Sobre As Segundas-Feiras (parte III)

( As pessoas costumam não gostar das segundas-feiras. Porque ela vem depois do domingo, porque ela significa ter que acordar cedo e voltar pra suas rotinas sem graça – mas não é culpa não é da segunda-feira que as rotinas das pessoas seja um pé no saco. Mas segundas-feiras são fabulosas e possuem um encanto que é só delas. Esse post – essa série de posts, semanais e tal – é uma tentativa de mostrar as coisas incríveis que acontecem somente durante as segundas-feiras. Eu ainda não sei direito para onde essa série está indo, mas tenho vontade de levá-la para lugares mais estranhos do que anteriormente planejados. Vamos ver aonde isso dá. )

Isto se passou a muito tempo atrás, na Bagdá imortalizada nas Mil e uma Noites, durante o Califado de Harun al-Rashid. “Ha”, pode pensar o nobre leitor, “Não existiam segundas-feiras no calendário árabe!”. E eu serei obrigado a responder: ssshhhhh! Segundas-feiras sempre existiram, e foi em uma segunda-feira ensolarada em que Azab ibn Nawfal passeava pelo mercado de Bagdá quando ouviu os acordes que mudariam sua vida. É preciso que você saiba que o mercado de Bagdá nessa época era o maior e mais maravilhoso de todo mundo – onde todas as mercadorias possíveis de serem imaginadas eram comercializadas, desde um mero tapete encantado com o poder de voar até o lendário e misterioso ovo negro da ave fênix. O mercado de Bagdá era um universo em miniatura de cores, formas e sons – e talvez por isso Azab tenha diminuído o passo para ver um músico, quase pálido e cinza diante da imensidão de cores do mercado, tirar um violino da bolsa e começar a dedilhar o instrumento. Primeiro brincando, como se testasse as cordas, como se testasse as notas para ver se elas ainda estavam ali – e depois criando um ritmo, uma melodia simples, quase tola, que fez Azab sorrir sem querer. A melodia agora se repetia em sua mente, dançando entre seus pensamentos e revirando suas memórias. Em um espaço de segundos aquelas notas dedilhadas haviam se tornado parte da alma de Azab, e eles jamais esqueceria delas – mas é óbvio que naquele momento ele não perceberia. Ele estava mais preocupado em continuar andando e evitar trombar com outros transeuntes, e nessa preocupação ele percebeu que o músico agora começava a tocar o violino de maneira apropriada. Azab pensou em se virar. Azab pensou em continuar andando. Azab pensou mil coisas, e em todas essas mil coisas havia o toque das notas dedilhadas, desde já alterando o curso de sua história.

Muitos anos depois, Azab se perguntaria o que aconteceria se ele não tivesse ouvido aqueles acordes. Se ele tivesse acordado mais tarde, se ele tivesse virado uma rua antes, se o músico tivesse demorado mais trinta segundos para começar seu trabalho. Sua vida seria totalmente diferente, seus passos seriam outros, suas decisões seriam guiadas por outra estrela, e ele não conheceria as maravilhas e os dores que a jornada lhe proporcionara, e ele não teria ganhado tanto, e ele não teria perdido tanto, e suas cicatrizes teriam nascido de outras histórias e não daquelas que ele agora contava para quem quisesse ouvir. Tudo, tudo seria diferente. Melhor ou pior, só cabe a Alá e as senhoras que fiam nossos destinos saber. Tudo que Azab sabe, e aprendeu naquele momento, é que certos sons, uma vez ouvidos, jamais podem ser desouvidos.

Canções de Ninar Para Perdidos – Parte II

I turned and locked the front door – no way in or out
I turned and walked the hallway, and pulled the curtains down
I knelt and emptied the mouth of every plug around – but nothing sounds.
….but nothing sounds.

I stayed where my last step left me, ignored all my rounds
Soon I was seeing visions, and cracks along the walls
….they were upside down

I followed the truth to keep from lying,
I swallowed my face just to keep from biting,
I swallowed my breath and went deep, I was diving, diving…
I surfaced and all of my being was…

(“In Hiding” na minha opinião é o coração do álbum “Yield” – a canção central, em cuja gravidade todas as outras músicas orbitam. Ela relata uma espécie de ritual, um exílio voluntário de tudo e de todos, em busca de…em busca de que? Eu nunca emergi de verdade pra poder dizer com certeza. Mas “In Hiding” é uma canção de ninar para perdidos, se um dia já existiu alguma.)

Becoming Elvis

Aproveitando que o Egito tocou no assunto – Andy Kaufman era foda! Kaufman foi um dos comediantes mais geniais e controversos de que já se teve notícia. O filme “Mundo de Andy” conta a história dele melhor do que eu poderia contar aqui, então me contento em deixar o vídeo de uma das performances dele. Kaufman tinha diversos personagens, e fazia tudo o que fosse possível pra enganar e chocar a platéia – um de seus primeiros artifícios foi criar um personagem que se dizia estrangeiro, de uma ilhazinha perdida. Com uma voz fininha e sotaque carregadíssimo, o estrangeiro prometia fazer imitações para a platéia – e começava a fazer uma série de imitações tolas. “Agora eu vou imitar o sr. Ronald Reagan”…e virava para trás, e depois voltava para a platéia… “Oi, eu sou Ronald Reagan!”. Isso prosseguia indefinidamente, até deixar a platéia à beira de um ataque de nervos. “Agora eu gostaria de imitar para vocês o Sr. Elvis Presley”. E então ele se virava e…

Um Pouco de Assombração para a Oferenda

Uma das coisas que eu gosto ( e odeio) no REM são as letras, sempre naquele limiar entre a compreensão e o entendimento, cheias de imagens e referências – ótimas pra se decifrar. Não que eu seja um grande fã da banda, muito pelo contrário. Conheço só os hits e uma ou outra música de álbum, mas nunca ouvi um álbum realmente inteiro.

O que não me impede de achar “Man On The Moon” uma das músicas mais fodas já feita.

Um dos melhores versos já escritos:

“Here’s a little agit for the never believer…yeah, yeah, yeah, yeah
Here’s a little ghost for the offering…yeah, yeah, yeah, yeah
Here’s a truck stop instead of Saint Peter’s…yeah, yeah, yeah, yeah

Sobre o que ele tá falando? Eu não faço a mais puta idéia. As músicas do REM você mais sente do que entende – e eu sinto que ele fala de…mortalidade, de tudo que já se foi, de memórias de infância, de uma tentativa tola e desesperada de se convencer que a mágica, qualquer mágica, qualquer mistério, não acabou. Aqui está um chacoalhão para os que nunca acreditam, aqui está um pouco de assombração para a oferenda (e não uma oferenda para a assombração). Ele quer acreditar – e quer que nós acreditmos também. Porque se você não acredita que tem algo mais escondido na manga, então nada está bem.

(“Man on the Moon” tem uma continuação, “The Great Beyond”, que é um tanto mais positiva e alegre, e tão bonita quanto. Acho que já fiz um post sobre ela, muuuitos anos atrás. Mas eu gosto do clima soturno de “Man on the Moon” – e do clipe estilo “On The Road”)

Internas

Desistir é fácil. Parte de ti diz que é tudo inútil, que é mais fácil se resignar e desistir e ir embora, saída do palco pela esquerda e até a próxima.

Lutar exige força, coragem, insistência. Parte de ti arregaça as mangas, cerra os dentes, quer pular no ringue quantas vezes forem necessárias.

E outra parte diz que essas duas partes vão estar sempre perseguindo uma à outra, e que essa dança no escuro só causa a exaustão. Que algo precisa mudar fundamentalmente aqui dentro, antes que qualquer mudança externa possa ocorrer. Que é preciso reconstruir tudo, repensar tudo, achar a raiz do problema e arrancá-la com força. Que mais do que desistir ou lutar, é preciso aprender – e mudar.

Mas como se faz isso, eu pergunto. E ela diz que não sabe, que é só uma parte de mim que já se cansou de tantos erros e derrotas e oportunidades perdidas.

Sobre As Segundas-Feiras (parte II)

( As pessoas costumam não gostar das segundas-feiras. Porque ela vem depois do domingo, porque ela significa ter que acordar cedo e voltar pra suas rotinas sem graça – o que não faz sentido, pois a culpa não é da segunda-feira que as rotinas das pessoas seja um pé no saco. Mas segundas-feiras são fabulosas, fantásticas, e possuem um encanto que é só delas. Esse post – essa série de posts, semanais e tal – é uma tentativa de mostrar as coisas incríveis que acontecem somente durante as segundas-feiras, e de cuja existência vocês jamais suspeitariam pois estavam ocupados demais reclamando de um dia da semana inocente. )

Existem infinitas lendas que rondam os gatos. Sete vidas, nove vidas, trazem má sorte se cruzam um caminho, trazem boa sorte se vivem na sua casa, enxergam fantasmas, e vários outros poderes sobrenaturais. Superstições com cachorros? Não lembro de nenhuma. Mas sobre gatos existem infinitas. Aqui vai mais uma:

Toda segunda-feira a Lua escolhe um gato, entre os milhões de gatos que existem no mundo. Assim que o domingo se transfoma em segunda, o felino saberá instintivamente que algo está pra acontecer, e correrá para fora da casa de seus “donos”, para longe da vista dos humanos. A transformação acontecerá rápida, sem dor e quase instântanea: num minuto um gato, noutro minuto um homem. É um acordo estranho, feito entre Lua e felinos a muito tempo atrás. Os gatos deixariam os humanos pensarem que são os reis da criação, mas a cada semana um embaixador felino visitaria o mundo dos humanos durante um dia inteiro, para observar como andam as coisas.

Cada gato recebe este presente de uma maneira diferente. Alguns simplesmente aproveitam a oportunidade para conhecer os humanos – se misturar entre eles, tentar entender como eles pensam e como vivem em sociedade – quase uma missão antropológica. Outros encaram como uma missão educacional: se vingam de quem maltrata gatos, recompensam quem os trata bem, e espalham lendas e superstições para incutir o medo de felinos no coração dos homens. (Também conta-se que nesse dia especial o gato transformado em humano pode transformar um humano em gato. Os detalhes e os motivos de tal transformação escapam do objetivo desse relato – mas talvez em outra segunda-feira nós voltemos nesse assunto.)

Canções de Ninar para Perdidos – parte I

Antes que alguém pergunte, as outras duas são invisíveis.

Antes que alguém pergunte, as outras duas são invisíveis.

Eu quis querer o que o vento não leva, pra que o vento só levasse o que eu não quero
Eu quis amar o que o tempo não muda, pra que quem eu amo não mudasse nunca

Eu quis prever o futuro, consertar o passado
Calculando os riscos, bem devagar, ponderado
Perfeitamente equilibrado

Até que num dia qualquer eu vi que alguma coisa mudara
Trocaram os nomes das ruas, e as pessoas tinham outras caras
No céu haviam nove luas e nunca mais encontrei minha casa