A Saga dos Adventure Games – Parte 1/3
sexta-feira, dezembro 19th, 2008Os Adventure Games surgiram na era paleozóica dos computadores, quando o micro doméstico ainda estava pra ser inventado. Usando os mainframes da empresa onde trabalhava, William Crowther fez um jogo que unia suas grandes paixões: exploração de cavernas e RPG. O Colossal Cave Adventure era um jogo que usava a absurda quantidade de 300 kilobytes de memória para renderizar…uma aventura de texto. Pra molecada criada no ovomaltino e que nunca viu uma aventura de texto, é mais ou menos o seguinte: os cenários e situações são descritas em texto na tela, e o jogador descreve suas ações na linha de comando, por exemplo, “andar até porta”, “abrir porta”, “desviar dos tentáculos do grande Cthulu”. Conforme você avança, o jogo vai descrevendo o que acontece ao seu redor, como é o cenário, quais os objetos que você consegue ver e interagir. Não existe um objetivo muito claro, mas a graça principal de Colossal Cave estava na exploração dos ambientes, na descoberta de elementos fantásticos, na resolução de quebra-cabeças. Não parece muito emocionante pra quem já jogou God of War, mas acreditem, na época essa história de texto-e-linha-de-comando foi uma revolução caralhal, e tornou-se uma febre rapidamente.

A caverna que deu origem ao Colossal Cave Adventure
Com o tempo, vários clones e versões de Colossal Cave foram surgindo. Em particular, um deles merece menção honrosa: Zork, The Great Underground Empire! Zork foi desenvolvido por estudantes do MIT fanáticos por Colossal Adventure, e que posteriormente formaram uma companhia para vender seus jogos: a Infocom. O jogo era ainda maior que seu “molde”: tinha impressionantezíssissimos UM MEGABYTE de memória. Isso não era um problema inicialmente, quando o jogo rodava nos mainframes das faculdades e era distribuído através da proto-internet ARPANET. Mas portar o jogo para os microcomputadores domésticos da época (que tinham lá seus dezesseis kilobytes de RAM) era uma tarefa para Chuck Norris. A solução encontrada foi inventar uma máquina virtual chamada Z-Machine, um programa que “emulava” o mainframe da faculdade, mas mantendo apenas o necessário para rodar o programa e reduzindo seu tamanho significativamente. Além disso, a Z-Machine permitia portar o jogo para qualquer sistema da época com facilidade, e isso só fez aumentar a popularidade do jogo: Zork 1 atingiu a marca de um milhão de cópias, e deu início ao reinado dos text-adventures da Infocom. Com o tempo, diversas sequências de Zork foram surgindo, assim como novos jogos com novos temas. Um jogo em particular é digno de nota: The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy, desenvolvido em conjunto com o próprio Douglas Adams! O jogo é famoso pela dificuldade, já que boa parte dos puzzles só tem algum sentido para quem já leu o livro, e mesmo quem já leu o livro sofre em determinadas sequências do jogo. Como na MALDITA PARTE INFERNAL DO PEIXE DE BABEL. Hunf. Fora esses puzzles torturantes, o jogo é bem legal, tanto para quem já leu o livro como para quem ainda não conhece o estilão do Douglas Adams.

Zork I e seus belos gráficos
Text Adventures eram legais, e duraram bastante tempo…até alguém FINALMENTE criar vergonha e desenvolver adventures gráficos. Se você tem mais de 25 anos deve se lembrar da Sierra, né? Uma das graaandes empresas de jogos de PC dos anos 90, responsável por Caesar, Betrayal at Krondor, Lords of the Realm e vários outros. (Enquanto eu pesquiso pra escrever esse post, descobri que na verdade a Sierra não desenvolvia, mas sim ia comprando as empresas que faziam esses jogos…felasdaputa! ¬¬). Antes de se tornar uma giganta, a Sierra se chamava On-Line e foi a primeira empresa a desenvolver adventures gráficos. O primeiro jogo nesse estilo foi Mystery House, mas o primeiro JOGO feito nesse estilo foi King’s Quest. A linha de comando ainda permanecia firme e forte, mas agora ao invés de ler a descrição dos cenários e acontecimentos, você VIA com seus próprios olhos a ação acontecendo na tela, em gloriosas 16 cores numa resolução de 320×200 pixels! Fodão! King’s Quest foi um dos jogos mais ambiciosos da época, com uma equipe de desenvolvimento com 6 programadores trabalhando durante 18 meses para completar o jogo. Isso numa época em que jogos eram normalmente feitos por um único nerd trancafiado no porão da casa da mãe durante alguns meses. O jogo fez um puta sucesso, e deu origem a várias continuações e jogos no mesmo estilo porém com temas diferentes, como Police Quest , Space Quest e Leisure Suit Larry.

A revolução gráfica de King's Quest
Mesmo assim, a Era de Ouro dos Adventures ainda estava por vir. Os gráficos finalmente haviam chegado, mas ainda faltava um pequeno porém indispensável detalhe para que os adventures dominassem o mundo: o mouse! Mas isso fica pro próximo post da série, onde falaremos sobre piratas, zumbis e a segunda maior cabeça de macaco que você já viu na vida.
Links, Links, Everywhere, Nor Any Drop to Drink!
A history of Adventure - Site sobre o Colossal Cave Adventure, com informações sobre os criadores do jogo, sobre a caverna que serviu de base para o jogo e com downloads – tanto o arquivo executável em DOS como o código-fonte em Fortran.
Adventure – Um clone de Colossal Cave Adventure feito em Java, pra ser jogado via web.
History of Infocom – Um resumão da história da Infocom, desde o nascimento de Zork até a dissolução da companhia.
How to Fit a Large Program Into a Small Machine – Um artigo que explica melhor como e porque foi criada a Z-Machine. Interessante pra quem gosta de programação e de arqueologia da informática.
Infocom Adventures Online – Praticamente todos os jogos da Infocom em versão Java. Único problema é que não dá pra salvar…
Hitchhiker’s Guide to the Galaxy – O adventure do Guia do Mochileiro, também em versão Java, mas com gráficos e pontos e tudo mais!
Home of the Underdogs – Um dos maiores sites de Abandoware na rede. Abandonware quer dizer software abandonado, não mais comercializados, cujas empresas já sumiram do mapa. O objetivo dos sites de abandonware é servir de repositório ou museu para esses softwares (em sua maioria jogos) que de outra forma seriam esquecidos para sempre.
DOSBox – A grosso modo, o DOSBox é um emulador de computador velho! Ele emula um sistema rodando DOS, e você pode configurá-lo pra rodar a velharia que quiser. O grande “tchã” fica por conta dos filtros gráficos, velhos conhecidos de quem joga emuladores, que conseguem fazer os gráficos quadriculados ficarem mais palatáveis.

