Sobre Beatles e Fãs
Eu lembro que o primeiro disco foi o Past Masters, pirata, ouvido poucas vezes. Eu lembro de baixar e gravar em CD o Sgt. Pepper e o Revolver, quando a revolução da mp3 estourou, e de ouvi-los ocasionalmente no discman. Também lembro de uma época durante o começo da faculdade em que eu começava a encarar o White Album, música por música. Depois foi a caça pelas mp3 do Anthology, não lembro exatamente quando, mas já num grau avançado da doença. Quando eu peguei parte do dinheiro da formatura pra comprar o livrão do Anthology, caríssimo pros meus padrões universitários da época (e de hoje também), acho que eu finalmente percebi que havia me tornado um fã dos Beatles.
Não dá pra marcar o ponto exato da transformação, talvez principalmente porque não exista um ponto. Estas coisas são graduais, vão acontecendo sem que você perceba de verdade. Você começa sem saber diferenciar a voz do John e do Paul, e acaba sabendo identificar qual música foi composta por qual Beatle só pelo jeitão da composição. Não porque você tenha estudado isso, mas porque é natural, porque você simplesmente sabe…e porque no fim das contas é fácil, as músicas do Paul são melosas, as do John tem uma ironia inseparável, e o George é o George. Essas músicas todas entram na sua alma, ocupam um lugar dentro de você – se você abriu espaço pra elas, ou se o espaço sempre existia, é uma questão pra outro dia – e passam a fazer parte da sua vida. Você não precisa ouví-las para que elas toquem na sua cabeça – o que não impede que você as ouça o tempo todo, claro.
Fã é uma palavrinha maldita. Qualquer definição tem seus problemas, porque definir é limitar, e você pode escolher jogar fora todas as definições ou montar suas próprias. Eu, cabeçudo que sou, prefiro montar as minhas. Fã pra mim não é o cara que tem todos os discos, que vai em todos os shows, que conhece todas as letras e todas as gravações e todos os detalhes ínfimos e a história completa de todos os pontos de vistas possíveis. Ser fã é ter a banda na alma, não de maneira forçada e artificial, mas da maneira mais natural possível. É simplesmente gostar das músicas e não conseguir evitar ouví-las (mesmo que não estejam tocando). É entender instintivamente que diabos eles querem dizer (mesmo que eles não queiram dizer nada). É criar seu próprio panteão, seu próprio ranking, sua própria teoria, seus próprios misticismos em torno da banda. É pensar com seus botões “Esse dia precisava de um pouco mais de Rubber Soul”. É tudo isso e nada disso; é simplesmente gostar de uma banda, sem porques, sem teorias, sem muletas, sem nada.
“Well, will you, won’t you, want me to make you?
I’m coming down fast, but don’t let me break you!
Tell me, tell me, come on, tell me the answer!
Well, you may be a lover, but you ain’t no dancer…Look out!
Helter skelter!”
**(Posts sem imagem porque o Firefox e o WordPress estão se estranhando aqui)