A Rede Antisocial

Antes de começar a assistir “A Rede Social”, eu pensei “Se esse filme for bom de verdade, quando acabar de assistir eu vou deletar minha conta no Facebook”. Acabei não deletando a conta – porque eu sou um bundão, porque é legal ter um site manter contato com as pessoas – mas ao mesmo tempo concordo com quase tudo o que o Scalzi diz nesse post no Whatever. Mas não posso negar que o filme é bom, pelo menos como entretenimento.

Se eu acredito nos retratos que o filme faz? Bom, nenhuma história é totalmente verdadeira, e nenhuma história é totalmente falsa. O filme coloca o Eduardo Saverin como o cara bonzinho que é traído pelo amigo, o Sean Parker como o demônio que sai distribuindo dinheiro, drogas e mulheres em troca do talento dos nerds, e o Zuckerberg como um gênio idiota cheio de ambição mas sem um pingo de tato. Em tempos em que todo mundo agora quer se declarar nerd, em que aparecem até coisas como “o orgulho nerd” e tal, é sempre bom lembrar: nerds podem ser e são tão ou mais babacas quanto qualquer outro tipo de pessoa. Babacas, egoístas, mesquinhos, invejosos, vingativos, idiotas,  burros… entender de computadores ou gostar de Star Wars não é garantia de qualidade moral nenhuma. O Saverin não deve ser tão bonzinho quanto pintaram no filme, e acredito que nem o Sean Parker seja tão porra louca – mas eu consigo imaginar o Zuckerberg ser daquele jeitinho lá, inteligentíssimo em certos aspectos, estupidamente burro em outros e com um ego do tamanho de um bonde. Porque infelizmente não é um perfil de nerd tão raro assim…sei lá, quando você vive por tempo demais trancado em seu mundinho, de duas uma: ou você dá um grande valor pras pessoas que se aproximam de você, ou você se fecha e trata elas como lixo (não exatamente porque você quer fazer isso: é mais por medo ou receio ou por não saber realmente o que fazer).

Ser nerd é complicado…não é só dizer que gosta de X-Men, jogar RPGs e saber formatar seu PC. Ser nerd é enxergar o mundo de um jeito um pouco diferente – uma defasagem de 2 centímetros pra esquerda de onde o mundo real deveria estar. Essa defasagem tem várias “vantagens”, e eu não trocaria ela por nada nesse mundo, mas no que diz respeito às pessoas você sempre vai estar se perguntando: o que devo fazer? Como me comportar? O que dizer? O que elas esperam de mim? O que devo esperar delas? Já posso voltar pro meu quarto? Então, por causa de tudo isso, Zuckerberg não chega a ser um vilão – ele é um babaca que fez várias babaquices. Como diz a menina no começo do filme, ele é um cara que vai passar a vida toda imaginando que não tem sucesso com as mulheres porque é nerd, quando na verdade a culpa dessa rejeição toda é por ele ser um babaca.

Easy C-

Fazer comédia adolescente é uma arte. Em teoria, qualquer um pode escrever uma comédia adolescente: a história é sempre a mais batida de todas. Escolas, pessoas que se dão bem, pessoas que só se fodem, professores cabações, professores legais, um protagonista espertaralho que só se fode mas está prestes a se dar bem. É tudo mais ou menos parecido – mas as comédias que importam, as que realmente funcionam, são aquelas que te fazem ter 12 anos de novo, pela duração do filme e talvez mais um pouco.

Por exemplo, “Curtindo a Vida Adoidado”, só pra pegar a principal delas. O que John Hughes fazia não era nada demais, mas aparentemente só ele conseguia fazer. Ferris não existe. Ele é um sonho adolescente, ele é quem eu queria ser quando eu tinha 7, 10, 12, 27 anos, o cara legal que mata um dia de aula e acaba indo cantar “Twist and Shout” num desfile. Durante 90 minutos, durante aquele day off eu sou Ferris Bueller e eu sou Cameron Frye, eu sou até mesmo o jovem tio Charlie mandando a irmã do Ferris relaxar. Eu poderia dizer…na verdade eu posso, porque esse é meu blog e eu falo a merda que quiser nele, então eu posso dizer que “Curtindo a Vida Adoidado” é mitológico. É a jornada do herói acontecendo num dia da semana em Chicago, onde a catarse é cantada por John Lennon, e onde a tragédia é uma Ferrari sendo arremessada de um penhasco. Ferris Bueller can’t lose, e nós também não.

“Easy A” poderia ter sido um puta filme legal. Na verdade, “Easy A” é um filme legal, mas não passa disso, infelizmente. Parece que o filme fica o tempo todo pedindo desculpas por suas referências, e fazendo aqueles comentáriozinhos auto-depreciativos. “Haha, este é um filme adolescente, haha, nós sabemos que é um clichê mas se apontarmos o dedo e dizermos que é clichê deixa de ser um clichê, né?”. Rola até uma seleçãozinha de cenas de filmes do John Hughes, com citação e tudo – eu achei legal, mas sei lá. Não tem problema usar referências – todo mundo usa. Mas os caras realmente fodões roubam suas referências, as sequestram na cara dura, sem dó, sem piedade, vestindo tangas de pelúcia e brandindo espadas bastardas, e depois se regozijam ouvindo a lamentação dos referenciados roubados e violentados. O segredo é fazer a referência virar sua – olha lá o Heath Ledger cantando “Can’t Take My Eyes Off Of You” em “10 Coisas Que eu Odeio em Você”. É uma cena roubada na cara dura, mas que funciona perfeitamente – tanto pela falta de vergonha na cara do diretor quanto pelo talento do falecido Coringa.

“Easy A” usa um mundo de referências, mas não consegue roubar nenhuma. Não que o filme não tenha boas idéias – a Emma Stone é divertida, os pais dela ficaram MUITO bons (a mãe dela contando sobre os dias de vadiagem e contorcionismo sexual na escola é um espetáculo), e a piadinha do Tom Sawyer e do Huckleberry Finn foi bem pensada. Mas faltou uma história e personagens com quem se identificar, faltou o toque de John Hughes.

(E é preciso dizer que a Emma Stone é linda, e seria perfeita pra Mary Jane Watson. Eu só queria saber quem diabos escolheu ela pra Gwen Stacy no filme novo do Homem-Aranha – caramba, o cara nunca leu um gibi do Aranha na vida?)

“You Are Home”

“The day it ceases to be dumb, it’s the day it ceases to be real”

“Be bold, and mighty forces will come to your aid”

Eu já falei desse filme aqui nesse post, e em diversos outros posts. É meu filme favorito, um dos únicos que eu revejo sempre e que me faz ficar maravilhado sempre. Aí eu resolvi criar vergonha na cara e baixar a versão “do diretor”, com vários minutos e cenas a mais.

Tem uma hora que o Russell explica pro William sobre o que é rock: em uma música do Marvin Gaye, tem um certo “woo” perdido na música, que não se encaixa e não deveria estar lá. Um erro de gravação, pequeno, bobo, mas é do que as pessoas se lembram, e que traz toda a diferença pra música. E Russell diz, não são as coisas que você coloca lá, mas o que você deixa ficar. E isso é rock ‘n roll: aquilo que você deixa ficar.

E nessa versão do diretor, Crowe deixa um monte de coisas ficarem na gravação. Cenas que se extendem um pouco mais, pequenas cenas que haviam sido cortadas porque não avançam a história, trechos de diálogo. Bobeiras, mas que fazem um filme que já era ótimo ser ainda melhor, ao menos pra mim. Um pouco mais da personalidade obsessiva da mãe de William, o ponto de vista de Jeff Bebe, mais conversas entre William e Polexia, novos causos roqueiros de Penny Lane, a verdadeira versão do diálogo entre a banda e o grande produtor. Nada disso muda a história, mas tudo isso acrescenta alma.

Quase Famosos já tem uns 10 anos. Eu ainda me identifico pra caramba com o William: esse cara fascinado com o mundo mas que não se encaixa em nenhum lugar, que idolatra seus heróis mas conhece as falhas de cada um deles, que sempre encontra essas Penny Lanes incríveis que nunca são pra ele, que as vezes se cansa de tudo e precisa ir pra casa, mas que no fundo nunca desiste daquilo que move ele.

Diga Qualquer Coisa

Aí hoje eu assisti “Say Anything”, um dos primeiros filmes do Cameron Crowe lá no finalzinho dos anos 80, com direito a John Cusack com cara de moleque e música-tema do Peter Gabriel. Já fazem uns 5 ou 6 anos que eu queria assistir esse filme, mas na época era super foda de encontrá-lo, seja pra alugar (lembram disso? locadoras de vídeo?) seja pra baixar na internet. Não tinha no Kaaza e nos P2P que a gente usava naquela época…mas os tempos mudam, a tecnologia avança, e lá estava o filme no PirateBay pra baixar quando lembrei dele ontem por causa de uma imagem qualquer no Tumblr.

A história de “Say Anything” não tem nada de diferente da comédia romântica adolescente típica: garoto pobre sem futuro encontra garota rica e eles se apaixonam, mas o futuro brilhante da garota (e seu pai durão) se intrometem no caminho deles, mas no final tudo se acerta. A diferença de “Say Anything” pras outras trocentas comédias românticas adolescentes típicas é o dedão do Sr. Cameron Crowe, com seu jeito único de retratar as pessoas e sua trilha sonora sempre impecável. Um outro diretor erraria na mão, e faria um garoto vagabundo que muda de personalidade quando conhece a garota de seus sonhos, e faria um pai durão insensível babaca que todos amam odiar, e faria aqueles diálogos estúpidos que toda comédia romântica adolescente típica costuma ter. Mas com o Cameron Crowe é diferente: os personagens falam e fazem coisas (em sua maioria, estúpidas) que nós mesmos faríamos. Ou já fizemos, ou queríamos fazer. Ele entende seu público de adolescentes que não sabem pra onde ir e adultos que não conseguem ver razão pra crescer, e eles nos dá aquela esperança de que no final tudo vai dar certo, de um jeito ou de outro (uma espécie de fé nas engrenagens).

(Mas maldito seja Cameron Crowe por me deixar com uma música do Peter Gabriel (PETER GABRIEL!) na cabeça.)

“Accepting all I’ve done and said
I want to stand and stare again”

Sobre Inception

Antes de tudo, um aviso: caso você não tenha visto “Inception – A Origem”, fique sabendo que este post contém vários SPOILERS, importantes ou não, então leia por sua conta e risco. E sério, se você não assistiu Inception ainda, faça-se o favor – levanta a bunda da cadeira e corra já para o cinema mais próximo. Ou baixe o filme, sei lá. Mas assista, e não perca tempo lendo reviews do filme na internet, seu fresco. Quer um review? Inception é DO CARALHO. E pronto.

Segundo aviso: eu não guardo nomes de atores, e sim de personagens marcantes. Por exemplo, os protagonistas de “O Grande Truque” pra mim são o Wolverine e o Batman. Assim, pra facilitar a compreensão da resenha abaixo, segue uma lista para que você possa identificar de quem diabos eu estou falando.

  • Dicaprio – Leonardo Dicaprio, que faz o Cobb, protagonista do filme.
  • Tom – Joseph Gordon-Levitt, o sidekick estiloso.
  • Kitty Pryde – Ellen Page, que faz Ariadne e é a mocinha.
  • Watanabe – Ken Watanabe, empresário mafioso e financiador da parada.
  • Mauricinho – Cillian Murphy, que faz o filhinho de papai que é o alvo da parada toda

Agora, ao filme.

Eu enrolei duas semanas pra assistir Inception. Tentei ir uma vez na semana retrasada, não deu certo e então meu irmão avisou que estaria aqui em Sumpaulo nesse fim de semana justamente pra ver Inception e Os Mercenários – melhor então esperar pra assistir com ele. Nessas duas semanas eu evitei tudo o que tinha a ver com o filme – reviews, reportagens, posts, comentários de twitter, até mesmo descrições inócuas do filme. E consegui – tá, exceto por essa tirinha do Liniers, mas de resto entrei virgem de spoilers na sala de cinema. Mó frescura, admito, mas foi melhor assim. Eu sabia que o filme tinha alguma coisa a ver com sonhos, e só. Eu nem sonh…eu nem imaginava o que estava por vir. E o que estava por vir…

E o que estava por vir foi caralhal, por falta de um adjetivo melhor. (Na verdade, segundo o método Toledo-Pinheiro de adjetivos, o termo correto para Inception seria M-A-X-I-M-U-M F-O-D-A-S-T-I-C-U-M). Sabe quando Matrix era inovador porque trazia aquele conceito de que a realidade é um sonho? E aí os caras cagaram nas continuações? Então. Aí veio o Christopher Nolan e jogou um CAMINHÃO de cal em Matrix, mostrando que tudo pode ficar ainda mais complicado e fantástico. Inception trata de realidades dentro de sonhos dentro de sonhos de sonhos…o jeito como ele mostra isso logo no começo é fantástico. Lá estão Dicaprio e o Tom vendendo proteção contra extração de sonhos para Ken Watanabe em meio a um castelo oriental…e quando você vê, era tudo um sonho e eles estão em um apartamento fodido em meio a uma revolução civil…e quando você vê, era tudo outro sonho, e eles estão na verdade dentro de um trem. As regras e detalhes da viagem-dentro-dos-sonhos vão sendo explicadas aos poucos, na parte em que a Kitty Pryde é apresentada…aliás, tomarei vergonha e a chamarei pelo nome: Ariadne! Ela é uma arquiteta de sonhos, e o que ela imagina se torna verdade…desde cenários até leis da física. A cena onde ela vai dobrando a cidade é simplesmente foda, perfeita e genial. E nesse meio tempo a gente também vai descobrindo o lado negro do Dicaprio…seu problema com a ex-mulher, seu passado mal-explicado. Outro conceito legal que é introduzido é a história do totem – um objeto seu que te diz se você está no mundo real ou não.

E confesso que eu nem sonh…nem imaginava que fosse um filme sobre ladrões, estilo Ocean’s Eleven! Eu adoro esse tipo de filme (e fui descobrir anteontem que tem um nome pra esse “gênero”: heist movie), e foi uma ótima surpresa descobrir que Inception era assim. Aí claro, temos as partes essenciais de todo heist movie: alguém propõe um serviço, o protagonista aceita por razões pessoais, seu parceiro tenta convencê-lo a desistir mas acaba aceitando, eles reúnem o time de especialistas, vemos o treinamento do novato (no caso, a Ariadne), e então a execução do serviço. Clichezões, claro, mas aplicados a um ambiente novo e de forma impecável. Você sabe que as coisas vão dar errado, que alguém vai se ferir, que tudo só vai se resolver no último instante…mas foda-se, é legal pra caralho! O serviço envolve a inserção de uma idéia dentro da cabeça do herdeiro de uma gigante empresa de energia. Isso, obviamente, é feito através de sonhos – três níveis de sonhos, pra ser mais exato. Cada nível de sonho tem seu próprio cenário, sua própria lógica e seus próprios participantes. Uma hora estamos no meio de uma cidade na chuva, na outra estamos em um hotel, e outra hora estamos numa base militar numa montanha gelada. Cada nível de sonho funciona num esquema temporal mais lento que a realidade, de modo que anos podem se passar num nível profundo de sonho antes que minutos se passem na vida real. Ótima idéia, sr. Nolan – assim criamos todo o plano de fundo pra história do Dicaprio, e também elevamos a tensão lá na putaquepariu porque os três níveis de sonho precisam se “sincronizar” – é preciso que todos acordem nos três níveis ao mesmo tempo pra sair do sonho e não ir parar no limbo. E claro, alguém vai parar no limbo. O protagonista, é óbvio, e também a Ariadne – sacaram de onde o nome, fãs de mitologia grega?. (Tá, se bem que nesse momento ela não serve de Ariadne…mais sobre isso num parágrafo lá pra frente). Enfim, o clímax do filme se encontra nesse momento em que os três sonhos convergem e tudo começa a acontecer ao mesmo tempo. É muuuuito massa, e muuuito foda! Principalmente o segundo nível, onde o Tom tem que enfrentar as defesas da mente do Mauricinho em corredores que giram – aliás, o motivo pelo qual os corredores giram é legal pra caralho. Bem pensado pra cacete. E o modo que o Tom encontra pra conseguir acordar os outros sonhadores é legal demais, digno de um filme de ação dos anos 80!  Enfim…paguei muito pau pro filme.

E vou ter que assistir de novo, porque MUITA coisa não ficou clara. E tenho certeza que não vai adiantar assistir de novo, porque o objetivo era deixar ambíguo mesmo…maaas a gente adora teorizar, não? A grande pergunta do filme, na minha opinião, é: é tudo um sonho do Dicaprio/Cobb? Seria todo o esquema de inserir a idéia na cabeça do Mauricinho um grande golpe – um Mr. Charles, como eles chamam no filme – para enganá-lo e tirá-lo do sonho, ou pelo menos do limbo, ou sabe-se lá de onde? Porque diabos a mocinha do filme se chama Ariadne – a moça que ajudou Teseu a sair do labirinto do Minotauro, na mitologia grega? Sim, ela criava labirintos e etc e tal…mas no filme é ela quem “força” Cobb a enfrentar seus demônios no subconsciente, talvez para que ele pudesse emergir para a realidade. O que a ex-mulher dele fala tem sentido – viver fugindo de perseguidores, nunca poder voltar pra casa, os filhos que ele nunca mais pode olhar no rosto, tudo cheira a um sonho confundido com realidade. É como se estivesse preso naquele sonho, e seus próprios traumas o impedissem de rever seus filhos (aí sua mente teria criado seus perseguidores, criado toda aquela situação). (Mas e o totem? Oras, se o totem tiver sido criado dentro daquele nível de sonho, ele só pode indicar que ele está naquele nível de sonho, e só – não serve pra saber se ele está no mundo real). Claro que essa teoria também tem seus vários furos – como os outros personagens se encaixam nela, por exemplo? Seriam criações da mente de Cobb, seriam pessoas que compartilham do sonho dele? (Acabo de lembrar da cena onde o químico mostra as pessoas viciadas em sonhos compartilhados). E o sogro do Cobb? Porque diabos uma hora ele está dando aulas em Paris, e mais tarde ele está nos Estados Unidos, com os filhos do Cobb? Nada contra um professor importante dar aulas na Europa e morar nos EUA, mas algo me pareceu errado…E o pião? Será que ele caiu, ou continuou rodando?

Enfim…por enquanto, é isso que eu tinha pra dizer sobre Inception. Com certeza, um dos filmes mais legais que eu já vi, incrivelmente bem feito e bem pensado, com história e conceito fodáááásticos. Parabéns, Christopher Nolan: mais um filme impecável! E que venha o Batman 3, com o Tom fazendo papel de Charada!

Adeus, Frank Sobotka – ou “The Wire” é FODA

I’ll bring you precious contraband and ancient tales from distant lands
Of conquerors and concubines and conjurers from darker times
Betrayal and conspiracy, sacrilege and heresy
And I feel alright – I feel alright tonight…

“The Wire” conseguiu algo que nunca antes um seriado policial conseguiu na história do mundo: me fazer assisti-lo. Na verdade minha teima é com seriados do tipo “um caso por episódio” – com pouco avanço de continuidade, sem uma história central que avance, só com aquela galerinha batuta resolvendo os casos mais difíceis do condado. Nesse perfil se enquadram praticamente qualquer seriado policial, “House”, e até “Arquivo X”. Sabe o que eu queria mesmo? Era assistir só os episódios de Arquivo X que avançam a história principal, e pular toooodos os trocentos episódios que não levam a lugar nenhum. Pensando bem, na internet deve ter uma lista de episódios assim. Vou procurar depois.

(Vai, podem me xingar do que for. “Herege”. “Mala escroto”. “Babaca”. “Noveleiro”. “Seletivo”.)

Enfim: “The Wire” conseguiu passar pelo meu processo de seleção justamente porque tem esse esquema de casos. Na verdade, temos um graaaande caso por temporada – e grande mesmo, cheio de mistérios, tramóias, rabos-presos, dedos-duros, e todo tipo de merda que puder dificultar a vida dos policiais. O foco do seriado é mostrar como a cidade de Baltimore funciona em suas entranhas, e cada temporada mostra uma faceta do submundo da cidade: a primeira temporada fala sobre o tráfico de drogas e os conjuntos residenciais da zona oeste, enquanto que a segunda temporada fala sobre o porto e as pessoas que vivem dele. Não existe um protagonista que move a série – são vários personagens, todos muitíssimo bem trabalhados e bem escritos. Dá pra acreditar que eles existem de verdade: não tem nenhum herói da justiça, não tem nenhum vilão que é a raiz de todo o mal. Não existe aquele clichê de “policial filho da puta e bandido que luta pra sobreviver” e nem o seu irmão gêmeo “policial protetor dos indefesos e bandido sórdido sanguinolento”. Todos tem seus motivos, todos tem seus defeitos, e todos tem uma história pra contar.

Eu terminei a segunda temporada alguns dias atrás – é a que fala sobre o porto. Bom, depois da primeira temporada eu deveria saber logo de cara que tudo iria terminar como terminou. É triste, é deprimente, mas é real – é o que aconteceria na vida real, dadas aquelas circunstâncias. Eu torci até o final pro Frank Sobotka escapar, mesmo sabendo que não tinha como. E o mais foda é ver que todo o sofrimento dele, tudo o que ele fez e toda a merda aonde ele se meteu não serviu pra nada. O final do último episódio é absolutamente foda, com uma música absolutamente foda pra acompanhar – o vídeo taí embaixo pra quem quiser ver, acho que não tem taaantos spoilers pra quem nunca viu a série ou não chegou nessa temporada. Ora bolas, spoilers, que spoilers? Desde o começo é um jogo de cartas marcadas – quem diabo acha que o sindicato dos estivadores tem alguma chance contra a máfia?

Hear the Lamentation of the Women

É fato conhecido que Conan ( o Bárbaro) é o motherfucker original. Antes do Batman tocar o terror e a porrada nos criminosos de Gotham, antes de Samuel L. Jackson encarnar a vingança divina de afro e barba esquisita, o nosso bárbaro cimério já vagava pelos ermos do planeta durante a Era Hiboriana fazendo o que sabia fazer de melhor: esmigalhar seus inimigos, vê-los derrotados diante de seus pés e ouvir os lamentos de suas mulheres. ( E ele fazia isso usando cueca de pelúcia. Eis o segredo do Cimério).

E aí um maluco na internet resolveu compor uma música para um suposto musical do Conan. E claro, não era pra dar certo: Conan e musicais não combinam. Ou não deveriam. Mas ficou FODA pra caralho – com direito a sotaque do Schwarza e letra mais do que épica. Saca só: