Um repositório de cultura inútil? Um balaio de pensamentos desconexos? Opiniões que ninguém pediu? Piadinhas fora de hora? Furos na malha do tempo-espaço? Sim, e não se esqueça da toalha.
Quanto mais pesadas as coisas, mais complicadas. Quanto mais pesado, mais gravidade, e quanto mais gravidade, mais difícil de manejar as situações, maior é o esforço necessário, e tanto maior o desgaste.
Quando as coisas são leves, elas flutuam – e tudo acontece naturalmente, e tudo parece mais simples, e tudo parece dar certo, e mesmo que dê errado, tá tudo bem, tudo vai se consertar e tudo vai ficar legal.
Porque vai mesmo, não importa o peso das coisas.
Engraçado eu pensar nisso agora, porque estou num desses raros momentos (dias, semana) de conseguir manter a leveza das coisas. É estranho como a gente consegue essa leveza, esse controle – perde de um lado, ganha de outro, solta de um lado, prende de outro, equilibrando sem perceber que está equilibrando, escolhendo sem perceber que está escolhendo.
Quando as coisas estão pesadas, eu não consigo enxergar. Preso em meus problemas, não consigo enxergar nada do lado de fora, e acabo me enroscando mais ainda. Mas quando tudo flutua, é tão mais fácil ver. Enxergar, perceber, entender, compreender, aceitar, relativizar, mudar, agir.
E eu queria que esse sentimento durasse pra sempre, e pra sempre eu entendesse que o mundo pode ser mais simples se eu deixar, e que tudo que eu não tenho, eu não preciso agora. Mas, tipo aquela música do Pearl Jam, eu sei que de um momento pra outro esse meu eu calmo e sereno vai embora, off he goes e lá vou eu estar de novo as voltas com minhas neuras e quimeras. E tudo bem, assim mesmo.
Tava tocando “I Don’t Even Know Myself”, do The Who. Não conhece? Então, São Youtube que te salve, ó herege:
Mas então, tava tocando “I Don’t Even Know Myself”.
“Eu adoro essa música, mas ela não tem nada a ver comigo!”
Hein?
“Porque eu me conheço perfeitamente, e a música fala sobre não se conhecer…”
A frase dita com toda a certeza que só quem tem menos de 20 anos consegue ter ficou ecoando na minha cabeça. Não respondi nada, porque só quem tem quase 30 anos sabe que é inútil querer discutir com quem tem quase 20. Mas por dentro eu pensei com meus botões, nunca quero achar que me conheço por completo. Ou pior ainda, me conhecer por completo de verdade.
Eita.
Porque deve ser chato. Porque deve dar medo. Porque deve ser estranho, se conhecer totalmente. Porque tem sempre que ter um cantinho escuro, um lugar desconhecido, uma área fora dos mapas. E os lugares antigos precisam ser reconstruídos, redecorados, virados do avesso e remexidos. Porque tudo é mudança, e nada é estático, e cada sinapse é uma chance de mudar tudo. Porque é só quando a gente se depara com esses lugares desconhecidos, essas florestas negras da alma, que a gente descobre que consegue ser muito mais do que já é. Que a gente descobre que não sabe nada sobre si mesmo, e é isso que faz a coisa toda funcionar.
Deus me livre das certezas e das verdades absolutas. Tenho medo de quem anda por aí com verdades absolutas. E, olha só, olha só, ultimamente eu não posso ouvir alguém dizer uma verdade absoluta pra que eu me sinta impelido a responder com uma dúvida absoluta. Talvez seja chatice, talvez seja ranhetice mesmo, mas eu gosto do campo das possibilidades em aberto, daquilo que pode ser de algum jeito por causa de alguma coisa, das chances mesmo que remotas que algo tem pra dar certo. Porque no fim das contas eu sou desses negos bestas que acham que tudo vai dar certo no final, e assim tem sido desde sempre, e nunca vou mudar. Não me pede pra não ter esperança, e não me pede pra não tentar de novo – se tiver uma chance, se valer a pena, porque diabos não?
E a música acabou de tocar e eu não respondi nada, porque além de muito cheio de esperança eu também sou muito cheio de guardar pra mim o que eu penso. Não que ela fosse entender, porque a gente só entende o que quer entender – eu sou assim, você é assim, todos somos assim. Mas sempre tem uma esperança ou duas de que a gente consegue mostrar pra outra pessoa que sim, o mundo é mais caótico do que você imagina.
E é por isso que ele é tão legal.
“I love the whole world, and all it’s messed up folks”
“…the thing that moved the furniture in my head” disse o Neil Gaiman, falando sobre um episódio de Doctor Who que mexeu com ele. O que foi que mexeu com a mobília dentro da minha cabeça? Hmmm…
Tanta coisa! Talvez tenha sido o primeiro filme de Indiana Jones alugado na locadora, talvez tenha sido o videogame clone-do-atari que ganhei num Natal, talvez tenha sido ter que usar óculos quando era molequinho. Talvez tenha sido os desenhos do ThunderCats, talvez tenha sido brincar de Comandos Em Ação jogando os cobertores por cima do sofá pra fingir que eram montanhas, talvez tenha sido minha timidez e falta de jeito que me fez ficar em silêncio até o fim do colegial. Talvez tenha sido Chrono Trigger, talvez tenha sido Pescador de Ilusões, talvez tenham sido todos os gibis, talvez tenha sido a vontade de desenhar e a necessidade de escrever, talvez tenha sido a picada de aranha que quase me matou quando eu tinha um ano. Talvez tenha sido ir pra Ilha Solteira e conhecido todas aquelas pessoas maravilhosas naquela cidade que era meu playground particular, talvez tenha sido Salvador e seu ambiente meio místico meio bagunçado meio divertido, talvez tenha sido São Paulo e toda a correria que a acompanha pra cima e pra baixo, talvez tenha sido sempre e pra sempre Araçatuba e o faroeste na alma. Talvez tenham sido todas as garotas, talvez tenham sido todas as paixões platônicas, talvez tenham sido todos os sorrisos secretos e todos os momentos de revelação e descoberta, talvez tenha sido todos os livros que eu li.
Talvez sejam todas as coisas que eu quero fazer, todas as coisas que eu quero aprender, tudo aquilo que me move through this wonderland of mine, procurando sabe-se lá o que, que me faz sempre querer revirar a mobília, me faz sempre dizer que tudo é novo de novo, me faz sempre acreditar que tudo vai dar sempre certo, mesmo que dê tudo errado. E ultimamente tudo tem dado certo, de um jeito torto e corrido e confuso, mas sempre certo, de um jeito que me faz querer continuar sempre lutando e querendo mais e mais e mais. A voz aqui dentro diz bem alto “Vai e constrói alguma coisa, faça alguma coisa que valha a pena”. E eu só posso obedecer, sem saber direito ainda como, mas crente de que vai dar certo. Porque é assim que as coisas são, e ponto.
E todos os gestos perdidos, todos os passos não dados. Todas as palavras não ditas, todas as frases perdidas no ar. Todos os emails não mandados, todos os telefonemas adiados. Todos os ois, todos os tchaus, todas as gentilezas que ficaram só na intenção, tudo aquilo que eu deixei de fazer porque…porque? Todos os silêncios que me perseguem, todos os muros que ergui sem querer, todas as vezes que desapareci dentro de mim mesmo. Todas as tentativas de apagar meus erros, todas as folhas em branco onde já comecei um novo desenho. Todas as pontes que já reergui, todas as órbitas perdidas no meu desalinhamento constante. Tudo que eu já perdi por ficar com a boca fechada, com medo de arriscar e com medo de perder o pouco que já tinha.
Me ensina a cantar, porque eu tenho um mundo pra dizer – mas sempre que eu abro a boca eu acabo estragando tudo.
(Antes que eu me esqueça – a tirinha genial é dos gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon. Basta clicar na tirinha pra ir diretamente ao flickr deles e virar fã depois de ler todas as tirinhas de Quase Nada)
E aí um dia o Youtube resolveu passar propagandas antes de cada vídeo. Já não bastavam os filtros de vídeo por país, já não bastava as gravadoras metendo o bedelho em qual vídeo/música podia ou não ser veiculado. Nããããão, agora você tem que assistir 30 segundos de propagandas antes de assistir o seu vídeo! Vem cá, alguém assiste aqueles vídeos? Tem alguns que somos obrigados a ver, mas quando aparece o botãozinho de “Pule esta merda em 3 segundos” aposto que não tem uma criatura que não pule o comercial.
E eu fico realmente encanado com isso. Cada vez mais as coisas tortas do “mundo real” vão invadindo o “mundo internético”. Quem diabos quer assistir propaganda antes de um vídeo no Youtube? Já não existe publicidade o bastante no mundo? Quem diabos é que me força a assistir uma propaganda antes do vídeo no Youtube? O pior é isso – eu não quero assistir, mas me forçam a assistir, uma barreira antes de assistir meu vídeozinho! Ora, a internet é baseada em conteúdo instantâneo – eu vou e pego exatamente o que quero, e não o que me forçam goela abaixo. Nada de ficar esperando os comerciais, nada de comprar uma revista que é 70% composta de anúncios, nada de aturar 10 minutos de propagandas ANTES de começarem os trailers. No mundo real a gente atura essas coisas, mas na internet? A internet é diferente! É outra linguagem, outro jeito de consumir informação, outra relação…na minha opinião, pelo menos.
A impressão que fica é que estamos perdendo o controle da internet. Que cada vez mais e mais as Corporações invisíveis e onipresentes vão estender seus tentáculos sebosos e tentar estragar nosso mundinho cibernético feliz a troco de uns trocados a mais. Que a propaganda no Youtube pode até ser um exemplo razoavelmente banal e fútil, mas que esconde consequências preocupantes – e se o conteúdo deixar de ser livre? Quem escolhe o que eu vejo e o que deixo de ver na internet? Quem é que manda nos intertubos? Não costumávamos sermos nós, os usuários? O que mudou? E o que devemos fazer pra voltar ao controle?
Esse vídeo fala um pouco disso, e levanta a lebre com muito mais propriedade. É fresquinho do Ted, saiu tipo ONTEM e ainda não tem legenda em português – mas é MUITO bom. Vejaí:
Téc téc téc. Vontade de escrever, e eu não sei o que. Esse post não terá pé nem cabeça, não terá eira nem beira, nem nada parecido. O que é que é parecido com eira nem beira? Eu queria falar do meu caramujismo reincidente e recalcitrante, dos meus ataques de sumiço universal e dos meus reaparecimentos, da minha frescurite aguda. Mas eu não queria falar disso, das minhas estranhices, das minhas mil duzentas e quatorze e meia neuroses pessoais, inventadas, adquiridas, herdadas e achadas na rua. Sei lá, parece que tudo que eu escrevo circula em volta (orbita, orbita) em volta desses mesmos assuntos, pra sempre e pra sempre. Então não, não vou tratar do caramujismo, mas já estou falando dele e das minhas neuroses, então…então. Cara, cadê minha voz? Téc téc téc. Difícil sentar e se concentrar, com tanta coisa acontecendo. Questão de se acostumar, questão de se aclimatar com a mudança e ir arrumando a bagunça. Leva tempo, mas tudo se põe no lugar. Assim espero. Téc téc téc. Mudanças que levam mais tempo do que a gente espera, mudanças que acontecem quando a gente não espera, mudanças que dão a entender que chegaram pra arrasar e no final dão pra trás. E essa sensação que eu desperdiço minhas melhores fichas, hein? Téc téc téc. E todas as portas que eu fecho sem perceber que fecho, Deus meu, e todas as vezes que escolho ficar quieto quando podia arriscar abrir a boca. Mas não vou falar do caramujismo, deixa os caramujos quietos em seus jardins, todos os caramujos do mundo em todos os jardins do mundo não vão sair tão facilmente assim da concha. Mas todo mundo acaba saindo da concha, mais dia, menos dia. E eu já não sei mais colocar vírgulas minha, Nossa Senhora. Téc téc téc. Só sei que tudo continua estranho, não de um jeito ruim, mas não exatamente bom, de um jeito assim assim. Wishy-washy, Charlie Brown. E eu já sei que nada jamais vai ser do jeito que eu queria, e sei que tudo vai sempre estar dois milímetros e dois segundos de onde deveria estar, mas é da nossa natureza, seja lá qual nossa natureza for, ficar botando a culpa dos nossos defeitos na natureza. Téc téc téc. Acho que tudo isso é pra dizer tudo é estranho, de um jeito bom e de um jeito mais ou menos, tipo agridoce, e que é assim que funciona. E que meu nome é Enrique e eu continuo procurando minha voz. Recompensa-se quem me ajudar a encontrar.