Coisas Geek de um Hobbit Inútil

E não se esqueça da toalha.

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Mais dois livros

Se surgisse um único livro de auto-ajuda que cumprisse o seu prometido, ajudar seus leitores a se ajudarem, isso significaria o fim do mundo. Faz sentido, não? De uma forma bizarra e cruel, mas um tanto…plausível, pelo menos ao meu ver. “Ser Feliz”, livro de Will Ferguson, parte dessa premissa e elabora o que aconteceria com a humanidade caso um livro de auto-ajuda realmente efetivo aparecesse. A história segue os passos do editor que recebe essa bomba em mãos e a publica, não por acreditar no livro, mas por uma sucessão de fatores hilários, e acaba desencadeando o apocalipse – um livro que se torna um sucesso em poucas semanas e muda toda a sociedade através de seus ensinamentos. “É isso, então? É assim que o mundo termina: não com uma explosão, mas com um abraço vago e caloroso?” pergunta o protagonista da história. É um livro MUITO engraçado, cheio de tiradas geniais e com uma dose generosa de crítica à sociedade meia-bomba em que vivemos.  A narrativa é ágil e cheia de ótimos momentos, e me lembrou um pouco o ritmo do Douglas Adams. Apesar de não compartilhar do amor que Adams tem pelo bizarro e sem sentido, os dois se parecem num ponto importante: mostrar o que é humano em seus personagens e situações, com todas as conotações boas e ruins que a palavra “humano” tem, seja numa nave improvável nos confins do universo ou seja numa cidadezinha de merda nos confins dos Estados Unidos. E um grande viva a Oliver Reed, o último grande filho da puta de nossos tempos.

Do mesmo autor, “De Carona com Buda” é bem diferente de “Ser Feliz”. Pra começar, é um não-ficção. É um relato de uma viagem feita através do Japão, de carona, seguindo o avanço da “Frente de Flores de Cerejeira” – a onda de flores que toma as cerejeiras do Japão, e é considerada um evento de importância nacional. Outra diferença é que o estilo do Will Ferguson é bem mais solto aqui, talvez por estar contando eventos e pensamentos que realmente aconteceram, e isso dá um ar MUITO legal ao livro. Diversas vezes você se pega gargalhando com suas desventuras, e em outros encontros você se pega quase chorando tamanha a carga emocional do que é mostrado – o jantar com o sr. Nakamura ainda me deixa abismado, quando eu paro pra lembrar. Eu confesso que sempre procurei um livro sobre o Japão, que tentasse mostrar não os fatos e fotos, mas sim a personalidade, a tal da “verdadeira alma” do lugar. “De Carona com Buda” talvez não consiga atingir a verdadeira alma do Japão – e quem é que consegue atingir a verdadeira alma de qualquer coisa? – mas ele tenta. E é essa tentativa, essa iniciativa de se levantar e seguir a frente das flores, de caminhar por uma terra desconhecida não como um passageiro desconhecido de trem ou um andarilho solitário, mas pedindo carona, entrando nas casas, dependendo da ajuda de desconhecidos, mostrando o cotidiano e o comum no lugar das atrações turísticas e das mesmas histórias de sempre, que faz “De Carona com Buda” ser um ótimo livro. (E claro, mais uma vez, obrigado a dona Getsuchan pela ótima dica ;D)

…And The Gunslinger Followed

Enrique: tomei uma decisão importante
Felipe: não não não não não não não não não não
Enrique: resolvi criar bolas
Enrique: resolvi virar um menininho
Felipe: ufffa
Felipe: pensei quer era o contrario…diga
Enrique: resolvi…ler o último volume do Torre Negra
Felipe: weeee
Felipe: ee….. noooes
Enrique: alguma recomendação?
Felipe: hmm….
Felipe: não criar vinculos com os personagens
Enrique: :~
Felipe: o Oy é um cachorro escroto, o Jake é um moleque afeminado, o Eddie é um drogado de merda, a Sussanah é só uma vadia de múltiplas personalidades
Enrique: nooooo…eles são ka-tet! :~
Felipe: sim…ka-tet…um feito de muitos

De bruxas, ovelhas e homens

(A Dona Lulu começou a postar sua série fantástica de posts sobre Terry Pratchett, que vocês podem e devem ler lá no blog dela. Lendo eles eu fiquei com vontade de falar das bruxas do Pratchett, e da interpretação que ele dá para elas. Em um mundo instável, ilógico e tão propenso ao impossível quanto o Mundo do Disco, as bruxas de Pratchett são inesperadamente as criaturas mais pés-no-chão de que se tem notícia.  Elas não precisam da magia e do sobrenatural para fazer seu trabalho. Elas contam com a cabeçologia, que nada mais é do que o conhecimento de como as pessoas funcionam. É como a psicologia, mas sem dó nem piedade. Âncoras da realidade, elas dão para as pessoas aquilo que elas precisam e não o que elas querem – e justamente por isso são tão temidas, terríveis e absolutamente necessárias. Porque alguém precisa se levantar por aquilo que é certo, e alguém precisa falar por aqueles que não tem vozes, e alguém precisa encarar a realidade nos olhos mesmo que ela seja feia e morda. Esse alguém, nos livros do Pratchett, são as bruxas – principalmente a Vovó Wheaterwax, a Vovó Aching e a nova bruxa-em-treinamento Tiffany Aching. De todas elas, minha preferida é a Vovó Aching. Esse trechin…ok, esse TRECHÃO é do livro “The Wee Free Men”, e mostra um pouco da cabeçologia das bruxas sendo aplicada.)

“…Houve uma vez em que o cão de caça campeão do Barão foi pego matando ovelhas. Era um cão de caça, apesar de tudo, mas ele havia fujido para os pastos e, porque ovelhas correm, ele correu atrás…
O Barão sabia a punição para a morte de ovelhas. Haviam leis no Chalk, tão velhas que ninguém se lembrava de quem as havia criado, e todos conheciam esta: cães que matam ovelhas são mortos.
Mas esse cachorro valia cinco mil dólares de ouro, e o Barão – assim conta a história – mandou seu servo atravessar os pastos até chegar na cabana da vovó. Ela estava sentada nos degraus, fumando seu cachimbo e olhando os rebanhos. O homem chegou em seu cavalo e não se preocupou em desmontar. Esta não era uma atitude aconselhável se você quisesse que Vovó Aching fosse sua amiga. Ferraduras marcavam e cortavam seu gramado. Ela não gostava disso.
Ele disse “O barão ordena que você encontre uma maneira de salvar seu cão, Senhora Aching. Em retorno, ele lhe dará uma centena de dólares de prata”.
Vovó sorriu para o horizonte, pitou seu cachimbo por algum tempo, e respondeu:
“Um homem que se levanta contra seu senhor é enforcado. Um homem esfomeado que rouba uma ovelha de seu senhor é enforcado. Um cão que mata ovelhas é morto. Essas leis estão nessas colinas, e essas colinas estão em meus ossos. O que é um barão, para que a lei seja quebrada por ele?
Ela voltou a observar as ovelhas.
“O Barão é dono deste país”, disse o servo, “A lei é dele”.
O olhar que Vovó Aching retornou para o homem deixou seu cabelo branco. É o que contam, pelo menos. Mas todas as histórias sobre Vovó Aching tem algo de conto de fadas.
“Se a lei é dele, como você diz, então deixe-o quebrá-la e vamos ver o que acontece então”, ela disse.
Algumas horas depois o Barão mandou seu xerife, cujo cargo era muito mais importante mas conhecia Vovó Aching por muito mais tempo. Ele disse, “Senhora Aching, o Barão pede que você use sua influência para salvar o cachorro. Ele ficará contente em pagar cinquenta dólares de ouro para que você o ajude a resolver essa situação difícil. Eu tenho certeza que a senhora pode ver como isso irá beneficiar todos os envolvidos.”
Vovó fumou seu cachimbo e olhava os cordeirinhos novos e disse: “Você fala por seu senhor, seu senhor fala por seu cão. Quem fala pelas colinas? Aonde está o Barão, que a lei deva ser quebrada por ele?”
Contasse que quando contaram isso ao Barão, ele ficou bem quieto. Apesar de ser um homem pomposo, e muitas vezes teimoso, e cabeça-dura ao extremo, ele não era estúpido. Ao fim da tarde ele foi andando até a cabana e sentou no gramado. Após algum tempo Vovó Aching disse “Posso te ajudar em alguma coisa, meu senhor?”
“Vovó Aching, eu lhe imploro pela vida do meu cachorro”, disse o Barão.
“Traz prata? Traz ouro?” disse Vovó Aching.
“Sem prata. Sem ouro.” disse o Barão.
“Muito bom. Uma lei que é quebrada em troca de ouro ou prata é uma lei que não presta. E então, meu senhor?”
“Eu imploro, vovó Aching.”
“Você tenta quebrar a lei com uma palavra?”
“Sim senhora, vovó Aching.”
Vovó Aching, assim conta a história, olhou o por do sol por algum tempo e então disse: “Então esteja no velho celeiro de pedra amanhã antes do sol nascer e nós veremos se um cachorro velho consegue aprender uns truques novos. Haverá um conselho. Boa noite para você.”
Quase a vila inteira estava ao redor do velho celeiro na manhã seguinte. Vovó chegou com uma das pequenas carroças da fazenda. Nela havia uma ovelha com seu cordeiro recém-nascido. Ela os colocou no celeiro.
Alguns dos homens chegaram com o cachorro. Estava bravo e nervoso, tendo passado a noite acorrentado num abrigo, e ficava tentando morder as mãos dos homens que os seguravam com duas coleiras. Era peludo. E tinha presas.
O Barão veio cavalgando com o xerife. Vovó Aching acenou com a cabeça para eles e abriu a porta do celeiro.
“Você vai colocar o cão no celeiro com as ovelhas, Vovó Aching?” disse o xerife. “Você quer matar o cachorro engasgado de ovelha?”
Ninguém riu da piada. Ninguém gostava muito do xerife.
“Isso nós veremos”, disse Vovó. Os homens arrastaram o cachorro porta adentro e fecharam a porta rapidamente. As pessoas correram para as pequenas janelas.
Ouve um balir do cordeirinho, um rosnado do cachorro, e então um “bááá” da ovelha.Mas esse não era o “báá” normal das ovelhas. Havia algo cortante nele.
Algo atingiu a porta e fez balançar suas dobradiças. Lá dentro, o cachorro gania.
Vovó Aching pegou Tiffany e a levantou até uma das janelas. O cão tremia e tentava ficar de pé, mas a ovelha não deixava, cinquenta quilos de ovelha enraivecida batendo no cachorro como se fosse um aríete.
A Vovó colocou Tiffany no chão e acendeu seu cachimbo. Ela pitava calmamente enquanto o prédio atrás dela parecia balançar e o cachorro gania e gemia.
Após alguns minutos ela fez sinal para os homens. Eles abriram a porta. O cachorro saiu mancando três de suas pernas, mas não conseguiu chegar muito longe antes da ovelha correr por trás dele e o cabecear com tanta força para o fazer rolar no chão.
Ele ficou parado. Talvez ele houvesse aprendido o que aconteceria se ele tentasse se levantar.
Vovó Aching sinalizou de novo para os homens, que pegaram a ovelha e a arrastaram de volta ao celeiro.
O Barão assistia de boca aberta.
“Ele matou um javali selvagem ano passado!”, disse ele. “O que você fez com ele?”
“Ele vai ficar bom”, disse Vovó Aching, ignorando a pergunta. “É mais a honra dele que foi ferida. Mas ele não vai olhar pra mais nenhuma ovelha, você pode ter meu dedo quanto a isso”. E ela lambeu seu dedão direito e o levantou. Após hesitar um momento, o Barão lambeu seu dedão e o apertou junto ao dedão dela. Todos sabiam o que isso queria dizer. No Chalk, uma barganha entre dedos era inquebrável.
“Para você, com uma palavra, a lei foi quebrada”, disse Vovó Aching. “Você se lembrará disso, quando for julgar outra pessoa? Você vai se lembrar desse dia? Você vai ter motivo pra se lembrar.”
O Barão concordou.
“Então está bom”, disse Vovó Aching, e os dedos se separaram.
No outro dia o Barão tecnicamente deu ouro para Vovó Aching, mas era só o pacote dourado de um quilo de Jolly Sailor, o fumo barato e fedido que era o único que ela fumava. Ela sempre ficava mal-humorada quando os comerciantes se atrasavam e o estoque dela acabava. Você não conseguia dobrar Vovó Aching nem com todo o ouro do mundo, mas você conseguia chamar a atenção dela com um quilo de Jolly Sailor.
As coisas ficaram bem mais fáceis depois do episódio. O xerife era um pouco menos desagradável quando os aluguéis se atrasavam, o Barão era um pouco mais educado com o povo, e o pai de Tiffany disse uma noite, depois de duas cervejas, que haviam mostrado para o Barão o que acontece quando as ovelhas se levantam, e a mãe sussurrava para que ele não falasse daquele jeito, nunca se sabia quem estava ouvindo.
E, um dia, Tiffany ouviu ele dizendo para sua mãe, bem baixinho: “É um velho truque entre os pastores, e só. Uma velha ovelha sempre luta feito uma leoa por seus cordeiros, todo mundo sabe disso.”
Foi assim que funcionou. Sem mágica alguma. Mas na hora havia sido mágico. E não deixa de ser magia só porque você descobriu como é que funciona.

(Bruxas no estilo do Terry Pratchett existem, e acho que todos nós conhecemos pelo menos uma.  Meu caso, eu conheço várias: a família da minha mãe me deu vários exemplos de mulheres assim, cabeças-dura ao extremo, mas com o “péssimo” hábito de estarem sempre corretas. E se eu pudesse dedicar essa história pra alguém, eu dedicaria ela pra Dona Mercedes. É estranho amar alguém que a gente nunca conheceu, mas o mundo é estranho assim mesmo. To you, Granny Martins :) )

Café, Gatos, Ratos, Vampiros, Oh my!

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(O café feliz não tem nada a ver com o post, mas olha só: ele está sorrindo. E os olhinhos dele brilham. Tem como não acordar mais contente com o café feliz?)

Terry Pratchett funciona assim: você começa a ler pelas piadas e pela sátira aos livros de fantasia, e continua lendo pelos personagens interessantes e estranhamente reais, pelos conceitos invertidos e subvertidos, pelas lições de moral ambíguas e um tanto realistas. Com o “O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados” não é diferente. É um ótimo livro, sem sombra de dúvida: Pratchett continua sendo inteligente e esperto como sempre, dessa vez testando as consequências de animais que subitamente adquirem consciência de si mesmo, e transformando a velha história do “Flautista de Hamelin” em algo totalmente inesperado. Ainda vou falar mais desse livro, mas não agora – quero falar dos ratinhos e do gato criando consciência, da garota que acha que tudo é uma história, do Perigoso Feijão, do Darktan e do Sardines, mas tudo isso rende um post grandão. Mas já digo: Maurice passou a ser um dos meus gatos preferidos!

Comecei a ler “Dead Until Dark” da Charlaine Harris, o livro que deu origem ao True Blood (que eu ainda não assisti, shame on me). Ainda tô beeem no comecinho, mas já tô gostando bastante. A Sookie é uma garçonete simpática, esperta e pobretona – e parece ser bem o inverso da tontinha de Crepúsculo. Toda a idéia de vampiros saindo do anonimato, e a exploração do que isso acarreta para a sociedade, é uma sacada genial. Já nas primeiras páginas aparecem pessoas que roubam sangue de vampiros, que cura doenças e aumenta potência sexual – mostrando que a escrotidão humana não poupa nem os mortos vivos. Meu irmão me lembrou que quem faz a Sookie no seriado é a Anna Paquin – mais um bom motivo pra baixar o seriado, mas ainda quero ler o livro primeiro.

Pop, Girls, Etc.

A primeira vez que eu li Alta Fidelidade eu tinha uns 17 anos, em 2001, e me apaixonei pelo livro. É difícil um adolescente desajeitado apaixonado por música conhecer Rob Fleming e não querer ser como ele. A vida patética dele é tão atraente, cheia de discos e citações e listas, trabalhando numa loja de discos com dois sidekicks, arrumando sua enorme coleção de discos, dizendo e pensando coisas inteligentes, analisando o pé-na-bunda-que-levou e as rejeições passadas com o mais puro e fino humor britânico. Rob Fleming era o adulto que eu queria me tornar. Eu não sei se pensava isso com todas as letras, mas me conhecendo como eu conheço…é, são grandes as chances.

Meu herói, arrumando a coleção de discos

Meu herói, arrumando a coleção de discos

Corta pra 2009, minutos depois de terminar de reler Alta Fidelidade. Eu ainda acho Rob um sujeito legal: faria compras na loja dele, iria no pub se ele me chamasse pra tomar umas cervejas, leria o blog dele (hoje em dia, idiotas como Rob tem blog). Mas…já não sei se quero ser como ele. Não sinto mais tanta inveja dele, de sua loja de discos, de seu conhecimento musical, de seus amigos, de sua “experiência” sentimental. Hoje eu consigo ver o Rob por trás de todas essas coisas e, surpresa, ele não é tão diferente de mim. Não tenho uma loja de discos, mas tenho conhecimento musical, amigos nerds, uma bagagem cheia de pés-na-bunda..já me basta. E aí você percebe que o seu herói da adolescência é um cara tão fodido e confuso e torto quanto você. E aí duas coisas acontecem, simultaneamente:

  1. Você se sente orgulhoso, porque atingiu seu objetivo.
  2. Você se sente deprimido, porque…que objetivo de merda, hein?

E orgulho e depressão se cancelam, então você fica com aquela expressão de “já vi tudo e tô nem aí”, exatamente como Fleming faria. Hmpf. Mas é verdade: hoje em dia eu entendo muito mais do livro do que entendi quando tinha 17 anos. Hoje em dia eu não fico mais pensando, eu tenho CERTEZA que foram todas as músicas tristes que me deixaram mais …suscetível a decepções amorosas, que me deixaram com um repertório pronto para toda sorte de pés-na-bunda. Hoje em dia eu não preciso mais imaginar as crises existenciais – eu vivo elas. Tem uma hora em que um sujeito engravatado entra na loja segurando a chave do BMW, e Rob fica se perguntando o que o cara pensa dele. Acontece isso comigo todo santo dia no escritório – o que será que esses caras pensam desse guri de camiseta e all-star que mais parece um intruso aqui? E o principal – aquilo que Rob fala sobre a necessidade de haver lastro, tranqueiras, coisas que te seguram para que você simplesmente não saia voando e se perca por aí. Isso é verdade, pelo menos pra mim.

( Não que eu esteja reclamando de nada. É minha vida, e eu tenho orgulho dela, por mais bagunçada e boba que seja. )

Isso tudo foi pra dizer que hoje em dia eu me identifico ainda mais com o Rob Fleming, e que pelo menos tenho a decência de sentir orgulho disso, pelo menos não em público? É, parece que sim. Mas serve também pra dizer que Alta Fidelidade continua sendo um ótimo livro. A parte final – depois que Rob e Laura voltam, e eles começam a conversar sobre eles, sobre a relação, sobre o que eles pensam, sobre como eles funcionam – ainda é minha preferida, e me faz pensar que ainda tem uma coisa de que eu sinto inveja de Rob e que eu ainda não consegui. Eu ainda continuo morrendo de vontade de escrever como Nick Hornby – e reler Alta Fidelidade me fez ver como eu continuo tentando emular ele, inconscientemente e sem sucesso. O cara é muito bom, no sentido de…eu não sei, ser cool? Eu simplesmente quero escrever como ele, quando eu crescer.

Mais dois livros

A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafon – Eu não sou um bom crítico. Realmente não sei julgar quase nada tecnicamente, ainda mais um livro, em termos de escrita, enredo, criatividade, personagens, etc. Talvez “A Sombra do Vento” não seja tão bom assim, mas por três dias eu passeei pela Barcelona pós-guerra junto com Daniel e Férmin, investigando a vida de um escritor misterioso cujos livros foram todos queimados, tateando em busca dos atores de uma história improvável, perseguidos por crimes que nunca cometeram. Por três dias eu mergulhei na vida maravilhosa e trágica de Júlian Carax e seus amigos de infância, conheci a dor de seu amor impossível, testemunhei sua devoção e sua loucura, conheci os golpes de destino que o levaram para tão longe de tudo, até de si mesmo. Há prisões piores que celas, sem dúvida, mas há esperança e há redenção ainda que tardia. Por três dias eu vivi nesse universo, e pra sempre vou querer ler os livros que Júlian Carax escreveu, mesmo que eles nunca tenham existido.

O Continente, volume primeiro de “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo – “Noite de vento, noite dos mortos”. Se eu fiquei por 3 dias em Barcelona com o livro anterior, “O Continente” me fez passar três meses nos campos do Continente de São Pedro, seguindo de perto o nascimento e a saga da família Terra Cambará. Testemunhei o encontro fatídico entre Ana Terra e Pedro Missioneiro ferido à beira da sanga, fugi com Ana Terra para Santa Fé, farreei e guerreei com o Capitão Rodrigo, divaguei com o Dr. Winter sobre as peculiaridades dessa terra estranha, vi Bibiana Terra se transformar em mocinha ingênua em mulher de pedra, sendo o pilar da família por três gerações, vi a Teiniaguá e seu encanto destruidor, vi Licurgo e suas guerras particulares. Vi geração passando e as personagens renascendo, as tempestades de verão dos Rodrigos e Licurgos, a raiva contida e encalacrada dos Juvenais e Florêncios, a força e a resistência de cordilheiras contidas dentro das Bibianas e Maria Valérias. Fascinante, pra dizer o mínimo. E ainda faltam dois volumes e cinco livros para terminar a saga toda!

Três Livros

O Castelo Animado, de Diana Wynne Jones – Ótimo! Dá vontade de dizer que é melhor que o desenho, mas a verdade é que são duas obras diferentes, com suas próprias qualidades e defeitos. O desenho é filhote do Hayao Miyazaki, então tem tudo aquilo que a gente espera: surrealismo, criaturas bizarras, cenários lindos, a história contada mais através das imagens e das entrelinhas, o inevitável comentário político-social (a bola da vez é a guerra). Agora, o livro não, é a mesma história contada de um jeito totalmente diferente. E eu adorei o jeito da dona Diana Wynne Jones contar histórias: é tão leve e tão cativante, dá vontade de começar a ler e não parar nunca mais. Criativa ao extremo, com a ótima mania de subverter clichês e convenções da fantasia, mas sem dispensar o inevitável final feliz. A heroína de Castelo Animado é uma velhinha de 90 anos, e o mocinho é o mago mais Gallagher de que já se teve notícia. Ótimos personagens, ótimo desenvolvimento de história…sabe aqueles livros que não deveriam acabar nunca? Castelo Animado é um deles.

Vida Encantada, de Diana Wynne Jones – E Vida Encantada também é um desses livros. Talvez até mais do que o Castelo Animado! Primeiro livro da série Crestomanci, também da Diana Wynne Jones, o livro literalmente acaba na melhor parte: sabe quando o personagem principal deixa de ser um bunda e passa a ser fodão? Pois é, acaba aí…e o próximo livro da série NÃO continua a história. Mas tudo bem, um livro tão envolvente pode ser perdoado. O tema do livro é apelativo com qualquer um que goste de fantasia: é sobre um jovem bundão aprendendo a utilizar seus poderes mágicos. Digam o que quiserem, mas boa parte dos livros e filmes que fazem mais sucesso são exatamente sobre isso. Star Wars, Harry Potter, Ender’s Game…se quiserem saber mais, liguem pra um tal de Joseph Campbell que ele fala mais sobre o assunto. O grande trunfo do livro novamente é a criatividade e a paixão da Diana Wynne Jones em virar clichês de ponta-cabeça. Outro trunfo dela é que, mesmo sendo um livro pra crianças, os personagens (em sua maioria) não são unidimensionais, as situações não são simplezinhas como era de se esperar. Crianças são tratadas como crianças, angelicais e cruéis ao mesmo tempo, adultos tem atitudes complexas de adultos…muito bom, muito bom.
Exército de um Homem Só, de Moacyr Scliar – Ok, eu admito: culpado. Comecei a ler só por causa da música dos Engenheiros do Hawaii, não fazia a mínima idéia da história do livro. Só que comecei a ler e não parei mais, até terminar. A história do Capitão Birobidjan, jovem judeu russo totalmente fissurado no ideal socialista, é realmente fascinante. Sua infância no bairro judeu de Porto Alegre, o pai rabino, a mãe que só queria que ele comesse, a fuga com os amigos para um sítio abandonado (para fundar a nova Birobidjan), o fim da adolescência e sua entrada forçada na sociedade, a volta ao mesmo sítio abandonado anos depois (dessa vez com companheiros de gênero e espécies variadas), a volta para a sociedade em grande estilo, a loucura dos últimos anos de vida…Capitão Birobidjan é um cara complexo, controverso, contraditório, difícil, daqueles casos de trancar e jogar a chave fora. Impossível não rir das maluquices dele, não ficar puto com suas filhasdaputice, não achar triste seu fim…”Começamos agora a construção de uma nova sociedade!”