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Monocultura

quinta-feira, dezembro 29th, 2011

Graças a outra dica do Brain Pickings (sim, eu sei, ando viciado nesse site), eu peguei pra ler o “MonoCulture: How One Story Is Changing Everything“. Livrinho curto, que acabei lendo ainda mais rapidamente que o “Magos de Caprona”, mas que levanta umas questões bem interessantes. Eu achei, inicialmente, que o livro fosse algo na linha dos livros do Joseph Campbell, tratando sobre mitologias e histórias que determinam e/ou espelham o comportamento da sociedade, e coisas e tal. E…bom, o livro é sobre isso, mas o foco é totalmente voltado para a nossa era. Segundo o autor, a história que dá forma para o mundo atual é uma história econômica, de lucros e eficiência e performance. Em seis capítulos e alguma coisa, vários aspectos da vida humana são analizados – educação, ciência, relacionamentos, arte, etc – do ponto de vista de como eles eram décadas atrás e como eles são encarados atualmente.

Como eu disse, o livro é beeem curto, o que quer dizer que a discussão não atinge uma profundidade profundamente profunda, mas acredito que não é esta a proposta do livro (afinal, tem vários livros do Zygmunt Bauman que se dedicam justamente a esta análise profundamente profunda). Mas fundamentalmente eu concordo com o que é dito no livro: que o grande problema da sociedade atual é encarar TUDO de um ponto de vista econômico. Como se a lógica dos mercados pudesse ser aplicada para tudo e para todos, como se todos os aspectos da vida humana se encaixassem numa ótica de “o que é mais eficiente”, “o que é mais vantajoso”. Como se a livre competição fosse a solução para tudo, como se o criatura mitológica conhecida como Mercado fosse capaz de indicar o melhor caminho para tudo. Alguém um dia nos contou que o mundo competitivo era mais eficiente do que as outras opções de mundo, e fomos forçados a acreditar…mas existem outros mundos que ainda nem foram imaginados, outras formas de pensar e de se viver, que com certeza serão melhores do que as formas que utilizamos hoje.

Utópico, totalmente. Eu admito, eu sou daqueles românticos incorrijíveis…eu acredito de verdade que os movimentos de “Occupy Everything” sejam o começo da solução, o início de um mal estar que pode nos conduzir para novas formas de ver o mundo. E antes que alguém venha com o papo de “ah, você é socialista, seu retrógrado!”: eu não sou socialista, juro por Deus. Eu não tenho uma “filosofia política”, eu só tenho certeza de que as coisas estão erradas do jeito que estão, e precisam mudar: ficar esperando que o Mercado assente tudo e dê conta de todas as mazelas do mundo é insanidade. Agora, como fazer isso, eu não sei.

Os Magos de Caprona

domingo, dezembro 25th, 2011

Comecei a ler “The City & The City”, livro do China Mieville, que aparentemente trata sobre um assassinato misterioso em uma cidade que é sobreposta por outra cidade. As duas cidades dividem o mesmo espaço físico- literalmente, uma cidade por cima da outra, como se uma fosse o fantasma da outra. Apesar disso, as cidades “não se enxergam”, em vários níveis de entendimento. Seus habitantes são treinados desde crianças a não enxergarem o que se passa na outra cidade, e a não invadirem o espaço da outra cidade – mesmo que este espaço seja o mesmo deles. É um conceiro complicado, e o livro parece ser beeeem interessante – assim como todos os livros do China Miéville. Mãããããs….

…Acontece que eu não estava afim de mergulhar em mais de 500 páginas de ficção pesada, cheia de conceitos fantásticos e metáforas elaboradas, com panoramas políticos de sociedades imaginárias e o diabo a quatro. É férias, pensei. E eu só tenho três semanas de férias. Não quero um companheiro de férias sombrio e soturno, contando histórias de cidades dentro de cidades dentro de cidades. Me dá algo mais simples, por favor! E aí eu guardei o The City & The City na prateleira (ou quase, por que era ebook =P) e fui ler “The Magicians of Caprona”, da mestra Diana Wynne Jones.

Li o livro em duas sentadas. Fazia tempo que não era sugado pra dentro de um mundo fantástico, que não ficava amigo dos personagens e me importava com eles, que não ficava pensando como seria morar naquele lugar – uma versão da Itália do século XV onde duas famílias rivais são as maiores fabricantes de magias da região de Caprona. E fazia tempo que não lia as aventuras do Chrestomanci, o lendário Christopher Chant, o mago mais poderoso e mais mala de todo o multiverso. Foi bom, foi ótimo, foi essencial alimentar a alma de fantasia, de coisas incríveis e de finais felizes. Tava precisando disso.

E é isso. Esse post não tem nenhuma moral ou sentido, exceto que ler livros de fantasia faz bem pra alma. E não basta?

 

Das Coisas Difíceis De Se Acreditar

quarta-feira, abril 27th, 2011

“There may very well be feral giraffes and feral hippos living in Tokyo and a polar bear living freely in Calcutta. We just don’t believe there was a tiger living in your lifeboat.”

“The arrogance of big-city folk! You grant your metropolises all the animals of Eden, but you deny my hamlet the merest Bengal tiger!”

“Mr. Patel, please calm down.”

“If you stumble at mere believability, what are you living for? Isn’t love hard to believe?”

“Mr. Patel—”

“Don’t you bully me with your politeness! Love is hard to believe, ask any lover. Life is hard to believe, ask any scientist. God is hard to believe, ask any believer. What is your problem with hard to believe?

“We’re just being reasonable.”

“So am I! I applied my reason at every moment. Reason is excellent for getting food, clothing and shelter. Reason is the very best tool kit. Nothing beats reason for keeping tigers away. But be excessively reasonable and you risk throwing out the universe with the bathwater.

Não faz mais do que uma semana que eu terminei de ler “A Vida de Pi”, e já estou com vontade de reler.

A Vida de Pi, o Universo e Tudo Mais

quinta-feira, abril 21st, 2011

( A ilustração acima foi tirada do flickr de El Bertolini)

Tudo no universo está linkado. Não é segredo nenhum que eu tenho uma paixão platônica recolhida admiração incontida pelo tio Jung. Freud sempre me pareceu frio, distante, mecânico e racional demais, enquanto Jung era mais humano, emotivo, fabulista, e porque não, falível. Algumas teorias de Jung desafiam a razão e o senso comum – sincronicidade, tô falando de você. E entretanto…entretanto, quem nunca se pegou pensando em como as coisas simplesmente acontecem na hora em que tem de acontecer, que atire a primeira pedra. Tudo no universo está linkado, e tudo existe e acontece por um motivo – por exemplo, este parágrafo existe pra contar pra vocês que esse post será GIGANTESCO. Entretanto, ele deve ser escrito, por motivos que eu desconheço e talvez nunca chegue a conhecer. Tudo o que eu sei é que eu tenho uma história pra contar, e ela começa na praça da Sé, na lateral da Catedral, em um sábado de manhã.

Aconteceu de, umas duas semanas atrás, a Dona Lulu vir pra São Paulo passear e checar a integridade dos penicos de D. Pedro I no museu do Ipiranga. E, porque não se pode perder nenhuma oportunidade de passar algum tempo com pessoas fabulosas, lá fui eu encontrar com ela e passear pela Liberdade. E estávamos conversando – na verdade, Dona Lulu falava enquanto eu, tímido feito uma besta, só ouvia – quando passamos pela Catedral da Sé, e sabe-se lá porque o assunto convergiu pro tema “religião”. Dona Lulu dizia que sua religião era um misto dos conceitos de Terry Pratchett e de Neil Gaiman, principalmente em American Gods. E eu achei isso genial, em parte porque acho sempre achei genial a maneira como Pratchett e Gaiman explicam a vida, o universo e tudo mais, e em parte porque nunca tive coragem de admitir pra mim mesmo que quero acreditar nessas coisas.

De maneira simplificada, Gaiman e Pratchett falam sobre a importância das histórias e da fantasia na humanidade. Histórias contadas na beira do fogo e ao lado da cama, mitos, lendas, fábulas, contos de fada, livros, quadrinhos, filmes – todas essas histórias são parte integrantes daquilo que somos, daquilo que queremos ser, enquanto seres humanos, enquanto macacos que ousaram sonhar. “As coisas não precisam ter acontecido de verdade para serem verdadeiras”, diz Neil Gaiman. “Humanos precisam de fantasia para serem humanos, para serem o ponto exato onde o anjo caído encontra o macaco pensante”, diz Terry Pratchett. Histórias tem força, histórias tem poder. O ato de inventar, fantasiar, dobrar e moldar a verdade sem que ela deixe de ser verdade, criar o invisível e permitir que ele molde  nossa realidade: é isso que nos faz humanos, que nos diferencia dos outros símios, dos outros animais. Assim criamos nossos deuses, nossos heróis, nossos mitos, nossas leis, nossos costumes, nossas vidas.

Minha família é espírita, e eu sempre gostei desta religião. A idéia é boa: somos todos espíritos imortais, reencarnando e reencarnando até conseguirmos “limpar nossas fichas”, corrigindo nossos defeitos e nos tornando perfeitos. Para mim, faz mais sentido que o Catolicismo e aquela história de que Jesus morreu para nos livrar do pecado original. Ora, cada um que cuide de seus pecados! Até pouco tempo atrás, coisa de alguns anos, eu me considerava espírita. Hoje, não sou mais. O Budismo me influenciou nesse aspecto: segundo Buda, questionar a vida após a morte ou na existência de uma divindade é algo inútil. São perguntas irrelevantes, que não mudam nossa vida aqui na Terra e que nos desviam das perguntas mais importantes. Quem somos? Como estamos vivendo? O que podemos fazer para melhorar nossa condição? Isso me influenciou a ir para um caminho próximo do agnosticismo: eu não sei o que existe do lado de lá, e não  tenho como saber, então pra que me importar? Porque simplesmente não admitir “eu não sei”, e seguir em frente? O mundo continuará girando, e girando.
E assim eu pensava, até anteontem, até Pi Pattel se manifestar em “A Vida de Pi”:

“I’ll be honest about it. It is not atheists who get stuck in my craw, but agnostics. Doubt is useful for a while. We must all pass through the garden of Gethsemane. If Christ played with doubt, so must we. If Christ spent an anguished night in prayer, if He burst out from the Cross, “My God, my God, why have you forsaken me?” then surely we are also permitted doubt. But we must move on. To choose doubt as a philosophy of life is akin to choosing immobility as a means of transportation.”

Eu li “A Vida de Pi” sem saber ao certo do que se tratava: só sabia que contava a história de um menino náufrago, dividindo o bote salva-vidas com um Tigre de Bengala. Mas o livro é muito mais do que isso. “A Vida de Pi” é desses livros indispensáveis, que podem ser relidos trocentas vezes e cada vez entendidos de forma diferente.  Pi, no começo do livro, é um menino encantado com as histórias e o papel delas na vida do mundo. Ele se torna hindu, cristão e islâmico simultaneamente, e não vê nenhum problema em acreditar nas três religiões. O Deus é o mesmo, o objetivo é o mesmo, a verdade oculta por trás dos ritos e mitos é a mesma. Sua aventura no mar junto com Richard Parker, o tigre, é emocionante, arrepiante, encantadora, tudo ao mesmo tempo agora. E o final…

Eu não posso falar do final. Mas pense no final como um chacoalhão, pra tirar o tigre de seu ostracismo em sua jaula, ou ainda como uma das peças que faltam em um quebra-cabeças de dimensões inconcebíveis.

Tudo no universo é linkado: a mensagem de “A Vida de Pi” é a mesma de Gaiman e Pratchett, embora vista de uma forma diferente. Mais do que isso, ele consegue explicar em palavras algo que sempre me incomodou. Lá em cima eu disse que considerava Freud frio, mecânico. Isso também me incomoda no ateísmo pregado por Richard Dawkins. Me admira que um sujeito tão brilhante não entenda que precisamos de crenças, que precisamos de fantasias para viver.  Também precisamos da razão para sobreviver, mas ela não alimenta nossa alma. O mundo racional, perfeito, lógico não sobrevive ao mundo real, vivo, pulsante – pergunte aos modernistas da Bauhaus, pergunte aos comunistas. Conceitos são lindos no papel, mas a vida real é escrita e reescrita todo santo segundo por cada santa pessoa. Se Richard Dawkins se fizesse ouvido por todas as pessoas do mundo, e todos se tornassem ateus e racionais e fãs do método científico – quanto tempo passaria até que a ciência se tornasse uma religião em si mesma? Quanto tempo até surgirem diversos sectos conflitantes, vertentes e subcorrentes dentro da ciência, com seus seguidores, seus fiéis e seus extremistas? Quanto tempo até o sangue correr em nome da Sacra Ciência? É um cenário extremo que imagino, mas o ponto é: se você tira a religião e as crenças das pessoas, o que você irá colocar no lugar? O que irá preencher o vazio que surge? Será que o Humanismo serve de substituto para a fé?

“A Vida de Pi” me fez pensar nisso tudo. E me fez pensar em mim mesmo, no meu conceito vago de religião, na minha aceitação passiva da dúvida, na minha vontade de acreditar em algo. É preciso pular: escolher a dúvida como filosofia de vida é tolice. É passar a vida inteira mexendo as pernas no rasinho, sem nunca mergulhar e sem nunca descobrir como é o mundo debaixo d’água. Mas em que acreditar?

Em tudo. Na vida, no universo, no tudo mais, no explicável e no inexplicável, no racional e no irracional, no que pensamos e no que sentimos, em tudo que é bom e em tudo que é ruim, em tudo que existe e em tudo que imaginamos. Mas principalmente acreditar na narrativa – a narrativa que permeia tudo, a narrativa que não tem começo e não tem fim mas que segue em frente, em frente, por toda a vida, por todas as vidas, por todos os universos. A narrativa que é escrita em cada segundo, em cada passo, em cada palavra, em cada vida – sagrada narrativa, impura narrativa, insensata, indecifrável, confusa, pulsante narrativa nossa de cada dia. O único mandamento é “viver para contá-la”, e seu livro sagrado são todos os livros, todas as conversas, todas as palavras, todos os silêncios, todos os pensamentos. “Trust your heart, and trust your story” diz Neil Gaiman.

E se eu puder escolher um nome pra essa religião inventada (e todas não são), eu serei obrigado a mais uma vez roubar a idéia da moça-dos-ventos: chamo-a Fabulismo, e declaro-me Fabulista, por conta de uma crença irresistível nas histórias que povoam o universo.

(Alguém chegou até aqui? Campeões da persistência, favor manifestem-se nos comentários – prometo um brinde pra vocês!)

De Água e Deserto

terça-feira, março 15th, 2011

“Água. Porque havia essa relação com a água?

Ele sabia a resposta para isso.

Eles vinham do deserto, o seu povo. Das dunas impermanentes, das tempestades de areia e das duras montanhas esculpidas; de um lugar onde o vento poderia soprar para sempre sem jamais ser interrompido ou desviado. Onde o Sol matava e eram as estrelas da noite que ofereciam a promessa de vida, o ar para respirar, a brisa para resfriar a febre borbulhante do dia. Onde a água era…o que?

Um sonho, uma prece, a mais pura benção divina.

Ele não tinha nenhuma lembrança desses lugares, a menos que fosse uma memória que já existia nele quando veio ao mundo. Uma memória tribal pertencente aos Asharitas, que os definia. (…) Mesmo assim, era atraído pela água quando perturbado, quando algo dentro dele precisasse de reparo. Longe do deserto, o deserto estendia-se dentro dele como uma ferida ou um peso, assim como estendia-se dentro de todo seu povo.”

(Vou precisar escrever um post gigante pra falar desse livro, “The Lions of Al-Rassan”, do Guy Gavriel Kay. Por ora, basta saber que é um livro de ficção-fantasia histórica, que mais ou menos se passa em um lugar MUITO parecido com a Espanha na época da dominação moura, quando aquelas bandas se chamavam Al-Andalus e eram o coração cultural de toda a Europa (mesmo que só por um século ou dois).  Como se já não bastasse falar de um dos meus períodos históricos favoritos, o livro tem personagens fodidamente e fantasticamente interessantes – como o poeta e assassino de reis Ammar ibn Khairan, que reflete sobre a influência da água e os desertos internos que carregamos pra sempre. Eu gostei desse trecho porque…olha, eu não tenho um deserto dentro de mim, mas eu tenho um faroeste paulista dentro da alma e isso já me basta.)

As 36 Páginas Que Me Faltam

domingo, fevereiro 27th, 2011

“Aí virei a página e a história deu um salto”. Já vi essa metáfora mil vezes, e já à vivi também tantas vezes – mas ela nunca havia acontecido comigo de forma literal! Lá estávamos eu e o detetive, nos embrenhando por um sítio nas imediações de Los Angeles, escutando uma conversa sussurrada entre um médico fora-da-lei e o marido desaparecido que procurávamos. “A sra. Wade vai gostar de ouvir isso, Marlowe, mas aposto que você deve estar se mordendo” – sussurrei para o detetive e então virei a página para continuar ouvindo o diálogo proibido.

E não estávamos mais no sítio, e sim em um bar em Los Angeles onde o detetive e uma pessoa que eu não conhecia discutiam sobre um conhecido comum. Epa. O que havia acontecido? Virei a página, desvirei, revirei. Passei o dedo no canto da página até quase cortar – um bom livro de detetive vale o pior dos cortes, o corte de papel. Mas nada, não havia nenhuma página escondida. Até que olhei a numeração – elementar, caro Sherlock – e percebi.

36 páginas faltando. Um bloco inteiro de páginas que provavelmente se perdeu durante a fabricação do livro.  Páginas que se foram, que se escafederam, um, dois, talvez três capítulos que não verão a luz do dia. Um descuido – ou algo intencional? Talvez um encadernador sádico, cansado de pregar livros, tenha resolvido pregar uma peça. Talvez alguém na editora tenha resolvido fazer um experimento socio-antropológico-literário com leitores de histórias de detetive. Talvez um ladrão de páginas de livros, talvez um psicopata literário que quando pequeno apanhava da mãe quando falava que desejava ir na biblioteca. As possibilidades são múltiplas, infinitas – é quase a mesma coisa que tentar adivinhar o que acontece nas 36 páginas que estão faltando.

Talvez seja um desafio: um livro de mistério onde um bolo de páginas estão faltando.  O que farão os personagens nesse intervalo? Os mais incautos diriam que é fácil prever o que acontece – mas lembrem-se que personagens literários tem vida própria. Agora que ninguém está olhando, o que impede o detetive Marlowe de invadir o sítio do médico fora-da-lei, ou de finalmente dar em cima da bela Sra. Wade, ou simplesmente declamar um monólogo e dançar um tango em Los Angeles? Será que a bela Sra. Wade continua a ser tão fatal nessas páginas que estão faltando? E o misterioso Terry Lennox, o que o impediria de ressuscitar do mundo dos mortos e reaparecer em Los Angeles – e se vingar do sogro suspeito, limpar seu nome e depois se juntar ao amigo Marlowe em uma noitada de álcool, mulheres e tango selvagem em Los Angeles? De repente, as 36 páginas que estão faltando passam a ser mais bizarras e interessantes do que todos os livros jamais poderiam ser. Descobrir o que elas dizem de verdade seria um crime, um assassinato contra a imaginação!

Mas preciso saber o fim da história. E sinto interromper a noitada selvagem de Lennox e Marlowe em Los Angeles, mas amanhã irei atrás de uma outra cópia do livro – com menos possibilidades e mais páginas.

De Como Anansi Conseguiu Todas as Histórias

sexta-feira, fevereiro 25th, 2011

“- Você quer ouvir uma história? – perguntou o velho.

- Acho que não – respondeu ela, sincera.

Ele a ajudou a se levantar, e ambos saíram do Jardim do Repouso.

- Tudo bem. Então vou ser bem rápido. Não vou me estender. Sabe, posso contar uma história assim de maneira que dure semanas. Tudo está nos detalhes. O que você conta, o que deixa de fora. Por exemplo, se você não menciona o clima nem as roupas das pessoas, só aí já temos metade da história. Uma vez eu contei uma…

- Olha – interrompeu Maeve. – Se você quer contar uma história, então conte, tá bom?

Já era ruim o suficiente caminhar à beira da estrada no crepúsculo crescente. Maeve dizia a si mesma que era impossível ser atropelada por um carro, mas aquilo não a fazia se sentir melhor. O velho começou a falar num tom suave de cantiga e dizia:

- Quando eu digo “Tigre”, você tem que entender que não se trata apenas do felino listrado, o indiano. Mas sim do que as pessoas chamam de grandes felinos. Leopardos, linces, onças, todos eles. Entendeu?

- Sim.

- Bom. Então… muito tempo atrás — começou —, o Tigre era dono das histórias. Todas as histórias que existiam eram histórias do Tigre, todas as canções eram canções do Tigre, todas as piadas eram piadas do Tigre, exceto que não havia piadas sendo contadas na época do Tigre. Nas histórias do Tigre, tudo o que importa é quão forte seus dentes são, como você caça e como você mata. Não há suavidade nas histórias do Tigre, ninguém faz coisas espertas e não há paz.

Maeve tentou imaginar que tipo de histórias um grande felino contaria.

- Então eram histórias violentas?

- Aqui e ali, mas no geral eram ruins. Quando todas as histórias e canções eram do Tigre, era um tempo ruim pra todo mundo. As pessoas adquirem a forma das histórias e canções que as cercam, especialmente quando não têm uma canção só delas. Na época do Tigre, todas as canções eram sombrias. Começavam em lágrimas e terminavam em sangue, e eram o único tipo de história que as pessoas do mundo conheciam. Então Anansi entra na história. Você deve saber tudo sobre Anansi…

- Acho que não.

- Bem, se eu fosse te dizer o quão esperto e bonitão, charmoso e sabidão Anansi era, eu começaria hoje e só terminaria na quinta que vem.

- Então não me conte – pediu Maeve. – Vamos deixar por isso mesmo. E o que esse tal de Anansi fez?

- Bom, Anansi ganhou as histórias. Ganhou? Não. Ele as recebeu porque as merecia. Ele as tomou do Tigre, e fez com que o Tigre não pudesse mais entrar no mundo real. Não em carne. As histórias que as pessoas passaram a ouvir eram de Anansi. Isso foi há uns 10, 15 mil anos. As histórias de Anansi, elas têm esperteza, sagacidade, sabedoria. E por todo o mundo as pessoas não se concentram mais apenas em caçar e ser caçados. Agora elas começam a pensar para sair das enrascadas. Algumas vezes, entrando em enrascadas ainda maiores. Elas ainda precisam comer, e é nesse ponto que as pessoas começam a usar a cabeça. Há quem diga que as primeiras ferramentas foram as armas, mas isso não é verdade. Antes de mais nada, as pessoas pensam sobre as ferramentas. É sempre a muleta antes do tacape. Porque agora as pessoas estão contando as histórias de Anansi e começando a pensar como fazer para ganhar um beijo, para ganhar alguma coisa sem precisar fazer esforço. Sendo engraçados ou espertos. E aí se começa a construir o mundo.

- Isso é só uma história folclórica. São histórias que as pessoas criaram.

- E isso muda alguma coisa? — perguntou o velho. — Talvez Anansi seja só um velho numa história inventada na África, na infância da humanidade, por algum garoto com varejeiras na perna, metendo a muleta na terra e criando alguma história tola sobre um homem feito de piche. Isso muda alguma coisa? As pessoas respondem às histórias e as passam adiante, são mudadas por elas. Porque agora o pessoal que antes só pensava em correr dos leões e ficar longe dos crocodilos nos rios pode sonhar com um novo lugar para morar. O mundo pode ainda ser o mesmo, mas o papel de parede mudou. Certo? As pessoas ainda carregam a mesma história, uma em que nascem, crescem, fazem coisas e morrem, mas agora a história significa uma coisa nova a cada vez.”

Depois daquele pedaço de Deuses Americanos em que a Sam explica exatamente como funciona o sistema de crenças contraditórias de um ser humano, esse deve ser meu trecho favorito do Neil Gaiman. Basicamente é o Sr. Anansi explicando porque é que deixamos de ser macacos evoluídos turbinados para sermos algo mais…algo que nunca conseguimos entender direito o que é, mas que passaremos o resto de nossas existências tentando descobrir. É tudo culpa das histórias. Dos contos que eram contados nos fundos das cavernas, das explicações que se arrumava para os fenômenos naturais, dos relatos do dia a dia, da descoberta de que a realidade é maleável. Das histórias que contamos pra nós mesmos, das pequenas inverdades que nos fazem ser corajosos e gentis e saudáveis e felizes, segundo o Sr. Vonnegut. Eu, eu sou fraco e inseguro e tolo e e procrastinador e sonho demais e meto meus pés pelas mãos sempre que possível  – mas um dia me contaram que  “Eu sou o Arlequim, e o mundo é minha Arlequinada!” , e isso me dá forças pra ser tudo aquilo que eu nunca poderia ser.

E é assim que o mundo funciona.