( As pessoas costumam não gostar das segundas-feiras. Porque ela vem depois do domingo, porque ela significa ter que acordar cedo e voltar pra suas rotinas sem graça – mas não é culpa não é da segunda-feira que as rotinas das pessoas seja um pé no saco. Mas segundas-feiras são fabulosas e possuem um encanto que é só delas. Esse post – essa série de posts, semanais e tal – é uma tentativa de mostrar as coisas incríveis que acontecem somente durante as segundas-feiras. Eu ainda não sei direito para onde essa série está indo, mas tenho vontade de levá-la para lugares mais estranhos do que anteriormente planejados. Vamos ver aonde isso dá. )
Isto se passou a muito tempo atrás, na Bagdá imortalizada nas Mil e uma Noites, durante o Califado de Harun al-Rashid. “Ha”, pode pensar o nobre leitor, “Não existiam segundas-feiras no calendário árabe!”. E eu serei obrigado a responder: ssshhhhh! Segundas-feiras sempre existiram, e foi em uma segunda-feira ensolarada em que Azab ibn Nawfal passeava pelo mercado de Bagdá quando ouviu os acordes que mudariam sua vida. É preciso que você saiba que o mercado de Bagdá nessa época era o maior e mais maravilhoso de todo mundo – onde todas as mercadorias possíveis de serem imaginadas eram comercializadas, desde um mero tapete encantado com o poder de voar até o lendário e misterioso ovo negro da ave fênix. O mercado de Bagdá era um universo em miniatura de cores, formas e sons – e talvez por isso Azab tenha diminuído o passo para ver um músico, quase pálido e cinza diante da imensidão de cores do mercado, tirar um violino da bolsa e começar a dedilhar o instrumento. Primeiro brincando, como se testasse as cordas, como se testasse as notas para ver se elas ainda estavam ali – e depois criando um ritmo, uma melodia simples, quase tola, que fez Azab sorrir sem querer. A melodia agora se repetia em sua mente, dançando entre seus pensamentos e revirando suas memórias. Em um espaço de segundos aquelas notas dedilhadas haviam se tornado parte da alma de Azab, e eles jamais esqueceria delas – mas é óbvio que naquele momento ele não perceberia. Ele estava mais preocupado em continuar andando e evitar trombar com outros transeuntes, e nessa preocupação ele percebeu que o músico agora começava a tocar o violino de maneira apropriada. Azab pensou em se virar. Azab pensou em continuar andando. Azab pensou mil coisas, e em todas essas mil coisas havia o toque das notas dedilhadas, desde já alterando o curso de sua história.
Muitos anos depois, Azab se perguntaria o que aconteceria se ele não tivesse ouvido aqueles acordes. Se ele tivesse acordado mais tarde, se ele tivesse virado uma rua antes, se o músico tivesse demorado mais trinta segundos para começar seu trabalho. Sua vida seria totalmente diferente, seus passos seriam outros, suas decisões seriam guiadas por outra estrela, e ele não conheceria as maravilhas e os dores que a jornada lhe proporcionara, e ele não teria ganhado tanto, e ele não teria perdido tanto, e suas cicatrizes teriam nascido de outras histórias e não daquelas que ele agora contava para quem quisesse ouvir. Tudo, tudo seria diferente. Melhor ou pior, só cabe a Alá e as senhoras que fiam nossos destinos saber. Tudo que Azab sabe, e aprendeu naquele momento, é que certos sons, uma vez ouvidos, jamais podem ser desouvidos.
