Acho que eu nunca falei tão bem em público na minha vida. As palavras sempre fogem de mim, a memória desaparece, a desenvoltura nunca existiu de qualquer forma, e o melhor que eu consigo fazer é terminar bem rápido pra fazer a dor parar.
Mas não hoje. Hoje eu tomei a palavra e falei tudo que eu precisava falar, na frente de um monte de quase-desconhecidos, com a cara e a coragem que eu nem sabia que tinha. Contei minha história e a história dos meus colegas, expliquei sobre o que fazemos, nossos problemas e falhas, e minha visão daquilo que falta para melhorarmos. Minha visão de que precisamos melhorar, e precisamos aprender, e precisamos nos focar.E eu consegui falar tudo o que queria. E foi tão libertador, e foi tão…simples, e certo, como tudo que é pra ser é. E as pessoas gostaram, pelo menos eu acho que gostaram, pelo menos elas todas aplaudiram e ficaram surpresas e me parabenizaram. Descobriram que eu tinha uma voz. Eu descobri que tenho uma voz. Ora só.
Não sei se consegui atingir o alvo. Na verdade, sei que não. Tarde demais, e certas coisas a gente não consegue mudar só com palavras bonitas e demonstrações de força de vontade. É a teoria da chuva, que a Eluza me contou no primeiro dia em que conversamos e que eu encontro aplicação para tudo na minha vida. Você pode chamar o quanto quiser as pessoas para debaixo do seu guarda-chuva, mas elas só virão se estiverem dispostas a ouvir. O que não nos impede te tentar gritar, e gritar mais alto, pelo menos até cansar. Enfim, paciência, paciência. Queria que a Veronica tivesse me ouvido, que o Lucas tivesse me ouvido, que a Polise estivesse lá, que todo mundo estivesse lá…na verdade eu ficaria com vergonha e não falaria, acho eu. Mas senti orgulho de mim mesmo hoje, do que eu consegui fazer, de defender a minha posição e declarar minha intenção, e queria que essas pessoas importantes estivessem lá. “Hey, olha só, eu tenho potencial, olha pra mim!”. Bobeira, mas né.
Enfim, eu fiz o que queria fazer. E me surpreendi comigo mesmo. E deveria fazer isso mais vezes. E fiquei frustrado porque sei que o alvo principal do “discurso” não deu valor ao que eu disse. E fiquei feliz porque pessoas que eu nem imaginava que iam um dia me ouvir, ouviram. E assim é a vida, essa sucessão de erros e acertos, de vitórias que parecem derrotas e derrotas que parecem vitórias, e esse gosto agridoce que jamais vai sair da boca. Tudo bem, tudo bem, prossigamos, para sempre nesse ir e vir do caralho, toda vida até que a vida se cumpra.
Mas que eu falei bem pra caralho, isso eu falei.


