Woody diz: “Wash Teeth, If Any”

Aí lá no Brain Pickings (um dos blogs internacionais que mais vale a pena ler diariamente) postaram uma lista de resoluções de ano novo do Woody Guthrie, o lendááário cantor folk norte-americano, pai do Bob Dylan, do Bruce Springsteen e de toda forma de música de protesto que preste. Anotada num caderninho, com direito a desenhos e tudo, a lista é foda demais:

Destaques:

  • “Wash teeth if any (Escove os dentes, se tiver algum)”
  • “Take bath (Tome banho)”
  • “Learn people better (Aprenda/Entenda melhor as pessoas)”
  • “Don’t get lonesome (Não se sinta solitário)”
  • “Keep hoping machine running (Mantenha a máquina de sonhos rodando)”
  • “Help win war – beat fascism (Ajude a ganhar a guerra – vencer o fascimo)”
  • “Make up your mind (Decida-se)”
  • “Wake up and fight (Levante-se e lute)”

E deu vontade de fazer uma lista assim, simples, de coisas essenciais e possíveis e que só dependem de mim, mas que fazem toda a diferença. Porque são essas coisinhas, essas atitudes que a gente decide tomar todo santo dia, que acabam mudando tudo. Explosões de vontade acabam sendo meio que fogos de artifício – momentos bonitos, mas que não servem pra nada. Mudança de verdade tem que ser por erosão, cavucando lentamente, até conseguir alguma coisa. (Não que seja mais fácil – nunca é. Mas é melhor admitir pra si mesmo que mudanças acontecem lentamente do que ficar esperando o BIG BANG, ora bolas).

Farei uma lista, e depois se der vontade eu publico aqui. Acho que eu ainda volto ainda este ano pra contar sobre 2011 e o que esperar pra 2012 =)

Diggin’ The Blues

Eu não sei o que foi que minha mãe fez com o computador dela, mas o fato é que todas os sons de erro padrão do windows foram trocados por “dedilhadas de violão”, sabe? Sabe quando você puxa a corda e o som faz “tuóóóóin!”, ou então bate o dedo na corda e faz “Tééééunnn”.

É absolutamente genial. Eu fico procurando maneiras de forçar o Windows a fazer sons de erro, só pra “dedilhar” no violão virtual misterioso. Uma das maneiras: abrir um documento de texto vazio e ficar apertando pra baixo. Outra: tentar abrir uma pasta sem acesso. Se eu for idiota o bastante, dá pra compor uma música. Um blues. “The Blue Screen of Death Blues” será o nome da minha primeira composição, e vai ser algo tipo assim:

Os Magos de Caprona

Comecei a ler “The City & The City”, livro do China Mieville, que aparentemente trata sobre um assassinato misterioso em uma cidade que é sobreposta por outra cidade. As duas cidades dividem o mesmo espaço físico- literalmente, uma cidade por cima da outra, como se uma fosse o fantasma da outra. Apesar disso, as cidades “não se enxergam”, em vários níveis de entendimento. Seus habitantes são treinados desde crianças a não enxergarem o que se passa na outra cidade, e a não invadirem o espaço da outra cidade – mesmo que este espaço seja o mesmo deles. É um conceiro complicado, e o livro parece ser beeeem interessante – assim como todos os livros do China Miéville. Mãããããs….

…Acontece que eu não estava afim de mergulhar em mais de 500 páginas de ficção pesada, cheia de conceitos fantásticos e metáforas elaboradas, com panoramas políticos de sociedades imaginárias e o diabo a quatro. É férias, pensei. E eu só tenho três semanas de férias. Não quero um companheiro de férias sombrio e soturno, contando histórias de cidades dentro de cidades dentro de cidades. Me dá algo mais simples, por favor! E aí eu guardei o The City & The City na prateleira (ou quase, por que era ebook =P) e fui ler “The Magicians of Caprona”, da mestra Diana Wynne Jones.

Li o livro em duas sentadas. Fazia tempo que não era sugado pra dentro de um mundo fantástico, que não ficava amigo dos personagens e me importava com eles, que não ficava pensando como seria morar naquele lugar – uma versão da Itália do século XV onde duas famílias rivais são as maiores fabricantes de magias da região de Caprona. E fazia tempo que não lia as aventuras do Chrestomanci, o lendário Christopher Chant, o mago mais poderoso e mais mala de todo o multiverso. Foi bom, foi ótimo, foi essencial alimentar a alma de fantasia, de coisas incríveis e de finais felizes. Tava precisando disso.

E é isso. Esse post não tem nenhuma moral ou sentido, exceto que ler livros de fantasia faz bem pra alma. E não basta?

 

Back To The Good Life

- Acho que eu esqueci como escrever.
- Mentira. Você nunca soube.
- Hmmm, verdade. Mas por onde eu começo?
- Já esqueceu? Se você fica muito tempo procurando o lugar por onde começar, não começa nunca.
- A vida é assim, né? A gente fica sempre procurando por onde começar e nunca começa…
- Ou então fica filosofando e não começa nunca.
- Pois é…
- Agora cala a boca e escreve! Qualquer merda!

 

All These Changes Taking Place

Dessas coisas que fazem parte de você. Desses sons que encarnam em ti, que entram na sua alma e de lá nunca mais saem, desses acordes e dessas palavras que te cortam, deixando a cicatriz pra sempre marcando algo que nunca mais vai ser igual.

Memories like fingerprints are slowly raising. Of me, you wouldn’t recall for I’m not my former…it’s hard when you’re stuck upon the shelf.

A ficha caiu só agora. Três semanas depois, e foi preciso um documentário e um fim de semana pra fichar cair. Porra, eu fui no show do Pearl Jam! Eu ouvi “Elderly Woman” ao vivo. Eu gastei minhas cordas vocais berrando o mais alto que eu podia todas as letras que eu conhecia – e eu só não conhecia a letra de “Olé”, veja só. Eu ouvi “Just Breathe” ao vivo. Eu ouvi os caras tocando lá em baixo, mas tão alto que parecia aqui do lado, aqui dentro. Eu ouvi “Severed Hand” ao vivo, e eles QUASE abriram com “Severed Hand” então pra mim foi, porque “Severed Hand” é minha música preferida. (Tá ali, pau a pau com “No Way” e “Amongst The Waves”). E eles tocaram Amongst The Waves!!! E “Not For You”!! E “Wishlist”…aaaaah, wishlist! E porra, porra, PORRA, tocaram “Inside Job”! Dessas músicas que você nunca espera que toquem ao vivo, porque é longa, porque a letra é pessoal, porque…ah, foda-se, TOCARAM AO VIVO e eu tava lá berrando feito um condenado! E o melhor de tudo, com a dona Catarina ao meu lado, também berrando feito uma condenada (sem falar nos gritinhos de AAAAAAIN, A LOCA), me acompanhando na fãzice desavergonhada. Foi foda. Foi perfeito. Foi demais. Foi louco bagarai. Sei lá, tô me repetindo.

I just wanna scream helloooooooo! My god, it’s been too long, never dreamed you’d return…

Mas lá estávamos nós, e lá estavam eles. Estranho isso. Eu estava lá! E não parece ser nada…mas ao mesmo tempo é tudo. Porque uma banda pode ser tão importante na vida da gente? Porque essas músicas tem tanto poder na gente? É simples: são pedaços de nós, que a gente encontra por aí escondidos entre um acorde e outro, entre uma frase e outra, que são só nossos mesmo que sejam de todo mundo. A gente é assim, colcha de retalhos, livro de recortes que a gente vai completando aos poucos e acho que nunca termina de verdade. Mas cada pedaço que encontramos é um achado e um tesouro e uma jóia, e eu devo a esses cinco caras um monte de tesouros. E a ficha caiu…porque no meio da correria a gente esquece das coisas importantes, e de repente Pearl Jam passa a ser só mais uma banda, e a gente ouve música só pra servir de trilha sonora entre uma viagem e outra, entre um trabalho e outro, e isso é ridículo. Ridículo porque essas coisas tem que ter seu peso, tem que ter seu valor, e não podemos esquecer disso. É preciso que algo seja sagrado, que algo seja maior do que a própria vida, pra servir de centro pra todo o resto. E eu não sei se ainda estou fazendo sentindo, então é melhor parar por aqui.

Deixo vocês com a música mais linda do universo, num vídeo horrível mas que captura parte do que foi estar lá:

Minha Voz

Acho que eu nunca falei tão bem em público na minha vida. As palavras sempre fogem de mim, a memória desaparece, a desenvoltura nunca existiu de qualquer forma, e o melhor que eu consigo fazer é terminar bem rápido pra fazer a dor parar.

Mas não hoje. Hoje eu tomei a palavra e falei tudo que eu precisava falar, na frente de um monte de quase-desconhecidos, com a cara e a coragem que eu nem sabia que tinha. Contei minha história e a história dos meus colegas, expliquei sobre o que fazemos, nossos problemas e falhas, e minha visão daquilo que falta para melhorarmos. Minha visão de que precisamos melhorar, e precisamos aprender, e precisamos nos focar.E eu consegui falar tudo o que queria. E foi tão libertador, e foi tão…simples, e certo, como tudo que é pra ser é. E as pessoas gostaram, pelo menos eu acho que gostaram, pelo menos elas todas aplaudiram e ficaram surpresas e me parabenizaram. Descobriram que eu tinha uma voz. Eu descobri que tenho uma voz. Ora só.

Não sei se consegui atingir o alvo. Na verdade, sei que não. Tarde demais, e certas coisas a gente não consegue mudar só com palavras bonitas e demonstrações de força de vontade. É a teoria da chuva, que a Eluza me contou no primeiro dia em que conversamos e que eu encontro aplicação para tudo na minha vida. Você pode chamar o quanto quiser as pessoas para debaixo do seu guarda-chuva, mas elas só virão se estiverem dispostas a ouvir. O que não nos impede te tentar gritar, e gritar mais alto, pelo menos até cansar. Enfim, paciência, paciência. Queria que a Veronica tivesse me ouvido, que o Lucas tivesse me ouvido, que a Polise estivesse lá, que todo mundo estivesse lá…na verdade eu ficaria com vergonha e não falaria, acho eu. Mas senti orgulho de mim mesmo hoje, do que eu consegui fazer, de defender a minha posição e declarar minha intenção, e queria que essas pessoas importantes estivessem lá. “Hey, olha só, eu tenho potencial, olha pra mim!”. Bobeira, mas né.

Enfim, eu fiz o que queria fazer. E me surpreendi comigo mesmo. E deveria fazer isso mais vezes. E fiquei frustrado porque sei que o alvo principal do “discurso” não deu valor ao que eu disse. E fiquei feliz porque pessoas que eu nem imaginava que iam um dia me ouvir, ouviram. E assim é a vida, essa sucessão de erros e acertos, de vitórias que parecem derrotas e derrotas que parecem vitórias, e esse gosto agridoce que jamais vai sair da boca. Tudo bem, tudo bem, prossigamos, para sempre nesse ir e vir do caralho, toda vida até que a vida se cumpra.

Mas que eu falei bem pra caralho, isso eu falei.