Ninguém nos prometeu um jardim de rosas: falamos do perigo de estar vivos!” )
Quando Me Dei Conta, Estava Vivo
segunda-feira, fevereiro 21st, 2011
(Tirado do blog “Things We Forget”)
Se eu fosse tatuar todas as coisas que eu não posso esquecer, eu viraria um daqueles “Illustrated Men” que habitavam os circo de horrores: o corpo totalmente coberto de tatuagens, irreconhecível por baixo daquela tinta toda. Mas se preciso fosse escolher uma frase pra me manter em movimento, e não desanimar e não desistir e continuar andando mesmo quando tudo parece sem sentido, seria essa: “Stay hungry, stay foolish”. Sempre com fome, sempre bobo, é a única maneira de manter as engrenagens rodando. “Y a rodar, y a rodar, y a rodar, y a rodar mi vida“… =)

