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Mais dois livros

segunda-feira, dezembro 21st, 2009

Se surgisse um único livro de auto-ajuda que cumprisse o seu prometido, ajudar seus leitores a se ajudarem, isso significaria o fim do mundo. Faz sentido, não? De uma forma bizarra e cruel, mas um tanto…plausível, pelo menos ao meu ver. “Ser Feliz”, livro de Will Ferguson, parte dessa premissa e elabora o que aconteceria com a humanidade caso um livro de auto-ajuda realmente efetivo aparecesse. A história segue os passos do editor que recebe essa bomba em mãos e a publica, não por acreditar no livro, mas por uma sucessão de fatores hilários, e acaba desencadeando o apocalipse – um livro que se torna um sucesso em poucas semanas e muda toda a sociedade através de seus ensinamentos. “É isso, então? É assim que o mundo termina: não com uma explosão, mas com um abraço vago e caloroso?” pergunta o protagonista da história. É um livro MUITO engraçado, cheio de tiradas geniais e com uma dose generosa de crítica à sociedade meia-bomba em que vivemos.  A narrativa é ágil e cheia de ótimos momentos, e me lembrou um pouco o ritmo do Douglas Adams. Apesar de não compartilhar do amor que Adams tem pelo bizarro e sem sentido, os dois se parecem num ponto importante: mostrar o que é humano em seus personagens e situações, com todas as conotações boas e ruins que a palavra “humano” tem, seja numa nave improvável nos confins do universo ou seja numa cidadezinha de merda nos confins dos Estados Unidos. E um grande viva a Oliver Reed, o último grande filho da puta de nossos tempos.

Do mesmo autor, “De Carona com Buda” é bem diferente de “Ser Feliz”. Pra começar, é um não-ficção. É um relato de uma viagem feita através do Japão, de carona, seguindo o avanço da “Frente de Flores de Cerejeira” – a onda de flores que toma as cerejeiras do Japão, e é considerada um evento de importância nacional. Outra diferença é que o estilo do Will Ferguson é bem mais solto aqui, talvez por estar contando eventos e pensamentos que realmente aconteceram, e isso dá um ar MUITO legal ao livro. Diversas vezes você se pega gargalhando com suas desventuras, e em outros encontros você se pega quase chorando tamanha a carga emocional do que é mostrado – o jantar com o sr. Nakamura ainda me deixa abismado, quando eu paro pra lembrar. Eu confesso que sempre procurei um livro sobre o Japão, que tentasse mostrar não os fatos e fotos, mas sim a personalidade, a tal da “verdadeira alma” do lugar. “De Carona com Buda” talvez não consiga atingir a verdadeira alma do Japão – e quem é que consegue atingir a verdadeira alma de qualquer coisa? – mas ele tenta. E é essa tentativa, essa iniciativa de se levantar e seguir a frente das flores, de caminhar por uma terra desconhecida não como um passageiro desconhecido de trem ou um andarilho solitário, mas pedindo carona, entrando nas casas, dependendo da ajuda de desconhecidos, mostrando o cotidiano e o comum no lugar das atrações turísticas e das mesmas histórias de sempre, que faz “De Carona com Buda” ser um ótimo livro. (E claro, mais uma vez, obrigado a dona Getsuchan pela ótima dica ;D)

Matte

terça-feira, agosto 18th, 2009

No Japão existe todo um ritual complicado e preciso para se fazer o chá, que busca refletir um conceito budista: nenhuma xícara de chá é igual à outra, nenhum momento é igual à outro, e nada se repete.

Aqui no apartamento eu coloco uma caneca de água para ferver, pego a caixinha de chá mate, separo a caneca, penso em jujubas randômicas, lembro meia hora depois da água que já deve ter ebulido completamente, coloco o que restou da água na caneca, mergulho um saquinho de chá e o deixo ali por alguns minutos para pegar gosto. Duas horas depois, eu lembro que fiz chá e deixei esfriando em cima do balcão. É um ritual que busca refletir algo que transcende a dinâmica das dez mil coisas e a sagacidade inexplorada da…ok, ainda não temos nenhuma reflexão para este ritual, mas até os japoneses já foram iniciantes um dia, não?

(Será que foram mesmo? Eu duvido. Enfim.)

No Rio Grande do Sul faz-se chimarrão com a erva mate.
No Mato Grosso do Sul faz-se tereré com a erva mate.
Eu, paulista vira-lata do faroeste, faço só chá mate mesmo e acho que já está bom.

Porque dois Ts? É um dos mistérios do ritual.

Porque dois Ts? É um dos mistérios do ritual.

Kitsune

domingo, junho 28th, 2009

Poucos animais no japão são tão cercados por mistérios e lendas quanto a raposa. Às vezes ela faz o bem, seja como mensageira dos deuses, seja como entidade protetora das lavouras de arroz. Às vezes ela se torna perigosa, seja possuindo o corpo de donzelas e enganando os homens, seja usando seus poderes para confundir e enlouquecer seus desafetos. Mas porque elas tem tanto poder? Porque um animal que a gente mal vê, arisca e de hábitos noturnos, é tão tão reverenciado e lembrado, até mesmo hoje em dia? Será que existe um fundo de verdade para essas tantos mitos e lendas envolvendo as raposas no Japão?

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No Japão as raposas são mensageiras do deus Oinari, o deus shinto da comida e das plantações de arroz, dos fazendeiros, comerciantes e pescadores. É dito que durante a primavera Oinari descia das montanhas para residir nos arrozais durante toda o período fértil, e depois voltava para as montanhas quando o inverno chegasse novamente. Com Oinari chegavam também as raposas, suas mensageiras – ou seria que elas surgiam para se aproveitar dos ratos que se multiplicavam nos arrozais? Com o tempo os plantadores começaram a construir altares para rezar e pedir proteção para Oinari – para ter uma boa safra, para a lavoura não ser atacada por pestes, por um bom preço na hora de vender o arroz – e nesses altares eles colocavam não estátuas de Oinari (mesmo porque até hoje ninguém sabe se Oinari é um deus ou uma deusa), mas sim imagens de raposas. Esses altares se espalharam, primeiro nos temploes, depois nas casas e depois nas estradas – aonde os viajantes passavam e batiam palmas em honra à raposa, ou deixavam presentes para ela (tofu frito é sua comida preferida). E isso tomou uma popularidade imensa, tão imensa que hoje em dia existem 30 mil altares de Oinari pelo japão. Como uma imagem vale mais que mil palavras, aqui vão mil estátuas de raposa:

Talvez tenha sido o resultado de tanta adoração, talvez elas fossem criaturas mágicas desde sempre. Mas o fato é que as raposas tem uma aura mágica própria, e vários poderes sobrenaturais para acompanhar. Quanto mais velha uma kitsune, mais poderosa ela é. Aos cinquenta anos, a kitsune pode tomar a forma de uma mulher. Aos cem anos ela pode se transformar em uma bela mocinha ou um homem sedutor, e também saber do que acontece à quilômetros de distância. Ela também ganha seus poderes de ilusão e hipnose, podendo fazer uma pessoa se perder ou sair de seu rumo, ou mesmo possuir uma pessoa e levá-la à loucura – a temida loucura da raposa, kitsune tsuki. A cada cem anos de vida a raposa ganha uma nova cauda, marcando seu poder e sua ordem no mundo das raposas. Uma raposa que chega aos mil anos de idade torna-se uma poderosíssima raposa-de-nove-caudas: sua pelugem torna-se prateada ou dourada, e ela pode comunicar-se com os deuses celestiais e tem visão de tudo o que acontece pelo mundo.

Embora tão poderosa, as kitsunes não são malévolas. Nota-se nelas uma vontade de conhecer e fazer parte da sociedade humana, embora essa adaptação seja um tanto difícil. Elas tomam forma de pessoas para punir os malévolos e recompensar os bondosos, mas elas não se contentam com isso. As lendas mais comuns são de raposas que são salvas de predadores ou caçadores, e assumem a forma de belas e sedutoras mulheres para agradecer seus bem-feitores. Muitas vezes elas acabam se casando com eles, e tem até filhos. Entretanto, a transformação não é perfeita – às vezes o marido percebe os pés da raposa, ou então a cauda escapa através da roupa. Outras vezes percebe-se a raposa através dos cães, pois eles são imunes as ilusões da raposa e conseguem ver através do disfarce. Uma vez sendo revelada, a raposa torna sua forma habitual e sai correndo antes que seja pega – nesse momento, é possível ver o crânio humano em sua cabeça, que ela precisa usar para poder se disfarçar.

Raposa disfarçada de humana - note a sombra dela contra a parede de papel

Uma explicação para o mito dos poderes de transformação das raposas talvez seja a própria natureza delas. Embora muito comuns, elas raramente são avistadas. Você pode ver uma raposa se movendo rapidamente pelo campo, mas ela logo some antes que você possa fazer qualquer coisa. À noite, a única evidência de sua passagem são as cercasquebradas e as galinhas roubadas na calada da noite. Assim, elas se transformariam para se esconder dos seres humanos, e também de seus predadores. Na mitologia japonesa é dito que elas vivem imitando a sociedade dos seres humanos, se dividindo em lordes, servos, senhores e senhoras, andando em duas patas e vestidos, performando seus rituais místicos sob a luz do luar nas clareiras das florestas.

Raposa vestida de monge

Raposa vestida de monge

Como dito antes, os altares de raposas estão espalhados por todo o Japão. Cada estátua de raposa é única e dizem que não existe uma estátua igual à outra, embora certas características se repitam em quase todas. É muito comum que a raposa segure algo na boca ou nas patas – geralmente uma jóia, mas outros objetos são comuns. Essa jóia, chamada Hoshi-no-tama, contém parte da magia da raposa, que ela precisa guardar para realizar seus feitiços e transformações – e podem ser usados por humanos para obter favores das raposas, caso eles consigam roubá-las.

Outro detalhe comum nas estátuas é o lenço vermelho no pescoço. A cor vermelha no japão tem a propriedade de espantar os demônios e fantasmas malévolos, e a raposa é um dos animais responsáveis por guardar os templos contra estas criaturas. Existe no Japão o conceito de kimon (algo como “portal demoníaco”), que é a direção por onde os demônios se concentram e entram em nosso mundo. Assim, nos templos as raposas são colocadas para guardar os portões – uma de cada lado do portão, um macho e uma fêmea, ambos portando lenços vermelhos, e protegendo nosso mundo contra o que possa vir do outro lado.