( A ilustração acima foi tirada do flickr de El Bertolini)
Tudo no universo está linkado. Não é segredo nenhum que eu tenho uma paixão platônica recolhida admiração incontida pelo tio Jung. Freud sempre me pareceu frio, distante, mecânico e racional demais, enquanto Jung era mais humano, emotivo, fabulista, e porque não, falível. Algumas teorias de Jung desafiam a razão e o senso comum – sincronicidade, tô falando de você. E entretanto…entretanto, quem nunca se pegou pensando em como as coisas simplesmente acontecem na hora em que tem de acontecer, que atire a primeira pedra. Tudo no universo está linkado, e tudo existe e acontece por um motivo – por exemplo, este parágrafo existe pra contar pra vocês que esse post será GIGANTESCO. Entretanto, ele deve ser escrito, por motivos que eu desconheço e talvez nunca chegue a conhecer. Tudo o que eu sei é que eu tenho uma história pra contar, e ela começa na praça da Sé, na lateral da Catedral, em um sábado de manhã.
Aconteceu de, umas duas semanas atrás, a Dona Lulu vir pra São Paulo passear e checar a integridade dos penicos de D. Pedro I no museu do Ipiranga. E, porque não se pode perder nenhuma oportunidade de passar algum tempo com pessoas fabulosas, lá fui eu encontrar com ela e passear pela Liberdade. E estávamos conversando – na verdade, Dona Lulu falava enquanto eu, tímido feito uma besta, só ouvia – quando passamos pela Catedral da Sé, e sabe-se lá porque o assunto convergiu pro tema “religião”. Dona Lulu dizia que sua religião era um misto dos conceitos de Terry Pratchett e de Neil Gaiman, principalmente em American Gods. E eu achei isso genial, em parte porque acho sempre achei genial a maneira como Pratchett e Gaiman explicam a vida, o universo e tudo mais, e em parte porque nunca tive coragem de admitir pra mim mesmo que quero acreditar nessas coisas.
De maneira simplificada, Gaiman e Pratchett falam sobre a importância das histórias e da fantasia na humanidade. Histórias contadas na beira do fogo e ao lado da cama, mitos, lendas, fábulas, contos de fada, livros, quadrinhos, filmes – todas essas histórias são parte integrantes daquilo que somos, daquilo que queremos ser, enquanto seres humanos, enquanto macacos que ousaram sonhar. “As coisas não precisam ter acontecido de verdade para serem verdadeiras”, diz Neil Gaiman. “Humanos precisam de fantasia para serem humanos, para serem o ponto exato onde o anjo caído encontra o macaco pensante”, diz Terry Pratchett. Histórias tem força, histórias tem poder. O ato de inventar, fantasiar, dobrar e moldar a verdade sem que ela deixe de ser verdade, criar o invisível e permitir que ele molde nossa realidade: é isso que nos faz humanos, que nos diferencia dos outros símios, dos outros animais. Assim criamos nossos deuses, nossos heróis, nossos mitos, nossas leis, nossos costumes, nossas vidas.
Minha família é espírita, e eu sempre gostei desta religião. A idéia é boa: somos todos espíritos imortais, reencarnando e reencarnando até conseguirmos “limpar nossas fichas”, corrigindo nossos defeitos e nos tornando perfeitos. Para mim, faz mais sentido que o Catolicismo e aquela história de que Jesus morreu para nos livrar do pecado original. Ora, cada um que cuide de seus pecados! Até pouco tempo atrás, coisa de alguns anos, eu me considerava espírita. Hoje, não sou mais. O Budismo me influenciou nesse aspecto: segundo Buda, questionar a vida após a morte ou na existência de uma divindade é algo inútil. São perguntas irrelevantes, que não mudam nossa vida aqui na Terra e que nos desviam das perguntas mais importantes. Quem somos? Como estamos vivendo? O que podemos fazer para melhorar nossa condição? Isso me influenciou a ir para um caminho próximo do agnosticismo: eu não sei o que existe do lado de lá, e não tenho como saber, então pra que me importar? Porque simplesmente não admitir “eu não sei”, e seguir em frente? O mundo continuará girando, e girando.
E assim eu pensava, até anteontem, até Pi Pattel se manifestar em “A Vida de Pi”:
“I’ll be honest about it. It is not atheists who get stuck in my craw, but agnostics. Doubt is useful for a while. We must all pass through the garden of Gethsemane. If Christ played with doubt, so must we. If Christ spent an anguished night in prayer, if He burst out from the Cross, “My God, my God, why have you forsaken me?” then surely we are also permitted doubt. But we must move on. To choose doubt as a philosophy of life is akin to choosing immobility as a means of transportation.”

Eu li “A Vida de Pi” sem saber ao certo do que se tratava: só sabia que contava a história de um menino náufrago, dividindo o bote salva-vidas com um Tigre de Bengala. Mas o livro é muito mais do que isso. “A Vida de Pi” é desses livros indispensáveis, que podem ser relidos trocentas vezes e cada vez entendidos de forma diferente. Pi, no começo do livro, é um menino encantado com as histórias e o papel delas na vida do mundo. Ele se torna hindu, cristão e islâmico simultaneamente, e não vê nenhum problema em acreditar nas três religiões. O Deus é o mesmo, o objetivo é o mesmo, a verdade oculta por trás dos ritos e mitos é a mesma. Sua aventura no mar junto com Richard Parker, o tigre, é emocionante, arrepiante, encantadora, tudo ao mesmo tempo agora. E o final…
Eu não posso falar do final. Mas pense no final como um chacoalhão, pra tirar o tigre de seu ostracismo em sua jaula, ou ainda como uma das peças que faltam em um quebra-cabeças de dimensões inconcebíveis.
Tudo no universo é linkado: a mensagem de “A Vida de Pi” é a mesma de Gaiman e Pratchett, embora vista de uma forma diferente. Mais do que isso, ele consegue explicar em palavras algo que sempre me incomodou. Lá em cima eu disse que considerava Freud frio, mecânico. Isso também me incomoda no ateísmo pregado por Richard Dawkins. Me admira que um sujeito tão brilhante não entenda que precisamos de crenças, que precisamos de fantasias para viver. Também precisamos da razão para sobreviver, mas ela não alimenta nossa alma. O mundo racional, perfeito, lógico não sobrevive ao mundo real, vivo, pulsante – pergunte aos modernistas da Bauhaus, pergunte aos comunistas. Conceitos são lindos no papel, mas a vida real é escrita e reescrita todo santo segundo por cada santa pessoa. Se Richard Dawkins se fizesse ouvido por todas as pessoas do mundo, e todos se tornassem ateus e racionais e fãs do método científico – quanto tempo passaria até que a ciência se tornasse uma religião em si mesma? Quanto tempo até surgirem diversos sectos conflitantes, vertentes e subcorrentes dentro da ciência, com seus seguidores, seus fiéis e seus extremistas? Quanto tempo até o sangue correr em nome da Sacra Ciência? É um cenário extremo que imagino, mas o ponto é: se você tira a religião e as crenças das pessoas, o que você irá colocar no lugar? O que irá preencher o vazio que surge? Será que o Humanismo serve de substituto para a fé?
“A Vida de Pi” me fez pensar nisso tudo. E me fez pensar em mim mesmo, no meu conceito vago de religião, na minha aceitação passiva da dúvida, na minha vontade de acreditar em algo. É preciso pular: escolher a dúvida como filosofia de vida é tolice. É passar a vida inteira mexendo as pernas no rasinho, sem nunca mergulhar e sem nunca descobrir como é o mundo debaixo d’água. Mas em que acreditar?
Em tudo. Na vida, no universo, no tudo mais, no explicável e no inexplicável, no racional e no irracional, no que pensamos e no que sentimos, em tudo que é bom e em tudo que é ruim, em tudo que existe e em tudo que imaginamos. Mas principalmente acreditar na narrativa – a narrativa que permeia tudo, a narrativa que não tem começo e não tem fim mas que segue em frente, em frente, por toda a vida, por todas as vidas, por todos os universos. A narrativa que é escrita em cada segundo, em cada passo, em cada palavra, em cada vida – sagrada narrativa, impura narrativa, insensata, indecifrável, confusa, pulsante narrativa nossa de cada dia. O único mandamento é “viver para contá-la”, e seu livro sagrado são todos os livros, todas as conversas, todas as palavras, todos os silêncios, todos os pensamentos. “Trust your heart, and trust your story” diz Neil Gaiman.
E se eu puder escolher um nome pra essa religião inventada (e todas não são), eu serei obrigado a mais uma vez roubar a idéia da moça-dos-ventos: chamo-a Fabulismo, e declaro-me Fabulista, por conta de uma crença irresistível nas histórias que povoam o universo.
(Alguém chegou até aqui? Campeões da persistência, favor manifestem-se nos comentários – prometo um brinde pra vocês!)