30 Day Song Challenge – Dia 2

“Your least favorite song”

Hmmmm…estranho que a única música que eu realmente desgoste seja de uma das bandas que eu mais gosto. Mas acontece que o Dr. Eddie Vedder resolveu colocar uma tranqueira medonha no final do “Vitalogy”, chamada “Hey Foxymophandlemama, That’s Me”, e…bleargh. São relatos bizarramente bizarros de doentes mentais, de pacientes de clínicas psiquiátricas e de pessoas estranhas em geral, tudo acompanhado por uma batida estranha e sons bizarros – uma dessas músicas experimentais inaudíveis! Nunca gostei de ouvir ela…pra dizer a verdade, devo tê-lo ouvida umas duas vezes, na época em que ouvi o Vitalogy pela primeira vez. Láááá em 1998…

Enfim, nem vou colocar link pra ela aqui. Blé.

30 Day Song Challenge pt. 1 – Canção Favorita

(Aí eu vi esse “30 Day Song Challenge” no facebook e resolvi participar. A partir de hoje, diariamente, uma música por dia.)

Pedir pra escolher a canção favorita é sacanagem. Das bravas. Não é tão simples assim escolher uma canção favorita, se você for o tipo de idiota que realmente se importa com música. As pessoas normais, mentalmente saudáveis, não se importam com esse tipo de pergunta: não afeta diretamente a vida delas, é só uma questão de opinião. Mas pro tipo de doente que se considera viciado em música, essa simples questão é um soco no estômago.

Porque a canção favorita é importante. É o centro do universo musical da pessoa. Não é uma música que você ouviu semana passada e achou legal, não é um hit que marcou suas férias em Guarujá no verão de 95. Não é uma música que necessariamente te faça lembrar de alguém, não é uma música que marcou uma determinada época da sua vida. A música favorita sobrevive épocas, pessoas, situações, mudanças, evoluções, revoluções, mutações. Todo o resto pode mudar, mas ela sobrevive, simplesmente porque é o centro, o eixo onde todo o resto orbita.

Eu descobri minha canção favorita quando eu tinha…hmmm, uns 10 anos? 12? 7? Só lembro que ela estava escondido em uma fita k7 do meu pai. De um lado estava escrito “Caetano”, e do outro lado, que viria a se tornar meu favorito, “Paralamas”. E no meio de todas aquelas músicas fodonas do Paralamas, a melhor de todas: “Caleidoscópio”. Uma das melhores introduções do rock, e uma das letras mais fantásticas já escritas. Todo dia desde então, é só fechar os olhos que tudo vem:

A Vida de Pi, o Universo e Tudo Mais

( A ilustração acima foi tirada do flickr de El Bertolini)

Tudo no universo está linkado. Não é segredo nenhum que eu tenho uma paixão platônica recolhida admiração incontida pelo tio Jung. Freud sempre me pareceu frio, distante, mecânico e racional demais, enquanto Jung era mais humano, emotivo, fabulista, e porque não, falível. Algumas teorias de Jung desafiam a razão e o senso comum – sincronicidade, tô falando de você. E entretanto…entretanto, quem nunca se pegou pensando em como as coisas simplesmente acontecem na hora em que tem de acontecer, que atire a primeira pedra. Tudo no universo está linkado, e tudo existe e acontece por um motivo – por exemplo, este parágrafo existe pra contar pra vocês que esse post será GIGANTESCO. Entretanto, ele deve ser escrito, por motivos que eu desconheço e talvez nunca chegue a conhecer. Tudo o que eu sei é que eu tenho uma história pra contar, e ela começa na praça da Sé, na lateral da Catedral, em um sábado de manhã.

Aconteceu de, umas duas semanas atrás, a Dona Lulu vir pra São Paulo passear e checar a integridade dos penicos de D. Pedro I no museu do Ipiranga. E, porque não se pode perder nenhuma oportunidade de passar algum tempo com pessoas fabulosas, lá fui eu encontrar com ela e passear pela Liberdade. E estávamos conversando – na verdade, Dona Lulu falava enquanto eu, tímido feito uma besta, só ouvia – quando passamos pela Catedral da Sé, e sabe-se lá porque o assunto convergiu pro tema “religião”. Dona Lulu dizia que sua religião era um misto dos conceitos de Terry Pratchett e de Neil Gaiman, principalmente em American Gods. E eu achei isso genial, em parte porque acho sempre achei genial a maneira como Pratchett e Gaiman explicam a vida, o universo e tudo mais, e em parte porque nunca tive coragem de admitir pra mim mesmo que quero acreditar nessas coisas.

De maneira simplificada, Gaiman e Pratchett falam sobre a importância das histórias e da fantasia na humanidade. Histórias contadas na beira do fogo e ao lado da cama, mitos, lendas, fábulas, contos de fada, livros, quadrinhos, filmes – todas essas histórias são parte integrantes daquilo que somos, daquilo que queremos ser, enquanto seres humanos, enquanto macacos que ousaram sonhar. “As coisas não precisam ter acontecido de verdade para serem verdadeiras”, diz Neil Gaiman. “Humanos precisam de fantasia para serem humanos, para serem o ponto exato onde o anjo caído encontra o macaco pensante”, diz Terry Pratchett. Histórias tem força, histórias tem poder. O ato de inventar, fantasiar, dobrar e moldar a verdade sem que ela deixe de ser verdade, criar o invisível e permitir que ele molde  nossa realidade: é isso que nos faz humanos, que nos diferencia dos outros símios, dos outros animais. Assim criamos nossos deuses, nossos heróis, nossos mitos, nossas leis, nossos costumes, nossas vidas.

Minha família é espírita, e eu sempre gostei desta religião. A idéia é boa: somos todos espíritos imortais, reencarnando e reencarnando até conseguirmos “limpar nossas fichas”, corrigindo nossos defeitos e nos tornando perfeitos. Para mim, faz mais sentido que o Catolicismo e aquela história de que Jesus morreu para nos livrar do pecado original. Ora, cada um que cuide de seus pecados! Até pouco tempo atrás, coisa de alguns anos, eu me considerava espírita. Hoje, não sou mais. O Budismo me influenciou nesse aspecto: segundo Buda, questionar a vida após a morte ou na existência de uma divindade é algo inútil. São perguntas irrelevantes, que não mudam nossa vida aqui na Terra e que nos desviam das perguntas mais importantes. Quem somos? Como estamos vivendo? O que podemos fazer para melhorar nossa condição? Isso me influenciou a ir para um caminho próximo do agnosticismo: eu não sei o que existe do lado de lá, e não  tenho como saber, então pra que me importar? Porque simplesmente não admitir “eu não sei”, e seguir em frente? O mundo continuará girando, e girando.
E assim eu pensava, até anteontem, até Pi Pattel se manifestar em “A Vida de Pi”:

“I’ll be honest about it. It is not atheists who get stuck in my craw, but agnostics. Doubt is useful for a while. We must all pass through the garden of Gethsemane. If Christ played with doubt, so must we. If Christ spent an anguished night in prayer, if He burst out from the Cross, “My God, my God, why have you forsaken me?” then surely we are also permitted doubt. But we must move on. To choose doubt as a philosophy of life is akin to choosing immobility as a means of transportation.”

Eu li “A Vida de Pi” sem saber ao certo do que se tratava: só sabia que contava a história de um menino náufrago, dividindo o bote salva-vidas com um Tigre de Bengala. Mas o livro é muito mais do que isso. “A Vida de Pi” é desses livros indispensáveis, que podem ser relidos trocentas vezes e cada vez entendidos de forma diferente.  Pi, no começo do livro, é um menino encantado com as histórias e o papel delas na vida do mundo. Ele se torna hindu, cristão e islâmico simultaneamente, e não vê nenhum problema em acreditar nas três religiões. O Deus é o mesmo, o objetivo é o mesmo, a verdade oculta por trás dos ritos e mitos é a mesma. Sua aventura no mar junto com Richard Parker, o tigre, é emocionante, arrepiante, encantadora, tudo ao mesmo tempo agora. E o final…

Eu não posso falar do final. Mas pense no final como um chacoalhão, pra tirar o tigre de seu ostracismo em sua jaula, ou ainda como uma das peças que faltam em um quebra-cabeças de dimensões inconcebíveis.

Tudo no universo é linkado: a mensagem de “A Vida de Pi” é a mesma de Gaiman e Pratchett, embora vista de uma forma diferente. Mais do que isso, ele consegue explicar em palavras algo que sempre me incomodou. Lá em cima eu disse que considerava Freud frio, mecânico. Isso também me incomoda no ateísmo pregado por Richard Dawkins. Me admira que um sujeito tão brilhante não entenda que precisamos de crenças, que precisamos de fantasias para viver.  Também precisamos da razão para sobreviver, mas ela não alimenta nossa alma. O mundo racional, perfeito, lógico não sobrevive ao mundo real, vivo, pulsante – pergunte aos modernistas da Bauhaus, pergunte aos comunistas. Conceitos são lindos no papel, mas a vida real é escrita e reescrita todo santo segundo por cada santa pessoa. Se Richard Dawkins se fizesse ouvido por todas as pessoas do mundo, e todos se tornassem ateus e racionais e fãs do método científico – quanto tempo passaria até que a ciência se tornasse uma religião em si mesma? Quanto tempo até surgirem diversos sectos conflitantes, vertentes e subcorrentes dentro da ciência, com seus seguidores, seus fiéis e seus extremistas? Quanto tempo até o sangue correr em nome da Sacra Ciência? É um cenário extremo que imagino, mas o ponto é: se você tira a religião e as crenças das pessoas, o que você irá colocar no lugar? O que irá preencher o vazio que surge? Será que o Humanismo serve de substituto para a fé?

“A Vida de Pi” me fez pensar nisso tudo. E me fez pensar em mim mesmo, no meu conceito vago de religião, na minha aceitação passiva da dúvida, na minha vontade de acreditar em algo. É preciso pular: escolher a dúvida como filosofia de vida é tolice. É passar a vida inteira mexendo as pernas no rasinho, sem nunca mergulhar e sem nunca descobrir como é o mundo debaixo d’água. Mas em que acreditar?

Em tudo. Na vida, no universo, no tudo mais, no explicável e no inexplicável, no racional e no irracional, no que pensamos e no que sentimos, em tudo que é bom e em tudo que é ruim, em tudo que existe e em tudo que imaginamos. Mas principalmente acreditar na narrativa – a narrativa que permeia tudo, a narrativa que não tem começo e não tem fim mas que segue em frente, em frente, por toda a vida, por todas as vidas, por todos os universos. A narrativa que é escrita em cada segundo, em cada passo, em cada palavra, em cada vida – sagrada narrativa, impura narrativa, insensata, indecifrável, confusa, pulsante narrativa nossa de cada dia. O único mandamento é “viver para contá-la”, e seu livro sagrado são todos os livros, todas as conversas, todas as palavras, todos os silêncios, todos os pensamentos. “Trust your heart, and trust your story” diz Neil Gaiman.

E se eu puder escolher um nome pra essa religião inventada (e todas não são), eu serei obrigado a mais uma vez roubar a idéia da moça-dos-ventos: chamo-a Fabulismo, e declaro-me Fabulista, por conta de uma crença irresistível nas histórias que povoam o universo.

(Alguém chegou até aqui? Campeões da persistência, favor manifestem-se nos comentários – prometo um brinde pra vocês!)

Canções de Ninar Para Perdidos – Parte VI

Sim, eu ando ouvindo Foo Fighters pra cacete. “New Way Home” é tipo um mantra, só que mais pesado e mais divertido. Já disse isso aqui no blog: “The Colour And The Shape” é um dos meus álbuns favoritos, de ouvir de cabo a rabo e capaz de ressuscitar qualquer defunto. A primeira música fala em “I’ve never been so scared, doll me up in my bad luck, I’ll meet you there” e etc e tal. Mas aí você atravessa toooda a jornada do disco, passando por Monkey Wrench, Everlong, My Hero, See You, Walking After You e etc, e descobre que tudo vai ficar bem, de um jeito ou de outro. E “New Way Home” é esse momento de descoberta, essa hora crucial em que você simplesmente sabe que tudo ficou pra trás e todas as portas se abriram:

“I’m not scared
I felt like this on my way home
I’m not scared
I pass the boats in the kingdome

I’m not scared
I felt like this on my way home
I’m not scared
I pass the boats in the kingdome

A Namorada do Dave Ghrol

Sabe quando o Bono escolhe uma guriazinha pra subir no palco com ele, e aí canta uma música pra ela, e aí beija a menina e etc e tal? Então.

Isso é o que acontece com o Dave Ghrol quando ele resolve cantar uma canção romântica para suas fãs. E a prova que o Dave Ghrol deve ser o sujeito mais bacana do rock, claro. ( E eu ainda não falei do disco novo do Foo Fighters, que tá foda pra caralho e tal! )

Sobre As Segundas-Feiras (parte IV)

- Mas qual o sentido de uma cidade onde não se pode passear durante a noite?

A voz dela parecia se espalhar por todos os lados da grande avenida. O vento jogava seu cabelo pra trás e ela o encarava de nariz erguido, com um sorriso que poderia chamar pra briga qualquer uma das forças da natureza.

- Quer dizer, olha só isso aqui! Não é perfeito?

Ele olhou, e subitamente entendeu o que ela queria dizer. A lua e os postes de iluminação travavam uma batalha inglória contra a escuridão da noite. Todo o movimento ininterrupto do dia parecia ter se esgotado, e os dois eram os únicos a caminhar pela calçada naquela madrugada. Mas ainda mais forte e ainda mais onipresente era o silêncio que reinava. O mundo em silêncio, onde todo e qualquer barulho – a voz dela, os passos dois dois, o barulho de suas roupas ao se esfregar pelo corpo – contava.

- É como se as coisas fossem mais reais… – balbuciou ele.
- EXATO! – e a gargalhada dela parecia maior do que a própria vida. – Droga, eu gosto tanto disso aqui. De andar sem rumo durante a noite, de falar bobagens, de simplesmente…

E de repente ela pareceu ficar sem palavras, e o fitou. E sorriu – o sorriso que podia enfrentar todas as forças e potências do mundo sem perder a compostura. E ele ficou sem jeito, e sorriu de volta – um sorriso que não arriscaria nem xingar uma brisa sem um bom motivo, mas que era de sua própria forma verdadeiro. Ela riu – não dele, nem de seu sorriso bobo, mas de tudo, da vida, do universo e de tudo mais. Porque não havia outra coisa a se fazer, diante daquilo tudo, diante da enormidade e da absurdidade e da maravilhosidade daquilo tudo, a não ser rir – e deixar que tudo acontecesse. E então ela se lembrou do que vinha falando antes.

- Mas o que eu quero te dizer é que – olha só, eu poderia te encher de platitudes. A vida é bela. A vida continua. A vida dá voltas, ou era o mundo? Tanto faz. Tudo que vai, volta. Nada está perdido. Na natureza nada se perde, tudo se copia. Tudo vale a pena quando a alma não é pequena. Seja manso como a pomba, e esperto como a serpente. Dance como se ninguém estivesse olhando. Conte até dez e tente de novo. E mais um monte. Procura na internet, tem centenas de lugares abarrotaaaados de platitudes.

A voz dela parecia crescer e gesticular sozinha, e ele a ouvia com atenção. Ela o olhava, tentando decifrar o que se passava atrás daqueles olhos escuros, mas ao mesmo tempo parecia tentar se convencer das próprias palavras que dizia.

- Mas você sabe qual é a verdade verdadeira? Hein? Eu vou te dizer a verdade verdadeira, pela primeira vez em sua vida!

E riu, como se a verdade verdadeira fosse a coisa mais engraçada do mundo. Abrindo os dois braços o máximo que podia, ela começou a girar lentamente sobre seus próprios pés, como se quisesse alcançar o mundo todo num único gesto.

- A verdade verdadeira é que eu não sei. Você não sabe. Ela não sabe. Eles não sabem. Ninguém nessa madrugada inteira sabe. E tooooodo mundo vai se virando do jeito que consegue, e reza com força pra que no final tudo dê certo.

E nesse momento ela terminava sua rotação sob si mesma, e com o sorriso que faria deuses descerem do olimpo encarou-o novamente – mas ele não estava mais lá.
Agora só havia ela na grande avenida vazia na madrugada. E, para não deixar a verdade verdadeira sem ser pronunciada, disse pra si mesma, pra ele, pro silêncio da noite e pra qualquer um que quisesse ouvir:

- E no fundo é essa a beleza de todas as coisas, não é?

E sorriu, um sorriso que não enfrentaria ninguém, mas que ficaria ali pra sempre, porque certos sorrisos permanecem pra sempre. E pensou consigo mesma, “Bom, nada mal pra uma segunda-feira que acaba de começar”.

Canções de Ninar Para Perdidos – Parte V

“And if I die today, I’ll be the happy phantom
And I’ll go chassin’ the nuns out in the yard
And I’ll run naked through the streets without my mask on
And I will never need umbrellas in the rain
I’ll wake up in strawberry fields every day
And the atrocities of school I can forgive
The happy phantom has no right to bitch!”

“Or will I see you, dear, and wish I could come back
You found a girl that you could truly love again
Will you still call for me when she falls asleep?
Or do we soon forget the things we cannot see?”