Laerte e o Vento

Postado por Enrique em 12 de julho de 2010

O que eu acho massa no Laerte é que o cara consegue ler meus pensamentos e traduzir perfeitamente numa tirinha só. Eu conheço um monte de gente que pensa nessas linhas…e nenhuma dessas idéias moribundas me desce, me passa pela garganta. “O homem é o que é e ponto”? E o que é o homem, e como se bota um ponto no que não se consegue nem começar a definir? Como é que se pode dizer que não se muda o mundo, que não se muda o homem, sendo que tudo nesse mundo é mudança – um universo inconstante, uma vida cheia de voltas, com o caos e a criação brincando no quintal (pra citar Paul McCartney). Não consigo enxergar – e nem imaginar – esse mundo aonde o homem é o que é e ponto. O vento entrando pela janela e mexendo em tudo me diz justamente o contrário.

Eu Fecho os Olhos e Tudo Vem

Postado por Enrique em 12 de julho de 2010

Sinceramente? Eu acho que Paralamas é A melhor banda de rock nacional, do período de “ouro” do rock nacional. (Coloco “ouro” em aspas porque, caracoles, eram os anos 80: provavelmente não era ouro, era só purpurina dourada ou algum efeito toscão do Hans Donner)

E olha que eu não sou daqueles que desfazem da Legião Urbana, que escrotizam o Cazuza, que excomungam o Capital Inicial. Minha educação musical deve muito a um programa de rádio semanal da Rádio Cultura (95,5 MHz) lá de Araçatuba, que só tocava rock nacional durante uma hora. Eu gravava esse programa religiosamente – em fitas K-7, as ancestrais da MP3 – e passava a semana ouvindo elas, esperando o próximo programa. Então eu aprendi a gostar dessa galera toda: Legião, Paralamas, Engenheiros, Capital, Kid Abelha, Titãs (pero no mucho). E sinceramente, vendo a situação atual do rock nacional, por maaais que se fale mal dessas bandas dos anos 80, eles são muito melhores que qualquer Restart ou Cine ou o que for.

(E acabei de perceber que estou defendendo bandas que já passam dos 20 anos de idade. Caralho, tô velho :~ )

Mas o Paralamas SEMPRE teve algo a mais, na minha opinião. Se eu fosse um crítico musical eu usaria um nome bem tchã pra definir esse algo a mais. Algo como “sensibilidade pop”, sabe? Mas eu diria que eles tinham coração e eles tinham alma – sabe essas bandas que você ouve e de repente fica tudo bem? Sabe essas músicas que você não consegue evitar entrar na onda delas? Eles sabiam fazer isso, e cada hit dos caras atingia seu alvo sem perdão. Claro que nada é perfeito, e depois do meio dos anos 90 eles ficaram BEM chatos – tipo o Skank, que depois do supermegafodão “Maquinarama” também perdeu seu rumo. Mas enquanto a magia durou, eles foram a banda mais legal do cenário nacional.

E eu simplesmente não consigo evitar entrar na onda de “Caleidoscópio”. Eu ouvi ela pela primeira vez quando tinha o quê? Nove, dez anos de idade? E nunca mais tirei ela na cabeça. É perfeita, em vários e vários sentidos. Olha só essa introdução – com direito à guitarra rasgando blues, trompetes e o caralho à quatro! A música me pega e me leva embora – “eu quase posso ouvir a tua voz, eu sinto a tua mão a me guiar pela noite a caminho de casa. Se tudo tem que terminar assim, que pelo menos seja até o fim – pra gente não ter nunca mais que terminar…”

(E aí o videoclip tá bloqueado pela EMI para incorporação em outros sites fora do Youtube. PAU NO RABO da EMI, que não saca que quem quer incorportar o vídeo tá fazendo propaganda DE GRAÇA pra banda. Em compensação, achei outro vídeo mais afudê ainda – com participação do Pericos, solo extendido e o cacete. Quando é que esses dinossauros monolíticos dessas gravadoras vão morrer, ó meu Deus?)

Adeus, Frank Sobotka – ou “The Wire” é FODA

Postado por Enrique em 11 de julho de 2010

I’ll bring you precious contraband and ancient tales from distant lands
Of conquerors and concubines and conjurers from darker times
Betrayal and conspiracy, sacrilege and heresy
And I feel alright – I feel alright tonight…

“The Wire” conseguiu algo que nunca antes um seriado policial conseguiu na história do mundo: me fazer assisti-lo. Na verdade minha teima é com seriados do tipo “um caso por episódio” – com pouco avanço de continuidade, sem uma história central que avance, só com aquela galerinha batuta resolvendo os casos mais difíceis do condado. Nesse perfil se enquadram praticamente qualquer seriado policial, “House”, e até “Arquivo X”. Sabe o que eu queria mesmo? Era assistir só os episódios de Arquivo X que avançam a história principal, e pular toooodos os trocentos episódios que não levam a lugar nenhum. Pensando bem, na internet deve ter uma lista de episódios assim. Vou procurar depois.

(Vai, podem me xingar do que for. “Herege”. “Mala escroto”. “Babaca”. “Noveleiro”. “Seletivo”.)

Enfim: “The Wire” conseguiu passar pelo meu processo de seleção justamente porque tem esse esquema de casos. Na verdade, temos um graaaande caso por temporada – e grande mesmo, cheio de mistérios, tramóias, rabos-presos, dedos-duros, e todo tipo de merda que puder dificultar a vida dos policiais. O foco do seriado é mostrar como a cidade de Baltimore funciona em suas entranhas, e cada temporada mostra uma faceta do submundo da cidade: a primeira temporada fala sobre o tráfico de drogas e os conjuntos residenciais da zona oeste, enquanto que a segunda temporada fala sobre o porto e as pessoas que vivem dele. Não existe um protagonista que move a série – são vários personagens, todos muitíssimo bem trabalhados e bem escritos. Dá pra acreditar que eles existem de verdade: não tem nenhum herói da justiça, não tem nenhum vilão que é a raiz de todo o mal. Não existe aquele clichê de “policial filho da puta e bandido que luta pra sobreviver” e nem o seu irmão gêmeo “policial protetor dos indefesos e bandido sórdido sanguinolento”. Todos tem seus motivos, todos tem seus defeitos, e todos tem uma história pra contar.

Eu terminei a segunda temporada alguns dias atrás – é a que fala sobre o porto. Bom, depois da primeira temporada eu deveria saber logo de cara que tudo iria terminar como terminou. É triste, é deprimente, mas é real – é o que aconteceria na vida real, dadas aquelas circunstâncias. Eu torci até o final pro Frank Sobotka escapar, mesmo sabendo que não tinha como. E o mais foda é ver que todo o sofrimento dele, tudo o que ele fez e toda a merda aonde ele se meteu não serviu pra nada. O final do último episódio é absolutamente foda, com uma música absolutamente foda pra acompanhar – o vídeo taí embaixo pra quem quiser ver, acho que não tem taaantos spoilers pra quem nunca viu a série ou não chegou nessa temporada. Ora bolas, spoilers, que spoilers? Desde o começo é um jogo de cartas marcadas – quem diabo acha que o sindicato dos estivadores tem alguma chance contra a máfia?

Hear the Lamentation of the Women

Postado por Enrique em 6 de julho de 2010

É fato conhecido que Conan ( o Bárbaro) é o motherfucker original. Antes do Batman tocar o terror e a porrada nos criminosos de Gotham, antes de Samuel L. Jackson encarnar a vingança divina de afro e barba esquisita, o nosso bárbaro cimério já vagava pelos ermos do planeta durante a Era Hiboriana fazendo o que sabia fazer de melhor: esmigalhar seus inimigos, vê-los derrotados diante de seus pés e ouvir os lamentos de suas mulheres. ( E ele fazia isso usando cueca de pelúcia. Eis o segredo do Cimério).

E aí um maluco na internet resolveu compor uma música para um suposto musical do Conan. E claro, não era pra dar certo: Conan e musicais não combinam. Ou não deveriam. Mas ficou FODA pra caralho – com direito a sotaque do Schwarza e letra mais do que épica. Saca só:

Cat’s Cradle

Postado por Enrique em 27 de junho de 2010

No início, Deus criou a Terra, e Ele à observou em sua solidão cósmica.
E Deus disse, “Sejam feitas criaturas vivas a partir do barro, para que o barro possa ver O que fizemos”. E Deus criou todas as criaturas que agora se movem pelo mundo, e uma delas era o homem. Só o barro feito homem podia falar. Deus se aproximou quando o barro feito homem se sentou, olhou tudo ao seu redor e falou. O homem piscou. “Qual é o propósito disso tudo?”, ele perguntou educadamente.
“Tudo precisa ter um propósito?” perguntou Deus.
“Certamente,” disse o homem.
“Então eu deixo à seu cargo pensar num propósito pra tudo isso,” disse Deus.
E Ele se foi.

“Cat’s Cradle” é o segundo livro do Kurt Vonnegut que leio. O primeiro foi “Sirens of Titan”, enquanto que o “Matadouro 5″ me olha do alto da estante com aquele desdém próprio dos livros que ainda não lemos. Como dá pra ver na citação ali em cima, um dos temas que o Vonnegut toca em “Cat’s Cradle” (e nos outros livros também) é o propósito da vida. Será que temos uma missão nesse mundo, será que fomos criados com um intuito final, ou fomos simplesmente jogados aqui nesse planeta e nessa vida por um mero acaso universal? É uma pergunta que sempre vai estar no ar e pra qual nunca teremos resposta. Ou melhor, pra qual teremos múltiplas e contraditórias respostas. Eu particularmente gosto e acredito na resposta que Deus dá ali em cima. Quer um propósito? Crie um. Invente um. Acredite em um.

A religião que serve de pano de fundo em “Cat’s Cradle” se chama Bokonismo e é um monte de mentiras, conforme dito na primeira página de seu livro sagrado: “Todas as coisas verdadeiras que lhe direi a seguir são mentiras desavergonhadas”. No começo do próprio livro, o narrador já nos diz algo nas mesmas linhas: “Qualquer um que não consiga entender como uma religião útil pode ser fundamentada em mentiras também não irá conseguir entender este livro”. O que é essencialmente verdadeiro, e que me faz pensar que caras como o Richard Dawkins não conseguiriam entender esse livro. Tem gente que não entende isso – que as pessoas não querem a Verdade, elas querem um Sentido. Que no fundo as pessoas sabem que o Papa, o Bispo, o Dalai Lama, o Chico Xavier talvez estejam errados, talvez estejam até mesmo mentindo pra elas. É um risco que elas correm, e não é um risco que elas desconhecem – pessoas não são burras (é fácil esquecer isso olhando de cima, vendo todo mundo como formiguinhas correndo pra lá e pra cá, do alto de um prédio luxuoso ou de um título acadêmico). A tal da religião, a tal da crença em alguma coisa provém essas pessoas com um sentido e um propósito de vida – e tá bom demais, até onde elas conseguem enxergar. Então, quando um cara vem e diz que é preciso acabar com todas as religiões e fazer com que o ser humano seja mais racional e mais científico, tudo o que eu consigo pensar é: esse cara come bosta. Talvez criar religiões mais tolerantes, menos burras, que se adequem ao mundo que vivemos hoje e que não tentem nos forçar dogmas sem sentido goela abaixo. Mas acabar com as religiões e crenças é estúpido, e impossível. Assim que o cara estiver voltando do monte Sinai com os 10 Mandamentos do Método Racional de Se Viver, ele vai encontrar a galera toda cultuando um bezerro de ouro. E eu chuto que o bezerro vai lembrar BASTANTE a Lady Gaga. Sabe-se lá porque, mas vai.

No final, eu acredito que as pessoas inventam suas próprias verdades – cada uma interpreta e entende o universo do seu jeito, e tudo tudo tudo no mundo é uma questão de ponto de vista. Cada um se vira como pode, cada pessoa sabe aonde procurar sentido, propósito, conforto e coragem pra seguir na vida. Minha mãe vive lendo livros espíritas, meu pai adora aqueles livros que misturam misticismo e ciência, e eu procuro minhas verdades em todo lugar – seja em livros de ficção científica tipo o “Cat’s Cradle”, seja em letras de música, seja sabe-se lá aonde. O que me faz concordar totalmente com a frase que abre “Cat’s Cradle”: “Viva segundo as inverdades inofensivas que te fazem ser corajoso e gentil e saudável e feliz”.

Resumo

Postado por Enrique em 24 de junho de 2010

- Em Araçatuba! De férias! No meu quarto! E as aulas só voltam dia 8 de agosto! Tinha esquecido como entrar de férias da faculdade é uma coisa emocionante XD

- As últimas semanas do semestre deram bastante trabalho. Faculdade de design não tem prova, mas tem tanto trabalho quanto um campo de concentração russo. O que salva é que os trabalhos SÃO legais de fazer – porra, eu tive que fazer um Stop-Motion de trabalho final do semestre, olha só veja só que massa. Sem contar os outros trabalhos, envolvendo vetorização de personagens de quadrinhos, montar site de boate com temática russo-comunista, montar um caderno inteiro (com desenhos, pinturas, recortes e o cacete) sobre um museu, tirar fotografias com as câmeras megaultrablaster da faculdade. São coisas extremamente legais, e eu vejo sentido nelas…o que não acontecia naquele monte de provas que fazia antes, naquele infinito de contas absurdas que eu nunca usei até hoje.

- E a melhor parte: caralho, meu boletim nunca foi tão bonito. Tava seriamente pensando em imprimir ele, botar numa moldura e dar de presente pra minha mãe. “Toma, mãe, você esperou 27 anos por um boletim tão cheio de notas altas assim”. A única “mancha” é um 7 de sociologia. Mas sifudê também, né? Tudo que eu sei sobre sociologia eu aprendi lendo Malvados.

- Aí depois de três semanas de trabalhos malucos…três dias extremamente divertidos, devidamente acompanhado de dona Catarina! Teve livraria Cultura, teve brownie, teve Scrabble (Scrabble!), teve Toy Story 3 (Toy Story 3!), teve videogames, teve seriado de garotos cantantes de sexualidade duvidosa (melhor música até agora, a do Journey), teve festival de lojas de brinquedo, teve pretzel de nutella. Só não conseguimos ir no zoológico…mas nem fez falta perto do monte de coisas legais que fizemos, e fica pra próxima. Sinceramente, quando a companhia é excelente até andar de metrô é divertido ;) .

- Sobre Toy Story 3: FODÃO! Tá, não tem a carga dramática (carga dramática? acho que é esse o termo) de Up, mas é um PUTA desenho com uma história fantástica e cheeeeio de detalhes legais. Destaque pro Ken metrossexual (“Me devolve o echarpe!”), pro porco-espinho ator, pro telefone missão impossível e pro macaco vigilante (the eye in the sky!), e pro Buzz. O Buzz Lightyear sempre é legal com seu jeito Superman de ser…mas dessa vez os caras chutaram o baldinho pra longe. Muy longe, diga-se – ficou FODÃO. E se eu disser que o filme fecha com uma música dos Gipsy Kings, alguém acredita?

Omnia Procrastinare, Nihil Interit

Postado por Enrique em 13 de junho de 2010

Porque os fins de semana e os feriados são da procrastinação, por mais que se tente evitar. Vai lá, faz os planos que quiser: vou estudar, vou adiantar trabalho, vou praticar, vou me dedicar a tal coisa. Vai nada, vai acabar fazendo outra coisa – geralmente nada de útil. E não é ruim, muito pelo contrário. Procrastinar é uma arte. Procrastinar faz bem pra alma, faz bem pra saúde. Quem procrastina, sempre alcança – só que mais tarde.

Existem mil jeitos de procrastinar. Existe a procrastinação enrustida: “só vou enrolar mais um pouquinho, daqui a uma hora e meia eu começo a fazer tudo que tenho que fazer”. Existe a procrastinação assumida: “Foda-se tudo, não farei nada e vamos ver o que acontece amanhã”. Os procrastinadores iniciantes sentem culpa de estarem procrastinando, ficam imaginando jeitos de não procrastinarem mais, mas ficam lá, só imaginando. Já os procrastinadores experientes sabem que é inútil – procrastinar é preciso, viver não é preciso, amanhã é outro dia e no final dá tudo certo. Claro, o sucesso da procrastinação depende de saber quando tudo REALMENTE dá certo no final, e quando tudo vai pras picas no final. É uma questão de profunda análise das circunstâncias, de ser realista quanto ao volume de trabalho a ser deixado pro dia seguinte, e de se ter coragem pra procrastinar quando as chances estão contra você. Procrastinar é um esporte de risco, é uma aventura em si mesmo. Tá, não é das mais emocionantes. Mas deixa as emoções fortes pro dia seguinte – e prossigamos procrastinando e andando.